Ao tratar sobre a obra artística, Voloshinov ([1926]1976) afirma que os componentes estilísticos são determinados pela relação entre o objeto do enunciado e o falante. Nessa visão, o estilo depende do repertório do autor/locutor do discurso. O mesmo estudioso atesta que “o segundo fator determinante do estilo na interrelação entre herói e criador é o grau de sua proximidade recíproca” (VOLOSHINOV, [1926]1976, p. 12), sendo essa marcada pelas formas lexicais da língua viva. Deste modo, a composição estilística do enunciado refletirá as interações constituídas pelo autor; e, consequentemente, a estrutura da obra trará marcas do intercâmbio desse sujeito com outros discursos.
O mesmo estudioso destaca que a inter-relação entre autor e herói (tópico temático) não se restringe a esses uma vez que a ligação entre os participantes do discurso leva, sempre, em consideração um terceiro participante – o ouvinte – que, por sua vez, influenciará outros fatores da obra visto que é quem interpreta, e, portanto, atribui sentidos ao ato discursivo como um todo significativo.
Nessa visão, o acontecimento estético, quer dizer, o ato enunciativo exige duas consciências – o autor e o herói – que se opõem. Nessa interação, tanto a avaliação que o autor faz do herói da obra artística como o grau de proximidade entre esses dois participantes do discurso não dispensa a presença de um ouvinte que, por sua vez, interfere na relação autor-herói. (SOBRAL, 2009).
Para Voloshinov ([1926]1976), o ouvinte possui um papel autônomo, independente da obra artística, não ocupando um lugar qualquer nela, mas, “uma posição especial, e, mais ainda, uma posição bilateral com respeito ao autor e com respeito ao herói – e é esta posição que tem efeito determinativo no estilo de um
enunciado”. (VOLOSHINOV, [1926]1976, p. 13). Assim, o ouvinte não somente possui um lugar próprio no intercâmbio verbal, mas indispensável para o processo interação, tornando-se fundamental para a construção composicional da obra e a construção do sentido interno do discurso.
O estudioso citado afirma também ser usual que o ouvinte não se oponha ao autor, nem tampouco coincida com o público leitor uma vez que esse último está localizado fora da obra artística. Voloshinov ([1926]1976) distingue dois participantes do discurso: 1) o sujeito ouvinte – aquele que é parte da própria obra, visto que o autor o presume antes de escrevê-la; 2) e o sujeito leitor – aquele que é externo a obra artística. Desse modo, o ouvinte é o ser imaginário com quem o autor dialoga, internamente, enquanto, o leitor é o ser real, o público que interage com o discurso, sendo esse sujeito quem constrói os sentidos externos ao discurso, ou seja, os sentidos constituídos de acordo com a época, o grupo social, no qual está inserido no momento do ato de ler.
Essa preocupação do autor com o leitor confere a esse terceiro sujeito do discurso um papel relevante na construção da obra artística, mudando seu foco do interior para o exterior, afirma Voloshinov ([1926]1976). Dessa maneira, acontece uma perda, ou mesmo, um distanciamento do ouvinte imanente, isto é, do sujeito intrínseco ao discurso, separando o autor da “unidade social de seu grupo” (VOLOSHINOV, [1926]1976, p. 14) e, por sua vez, o autor passa a atender às exigências externas impostas por um público leitor particular.
Esse mesmo estudioso destaca que o autor não assimilará uma voz contrária à sua voz interior porque “o estilo do poeta é engendrado do estilo de sua fala interior, o qual não se submete a controle, e sua fala interior é ela mesma o produto de sua vida social inteira” (VOLOSHINOV, [1926]1976, p. 15). Por isso, o estilo do autor não é constituído por uma só voz, mas sim pela voz do autor e de seu grupo social, logo, o ouvinte – o sujeito interior – com quem o autor dialoga, sempre, participará da construção do discurso.
Entendemos com isso que assumir a função de autor implica em realizar negociações com os outros participantes do discurso. Essas negociações influenciarão na organização do(s) texto(s), isto é, no modo como esse autor expressará seus pontos de vista em relação aos outros participantes da obra artística, no caso, o herói (tópico) e o ouvinte (sujeito interior); ou seja, a interação do autor com esses participantes do
discurso implicará na seleção de formas linguísticas e de linguagem adequadas para atingir os objetivos com a recepção do discurso em um contexto. Em suma, todo ato enunciativo é orientado para alguém, e por sua vez, esse sujeito – real ou virtual – já está presumido24 no próprio enunciado.
Fundamentados nessa discussão, definimos o leitor responsivo ativo como o sujeito que não somente responde, mas se posiciona em relação ao discurso do outro de modo reflexivo, avaliativo, crítico. Como dito, anteriormente, o leitor responsivo no processo de interação com o outro – sujeito ou texto – constitui a si mesmo, o outro e o mundo, pois as relações dialógicas tanto da situação imediata, quanto de suas experiências de vida propiciam a ampliação de seu horizonte, tornando-o capaz de interpretar sua realidade por outros pontos de vistas considerando as suas necessidades de leitura (ALMEIDA, 2004). Porque, segundo Bakhtin ([1975]2010b, p. 90), “a compreensão amadurece apenas na resposta”, por sua vez, o leitor responsivo se constitui no processo de interação com o outro, e também de compreensão desse outro. Portanto o leitor responsivo aprende com as relações dialógicas constituídas com objetos de discurso, outros sujeitos responsivos e diferentes situações de comunicação, sendo sua compreensão leitora resultante de suas vivências. Essa concepção de leitor responsivo ativo está associada à construção de sentido do enunciado, pois o objeto pode ser interpretado por múltiplos olhares, não existindo um sentido único para o objeto analisado.
Voloshinov ([1926]1976, p. 15) acrescenta que “nenhum ato consciente de algum grau de nitidez pode existir sem a fala interior, sem palavras e entoações – sem avaliações, e, consequentemente, todo ato consciente já é um ato social, um ato de comunicação”. Uma vez que, o ato enunciativo constitui uma orientação para um possível ouvinte, podendo ser esse o próprio grupo social, no qual o enunciador está inserido; desse modo, todo ato enunciativo carrega não só aspectos psicológicos, mas também aspectos ideológicos resultantes da interação do sujeito com seu grupo social.
A entonação torna-se, em consequência disso, relevante para determinar os critérios estilísticos pelos quais o enunciado é expresso ao interlocutor, impondo a acentuação do ritmo desse enunciado no momento da enunciação. (VOLOSHINOV, [1930]1981). Nessa dimensão, as escolhas lexicais dão um determinado tom ao
24 Essa ideia de presumido está, diretamente, relacionada não só ao estilo, mas também ao conteúdo
temático, pois se refere à maneira como o autor/locutor dispõe seus argumentos para o interlocutor. Nesse caso, o presumido do enunciado é algo implícito, ou seja, é algo que compõe todo ato enunciativo.
enunciado, e também definirão a posição dos sujeitos do discurso. Ilustremos essa questão com o seguinte exemplo: a expressão “Vossa Eminência” representa uma significação e posição social em certo contexto extralinguístico, no qual um enunciado é produzido. Com isso, a simples escolha dessa expressão por um locutor atribui valoração ao discurso, logo, a composição estilística traz aspectos valorativos fundamentais para a construção de sentidos do texto.
Ao tratar sobre o estilo em “Questões de Literatura e de Estética”, Bakhtin ([1975]2010b) observa a relação entre autoria, recepção, contexto e componentes estilísticos, pois, segundo esse estudioso:
O estilo é interativo porque o autor interage com um grupo social e uma forma de expressão, trazendo marcas lexicais do discurso de outrem para seu discurso construindo uma identidade linguística. (SOBRAL, 2009). Isso significa que o estilo é determinado pelas relações dialógicas que o autor constitui realiza com os valores de seu e/ou de outro grupo social e também com alguns sujeitos ou discursos, em particular, sofrendo transformações conforme essas interações do autor, bem como da época e das circunstâncias, nas quais o discurso é produzido.
Enfim, o estilo se constitui como uma orientação social de cunho apreciativo, e como tal, as escolhas lexicais do autor – enunciador – representam posições axiológicas que consideram uma variedade linguística, e também julgamentos de valor propagados pelas diferentes vozes sociais e/ou grupos sociais, assegura Faraco (2009). O ato estilístico corresponde às escolhas linguísticas do enunciador do discurso. Essas escolhas estão ancoradas em um determinado tempo, espaço e relações sociais para atender aos propósitos comunicativos do enunciador.
Ilustremos essa questão com a composição do gênero ofício que consiste em uma solicitação do falante a uma pessoa jurídica, sendo necessário trazer em sua estrutura elementos, como indicação de data, local, instituição, pessoa solicitante, pessoa a quem se dirige, objeto solicitado e justificava da solicitação, e também O estilo compreende organicamente em si as indicações externas, a correlação de seus elementos próprios com aqueles do contexto de outrem. A política interna do estilo (combinação dos elementos) determina sua política exterior (em relação ao discurso de outrem). O discurso como que vive na fronteira do seu próprio contexto e daquele de outrem. (BAKHTIN, [1975]2010b, p. 92).
vocabulário específico a exemplo de “Vossa Senhoria”, “Senhor(a)”, etc. Outro aspecto do ato estilístico é a orientação social e as posições valorativas como acontece no e- fórum acadêmico, visto que esse gênero é constituído pela orientação do professor a seus alunos e pelas apreciações desses alunos em relação ao tópico de discussão proposto pelo professor.
É importante refletirmos aqui o papel das palavras gramaticais e das palavras
lexicais para a compreensão da construção e da apropriação do estilo nos gêneros do
discurso. Em “Introdução a estilística”, Martins (2000) explana a relevância da estilística da palavra para a construção de sentidos do texto. De acordo com essa autora, os aspectos expressivos da palavra não podem ser estudados fora do contexto de produção dos enunciados, pois os elementos sintáticos e semânticos só ganham significado na língua viva, isto é, na língua em uso. Da mesma maneira, pensam Bakhtin e o Círculo porque o significado real da palavra não pode ser apreendido sem o componente gramatical (o sinal) e os aspectos extralinguísticos (o contexto de produção).
Martins (2000) ressalta também a dificuldade em estudar os aspectos expressivos da linguagem por causa do rigor científico no tratamento de elementos da expressão do sujeito falante, subjetividade da palavra, desvio da norma padrão, conotações da língua e outros aspectos subjetivos da linguagem. Por esse motivo, ela trata apenas duas espécies de palavras: as gramaticais e as lexicais.
Primeiramente, apresentamos as palavras gramaticais cuja função está relacionada ao ato enunciativo para a organização do discurso, isto é, a composição do enunciado. Essas formas linguisticas servem para: 1) relacionar o enunciado com o contexto, ou seja, com a situação de enunciação demarcando o lugar do sujeito no tempo e no espaço como exemplo temos os dêiticos e suas variantes (eu, tu, ele, aqui aí, agora, etc.), bem como os pronomes possessivos e demonstrativos ligados à 1º e à 2ª pessoas do discurso, etc.; 2) substituir algum elemento do discurso, como exemplo dos anafóricos; 3) atualizar nomes como os artigos, pronomes adjetivos e numerais; 4) quantificar e intensificar, como exemplo dos numerais, pronomes quantitativos e advérbios quantitativos; 5) associar palavras no sintagma (preposições) e nas orações (anafóricos, conjunções) 6) e estabelecer coesão, como exemplo dos anafóricos e das conjunções, etc. (MARTINS, 2000).
De acordo com a autora, as palavras gramaticais podem perder seu valor gramatical, em algumas funções, tornando-se elementos de expressão, ou ainda, um valor nocional, assumindo a função de palavras lexicais. Igualmente, acontece com essas últimas, sendo gramaticalizadas em certos empregos da língua. Entre as palavras gramaticais empregadas com valor de realce temos advérbios, como cá, lá, aqui que destacam as formas pronominais. (MARTINS, 2000). Outro exemplo é o processo de nominalização, no qual palavras corriqueiras tornam-se palavras com valor lexical de cunho afetivo como o pronome “eu” empregado com função de substantivo, uma vez que essa posição confere à palavra personalidade.
A mudança de posição de um vocábulo no interior de um enunciado o atribui novo valor semântico porque os pronomes são empregados como referentes, ou seja, eles retomam outros vocábulos no enunciado. Segundo Kock (2006), os referentes possuem uma função discursiva, e como tais, são associados ao contexto, isto é, dependem de fatores extralinguísticos para obterem sentido. Assim sendo, a nominalização de um vocábulo como o pronome “eu” altera a maneira como o interlocutor apreende essa palavra, e por sua vez, como constrói sentidos para o enunciado.
Também é citado por Martins (2000), o caso do “não” substantivado que pode substituir um substantivo com valor de recusa, de negação, etc. O uso do pronome relativo “cujo” substantivado o transporta da língua culta para a língua popular em virtude do tom pejorativo que assume esse vocábulo. Ilustremos com os seguintes exemplos: “O dito-cujo disse que viria, e não veio!” e “O cujo ainda não foi preso”. Nesses exemplos, o vocábulo “cujo” refere-se a um sujeito qualquer, isto é, um sujeito que não se quer identificar no enunciado.
Essa autora destaca ainda o valor depreciativo que os pronomes neutros (tudo,
isto, aquilo) relacionados a pessoas carregam para os enunciados bem como o caráter
enaltecedor que essas mesmas formas adquirem segundo o contexto, no qual, são empregadas pelo sujeito falante. Temos ainda os artigos e os pronomes adjetivos que podem apreender o sentido de um modificador substantivo, etc. Em suma, essas formas gramaticais assumem na língua viva muitos valores expressivos, isto é, muitos tons, entonações coexistindo dois sistemas da língua: um expressivo e outro gramatical, afirma Martins (2000).
Essa mesma autora define as palavras lexicais ou lexicográficas como vocábulos que possuem significação extralinguística, pois, referem-se a algo fora da língua, isto é, algo do mundo, do social. Essas formas discursivas são inumeráveis, pois, com o passar do tempo novas formas aparecem e outras desaparecem, ou ainda, são emprestadas a outras línguas renovando, sempre, o léxico de uma língua.
De acordo com Martins (2000, p. 77), “[...] as palavras lexicais não entram no discurso apenas com o seu valor nocional, mas são investidas de uma função sintática e têm de ser acompanhadas de gramemas [...]”. Nesse aspecto, o léxico de uma língua é dinâmico, tendo significados moveis que se desenvolvem a partir de um significado central, estável e fixo gerando outros significados derivados uma vez que a língua permite, continuamente, a criação de novas palavras. No geral, as palavras desaparecem após o seu uso concreto e momentâneo, entretanto, quando o novo sentido de uma palavra representa uma expressão mais ampla, esse pode introduzir-se no vocábulo tornando-se essencial para um determinado grupo social, ou toda uma comunidade linguística.
Também Martins (2000) estabelece, ancorada em Slama-Cazucu (1970), uma distinção entre o significado e o sentido. O significado é a palavra que pertence ao léxico da língua, ou seja, é o próprio sinal, o abstrato, a noção da palavra, ou ainda, como na teoria saussuriana é o significante, a noção individual de um vocábulo em uma língua. Essa noção se torna um sentido específico quando um falante lhe atribui significado em uma situação real de interlocução, ou seja, no processo de interação verbal.
Nessa dimensão, o sentido é gerado apenas dentro da realidade da língua, pois, é o uso da linguagem que possibilita ao falante atualizar os significados das palavras em conformidade com suas necessidades comunicacionais. O sentido é algo complexo determinado por fatores subjetivos de cada sujeito e de cada enunciação, pois, ele envolve não somente a expressão individual, mas também o contexto e o social (MARTINS, 2000). Em outros termos, as palavras expressam a realidade concreta da língua viva, assumindo diferentes conotações em conformidade com a situação comunicacional, na qual forem enunciadas.
Outro aspecto interessante tratado pela referida autora são as tonalidades
emotivas das palavras. Segundo a referida autora, esse tom pode ser inerente ao
específico, sendo percebida pela entonação que, por sua vez, é demarcada por aspas, grifos, maiúsculas, tipos de expressões, etc. Existem diferentes tipos de tonalidades das palavras como, por exemplo: 1) palavras de significado afetivo cujo lexema expressa um sentimento, um estado emocional como “amor”, “medo”, “tristeza”, “alegria”, “raiva”, “magoa”, etc., ou ainda, os adjetivos caracterizam emocionalmente o sujeito falante; 2) palavras que exprimem julgamento do falante em relação aos seres e coisas do mundo como “bonito”, “feio”, “inteligente”, “estúpido”, “delicado”, “grosseiro”, etc.; 3) elementos de avaliação que dizem respeito a significados complexos, nos quais, percebe-se a “coexistência entre um substantivo ou um verbo mais um valor adjetivo ou adverbial” (MARTINS, 2000), nesse caso, é a ideia de algo que penetra na palavra como, por exemplo, “casebre” passa a ideia de “casinha”, “pobreza”, “humildade”; outros exemplos de palavras avaliativas são: “ralé”, “cafundó”, “pança”, etc.; 4) sentido avaliativo relacionado a afixo, nesse caso, as palavras recebem um lexema como acréscimo que lhes atribui novo valor a exemplo de “gente” e “povo” que podem receber novos tons segundo o contexto, tonando-se “gentinha”, “gentalha”, “povão”, “povinho”, etc. Também podemos citar as palavras evocativas (estrangeirismos, indigenismos, arcaísmos, regionalismos e gírias) e as linguagens
figuradas (metáfora, metonímia e sinédoque) como formas de expressividade da língua.
Destacamos que os aspectos gramaticais e lexicais como apresentados por Martins (2000) são fundamentais para o estudo da língua em uso, porém, a autora se detém a observação do léxico ainda em uma perspectiva estilística da língua, e não na perspectiva da enunciação proposta pelos estudiosos bakhtinianos. Nesse aspecto, é importante tratar esses aspectos de maneira contextualizada, pois a situação de comunicação é essencial para a compreensão dos sentidos atribuídos a uma palavra.
A autora trata ainda da combinação de diferentes locutores em um mesmo enunciado como uma forma de expressividade do falante, mas abordaremos isso mais adiante na seção o discurso de outrem, pois esse aspecto incide os tipos de discurso –
discurso direto, discurso indireto, discurso indireto livre, etc.
Explicitamos a seguir os outros três aspectos – alternância dos sujeitos do discurso, conclusibilidade e valoração apreciativa – que caracterizam os gêneros