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Conforme Robinson (2003, p. 6-7), sob a perspectiva interna do tradutor, são importantes a atividade tradutória em si, o processo de tornar-se tradutor, pesquisar, lidar com as demandas, desenvolver rede de relacionamentos, entregar o texto traduzido ao empregador ou ao cliente,

49 cobrar e receber pelo serviço prestado. O texto é importante, mas não é o todo. Já sob a perspectiva externa, ou sob o ponto de vista de quem não é tradutor, o texto como produto ou mercadoria é a coisa mais importante. O autor ensina que o usuário da tradução pode também enfocar na fidedignidade da tradução, na tempestividade da entrega e no menor custo possível, como fatores relevantes. Se ampliarmos o papel do usuário da tradução e considerarmos, para esta pesquisa, que ele também pode ser o “iniciador” de Gentzler (2009, p. 103) - aquele que solicita e paga a tradução -, a PR espera do tradutor por ela contratado o produto pronto, de boa qualidade, entregue no prazo estipulado e a baixo custo. Já para o tradutor, ainda segundo Robinson (2003, p. 24), a fidedignidade também é importante como fonte de orgulho profissional e a rapidez também o é como meio para aumentar a renda. Já quanto ao custo, o tradutor autônomo cobra o preço de mercado.

Nesta pesquisa não se pode deixar de abordar, ainda que sem aprofundamento, a questão da competência do tradutor, pois a PR contrata pessoas consideradas hábeis ou capazes de exercer a atividade tradutória para seu quadro funcional. Esses profissionais devem traduzir os textos (quaisquer textos) que lhes forem apresentados, de modo a satisfazer as necessidades do usuário ou do “iniciador” da tradução. Não se considera, nesses casos, o ponto de vista pessoal do tradutor, mesmo sendo ele um ser humano, com opiniões, atitudes, crenças e sentimentos (ROBINSON, 2003, p. 26).

Definir “competência do tradutor” não é tarefa simples, mas aqui se trata tão somente de mencionar alguns dos fatores que importam para o desempenho da atividade tradutória esperado pela instituição contratante. Como a PR não promove exame comprobatório aos tradutores/intérpretes que contrata, ela supõe que o profissional admitido pode entregar a tradução e/ ou realizar a interpretação adequadamente.

Conforme Pagano (2010, p. 12-13), a competência tradutória se define quando o profissional tem conhecimento cultural, linguístico e técnico dos idiomas de partida e de chegada, utiliza estratégias adquiridas pela experiência ou desenvolvidas pela qualificação profissional, domina os registros e os gêneros discursivos, percebe o contexto em que o texto traduzido será empregado, e tem habilidades para buscar recursos externos que o auxiliem na tarefa tradutória.

Gonçalves (2005, p. 61) acredita que a competência tradutória

envolve uma complexa gama de processos cognitivos, biológicos e sociointerativos, entre os quais se incluem conhecimentos procedimentais e declarativos, além de níveis processuais metaconscientes, esses últimos especialmente responsáveis pela solução de problemas e pela tomada de decisão.

50 Baseando-se na mencionada autora, ele também classifica a competência tradutória geral como “todos aqueles conhecimentos, habilidades e estratégias que o tradutor bem-sucedido possui e que conduzem a um exercício adequado da tarefa tradutória” (Pagano, 2010, p. 13). Baseado na Teoria da Relevância, Gonçalves (2005, p. 62) define a competência tradutória específica como

a maximização dos efeitos contextuais gerados pelo processamento de unidades de tradução recíprocas, uma na língua-fonte e outra na língua-alvo, e também pela maximização da superposição entre esses efeitos contextuais, ou seja pela maximização da sua semelhança interpretativa.

A competência revisora também se revela importante, para a otimização da qualidade da tradução, pois, segundo Lorenzo (2002, p. 133-140), ela é chave na profissão do tradutor atual. A revisão pode ser uma fase do ato tradutório ou uma atividade independente, e pode ser feita pelo próprio tradutor ou por terceiros. Essa revisão externa, muitas vezes, não ocorre por falta de tempo ou por razões econômicas. De todo modo, a revisão é uma das etapas mais importantes do trabalho do tradutor, pois durante sua execução tomam-se as últimas decisões para garantir a boa qualidade e o bom funcionamento do texto traduzido.

Para Chakhachiro (2005, p. 237), a revisão parece ser uma tarefa especializada da atividade tradutória, que requer alta qualificação do tradutor profissional, como a familiaridade com a linguagem especializada. Além disso, os revisores devem estar aptos a interpretar e compreender integralmente os textos de partida, bem familiarizados com os processos da tradução e completamente à vontade com as mais delicadas nuances do sistema da língua de chegada.

Martins (2006, p. 30) preconiza que o tradutor “deve estar preparado para justificar suas opções e escolhas tradutórias, caso venha a ser questionado”. Baseada em outros estudos, ela afirma, ainda, que o tradutor deve saber “usar ferramentas e conhecimento para criar textos que cumpram seu objetivo comunicativo”, de modo a que sejam “aceitos como boas traduções na comunidade que os recebe”.

No que concerne às ferramentas de informática, Said (2010, p. 126-132) ensina que, além dos dicionários e dos equipamentos básicos - computador, scanner, impressora, internet banda larga, entre outros - o tradutor deve saber utilizar programa de memória de tradução, pois este tem, no mínimo, as seguintes vantagens: evitar traduzir mais de uma vez um mesmo segmento, o que acarreta economia de tempo; permitir uniformização linguística e terminológica, e evitar

51 que o tradutor deixe escapar um segmento do texto, o que produz mais qualidade para o produto final.

Kornakov (2000, p. 246-248) trata da competência interpretativa, apontando para as habilidades do intérprete de ouvir, entender e memorizar informação na língua de partida, traduzir mentalmente, comprimir, editar e verbalizar a mensagem na língua de chegada, fazendo a diferença entre interpretação consecutiva (verbalizar a mensagem na língua de chegada) e interpretação simultânea (verbalizar a mensagem na língua de chegada enquanto ouve a nova porção de informação na língua de partida). Ouvir exige atenção e concentração; entender exige percepção e antecipação de elementos eventualmente omitidos no discurso; memorizar informação exige memória ativa de curto, médio e longo prazo, tomada de notas em sistema de símbolos, além de bom ouvido para nomes, topônimos, números e medidas; traduzir mentalmente exige a habilidade de compor textos editados baseados em certas palavras-chave ou símbolos, comprimir e editar bem o texto; e verbalizar exige o saber falar enquanto ouve, na interpretação simultânea, e saber falar e/ou parafrasear textos longos usando códigos e palavras- chave, na interpretação consecutiva (KORNAKOV, 2000, p. 246-248). É possível estender a ideia de “comprimir” para “suprimir informação irrelevante” na interpretação, conforme preconizam Soria et al. (2001, p. 28).

Essa breve explanação sobre a competência do tradutor (e do intérprete) se faz necessária, pois o questionário de pesquisa trata de coletar dados sobre esses temas, ainda que de forma indireta. Nesse contexto, busca-se definir, no próximo tópico, as características do tradutor público e intérprete comercial e de sua tarefa, assim como da vinculação a entidades representativas da categoria profissional, para avaliar se elas seriam requisitos para desempenhar a função de tradutor/intérprete na PR.

2.3.2 Tradutor público e intérprete comercial, legislação e entidades representativas da