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MITOCHONDRIAL FUNCTION

Benzedeiras/Rezadeiras – Em Marudá encontramos realizando uma medicina popular, com forte apelo religioso 04 mulheres, que além do ofício de parteiras e erveiras também se “sentiram” escolhidas para benzer e rezar quem as procurasse, “do mesmo jeito que minha mãe fazia”, enfatizaram.

Essas erveiras/benzedeiras entrevistadas, relataram que nunca participaram do Erva Vida, mas conhecem o trabalho do grupo e o recomendam para as pessoas que recorrendo aos seus saberes são diagnosticadas pelas rezadeiras como portadoras de “apenas doenças naturais”. Foi constatado que a relação de plantas medicinais indicadas ou utilizadas pelas rezadeiras guarda uma semelhança muito estreita com aquelas utilizadas no Erva Vida.

Algumas características destas rezadeiras chamam a atenção com destaque para o fato de que, apesar de seus maridos terem sido pescadores e elas terem praticado, ao lado deles, atividades consideradas por Simoniam (2002) como típicas do ofício, que são àquelas ações realizadas “em terra”, elas não aceitam serem

chamadas de pescadoras nem de erveiras, em especial, as duas que ainda executam a função de benzedeira. Essas 04 mulheres gozam do respeito e admiração do grupo Erva Vida, cujas componentes recorrem aos serviços de benzeção dessas especialistas tradicionais.

Nas entrevistas com as benzedeiras foi observado que na ritualística do atendimento etnomédico, elas primeiramente fazem uma anamnese centrada no histórico dos sinais e sintomas apresentados e referidos, inquirem sobre a relação familiar, pessoal e a satisfação com o trabalho, fazendo uma varredura holística, buscando identificar a causa, ou causas, para então diagnosticar se a doença é natural ou se é resultante de interferências do sobrenatural. Dor de cabeça, por exemplo, pode ter causa natural ou não. Para a elucidação diagnóstica as informações prestadas pelo paciente e/ou acompanhante são vitais para a benzedeira

Faço o que aprendi com meus antepassados, usando a fé nas rezas, nas ervas e também a intuição que os guias espirituais me dão. Se „tá com dor de cabeça, pergunto logo se tem problema de vista ou pegou chuva ou comeu demais, ai sei logo que é problema natural, benzo e ensino meus chás ou mando pro Erva Vida ou procurar médico. Agora se tem tristeza, mofineza... vejo logo que é encosto ou mau olhado..., crendo que o bem vence o mal, faço a benzeção, a reza, os chás e os banhos..., nos dias certos, nas horas certas, com as ervas certas... acompanho até a dor desaparecer, a esperteza da pessoa voltar e desfazer a força da malvadeza (D. BENZEDEIRA, 2011)

A resolução da problemática apresentada, assim como a presença de toda uma representação simbólica presente no processo “saúde/doença”, está ligada à forma de ver o mundo e se relacionar com ele, conforme citação da antropóloga Denize Adrião (2011).

A ação das benzedeiras conflui para as causas de adoecimento em que a ação do sobrenatural sobrepõe-se ao natural e, conforme o observado em Marudá, as benzedeiras quando avaliam que a problemática, conforme referem “não é de minha alçada”, encaminham para quem tem poder de resolutividade. Duas das benzedeiras se dizem especialistas, Dona D. de 87 anos, se intitula especialista em Jucá (Caesalpinia ferrea M), a quem considera um remédio milagroso, produz garrafadas e “merthiolate” com a infusão das favas deste vegetal e os comercializa na sua residência, local onde concedeu entrevista. A outra benzedeira especialista é Dona S. que refere dar solução a todas as seqüelas motoras de Acidente Vascular

Cerebral – AVC, como um macerado para “fumentação‟ que faz com 03 ervas, cuja identidade se constitui segredo “profissional” uma vez que insiste em não revelar as plantas medicinais que utiliza.

Foto 10 Dona D. benzedeira e especialista em Caesalpinia férrea M. “Jucá”.

Mal olhado, quebranto, espinhela caída, “desmentidura”, "cobreiro”, “isipla” e panemice re as causas mais usuais, entre os que procuram as benzedeiras em Marudá.

Com relação à Panema, também chamada Panemice, as benzedeiras entrevistadas fizeram referência à incidência mais elevada de casos em Marudá, em pescadores do sexo masculino, destacando, entretanto estas especialistas profissionais, que a Panemice é entre as etnodoenças uma das mais fáceis de curar, sendo todos os casos, neutralizados com simples banhos de determinadas ervas como: comigo ninguém pode, manjerona, vindica, malva rosa, e defumações com alho e/ou pimenta, ambos, banhos e defumação, por sete dias.

Na comunidade de Marudá, a crença sobre a panemice permeia a vida privada e coletiva da comunidade, e está intimamente ligada às técnicas da pesca artesanal. Assim sendo, a vítima da panema além do pescador pode ser um de seus objetos de trabalho, que são tidos como “atingidos” por idêntica força negativa e incapacitante que “acertou” o pescador.

A definição de panema no linguajar do caboclo da Amazônia tem o significado de “má sorte”, “infelicidade”, incapacidade de agir ou reagir. As causas da panemice são reconhecidas pelos pescadores e na medida em que podem, as evitam. Um pescador, por exemplo, com repetidos insucessos em seu labor, não os credita a causas naturais, mas acredita que ele próprio ou um de seus instrumentos de trabalho como a rede, a linha ou o anzol, estejam empanemados. (GALVÃO, 1976)

Há toda uma ritualística preservada para a feitura dos banhos prescritos para eliminar a panema: as ervas são coletadas cedo da manhã e colocadas para ferver antes das seis horas da tarde, a seguir são postas para “serenar” (em bacias de alumínio que ficam expostas ao sereno da noite) o que, segundo a benzedeira, garante a “energização”, o "poder” do banho. Dependendo do grau da panemice, o tratamento dura 03 ou 07 dias, informação que se identifica com o que foi observado por Galvão (1976).

Com relação ao “agente etiológico” da panemice, em comunidades pesqueiras, como é a presentemente estudada, os mais referidos pelas benzedeiras são:

- o toque nos utensílios da pesca por uma mulher grávida ou menstruada ou - atirar ossos ou espinhas de peixe no quintal ao alcance de animais domésticos.

Essas mesmas causas foram identificadas e referidas por Galvão (1976) em estudo semelhante realizado no baixo Amazonas.

Herbert Benson (1980) fazendo uma reflexão sobre a etnomedicina e a moderna medicina ocidental, com base na postura desses especialistas tradicionais, refere que

na medicina primitiva as pessoas eram tratadas de forma integral, indivíduos totais, sem fragmentação, mas as terapias “novas e científicas” pecam e minimizam suas vantagens devido compartimentalizar e especializar a abordagem da doença, desprezando o fato de o ser humano ser uno, integrado em corpo e mente (Benson, 1980)

A relação “médico-paciente” centrada no doente e não na doença e mais, que vê e cuida do doente de uma forma total, sem reducionismo é perceptível “a olho nu”

na postura das benzedeiras e estampa a diferença entre a atitude do médico formado na academia, totalmente desconectado com a questão social que permeia todo o processo, conforme refere Rosen (1979) e a daqueles que são forjados no conhecimento da cultura, saberes tradicionais e populares do local.

Essa visão holística sobre o humano que está necessitando de assistência à saúde, torna-se o grande divisor quando é feito o comparativo entre as abordagens realizadas pelo PSF e pela rezadeira, considerando que ambos, agente comunitário de saúde e rezadeira são partes integrantes da mesma comunidade. Entre as erveiras do Erva Vida ouvimos declarações que sintetizam como está ocorrendo o relacionamento entre os sujeitos sociais

O agente do PSF no início conversava, queria saber da gente e das doenças que cada um tinha, ensinava e na outra semana estava de volta querendo saber como a gente tava, se alguém adoecia, ele chamava a enfermeira, marcava consulta com o médico, depois foi rareando as visitas, já passava e nem entrava em casa e hoje, pode perguntar aqui no Espaço pra qualquer uma e tu vai ver que ninguém nem conhece mais quem é o ACS de tanto tempo que não aparece (M. e N. ERVEIRAS/2010)