No quadro da gramática harrissiana (1976, 1991) , os advérbios são operadores de segunda ordem, isto é, operam sempre sobre outros operadores; nesta pers- pectiva, a natureza do operador sobre o qual operam pode ser muito variada. De um ponto de vista sintáctico, os advérbios são expressões que ocorrem, em geral, em posição adjacente ao constituinte sobre o qual exercem uma modifica- ção. Podem, assim, modificar verbos:
O Pedro leu o texto superficialmente/na diagonal
adjectivos:
O Hugo é muito estudioso
e até mesmo outros advérbios:
O Pedro comportou-se muito bem
Outros advérbios têm um escopo sobre toda a proposição, surgindo, frequente- mente, em posição inicial de frase e destacada desta por vírgula:
Efectivamente/de facto, o Pedro não sabe nada de finanças
É ainda possível considerar que certos advérbios, sobretudo os que veiculam um significado de natureza quantificadora (advérbios quantificadores), podem ope- rar sobre outro tipo de construções predicativas, como por exemplo, as constru- ções preposicionais locativas, sejam elas de natureza espacial:
O Pedro vive bem perto da casa da Sara
ou temporal:
O Pedro chegou precisamente às duas horas da tarde.
Podem ainda fazer parte de construções determinativas complexas:
O Pedro comprou quase/precisamente/mais de dois quilos de farinha. O Pedro leu quase/praticamente todos os livros desse autor
Os critérios sintácticos tradicionalmente utilizados para a descrição das pro- priedades combinatórias dos advérbios são, essencialmente:
(i) a possibilidade de equivalência das expressões adverbiais a pró-formas interrogativas (ou advérbios interrogativos), v.g. onde, como, quando, por
que, etc. em frases interrogativas parciais;
(ii) a mobilidade na frase, no caso dos advérbios com escopo sobre toda a proposição, ou, inversamente, restrições a essa mobilidade quando são modificadores de um dos constituintes da frase; e
(iii) a facultatividade.
Nas secções seguintes, desenvolveremos cada um destes aspectos. 4.2. Equivalência das expressões adverbiais a pró-formas interrogativas.
Este primeiro critério permite reconhecer advérbios (simples ou compostos) ligados ou não ao verbo e classificá-los em diferentes classes sintác- tico-semânticas:
(i) locativos, caso respondam afirmativamente a interrogativas introduzidas pelos pronomes interrogativos onde? ou em que lugar ? , etc.;
O Pedro mora em Lisboa
P: Onde mora o Pedro?/R: Em Lisboa.
O Pedro pôs o livro em cima da mesa.
(ii) temporais 63, que respondem às interrrogativas introduzidas por:
(a) (Prep) quando? (advérbios de data):
O Pedro montou o lego (ontem + na passada sexta-feira)
P: Quando montou o Pedro o lego? / R: (Ontem + na passada sexta-feira).
O Pedro esperou pela Joana até (ontem + à passada sexta-feira)
P: Até quando esperou o Pedro pela Joana? R: (Ontem + à passada sexta-feira).
(b) (Prep) quanto tempo? (advérbios de duração):
O Pedro esperou pela Joana (dois meses + dias a fio + tempos sem fim)
P: Quanto (E + tempo) esperou o Pedro pela Joana? R: (Dois meses + dias a fio + tempos sem fim).
O Pedro montou o lego (em muito pouco tempo + em três minutos)
P: Em quanto tempo montou o Pedro o lego? R: (Em muito pouco tempo + em três minutos).
(c) com que frequência?/quantas vezes? (advérbios de frequência)
O Pedro encontra-se com a Joana (todos os meses + duas vezes por
semana + diariamente)
P: Com que frequência se encontra o Pedro com a Joana? R: (Todos os meses + duas vezes por semana + diariamente). (iii) modais ou qualitativos, se respondem às interrogativas em Como?
O Pedro montou o lego (com extremo cuidado + cuidadosamente)
P: Como montou o Pedro o lego?
R: (Com extremo cuidado + cuidadosamente).
O Pedro está muito cansado.
P: Como está o Pedro?/R: Muito cansado.
Conquanto este critério da equivalência a pro-formas interrogativas adverbiais (como, quando, onde, etc.) seja frequentemente utilizado para reconhecer as expressões adverbiais, verifica-se por vezes uma grande dificuldade em aplicá-lo a alguns advérbios. M. Gross (1986a:13) refere a este propósito o seguinte:
“les pronoms interrogatifs ne sont toujours utilisables comme critères pour reconnaître et classer les adverbes. Certains adverbes ne répondent à
63 Sobre os critérios para a identificação dos advérbios de tempo, veja-se a proposta de Hagège et al. (2008) para a campanha de avaliação conjunta de entidades mencionadas (Segundo Harem), organizada pela Linguateca: http://acdc.linguateca.pt/aval_conjunta/HAREM/2008_04_13_Tempo.pdf [18/04/2008].
aucune question : - (Oú + Quand + Comment + Pourquoi) Max a-t-il utilisé cet appareil ? - *À titre expérimental. ” 64
Assim, por exemplo, na frase:
O Pedro desculpou a Joana por esta vez
P: (Como + quando + com que frequência ) desculpou o Pedro a Joana? R: *Por esta vez.
Como se verifica, a combinatória por esta vez não admite nenhum dos advér- bios interrogativos, apesar de integrar um nome (vez) que, noutras combina- ções, está associado a expressões de tempo (de frequência):
O Pedro desculpou a Joana várias vezes
P: (Com que frequência + quantas vezes) desculpou o Pedro a Joana? R: Várias vezes.
Também no exemplo seguinte uma vez parece ser um advérbio de tempo (de data); apesar disso, dificilmente ele responde à interrogativa com quando? :
Uma vez, o Pedro encontrou a Joana na Baixa <e fomos tomar um copo> P: Quando encontrou o Pedro a Joana?/R: *Uma vez.
Certamente, tal comportamento sintáctico resulta do facto de uma vez ter um valor indefinido, incompatível como resposta a uma interrogativa parcial, que deveria ter como réplica uma informação precisa.
Noutros casos, a mesma sequência apresenta dois valores sintácticos e semânti- cos distintos, pelo que o facto de cada um deles responder adequadamente a dois advérbios diferentes é, quanto a nós, critério formal suficiente para desdo- brar lexicalmente essas expressões:
(1a) O bebé começou a falar de um dia para o outro P: (*Quanto tempo + Como) é que bebé começou a falar? R: De um dia para o outro.
(2a) Ponha o pão de molho de um dia para o outro P: (Quanto tempo + *Como) ponho eu o pão de molho? R: De um dia para o outro.
Naturalmente, a interrogativa introduzida por como? em (2a) é aceitável, mas o advérbio não constitui uma resposta adequada, dada a natureza da predicação que exerce nessa frase. O mesmo sucede com o advérbio interrogativo quando?, sobretudo em (2b), que não pode corresponder a nenhum destes dois advérbios:
64Em português, este exemplo também não parece admitir a interrogativa de modo: O Pedro utilizou este
(1b) O bebé começou a falar de um dia para o outro P: Quando é que bebé começou a falar?
R: *?*De um dia para o outro.
(2b) Ponha o pão de molho de um dia para o outro P: Quando ponho eu o pão de molho?
R: *De um dia para o outro.
Em contrapartida, há outros advérbios que parecem responder adequadamente a mais do que um advérbio interrogativo, tal como, por exemplo:
O Pedro leu o livro rapidamente.
P: (em quanto tempo + como) leu o Pedro o livro? R: Rapidamente.