Apontando que no capitalismo contemporâneo os mercados financeiros sobrepujam os mercados produtivos (ou, como denominam, a economia real), autores como Mendes (2012), Fumagalli (2009a; 2010a), Gaulejac (2007) e Dardot e Laval (2016) expõem que com a maior imbricação entre as economias real e virtual, as trocas realizadas com a mão-de-obra não se dão apenas em termos de salários, mas já enquanto receitas, ganhos provenientes tanto do comum intercâmbio entre força de trabalho e salários – estes, em si, frutos dos rendimentos do mercado financeiro – quanto dos demais ganhos provenientes da “vida comum”, como os são os provenientes de uma maior abertura concedida ao mercado especulativo e aos rendimentos via taxa de juros. Conforme apontado anteriormente e salientado por Fumagalli (2009b), com o desmantelamento do modelo de welfare state, o mercado financeiro adquire o papel de fonte de uma seguridade social – instável e sem garantias –, anteriormente desenvolvido pelo Estado nacional; um papel, portanto, de biopoder pelo mercado – “a forma atual mais sofisticada do biopoder econômico” (FUMAGALLI, β010a, p.58, tradução nossa). Assim, de acordo com Fumagalli (2009a, p.102, tradução nossa51), as realidades individuais convergem às participações privadas no mercado financeiro “com o objetivo de garantir rendimentos futuros e presentes capazes de lidar e reivindicar serviços sociais, que já não são dispostos de forma gratuita e universal, mas que requerem cada vez mais uma participação individual nos gastos”.
Esta maior imbricação do sistema financeiro enquanto biopoder não se dá apenas no caráter mais formalizado ou evidente da manutenção da vida do indivíduo, aspectos, portanto, relativos aos ganhos do “capital humano”, mas igualmente na conformação da realidade laboral nos espaços de trabalho. Induzidas pelas variações das ações no mercado financeiro, não apenas as constituições, as fusões, os fechamentos e as expansões das empresas se mostram determinados pelo poder das finanças, mas igualmente o andamento da organização do trabalho em seu interior, momentos nos quais os trabalhadores se veem na posição de dinamizar a produtividade para fazer valorizar as mesmas ações.
51 “Parte creciente de los ingresos del trabajo son canalizados en las bolsas de valores con el objetivo de garantizar rendimientos futuros y presentes capaces de hacer frente y reclamar servicios sociales, que ya no son erogados de modo gratuito y universal sino que requieren cada vez más de una participación individual de gasto (workfare)”.
Vale ressaltar que esta problemática de dependência em relação às finanças recai não apenas nos trabalhadores mais alheios às determinações do mercado, mas igualmente aos gestores, aqueles ligados às mudanças das perspectivas produtivas das empresas. Assim, conforme aponta Gaulejac (2007), tornam-se perceptíveis as mudanças de comportamentos dentro das empresas e uma maior cooptação do indivíduo ao funcionamento das finanças, seja por meio da participação da empresa no mercado de ações, seja por meio dos investimentos pessoais que é levado a acolher visando não apenas a manutenção de si em momentos emergenciais, mas uma constância de sua vida por meio deste substituto volátil das políticas públicas. Dardot e Laval (2016), da mesma maneira, expõe o papel do mercado financeiro enquanto determinante das formas de ação no espaço laboral, concedendo ao mesmo o papel de agente disciplinante de todos os atores da empresa, “desde o dirigente até o assalariado de base: todos devem submeter-se ao princípio de accountability, isto é, à necessidade de ‘prestar
contas’ e ser avaliado em função dos resultados obtidos”. Este aspecto é bem tratado à letra de Gaulejac (2007, p.132-133, grifo nosso):
Para evitar que o antagonismo entre o capital e o trabalho não venha a emergir em oposição central, é preciso que os assalariados integrem a lógica financeira como uma necessidade. Daí as múltiplas propostas para os “interessar pelo capital”, a fim de que se tornem “pequenos acionistas”. Por meio desse viés, a lógica financeira é apresentada como um benefício para todos e, portanto, justa. A concorrência é um benefício para o consumidor, os fundos de pensão garantem um complemento essencial para os aposentados, a poupança salarial e os stock-options garantem ao trabalhador uma participação nos lucros da empresa. O indivíduo assalariado- acionista-consumidor-aposentado torna-se, então, pego em conflitos de interesses que ele não chega mais a hierarquizar.
A intermediação do mercado financeiro se torna importante até à complementarização indireta dos ganhos empresariais, concedendo à clássica fórmula de valorização das mercadorias uma complexificação de seu conteúdo a partir de ganhos provenientes não apenas da esfera do consumo, da realização direta das mercadorias, mas de ganhos – já contados nas contas privadas – provenientes da posse de ações. Como expõe Fumagalli (2010a, p.47, tradução nossa52):
No ciclo do capital monetário D-M-D’, isto é, em uma economia monetária de produção, os mercados financeiros têm, efetivamente, uma função na realização indireta da produção. Falamos de realização indireta na medida em que o primeiro canal de realização (o direto) é a aquisição dos bens de consumo, enquanto a emissão
52“En el ciclo del capital monetario D-M-D’, esto es, en una economía monetaria de producción, los mercados financieros tienen, efectivamente, una función en la realización indirecta de la producción. Hablamos de realización indirecta en la medida en que el primer canal de realización (el directo) es la a dquisición de los bienes de consumo, mientras la emisión de acciones, o más en general de títulos financieros, permite a las empresas recobrar la posesión de una cuota de liquidez, ahorrada y no gastada, sobre los mercados finales de salida”.
de ações ou, em geral, de títulos financeiros, permite às empresas recuperar a posse de uma parte da liquidez, poupada e não gasta, sobre os mercados finais de saída. Ademais, importante salientar, conforme atesta Lazzarato (2015) em entrevista, que até mesmo nos aspectos mais comuns da cotidianidade os indivíduos se inserem na imensidão inimaginável do mercado financeiro ou da financeirização da economia, demonstrando que a inserção da população em linhas de crédito e até mesmo a posse de cartões de crédito já a coloca sob uma relação de poder – segundo Lazzarato, uma “relação de poder universal” – na qual todos já fazem parte: desempregados, trabalhadores, aposentados. O autor, assim, atesta a conformação do “homem endividado”, ilustração mais óbvia da inserção e da subjugação do indivíduo ao mercado financeiro.
Através do tratamento concedido à nova esquematização do trabalho por meio de seu controle por parte do mercado financeiro, tem-se que as divisões entre curto e longo prazo no espaço laboral se tornam porosas, indiferentes, muitas vezes perdendo espaço a uma constante busca pelo futuro mais próximo. Junto à reflexão corrente sobre o trabalho e sobre os valores da atividade laboral, passam a ser esquecidos ou deixados de lado os valores que gravitam ao redor do trabalho, como os pertinentes às lutas historicamente delineadas pela classe trabalhadora e aqueles referentes às relações sociais, que se tornam insustentáveis.
Nestes termos, a cultura do “presente constante” e da velocidade do fazer, do saber e do conhecer, ademais do trabalho voltado constantemente aos resultados no mercado bursátil, por suposto, acaba agindo sobremaneira na (de)formação da memória do sujeito contemporâneo, que além de tolhida temporalmente, mostra-se tolhida na questão de apreensão de sua vivência enquanto vivência em coletivo, de constante relacionamento dentro e fora do mercado de trabalho. A estes aspectos inserimos a questão da noopolítica, discutida a seguir.