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4. EL MITO DE CASANDRA

4.3 El mito de Casandra en los cantautores

Porto do Pará, sábado, 24 de junho de 1911. É intensa a movimentação de embarcações no mais importante cais exportador da borracha brasileira169. Aníbal Amorim170 (1917) relata em seu livro Viagens pelo Brasil171, o encantamento e a

surpresa que lhe causou sua chegada à Belém em um dos vapores do Lloyde

Brasileiro, no ano de 1909:

167 NORA, Pierre. Entre memória e história: a problemática dos lugares. In: Projeto História. Revista do Programa de Pós-Graduação de História da PUC-SP. Nº 10 (1993), p. 7-28.

168

KOSSOY, Boris. Fotografia & História. São Paulo: Ateliê Editorial, 2001. p. 28.

169“Em 1907, os registros oficiais computavam um total de 25.731 passageiros e 1.789 navios ‘barra afora’, enquanto, para o interior, o movimento total de embarcações era de 4.884 entradas e saídas”. Cf. GERODETTI, João Emílio; CORNEJO, Carlos. Navios e Portos do Brasil: nos cartões-postais e álbuns de lembranças. São Paulo: Solaris Edições Culturais, 2006. p. 28.

170 Aníbal Amorim (1876-1936). General do Exército Brasileiro, foi membro da Sociedade de Geografia do Rio de Janeiro e sócio correspondente do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia.

171 AMORIM, Aníbal. Viagens pelo Brasil. Com oitenta gravuras. Do Rio ao Acre. Aspectos da Amazônia. Do Rio ao Mato Grosso. Rio de Janeiro: Livraria Garnier, 1917.

Meio-dia. Entramos na Baía do Guajará, ou melhor, em pleno estuário do Tocantins, a cuja margem direita repousa a grande e formosa capital paraense. Uma hora da tarde. O vapor entra garboso nas águas da baía. Na orla do cais, um número incontável de navios estrangeiros e brasileiros. Esparsos, aqui e ali, os gaiolas com suas chaminés coroadas de fumo. Uns acabam de chegar do Acre e do Amazonas, carregados de borracha, cacau e castanha; outros dirigem-se para essas mesmas paragens com mercadorias que deverão abastecer os remotos barracões das margens do Tocantins, do Xingú, do Tapajós, do Madeira, do Purus, do Solimões e do Juruá.

Acho-me em terra. Na vizinhança do porto, o intenso movimento dos vapores que chegam e saem, uns para o interior, outros para a Europa e a América do Norte. Ao desembarcar visito a bela Avenida João Alfredo, com suas casas de modas, armazéns, cafés e confeitarias bem montadas.

Percorrendo a linha do cais, onde se levantam os grandes trapiches das casas armadoras, vejo o Parque Afonso Pena172, abundantemente

arborizado, e o Palácio do Governo. A cidade divide-se em duas zonas: a litorânea, que á antiga no seu aspecto geral, e a que fica a oeste, a cidade nova, com as grandes edificações modernas e avenidas amplas e bonitas. Aqui vejo a grande Praça da República. É soberba. Perto, destaca-se o Theatro da Paz, um dos primeiros do Brasil. Tomo a direção da Avenida Nazaré. Percorro-a de extremo a extremo. Possui uma perspectiva maravilhosa. Ampla, extensíssima e arborizada com mangueiras enormes. É uma das mais belas vias públicas que meus olhos já viram173.

Em meio ao burburinho no recém-inaugurado cais174, o paquete S.S. Minas

Geraes desata amarras em direção à Nova York. Em sua terceira escala, desde a

partida do Rio de Janeiro, tendo já aportado em Salvador e Recife175, o vapor do Lloyd

Brasileiro recebeu exatos quatorze passageiros. Um grupo diversificado, composto

por comerciantes brasileiros, seus familiares e serviçais, dândis da borracha, e alguns estrangeiros. Dentre estes, particularmente três chamam a atenção.

Bruno Max Burkhardt e Maria Júlia embarcavam rumo à Europa, não sem antes passar pela América do Norte. O fotógrafo alemão acompanhado de sua

172 Atual Praça D. Pedro II.

173 AMORIM, 1917 apud GERODETTI; João Emílio; CORNEJO, Carlos. Navios e Portos do Brasil: nos

cartões-postais e álbuns de lembranças. São Paulo: Solaris Edições Culturais, 2006. p. 29.

174 O Porto de Belém teve suas obras iniciadas em 13 de janeiro de 1908 e seu primeiro trecho inaugurado a 2 de outubro de 1909, sob a responsabilidade do engenheiro Parcival Farquar e da Companhia Port of Pará.

175“…faziam escala em Belém os paquetes transatlânticos, que iam do Rio de Janeiro a Nova Yorque, com escalas em Salvador, Recife e Barbados, serviço realizado pelos vapores Goyaz, São Paulo, Minas Geraes, Rio de Janeiro, Ceará, Acre e Pará, esse último dotado de suntuosos camarotes, salão de jantar, salão de música e belas escadarias interiores”. GERODETTI, João Emílio; CORNEJO, Carlos Op. cit., p. 28.

esposa, dona de casa pernambucana, ele contando na época com quarenta e oito anos e ela com seus exatos quarenta, ocupavam respectivamente os números 10 e 11 da List or Manifest of Alien Passangers for the United176, meticulosamente preenchida e constante às páginas 103 e 104 do Manifesto do S.S. Minas Geraes. O terceiro personagem, que faria companhia ao casal durante seu trajeto à Nova York, era o italiano Filinto Santoro177. O arquiteto deixava Belém logo após a inauguração de mais uma de suas tantas obras marcantes na cidade, o Mercado Renascença, hoje de São Braz, acontecida em 21 de maio de 1911. Um olhar atento identifica o nome do construtor ocupando o número 9 da referida lista178.

Após doze dias de viagem, a 6 de julho de 1911, os noventa e nove passageiros provenientes do Brasil no Minas Geraes adentram no Porto de Nova York (Ellis Island)179. Max e Maria Júlia, que haviam informado no referido Manifesto como destino final um hotel naquela cidade, ao que se pode constatar pouco tempo permaneceram na América pois, a 29 de julho do mesmo ano, já se encontram “a bordo em viagem já perto da barra de Nova York” com destino à Londres, no President

Lincoln (Figura 30). Quanto ao itinerário de viagem do casal na Europa, após aportar

em Londres rumo à Alemanha, nada se pode afirmar embora acredite-se que, como era comum na época, tenham desembarcado no porto de Hamburgo. Fato é que, dois meses depois, a 15 de setembro do mesmo ano, Max envia correspondência já a partir de Dresden (Figura 31).

176 ELLIS ISLAND NATIONAL MUSEUM OF IMMIGRATION. The Statue of Liberty – Ellis Island Fundation, inc. New York.

177 Santoro foi responsável também pela construção, em Belém, do então Palácio do Dr. Augusto Montenegro, hoje Museu da Universidade Federal do Pará, do Colégio Gentil Bittencourt e da sede do jornal A Província do Pará, edifício onde atualmente funciona o Instituto de Educação do Pará – IEP. 178 No site da Ellis Island Fundattion, Inc., o nome de Filinto Santoro não é possível ser identificado por completo, acreditamos que em função das dificuldades devido a listagem de passageiros no Manifesto do S.S. Minas Geraes ser manuscrita. No referido site apenas o sobrenome Santoro está registrado e o nome aparece “Fil...to”. Diante das outras características do passageiro e mesmo de seu nome tornar- se claro, a partir de prévio conhecimento, podemos assegurar que o arquiteto italiano deixava Belém logo após a inauguração do antigo Mercado Renascença. Cabe ainda chamar a atenção ao fato da grafia do nome do arquiteto italiano apresentar duas formas: na maior parte das vezes aparece como FILINTO, embora seja também bastante comum encontra-lo como FELINTO. Acerca da atuação de Filinto Santoro em Belém, consultar: DERENJI, Jussara. Arquitetura Eclética no Pará no período correspondente ao ciclo econômico da borracha: 1870-1912. In: FABRIS, Annateresa (org.). Ecletismo na Arquitetura Brasileira. São Paulo: Nobel: EDUSP, 1987, p. 146-175.

179 ELLIS ISLAND NATIONAL MUSEUM OF IMMIGRATION. The Statue of Liberty – Ellis Island

Figura 30: Cartão postal enviado à Arthur Frazão pelo casal Max e Maria Júlia Burkardt, escrito às

duas horas da tarde do dia 29 de julho de 1911, a bordo do President Lincoln e endereçado a Photographia Allemã, rua João Alfredo 99, Pará. E.U. do Brasil180.

Fonte: “Álbum da Alemanha”. Arquivo: ACRF.

Bruno Max Burhardt181 seria mais um de uma plêiade de fotógrafos estrangeiros, nomeadamente alemães, que chegou ao Brasil aos finais do século XIX e que, durante esta viagem, manteve regular correspondência via correio, através do envio de cartões-postais à Belém. Seu interlocutor, o Sr. Arthur Frazão, à época com a idade de vinte anos, com ele trabalhava na Photographia Allemã, estabelecimento de sua propriedade, situado à Rua João Alfredo, 99. Antes de sua saída de Belém, como era de praxe, Burkhardt publica nota na coluna A Pedidos, do jornal Estado do

Pará, onde comunica aos “amigos e fregueses” sua ausência da cidade e informa que o Sr. Arthur Frazão assumiria, a partir de então, a gerência da Photographia Allemã. A nota, redigida por Max no dia de sua viagem e que sai publicada no periódico dois dias após o seu embarque182, reitera a confiança e o apreço que perdurava entre os dois amigos:

180“Do (sic) bordo em viagem já perto da barra de New-York. Muitas lembranças a todos. Até Londres. Mª Julia e B. Max Burkhardt 29/VII/II 2h. da tarde”.

181 Cabe destacar que, em sua totalidade, as biografias de Arthur Frazão consultados para esse trabalho, apresentam o alemão B. Max Buckhart como pintor, quando na verdade tratava-se de um experiente fotógrafo, dono da Photographia Allemã em Belém e com estúdios e atuação em várias capitais do norte e nordeste brasileiros.

182 Ao que se pode apreender, essa seria mais uma dentre as tantas partidas e retornos de Burkhardt à Belém, onde é possível encontrar, na imprensa local, registros de sua presença até pelo menos o ano de 1917.

Tendo de retirar-me temporariamente para os Estados Unidos e Europa, deixo na gerência de minha casa “Photographia Allemã’, o meu antigo empregado, sr. Arthur Frazão e como bastante procurador, o sr. Emílio Penner.

Ao mesmo tempo, aproveito a opportunidade para despedir-me de todos os meus bons amigos e fregueses, offerecendo os meus limitados préstimos nos lugares que tenho de visitar. Pará, 24 de junho de 1911 – B. Max Burkhardt183.

Figura 31: Cartão postal enviado à Arthur Frazão pelo casal Max e Maria Júlia Burkardt, a partir de

Dresden, escrito e postado no mesmo 15 de setembro de 1911 e endereçado a Photographia Allemã, rua João Alfredo 99, Pará. E.U. do Brasil184.

Fonte: Do “Álbum da Alemanha”. Arquivo: ACRF.

Essa série de correspondências com o casal Burkhardt e com outros interlocutores, constituída exclusivamente de cartões-postais, além de fotografias, recortes de jornal, cartões natalinos e outras “memórias de papel”, principalmente relacionadas com o período em que passou em Dresden, compõem o “Álbum da

183 Estado do Pará. Belém, 26 jun. 1911. p. 3. Mantida grafia original.

184“Amigo Arthur. Desde 29 de Julho, sahida de New York, estou sem noticias suas, apenas ………. , confio (?) em …….., que não seja mais novidade, visto também não ter ……… Estivemos 14 dias em Berlin, alguns dias em diversos lugares aqui no Centro e 1 semana em Dresden. Com poucos dias voltaremos a Berlin para ver se encontro passagem para outubro, estão todas ………… há tempo. Estimo que vc e a dist. Família esteja em paz, gozando saúde. Nós vamos bem, graças a Deus. Lembranças e abraços nossos. Maria Julia e B. Max Burkhardt. Dresden, 15/9/11”

Alemanha”185. Em uma antiga brochura com grossas páginas cartonadas, como tantas daquela época, ao longo da vida o pintor e fotógrafo Arthur Frazão selecionou e colecionou meticulosamente suas lembranças. Atualmente sob a cuidadosa guarda de seu filho, Sr. Adolpho Cléodon Ribeiro Frazão e de seu neto, Sr. Arthur Frazão, esse precioso documento, que nos foi gentilmente apresentado e disponibilizado pela família do artista, constitui-se como fonte principal para essa pesquisa. A partir de seus registros, norteadores neste processo, passamos a tentar reconstruir sua trajetória.