Mesmo quando tudo pede um pouco mais de calma Até quando o corpo pede um pouco mais de alma Eu sei, a vida não pára! A vida não pára não! Lenine
Os homens e mulheres que transitam pela cidade não são seres desencarnados. Seus corpos estão sempre em cena com suas histórias, marcas, gestos, angústias, projetos, vidas. É na interlocução sempre (in)tensa do corpo de cada um e dos
corpos em comum que esta dimensão ganha visibilidade. Corpos que expressam
identidades, relações de poder, questões éticas, estéticas e políticas complexas e multifacetadas (OLIVEIRA; NUNES, 2005; OLIVEIRA, 2009a). Concordando com David Le Breton (2001, p.4): “os limites do corpo traçam a ordem moral e significante
do mundo. Pensar o corpo é outra maneira de pensar o mundo. O corpo faz hoje a jogada decisiva, torna-se o paradigma fundamental das sociedades contemporâneas”.
Tomando os argumentos de Silva (2001) de que “o corpo se situa na interconexão
entre natureza e cultura”, pretendo aqui abordar os sujeitos do PET que se deslocam
pela cidade de Belo Horizonte, a partir da problematização acerca da corporeidade dos mesmos. Identificar marcas, presenças, sensações e usos dos corpos destes trabalhadores nos seus deslocamentos cotidianos pela cidade é o objetivo desta próxima “parada” da investigação: corpos que mobilizam ações e sensações ao se relacionar com os territórios, com os trajetos, com o transporte coletivo.
Como tratei anteriormente no capítulo que discutiu a metodologia desta pesquisa, a delimitação de quais aspectos seriam investigados acerca da dimensão corporal dos sujeitos não se deu a priori, mas emergiu e foi demandada pela “força da empiria”, ocorrida durante todo o percurso da investigação.
Assim, a presença e a educação dos corpos de homens e mulheres nas relações que ambos travam com seus deslocamentos serão tratadas aqui com base nos seguintes eixos: as sensorialidades vivenciadas e perseguidas nos deslocamentos urbanos; as várias maneiras de se movimentar na cidade; a polissemia e os vários usos da caminhada; a influência da movimentação laboral nas escolhas dos deslocamentos; as práticas realizadas nos tempos do não-trabalho; a experiência do “permanecer” no próprio bairro ou região.
Uma educação urbana dos sentidos: buscando a “quietude” como parceira de viagem
Em relação à postura corporal das pessoas na viagem, observei seis passageiros sentados com a mão à frente, na barra de ferro do assento que lhe fica bem à frente. Já uma mulher marca questões de múltipla escolha a despeito do som residual da trepidação e de todos os movimentos de curva, mas, principalmente, das inúmeras subidas e descidas (umas mais íngremes, outras menos) que compõem o trajeto da linha 3051. Uma pessoa olha pela janela para fora do ônibus. A essa altura do trajeto Cíntia, bastante abatida, conta que “o
ônibus da tarde anda mais devagar que o ônibus da manhã”.
Comenta que se a irmã dela, Flora, estivesse aqui, já estaria “pescando”. Só que é ela mesmo que vai adormecendo aos poucos, à medida que vou deliberadamente restringindo a conversação. Mais ou menos na altura do BH Shopping, Cíntia “cochila”, “adormece”, fica alguns segundos dormindo, acorda de novo. Para adormecer,
acordar e adormecer de novo na altura da Avenida Nossa Senhora do Carmo. Faz calor ao longo do trajeto: o tempo é aberto e com sol.
As janelas estão abertas, mas tem pouca ventilação no interior do ônibus.
O interessante para mim no dia de hoje é poder vivenciar uma “abertura dos meus próprios sentidos” ao estar no interior do veículo, com a prática da observação. Apesar de ninguém parecer perceber ou comentar, há, como já disse, um certo clima de silêncio e
introspecção desde o bairro Havaí [bairro da região Oeste de
Belo Horizonte]. Aos poucos acho que vou “desnaturalizando” minha
presença no veículo, permitindo um certo estranhamento (no sentido antropológico do mesmo) a partir dos meus sentidos,
tanto do ato de andar de ônibus como do veículo em si mesmo. As solas dos pés sentem toda a trepidação moderada e residual que acompanha toda a viagem. Os olhos vêem a roleta tremer discretamente. E passo a ouvir o som do motor desde o bairro Havaí até descermos do ônibus na região da Savassi. (Nota de campo, viagem de Cíntia, 29 de setembro de 2009).
A passagem acima, extraída da nota de campo de uma das viagens de Cíntia, nos aponta duas questões de grande importância para o debate neste capítulo. A primeira delas diz respeito a um dos usos mais corriqueiros no interior dos ônibus durante a observação participante: dormir. Prática que ocorreu tanto por parte dos sujeitos pesquisados (em especial Cíntia e Flora), como por parte dos demais usuários de ônibus. A segunda questão, de certa forma complementar à primeira, trata da profusão de estímulos sensoriais no interior dos veículos de transporte coletivo em Belo Horizonte, mais particularmente os ônibus urbanos. Ventilação, estímulos táteis, sonoros, visuais, olfativos, entre outros co-existem em meio às viagens.
O que em princípio pode parecer um paradoxo é na verdade uma das maiores ambivalências no interior dos ônibus em Belo Horizonte. A prática de dormir – cedendo ao sono ou buscando-o deliberadamente – se dá em meio a uma profusão de estímulos que ora facilitam, ora dificultam/inviabilizam essa possibilidade.
Entre as relações postas também na condução do veículo, temos a relação entre
lentidão da condução do veículo e produção de sensação de sono, como na nota de
campo citada anteriormente, vivenciada por Cíntia e por vários “sujeitos de passagem” ao longo da observação participante. Sensação de cansaço que baliza as escolhas de local de trabalho, bem como as formas de deslocamento. Cansaço mais percebido nas mulheres do que nos homens durante a observação chegando, no caso das primeiras, a se fazer registro de práticas de sono, “cochilos” durante o período da observação participante. Como nesta outra passagem da mesma nota de campo, desta vez referindo-se à viagem de volta para casa de Cíntia, valendo-se novamente da linha 3051 (Savassi – Flávio Marques Lisboa)
Estamos no retorno para a região do Barreiro, em direção ao bairro Flávio Marques Lisboa. Como em parte da ida, tem certo “silêncio” no ônibus, como se as pessoas estivessem no ritmo, “pique” do veículo. O ônibus está agora na Av. Barão Homem de Melo. Entra, agora sim, muito mais gente. O ônibus, ainda assim não está lotado. Dois jovens escoram na parede da área de deficientes. Duas mulheres em dois assentos à nossa frente conversavam também, assim como dois homens em outros dois assentos que, ao que aparenta pelo seu vestuário, são colegas de trabalho da mesma empresa. Tem agora umas quatro ou cinco pessoas com fone de ouvido. O tom das
conversas é muito, muito baixo. Cíntia dorme. Pouco antes, disse que o frio baixou na altura da Avenida Raja Gabáglia.
Cíntia está muito cansada, já havia fechado e aberto os olhos com a cabeça, às vezes encostada na janela, no início da viagem. Agora o sono, neste trecho, é bem mais contínuo. Não falo nada, fico quieto e tento observar o que ocorre no veículo. Também bocejo. Tem um clima no ônibus, como se fosse uma “lomba” [expressão popular para representar cansaço e sensação de torpor] “coletiva”, clima este marcado pelo silêncio, pelo percurso sinuoso e pela lentidão da direção. (Nota de campo, Cíntia , 29 de setembro de 2008)
Outro ponto a ser tratado diz respeito ao sentido da visão, que nas observações guardava relação com o equilíbrio corporal nas viagens. De forma recorrente nas observações, tanto pela falta de iluminação elétrica em alguns veículos, quanto pelo número excessivo de passageiros nos ônibus lotados, a viagem de ônibus nos períodos de maior movimento coincidem com os de menor incidência de luz solar (início da manhã e fim de tarde/início da noite) o que caracteriza uma certa “penumbra” nestas viagens, além da dificuldade de se enxergar o meio externo/paisagens do lado de fora do veículo, devido ao fato deste estar lotado.
O fato de dormir/cochilar pôde ser observado nas viagens de Reinaldo ao utilizar a linha 30 (Estação Diamante-Centro), como na viagem de 15 de setembro de 2008 em que, mesmo tendo o trajeto completo sob luz solar, cerca de sete pessoas estavam dormindo, seja estando de cabeça baixa ou apoiando-a contra a janela, no caso dos assentos próximos a ela.
Cíntia comenta acerca das viagens acompanhadas pelo pesquisador, achando “bacana, legal, divertido” o acompanhamento de pesquisa. Pede desculpas pelas vezes que deu umas “cochiladinhas”, comentando que sua irmã Flora também fazia o mesmo. Explicava que o motivo era o fato de não dormir à noite, e que por isso “cochilava” no ônibus. Sentia pena do pesquisador pelos longos tempos de espera
(...)apesar de que eu fazia você ficar lá esperando o dia inteirinho, naquele condomínio. Eu ficava com dó de você. Que demora demais. Você ficava lá o dia inteirinho.
Sensação de pena que influencia suas próprias táticas de apropriação na sua relação com o trabalho. A pesquisa era um mote para sair mais cedo também, uma