• No results found

MODEL DEVELOPMENT ISSUES

In document CM_2004_ACFM_11.PDF (961.6Kb) (sider 29-32)

Baptista (2013) discute a convivência com o Semiárido como um modo de viver em determinado espaço, pautado nas interações com o meio a partir de princípios que valorizem o conhecimento local, que respeitem as limitações e possibilitem a busca por alterativas viáveis. Sobre essa ideia, o autor afirma:

[...] a convivência e o desenvolvimento se baseiam em algumas posturas básicas, como aprender a querer bem a esta região em seu todo, de sorte a fazer crescer os

15 Informações disponíveis em: <http://www.asabrasil.org.br/sobre-nos/historia>. Acesso em: 24 de julho de

seus valores, as belezas, sua vida e desconstruir ou inverter as políticas malfazejas que sempre fizeram e ainda fazem do semiárido um lugar de morte (BAPTISTA, 2013. p. 65).

De acordo com as discussões de Baptista (2013), os princípios da convivência se baseiam no rompimento com as barreiras econômicas, capitalistas e políticas e passam a fazer parte de uma crença, ou ainda, de um ideal de vida marcado pelo querer bem, pelo ser, e sobretudo pelo agir.

Malvezzi (2007) dialoga sobre a convivência com o Semiárido como um novo modo de vida, pautado na perspectiva de programas sociais que implementam ações acessíveis e voltadas para a região e que valorizem, acima de tudo, a diversidade ambiental, a riqueza cultural, a benevolência, a alegria e a garra de seu povo.

Está em gestação um novo conceito civilizatório para a região: a convivência com o Semiárido. A ideia parte de um princípio simples: por que os povos do gelo podem viver bem no gelo, os povos do deserto podem viver bem no deserto, os povos das ilhas podem viver bem nas ilhas e a população daregião semiárida vive mal aqui? É porque aqueles povos desenvolveram culturas de convivência adequadas ao ambiente, adaptaram-se a ele e tornaram viável a vida. No semiárido brasileiro, essa integração de pessoa e natureza não encontrou uma solução adequada, de modo que o ser humano permaneceu sujeito às variações normais do clima regional, (MALVEZZI 2007, p 12).

Inicialmente, Malvezzi (2007) aponta uma saída para a vida no Semiárido brasileiro tomando como exemplo outras estruturas sociais que romperam com as barreiras das limitações de uma região a partir de uma mudança de paradigma. Posteriormente, faz uma crítica ao sistema que continuamente ignora as manifestações da natureza.

Baptista (2013) diz que o olhar para o Semiárido brasileiro deve ser feito em âmbitos distintos e que, além da diversidade ambiental, a cultura e o processo de constituição da região são fundamentais nessa perspectiva. Ou seja, entre as prospecções de convivência com o Semiárido, devem ser considerados os distintos fatores que influenciaram e ainda influenciam a cultura e o modo de viver na região.

Malvezzi (2007) e Baptista (2013) apontam como ponto de partida para a convivência com o Semiárido as práticas adaptativas e viáveis ao clima local, trazem como exemplo o Programa de Formação e Mobilização Social para a Convivência com o Semiárido, da Articulação Semiárido Brasileiro, desenhado pela rede ao final da década de 1990, atualmente com várias ações, dentre elas, o Programa 1 Milhão de Cisternas Rurais (P1MC) e

o Programa Uma Terra e Duas Águas (P1+2). Esses programas fazem parte do Plano Brasil sem Miséria, do Governo Federal, criado para beneficiar a população rural de baixa renda.

Como informa o site da ASA (2017), o P1MC foi criado em 2000, com o objetivo prioritário de atender 1 milhão de famílias rurais com água de qualidade para o consumo humano.16 Uma das estratégias desse programa é a implementação de tecnologias sociais para

captação e armazenamento de água da chuva, a cisterna de placas, com capacidade para armazenar até 16 mil litros de água.

O P1+2 (Programa Uma Terra e Duas Águas) é outra ação do Programa de Formação e Mobilização Social para a Convivência com o Semiárido, criado pela ASA em 2007. O objetivo, conforme discute a rede em manual (2012), é promover a soberania e a segurança alimentar e nutricional das famílias agricultoras, a partir do fomento à produção de alimentos, à criação de pequenos animais e à geração de renda, também por meio da implementação de tecnologias sociais de captação de água da chuva, conhecida como segunda água, como a cisterna-calçadão e a de enxurrada, com capacidade para armazenar até 52 mil litros de água, barragem subterrânea, barreiro trincheira e tanque de pedra. Uma de suas características, assim como outros programas da ASA, pelo que consta no manual da ASA (2012), é estimular os processos participativos de pessoas e grupos distintos para o desenvolvimento rural sustentável.

Como critérios estabelecidos pela ASA, conforme informações no manual (2012), para ser beneficiada, a família deve ser de baixa renda e estar inscrita no Cadastro Único para Programas Sociais (CadÚnico). Nos dois programas, famílias com crianças e idosos são prioritárias17.

Pelas discussões feitas pela ASA (Manual, 2012) e por pesquisadores Malvezzi (2007) e Baptista (2013), assim como o P1MC, o P1+2 também possibilita que sujeitos distintos envolvidos no seu processo de implementação participem de capacitações diversas, entre elas, Oficinas de Capacitações em Gestão de Água para Produção de Alimentos (GAPA) e Sistema Simplificado de Manejo para Irrigação (SSMI).

Outra estratégia de funcionamento do Programa são os intercâmbios entre as famílias agricultoras, técnicos e técnicas, para troca e compartilhamento das experiências desenvolvidas, segundo a Articulação (2012).

(SANTOS et al., 2014, p. 67, apud Ferreira 1999) discute o intercâmbio como possibilidade da difusão do conhecimento. Para o autor, intercâmbio significa “troca, permuta.

16 Disponível em: <http://www.asabrasil.org.br/acoes/p1mc>. Acesso em: 26 de julho de 2017. 17 Disponível em: <http://www.asabrasil.org.br/acoes/p1-2>. Acesso em: 26 de julho de 2017.

Relações de comércio ou culturais entre nações”, ou seja, uma vivência que permite a construção do conhecimento a partir do que cada pessoa tem para repassar. Há distintas formas de intercambiar. Podemos citar como exemplo a acadêmica, que possibilita que estudantes saiam de suas unidades para visitar outras, em estados ou países diferentes. Esse tipo de intercâmbio, pelo que discutem os autores (2014), impacta a vida das pessoas, provocando uma mudança pessoal. São hábitos, conceitos e culturas vivenciados e que certamente influenciam o aprendizado.

O intercâmbio como forma de relacionamento entre as pessoas, segundo Santos (2014, p. 11), “tem sido cada vez mais dinâmico e o ensejo por esses tipos de excursões tem como focos principais a busca pelo conhecimento, a necessidade de aprimoramento de um novo idioma e a troca entre dimensões culturais”. Dessa forma, entende-se como uma prática que permite que as pessoas troquem conhecimentos, um modo diferente de fazer as coisas em relação aos outros. Um método que tem possibilitado, inclusive, que outras culturas sejam disseminadas, segundo os autores (2014).

Pelo que discute a ASA em seu site e manual (2012), é nessa perspectiva que a rede de articulação discute o intercâmbio. “Eles proporcionam momentos de partilha, troca e construção de conhecimentos entre agricultores e agricultoras de comunidades, municípios, territórios e estados diferentes do Semiárido”18, ampliando cada vez mais as experiências e

possibilitando transformação. “Da mistura do conhecimento popular com o técnico – produzido por organizações da sociedade civil, universidades e centros de pesquisas – geram soluções inovadoras para a convivência com o Semiárido e com impactos positivos na vida das famílias”19, afirma a rede de Articulação.

Esse componente do P1+2, como aponta a ASA (Manual, 2012), faz parte do plano metodológico de trabalho na execução do programa, na perspectiva de ampliar os conhecimentos de agricultores e agricultoras, técnicos e técnicas e sociedade de modo geral, a partir de uma troca recíproca dos saberes. E essa estratégia, como mencionam os pesquisadores citados, é importante para a perpetuação da própria história humana.

Outro componente metodológico do Programa Uma Terra e Duas Águas, que se configura como estratégia de comunicação da ASA entre seus públicos, tanto interno como externo, é a sistematização de experiências, que, assim como o intercâmbio, tem um objetivo para a ASA. Esse aporte pedagógico do Programa é bem discutido na rede como uma forma

18 Disponível em: <http://www.asabrasil.org.br/acoes/p1-2>. Acesso em 03 de agosto de 2017.

de dar visibilidade às experiências de agricultores e agricultoras, grupos e comunidades, como foi discutido em seção anterior e que será aprofundado posteriormente (ASA, Manual, 2012).

É importante ressaltar que não é nossa pretensão, aqui nesta pesquisa, fazer um estudo aprofundado dos programas da ASA, nem mesmo das suas estratégias metodológicas. No entanto, consideramos relevante mencioná-los, a fim de informar ao leitor em qual contexto nasce o Candeeiro. Citamos o intercâmbio, por exemplo, porque, segundo a ASA (Manual, 2012), é um dos espaços por onde circula o Candeeiro.

In document CM_2004_ACFM_11.PDF (961.6Kb) (sider 29-32)