[...] que a arte de nossos dias não se deixe guiar única e
exclusivamente pelo belo [...] (SANTOS, 2007, p. 57, grifo do autor).
O termo estético advém do grego aisthesis, aistheton (sensação, sensível) e significa sensação, sensibilidade, percepção pelos sentidos ou conhecimento sensível-sensorial (HERMANN, 2005). Implica um “[...] estar aberto ao mundo, aberto ao sensível do mundo/no mundo e deixar-se contaminar” (MEDEIROS, 2005, 13) por ele. Constitui um termo ambíguo, segundo o qual, podemos destacar três grandes compreensões que perpassam a estética no pensamento ocidental: a estética clássica, a moderna e a contemporânea.
Inicialmente a estética começou como teoria do belo, defrontando-se com os seguintes problemas: O que é o belo? Como chegamos a saber o que é o belo? Tais perguntas foram feitas por Platão que, de forma indireta, tematizou a arte, acreditando ser possível atingir o conhecimento verdadeiro, desqualificou o mundo sensível. Em função de conceber a arte como uma forma de perigo, por produzir uma espécie de ilusão, colocou sob a tutela da razão um elemento secundário, com reflexos para a formação. Cunhou-se, dessa forma, o lugar histórico ocupado pela estética até o século XIX, estando “[...] associada ao culto da aparência, à superficialidade [...]” (HERMANN, 2005, p. 12).
A concepção clássica de estética começa a ser questionada no século XVIII em meio à problematicidade conceitual que evolve a arte e o contexto da subjetividade. A primeira definição de estética, no sentido moderno, ocorre com Baumgarten (1714-1762), que a define como a “[...] ciência do conhecimento sensível ou gnosiologia inferior” (HERMANN, 2005, p. 33). Articulada dentro do projeto moderno de conhecimento, esta compreensão marca o surgimento da estética como disciplina filosófica. Ao lado da lógica, da metafísica e da ética, está preocupada com a definição conceitual de beleza. Abrem-se novas
perspectivas ao problema do belo, e a estética transforma-se em teoria do gosto compreendida como faculdade de discernir. Ganha novos contornos a partir dos esforços teóricos de Kant e de Schiller, que tornam possível pensar a estética como um modo de sensibilidade para a vida moral. O conceito dá lugar à força imaginativa e à sensibilidade (HERMANN, 2004; 2005). Mas, é principalmente com Schiller que a estética se interpõe contra o rígido racionalismo, pois até então, a aisthesis aparece na filosofia como um sintoma que ela ignora, ou no mínimo, lhe confere caráter secundário. De acordo com Rezende (2009, p. 12), “o que ocorre na estética moderna que demarca a ruptura com o antigo, é a tentativa de conciliação entre a subjetividade do belo com a exigência de critérios, portanto de uma relação com a objetividade ou, se preferir, com o mundo.” Assim, a categoria do estético desenvolve-se num contexto de valorização da beleza natural e artística na perspectiva da experiência evocada pela natureza ou pela voz interior. É o período em que se constituem condições para romper as barreiras existentes contra a experiência sensível, assevera Hermann (2005).
Contudo, foi com o deslocamento do apolíneo para o dionisíaco, da racionalidade para a estética, efetivado por Nietzsche, que o modo de conhecer pela sensibilidade assume sua máxima expressão, passando a configurar-se apenas como interpretação. Nesse novo contexto, se existe alguma justificativa para a vida, esta só pode ser justificada esteticamente. Dessa forma,
[...] ao se pensar com Nietzsche a inexistência de um mundo evidente para dar lugar a um mundo ‘plural’ de múltiplas particularidades a cada indivíduo, a cada artista, não existe mais uma arte, e sim uma diversidade tão grande quanto ao número de artistas existente. O belo se torna apenas uma questão de gosto individual, ou mais precisamente: enquanto havia uma diferença entre o artista e o não artista, aliás, na pena de Kant, ‘entre o artista e o troca-tintas’, hoje essa questão pende pesadamente apenas nas diferenças individuais. Ela nada tem mais a ver com a capacidade de criar uma representação mimética da essência do mundo, tampouco em ver – como em Kant – o dom inato de um artista (REZENDE, 2009, p. 13).
A partir de Nietzsche se instala um pluralismo estético em que o belo passa a ter inúmeras interpretações, caindo-se, de acordo com Rezende (2009, p. 13), na “[...] irracionalidade do belo [...]”. Mas, por outro lado, a crítica de Nietzsche tem razão de ser ante ao pretenso objetivismo estético. Diane desse panorama, o pensamento de Hegel que inverte a lógica kantiana, revisitado aos temos de Gadamer, constitui-se em alternativa, na medida em que, “[...] hoje o estético ressurge como uma forma de lidar com as exigências éticas da pluralidade” (HERMANN, 2005, p. 33). Assim, o estético, na contemporaneidade, ressurge como possibilidade de, pelo estranhamento das convicções morais, ampliar a sensibilidade na medida em que coloca em jogo os diferentes modos de ser, revelando a finitude dos princípios abstratos. Revela o ser como possibilidade, pois, conforme Gadamer (2005), a experiência da arte constitui uma experiência que nos fala da verdade, na medida em que faz emergir aquilo que escapa à reflexão. Nas palavras de Hermann (2005, p. 40), “a experiência da arte nos abre um mundo, um horizonte, uma ampliação de nossa autocompreensão, justamente porque revela o ser. [...] A estética modifica quem a vivencia e permite ver o mundo sob uma nova luz.” Enfim, hoje, a estética, que “[...] associa-se, desde o seu surgimento, como totalidade da vida sensível, de como o mundo atinge nossas sensações” (HERMANN, 2005, p. 34), lança luzes sobre pluralidade, liberando o acontecer do puramente racional, ao mesmo tempo em que pode projetar luzes sobre a formação, visto a estética compreender uma pluralidade de experiências.
Para o momento, indicamos que o excurso acima suscita considerações acerca da articulação entre Bildung e Estética, que somente serão efetivadas ao decorrer desta tese, uma vez que a Estética, hoje, lança luzes sobre a pluralidade, e a Bildung baseia-se na pluralidade de experiências, dentre elas, nas experiências estéticas.
CAPÍTULO III
3 O LUGAR HISTÓRICO OCUPADO PELA ESTÉTICA
Este capítulo tem por objetivo apresentar a compreensão de estética anterior a Gadamer, desde as compreensões estéticas de Platão, Aristóteles, as quais estão centradas no objeto, em contraposição à estética moderna, centrada na subjetividade, como forma de localizar o seu debate sobre a experiência estética. Da estética moderna, são abordadas as importantes contribuições de Kant, quanto ao giro copernicano, presentes na Crítica da faculdade do juízo, as contribuições de Schiller sobre o impulso lúdico, nas Cartas sobre a educação estética da humanidade. E de Hegel, interessam-nos a intersubjetividade e as contra-argumentações à estética kantiana, presentes na obra Estética.
A filosofia sempre focalizou possibilidade de uma realidade para além da inicialmente percebida, questionando sobre a validade das percepções sensíveis ao perguntar pelas essências. Nesse contexto, destaca-se o pensamento de Platão, que apostou nas faculdades racionais em detrimento das sensíveis, como o grande guia das ações humanas, cunhando o lugar histórico que a arte e a experiência estética ocupariam na cultura ocidental até a modernidade, quando passariam a ser vistas do referencial da subjetividade e não mais do objeto.
Sólo en el siglo XVIII tuvo lugar un giro que vino a quebrar la angustura de tal concepto de imintación: el ascenso, hasta alcanzar un significado dominante, del concepto de expresión. Fue aplicado originalmente en la estética de la música. El lenguaje inmediato del corazón que hablan los sonidos se convirtió entonces en el modelo según el cual se concebía el linguaje del arte, que rechaza todo racionalismo conceptual (GADAMER, 2006, p. 124).