A centelha para o surgimento da Zona de Inovação Sustentável de Porto Alegre deu-se em setembro de 2015. Na época, a Global Urban Development recebeu o convite da empresa Pulsar (dedicada à educação empreendedora para jovens) e da Paralelo Vivo9, para trabalhar em conjunto na realização da 1ª Edição do Desafio
Empreendedor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Esta era uma competição com foco em empreendedorismo para jovens universitários dos cursos de Engenharia. Na ocasião, a GUD apresentou aos alunos inscritos no evento a proposta da Leapfrog Economic Strategy (LES), que fora endereçada ao Governo do Estado do RS como um plano-guia de estratégia de crescimento econômico, mas não havia sido por ele implementada. Não obstante, a LES foi recebida com entusiasmo e energia pelos mais de 250 estudantes da Escola de Engenharia que estavam no Desafio Empreendedor da UFRGS. A partir dali, e após encontros informais e em caráter de brainstorming com representantes da GUD, da Pulsar e do Paralelo Vivo, alguns universitários motivaram-se para tirar as ideias do LES do papel e para começar a colocá-las em prática.
Nasceu então o 1º Curso intitulado “Strategic Planning for an Independencia- Floresta Sustainable Innovation Zone”, que durante o período de 27 outubro a 15 dezembro de 2015, ao longo de oito encontros semanais de 3 horas cada, reuniu no Hub Paralelo Vivo cerca de 40 participantes dos mais variados perfis, como estudantes, professores e profissionais de mercado. Uma das formas de atrair
9 O Hub de Negócios e Inovação Sustentável Paralelo Vivo, administrado pela Pulsar, foi um pilar para
a ZISPOA de setembro de 2015 até março de 2017 quando encerrou suas atividades, tendo recebido e colaborado com inúmeros eventos. O Hub foi o primeiro hub de start-ups, coworking, espaço-maker e ecossistema de inovação da América Latina, com foco em promover o empreendedorismo sustentável e empresas verdes. Chegou a contar com 36 membros, entre empresas e organizações. Após o fechamento do Hub Paralelo Vivo a ZISPOA mudou sua base para a Casa das Cidades, em Porto Alegre (ZISPOA, 2017).
interessados, principalmente os estudantes oriundos do 1º Desafio Empreendedor da UFRGS, para participar do curso foi a oferta combinada de Curso ZISPOA (nas terças- feiras à noite) + Consultoria para Start-ups (nas quintas-feiras à noite). Conforme explica o Entrevistado E1, essa oferta combinada de cursos foi importante pois “manteve as pessoas engajadas ao longo de dois meses”.
Promovido pela GUD e utilizando a metologia de ensino da Pulsar, o curso tinha o intuito de realizar o planejamento estratégico para a criação da primeira Zona de Inovação Sustentável de Porto Alegre (ZISPOA), apresentando-se desde então como um movimento cidadão independente que trabalha para transformar partes dos bairros Independência e Floresta no lugar mais sustentável e inovador da América Latina até 2020 (ZISPOA, 2017). Essa região, dentro do 4º Distrito na capital gaúcha, foi escolhida pela característica de seus edifícios históricos, de seu espírito vibrante de comunidade e pela sua cultura favorável a negócios (ZISPOA, 2017). No início do ano de 2017, a área geográfica foi ampliada, cobrindo partes dos bairros Bom Fim, Farroupilha, Floresta, Independência, Rio Branco e Santana, conforme mostra a Figura 1. Segundo seus idealizadores, esta é considerada uma área privilegiada de Porto Alegre, com fácil acesso ao transporte local e metropolitano. Além disso, a ZISPOA situa-se entre distâncias caminháveis do Centro Histórico e dos bairros Cidade Baixa e Moinhos de Vento. Também está próxima a instituições, como o Shopping Total, as universidades UFRGS e UFCSPA, grandes hospitais, empresas, escolas, igrejas, dentre outros.
Figura 1 - Delimitação da Zona de Inovação Sustentável de Porto Alegre Versão 2.0
Fonte: ZISPOA (2017)
Os pilares que guiaram a criação da Zona de Inovação Sustentável baseiam- se na combinação dinâmica e interativa de seis elementos principais: 1) Inovação e Tecnologia; 2) Empreendedorismo e Start-Ups; 3) Sustentabilidade e Eficiência de Recursos; 4) Criatividade e Colaboração; 5) Gestão Comunitária e Participativa; e 6) Ambiente Amigável aos Negócios. O programa do 1º curso trazia as seguintes orientações aos seus participantes:
Os alunos do curso trabalharão em conjunto em cada um desses seis elementos envolvidos em pesquisas detalhadas (em bibliotecas e na internet), realizando extensas entrevistas com as principais partes interessadas (stakeholders) e líderes comunitários, a fim de realizar um mapeamento de ativos e análise de rede de contatos para preparar as Iniciativas Estratégicas para gerar ações específicas e avanços concretos em 2016 para a criação de uma Zona de Inovação Sustentável economicamente bem sucedida e culturalmente vibrante para os bairros Intependência e Floresta [de Porto Alegre] (WEISS, 2015).
No primeiro curso, grupos de trabalho foram criados em torno desses seis elementos e ações estratégicas foram planejadas. Na concepção dos seus idealizadores, havia uma expectativa de que, ao término do primeiro curso, os participantes manteriam-se engajados em dar continuidade às ações, comprometendo-se com os encontros nos pequenos grupos e garantindo a execução das mesmas. Contudo, ao término do 1º curso e com a aproximação do período de férias de verão, o que observou-se na prática foi a dispersão dos participantes, conforme descreve o Entrevistado E5:
[no primeiro curso] ..todo mundo mais pilhado, cada vez mais pilhado, mais pilhado e... só que aí veio as férias e tipo “fuuu” aí energia que tava lá em cima, fez assim [gesto
com a mão sinalizando queda], sabe? [Pesquisadora: Acabou dispersando um pouco.]
É, exato, isso foi uma coisa que o [líder da GUD] não previu, pra ele todo mundo ia continuar pilhado e ali... sabe? [...] “Me comprometi, agora vou até o final”, que não é nada da nossa cultura. (E5)
A definição dos objetivos específicos da ZISPOA ocorreu poucos meses depois, em meados de fevereiro de 2016, quando o CEO da GUD e um dos membros voluntários da ZISPOA participaram de uma reunião em nível internacional da Global Urban Development em Washington, D.C (EUA), com cerca de 50 (cinquenta) consultores sêniores membros desta mesma organização. Na ocasião, tiveram a oportunidade de apresentar a recém criada ZISPOA, recebida com entusiasmo pelos ouvintes do encontro, que questionaram quais eram os objetivos da iniciativa até 2020. Improvisadamente, o líder da GUD listou três objetivos, no intuito de transformar a ZIS no local: a) Mais Alimentado por Energia Solar; b) Mais Eficiente Energeticamente; e c) Mais Amigável a Bicicletas. Por acreditarem ser temáticas relevantes, outros dois
objetivos foram adicionados, após sugestão dos consultores que estavam presentes na reunião: [ser o lugar] d) Mais Amigável a Tecnologias Renováveis; e e) Mais Conectado Digitalmente, conforme detalha o Entrevistado E5:
...lá em Washington [...] eles pediram pra gente falar quais eram os objetivos e tal, aí que a gente “pô, tem que criar três grandes objetivos” sabe? Aí a gente cria três grandes objetivos que foi o [líder da GUD] quem concebeu né e aí nessa reunião de Washington a gente expõe eles e o pessoal fala “Ah, mas vocês deviam também levar em conta a conexão digital e sei lá algum outro...” (E5)
Encontros pontuais ocorreram no período subsequente, na tentativa de manter a coesão do grupo original e o andamento das ações planejadas. De 4 a 25 de abril de 2016 um segundo curso intitulado “Implementing the Porto Alegre Sustainable Innovation Zone (ZISPOA)” foi organizado para dar sequência ao projeto, fortalecer o engajamento dos que já haviam participado do curso anterior e atrair novos membros. De acordo com a ata do encontro, “um objetivo vital deste curso é permitir que muitas pessoas novas se juntem aos grupos de trabalho existentes e se envolvam ativamente na organização da ZISPOA. Esta atividade inclui dar continuidade às iniciativas, bem como desenvolver novas propostas a serem implementadas a partir de maio, junho e julho [de 2016]”.