6.2 C HLORIDE INGRESS AND SERVICE LIFE ESTIMATION
6.2.2 Model for estimating service life
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Ao refletir sobre as fotos em que ela aparecia, Dalva percebeu-se mais velha, muito mais velha, em 1999, do que ela se encontrava em 2011. O sofrimento dos acontecimentos da morte de seu filho e marido, somado ao fato do processo de despejo que culminou com a destruição do cômodo que ela estava construindo, indicaram um momento de muita tensão. Em 2011, ela se achava mais bonita, mais conservada, provavelmente, seu nível de tensão e sofrimento era menor.
Olha só eu estou muito acabada aqui, nossa eu pensei que eu estava mais nova aqui, acho que o meu sofrimento aqui estava muito hem? Que eu estou, olha eu estou velha, mas aqui eu estou mais velha do que agora. Eu estou mais velha, muito mais velha do que agora. Eu me acho. O que o senhor diz? (Dalva).
Em sua narrativa, também foi possível perceber um toque de indiferença com relação aos demais moradores para o seu problema e para a sua situação. Enquanto ela chorava, os demais continuavam conversando normalmente à frente do seu portão. Em outras palavras, a vida seguia seu curso a despeito do sofrimento de Dalva e da sua condição de vida. Também foi possível perceber que fora o rapaz desconhecido que se solidarizou com ela. Ela sentiu-se só naquele momento, seus vários filhos não estavam ali, eles cuidavam dos seus afazeres e não estavam com a mãe naquele momento tenso e importante da sua vida.
Aí eu peguei o martelo e comecei a martelar, mas nessas alturas eu estava chorando, estava chorando, estava chorando de cabeça baixa, e a turma tudo lá conversando, estava saindo do meu portão e conversando os caras lá fora. E aqui foi a hora que eu, eu pegando os bloco e botando para cá, tirando, para ver se dava pra aproveitar alguma coisa. (Dalva).
Dalva perdeu a vontade de viver quando houve o processo de despejo da favela em 1999. Ela passava por um profundo momento de depressão. Seus vínculos afetivos estavam esfacelados; o próprio sentido da vida estava desvanecido, apagado e sombrio.
Mas eu estava muito, muito acabada, estava acabadíssima mesmo, estava acabadíssima! Eu tinha hora que eu não tinha vontade mais de comer, eu não tinha vontade mais de me arrumar, não tinha mais vontade de nada, a minha vontade era morrer. Eu falei: ah os filhos ficam aí, os outros criam. A minha vontade era de eu morrer, eu já não comia, já não queria... (Dalva).
Sofrimento, sofri demais, demais mesmo, demais, demais! mas também uma coisa eu digo para o senhor, para não lhe repetir: nunca roubei, nunca matei, nunca usei droga, nem nada. Se o senhor chegar a falar: “vou pegar uma agulha ali, dona Dalva, quero aplicar no seu sangue, aqui para ver como é que tá o seu sangue”, o senhor pode me dar hoje, pode me dar amanhã, pode me dar depois, pode me dar daqui a um ano, três ano que o senhor vai achar o mesmo sangue que o senhor tirou na primeira vez porque eu sou assim, eu sou do jeito que o senhor tá vendo eu aqui. Agora que o sofrimento a uns tempos a trás era mais era. (Dalva).
Dalva percebeu-se nas fotografias como a Dalva do sofrimento, a síntese do sofrimento, pois ela não viveu, só sofreu. Sua condição de vida em 2011 era menos sofrida, parecia haver certo período de normalidade, além do fato de sentir-se mais jovem, rejuvenescida devido à amenização do seu sofrimento.
Essa aqui [apontando para a Dalva da foto] o senhor pode ver que é outra Dalva, do sofrimento, hoje [2011], com tudo o que hoje rola, mas eu estou me levantando aos pouco e estou vivendo, porque essa aqui [apontando para a Dalva da foto], essa dona Dalva aqui ela não viveu, só foi sofrimento, um sofrimento, um atrás do outro, eu fui muito forte, a força do Pai me deu muita força para eu resistir, muita mesmo, porque eu sofri demais, eu sofri. (Dalva).
Percebeu-se que Dalva, em 2011, havia matado e enterrado a Dalva de 1999. A Dalva do passado já havia morrido para a Dalva do presente. Ela praticamente não se reconhecia mais nessa Dalva que ela via nas fotos. A imagem fotográfica proporcionou uma ressignificação em relação à vida de Dalva, pois, ao vê-las, ela renasceu.
Eu digo isso porque eu passei por dificuldade e muito, eu falo para o senhor eu não me reconheço, eu hoje eu sou outra dona Dalva, essa daqui [referindo-se à
Dalva das fotos] é a Dalva do sofrimento, é a Dalva das lágrimas que caiu, é a Dalva da fome. É essa Dalva aqui, se o senhor não tirasse essa foto eu nunca ia saber, porque como o meu sofrimento todo aqui nessa foto. (Dalva)
Não vou dizer para o senhor que eu estou rica, que eu tenho isso que eu tenho aquilo, minha casa é humilde, mas hoje eu sou outra dona Dalva. E estou aqui para o que der e o que vier, o que precisar de mim, que eu puder ajudar, eu estou aqui. Porque eu sei que esse passado meu aqui [batendo o dedo sobre a foto] eu sei o quanto eu sofri [...] (Dalva)
É essa daqui, é como eu falo, essa daqui é a Dalva que estava morta [apontando para a Dalva da foto]. Essa daqui era a Dalva que estava morta, essa daqui acho que mais um pouco o senhor não encontrava ela não, mais um pouco o senhor não encontrava. Mas, a força do pai é grande, ele me segurou aqui. (Dalva) Já é outra Dalva que já tem mais garra, mais força sabe, quando falo é isso, é isso mesmo (...). Num tempos atrás nem força eu tinha, eu tinha hora que eu falava: “meu Deus, porque Deus bota uma pessoa no mundo como eu? Parece um objeto que não sabe nada, não tem uma...” (Dalva).
Ao ver-se nas fotografias de 1999, Dalva percebeu que havia renascido. Ela não era mais a Dalva das fotos de 1999. Seus filhos não a reconheceriam nas fotos. Com o seu renascimento, ela encontrava-se, em 2011, mais bonita. O sofrimento parecia ter dado uma trégua, embora a vida dura ainda fizesse parte da sua experiência cotidiana, principalmente em função dos parcos recursos que ela recebia da pensão do marido.
Muito se falou da fotografia em relação à morte, mas pouco em relação ao próprio renascer, à descoberta, ao despertar. O renascimento que a imagem fotográfica lhe proporcionou pareceu estar para além do próprio despertar. Toda morte tem um luto e uma tristeza, já o renascer era revigorante alegre e cheio de energia, pois podia-se perceber o quanto se caminhou, o quanto se evoluiu em comparação com algo que já estava esquecido e fazia parte de remotas lembranças do passado. Em síntese, esse processo indica a força que as imagens fotográficas têm para a ressignificação do passado e do presente.
Assim, a imagem fotográfica pode ter a possibilidade de gerar a ressignificação dos tempos, pois, ao reafirmar algo que foi, que não faz mais parte do presente, ela pode proporcionar um processo de ressignificação do passado e do presente, ou seja, a tensão dos tempos pode contribuir para uma reflexão crítica sobre uma dada condição de vida.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O presente estudo buscou descrever, interpretar e analisar o contexto social da favela Jardim Maria Virgínia (JMV), em 1999 e 2011/12, a partir das narrativas dos moradores – sistematizadas levando em consideração os registros para responder às seguintes questões da pesquisa: quais eram as práticas e representações sociais estabelecidas no espaço social da favela JMV em 1999 e 2011/12? Houve mudanças? Se sim, quais foram elas? Se o processo de despejo da favela JMV, em 1999, foi um momento de perigo na vida dos moradores, havia algum perigo em 2011/12? Se sim, quais os seus contornos? Não houve pretensão de se ter uma explicação única e acabada das práticas e representações sociais experimentadas no espaço social pesquisado, assim como se evitou a generalização das reflexões realizadas a seguir, pois as análises dizem respeito a uma situação particular e a um espaço social específico.
A questão da violência foi algo recorrente nos relatos dos moradores, seja em 1999 e em 2011/12. Há, no entanto, uma diferença na forma e nos contornos com que a violência se fazia presente nesses dois momentos. Em 1999, a questão da violência encontrava-se muito focada na própria ação arbitrária, intimidadora e desrespeitosa do Estado no que se referia ao processo de despejo da favela. A forma truculenta e ameaçadora com que os agentes de repressão do Estado atuaram para intimidar os moradores da favela JMV foi marcante na memória dos entrevistados, principalmente no que se referia à presença hostil dos cães.
Havia, em 1999, uma desconfiança em relação à atuação da política. Não era incomum, os moradores serem hostilizados pelos policiais, como forma de intimidação, o que, por sua vez, tendia a reforçar o estigma e a criminalização daqueles que moravam na favela. Percebia-se também que os próprios moradores buscavam estabelecer certo código de conduta, onde se definia o permitido e o proibido, e eles encarregavam-se de manter uma ordem na favela.
Os moradores entrevistados, em 1999, procuraram reforçar a imagem da favela JMV como um lugar pacífico e seguro, habitado por trabalhadores. Apresentar a favela, dessa forma, pode ser um indício de contraposição à visão das pessoas que não moravam na favela JMV que tendiam a vê-la como um lugar perigoso. Em outras palavras, uma narrativa dessa natureza significava que a favela e os favelados eram objeto de um estigma
social, à medida que eram vistos e taxados, por aqueles que não moravam na favela, como pessoas perigosas. Kowarick (2009, p. 90) relacionou a exclusão social e a negação dos direitos ao “(...) processo de estigmatização e discriminação, repulsa e rejeição (...)”, com que os favelados eram considerados perante os demais moradores da cidade.
A violência em 2011/12 tinha um contorno diferente em relação a 1999, devido à acentuação da questão do comércio e consumo de drogas na favela JMV. Outro grupo assumiu o “negócio” na área onde a líder do movimento – D. Nenê – morava. O cotidiano da favela JMV, dessa forma, foi tomado pelas práticas do grupo que dominava o narcotráfico na área. Eles controlavam o fluxo das pessoas e buscavam intimidar aqueles que vinham de fora, os “estranhos” que não eram usuários de droga e entravam no espaço que a eles pertencia. Os moradores conviviam cotidianamente com os usuários pelos cantos e becos da favela, bem como com os vendedores que se espalhavam por diferentes pontos de venda.
A lei do silêncio imperava, e o clima hostil era vivido de forma relativamente “normal” pelos moradores – eles tinham medo de falar, de dar entrevistas gravadas, pois acreditavam que tudo o que fosse falado poderia ser usado contra ele ou seus familiares. O clima tenso, ao que tudo indicava, era um indício de que o chefe do tráfico e seus trabalhadores viviam em constante estado de apreensão na tarefa de manter o seu ponto de venda livre de empecilhos e problemas que pudessem chamar a atenção dos órgãos de repressão do Estado.
O excesso de controle, a vigilância constante dos fluxos de pessoas no interior da favela, a tensão existente entre grupos rivais de outros chefes que ocupavam espaços não muito distantes, acabavam por gerar um clima onde os laços de confiança deterioravam-se, e a preferência geral era não saber, não ouvir, não ver, não falar.
Se antes, em 1999, era possível distinguir melhor quem era quem no espaço social da favela JMV, em 2011/12, isso era mais difícil, pois havia uma grande mistura e uma dúvida em relação aos papéis sociais exercidos. Porém, algo era certo: se corresse pela favela uma ordem de não sair de casa a partir de uma dada hora, a ordem era rigorosamente cumprida. Kowarick (2009, p. 94) observa a desconfiança e o medo como “(...) elementos estruturantes dos modos de vida (...) daqueles que vivem o contexto da vulnerabilidade”90.
90 Insegurança, medo, ameaça, perigo e crime tornaram-se “assuntos dominantes das falas, o mais das vezes
acusativas, do nosso cotidiano urbano. (...) a violência constitui um elemento estruturador, ao mesmo tempo banal e assustador, nas ações e pensamentos do dia a dia de nossas metrópoles”. (KOWARICK, 2009, p. 92).
Violência, medo e silêncio traduziam o modo com que se organizavam as práticas e representações sociais no cotidiano da favela JMV, em 2011/12, por mais que as pessoas entrevistadas se esforçassem em demonstrar uma convivência pacífica e relativamente natural com o clima hostil que invadiu o contexto social da favela JMV91.
Os moradores da favela JMV enfrentavam dificuldades para agir diante de um cenário onde imperava a violência, o medo, o silêncio, as incertezas, a desconfiança e tudo o mais que esgarçava o tecido social e instituía uma sociabilidade tensa. A dificuldade de ação subordinava os moradores a um poder, ao que tudo indicava, fraco, pois era sustentado à base da violência, cujo resultado parecia ser uma frágil obediência a um poder ilegítimo, pois, como esclarece Arendt (2010, p. 69), “a violência pode ser justificável, mas nunca será legítima”. A instabilidade do poder do chefe do tráfico e a fraqueza do seu domínio resultavam no uso da violência para inibir a ação dos moradores da favela JMV.
A violência e o medo pareciam oferecer um revestimento especial à lógica da incompletude seja em 1999 ou em 2011/12. A arbitrariedade e a violência da polícia, dos matadores, dos traficantes no comércio de drogas ilegais, que se intensificava na favela JMV, em 1999, tornavam a vida dos moradores mais tensa, levava apreensão para suas casas e tendiam a colocar a vida dos moradores em constante risco.
Se o homem se constitui e revela ao mundo sua identidade92, por meio do discurso, a ação, o silêncio e a passividade tendem a esconder o próprio homem. O silêncio apresenta-se como o avesso do homem político, pois sua passividade inibe a ação por onde se expressa sua singularidade enquanto um ser político. A violência e o medo tendem a contribuir para o silêncio e inibem a constituição de espaços públicos de debate e discussão em torno da forma com que o homem organiza sua vida e a sociedade em que vive.
O que rompe a ação e o discurso aproxima o homem ao mundo da natureza, das semelhanças do ponto de vista do funcionamento biológico do corpo humano, onde todos os homens são iguais. O silêncio tende a levar para o oposto da ação, ou seja, a passividade. Silêncio e passividade inibem a possibilidade de o homem dizer ao que veio no mundo e acaba remetendo-o ao estado de natureza, onde reside a lei do mais forte,
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Assim, a “violência passou a ser um elemento que também estrutura o cotidiano das pessoas, demarcando espaços, selecionando horários apropriados e forjando atitudes e comportamentos defensivos que visam diminuir os riscos”. (KOWARICK, 2009, p. 299).
92 “Na ação e no discurso, os homens mostram quem são, revelam ativamente suas identidades pessoais e
singulares, e assim apresentam-se ao mundo humano, enquanto suas identidades físicas são reveladas, sem qualquer atividade própria, na conformação singular do corpo e no som singular da voz”. (ARENDT, 1987, p. 192).
daquele que consegue sobreviver pelo uso da violência, ou seja um espaço onde o mundo público desaparece, levando consigo os desígnios do exercício da política, da ação, do debate e do próprio direito, tal qual se observa nos domínios do “desmanche” da política.
Se a ação coletiva dos moradores na favela JMV estava inibida, o próprio exercício da política, no campo de debate, e exercício da fala encontravam-se do mesmo modo. Qualquer organização coletiva transformar-se-ia em uma ameaça ao negócio do tráfico, daí a necessidade de inibi-la93.
A ação e o discurso requerem que os homens se exponham ao mundo e não fiquem escondidos e resignados ao silêncio. No caso da favela JMV, o discurso e a ação, seja ela individual ou coletiva, em 2011/12, implicaria uma exposição perigosa que, provavelmente, colocaria a vida dos agentes em risco. Como defesa diante de um ambiente onde imperava a violência, os moradores da favela JMV buscavam, naturalizá-la e incorporá-la como parte do seu cotidiano, como se a violência fosse algo normal. A violência por eles experimentada inibia a ação da fala e a iniciativa na busca da defesa dos seus direitos. Talvez seja, por isso, que os moradores entrevistados, via de regra, surpreenderam-se com as imagens fotográficas do processo de despejo da favela JMV, pois elas revelavam tanto a ação e a indignação quanto a passividade e o conformismo.
Se, na sociedade capitalista moderna, os espaços públicos estavam cada vez mais restritos, o que, por sua vez, limitava o exercício da fala e da própria política, no espaço da favela JMV não era diferente. A reforma arquitetônica do Largo do Campo Limpo inibiu o espaço de concentração da população do bairro para reivindicar direitos e protestar contra a forma com que o Estado geria as questões de ordem pública. Houve um processo gradativo em que o espaço público de discussão, debate, lazer e cultura do Largo cedeu lugar para os moradores de rua e usuários de droga que passaram a habitar o espaço.
A ação política implicava aparecer ao mundo, apresentar-se ao mundo, fazer-se ver. Era exatamente isto que parecia estar sendo negado no cotidiano da favela JMV, pois, diante da violência e do medo, as pessoas deixavam de saber, ver, ouvir, falar – códigos de conduta para a sobrevivência, e uma prática e representação social em busca da
93 Conforme apontado por Feltran (2011a) e Telles (2010), o PCC assumiu o controle do comércio de drogas
ilegais, e os chefes do tráfico assumiram o controle das favelas e passaram a mediar e arbitrar os conflitos em relação à conduta daqueles ligados diretamente ao negócio do tráfico e seus “clientes”, bem como aqueles pertinentes ao convívio cotidiano entre os moradores. A violência na solução dos impasses era latente, pois ela existia e poderia ser colocada em prática caso houvesse necessidade. O fato de ela se encontrar latente não significava necessariamente que o poder dos chefes do tráfico se legitimou entre os moradores, pois a violência continuava presente em sua potencialidade, e poderia ser utilizada quando necessário.
manutenção da vida – e aparecer no espaço público de debate. Além disso, as pessoas, em seu silêncio, acabavam transformando-se em invisíveis aos olhos dos demais. A ação, por mais precária e instável que ela fosse, era negada e vista como algo ameaçador à ordem estabelecida. O silêncio e a falta de ação implicavam uma estratégia de sobrevivência, uma forma de manter-se vivo diante da violência, arbitrariedades e circunstâncias adversas que o cotidiano da favela JMV imprimia na vida daqueles que lá habitavam.
De certo modo, havia um embaralhamento e certa indefinição a respeito dos próprios agentes da violência, o que contribuía para o aumento da insegurança, incerteza e para uma desconfiança generalizada em tudo e em todos. A esse respeito a citação de Kowarick descrita, a seguir, é esclarecedora:
Mas a desconfiança e o medo têm se constituído em elementos estruturantes dos modos de vida, fazendo com que as pessoas organizem seu cotidiano tendo em conta sua vulnerabilidade diante da violência: insegurança, cautela e prevenção tornaram-se fenômenos massivos, originando processos sociais que conduzem a uma situação de autodefesa e se traduzem no retraimento ou reclusão em ambientes protegidos. A contrapartida dessa dinâmica só pode levar ao evitamento do outro, percebido como diverso e adverso e, a partir de um certo momento e em certas ocasiões, o outro passa a ser visto como ameaçador, perigoso e violento: neste percurso crescente estariam se forjando atitudes, valores, discursos e comportamentos que alimentam o que estou denominando
princípio de exclusão. (KOWARICK, 2009, p. 94)
Diante deste quadro de circunstâncias, as práticas e representações sociais bem como os códigos de conduta adotados pelos moradores da favela JMV consistiam em quanto menos se soubesse, se ouvisse, se visse e se falasse seria melhor diante da intensa e generalizada desconfiança reinante entre os moradores e aqueles que estavam no comando da favela.
A ausência de uma liderança e de uma organização coletiva era o exemplo de como os elos sociais eram frágeis e revestidos de insegurança, e como os interesses coletivos não tinham espaço para serem gestados na própria favela JMV. Tratava-se, portanto, de um certo “não existir” decorrente da intimidação com relação à construção de um espaço coletivo que contemplasse a ação em direção à defesa dos interesses mais gerais dos direitos e do próprio exercício da cidadania.