1. INNLEDNING - SKJERVHEIM ANNO 2008
2.1 P ATERNALISMEEKSEMPLET
2.1.2 Min lesning av paternalismeeksemplet
Ao entrevistar os acadêmicos de música, trabalhamos também com a memória, pois ao abordar as questões referentes à relação com a música, inevitavelmente eles revelaram questões pessoais e familiares que foram fundamentais. É fundamental notar como os fatos exteriorizados nas entrevistas estão marcados na memória de tal forma que integram a perspectiva que cada um tem sobre a música. R.E., por exemplo, contou duas experiências marcantes na sua relação com a música: a primeira diz respeito às vivências em família, principalmente com o pai e a existência de uma prática de escuta musical importante; a segunda uma apresentação na igreja, na qual ela se apresentou com sucesso e acabou decidindo se
dedicar ao canto e não aos outros instrumentos que já tinha estudado. Os trechos abaixo mostram esses momentos
A música era uma vivência dentro da minha casa. Porque meu pai ficava ensaiando os dobrados dentro de casa junto com a minha mãe, pegando o tempo, o compasso essas coisas. A gente pequeno, do lado, via isso e tinha essa vivência. Meu pai tinha uma vitrola, e ele tinha discos antigos. Ele colocava todos os filhos ao redor, colocava o disco e deixava a gente ouvindo isso. Não podia conversar no momento que estivesse ouvindo. (R.E., 2017)
Aí em um destes eventos durante o ano de 2012 descobriram que eu cantava. Aí pediram para eu fazer uma participação neste concerto cantando, solando duas músicas. Eu estava tocando violoncelo, me levantei e fui cantar, um evento importante da igreja que fecha o ano. Aí foi praticamente quando eu iniciei, que eu vi o que eu queria. (R.E., 2017)
Essas vivências relevantes com música, tão marcadas na memória, são fontes para avaliações e decisões fundamentais na vida desta entrevistada. R.E., ao avaliar a indústria da música, destaca o fato da importância de uma escuta atenta, semelhante aquela vivenciada em casa. Nesse caso, a experiência ajuda a referenciar sua concepção de música, ou mesmo de educação musical.
Essa coisa da música que não é pelo prazer, mas pelo recurso financeiro, para aquilo que te trás retorno. Eu não acho isso bacana, eu acho que a música devia ser como meu pai fazia na vitrola, você sentar refletir aquilo, ouvir os acordes e achar bacana. (R.E., 2017)
Na mesma linha, a experiência de R.E., no evento de 2012, conforme citação anterior, permitiu a certeza sobre a escolha da graduação em música. Como também demonstra o trecho abaixo:
Em 2012 quando eu cantei neste evento eu já tinha cantado neste evento, para canto, aí saiu o resultado que eu tinha passado eu vi que era realmente o que eu queria. (R.E., 2017)
Desse modo, a escolha pela música, aparece em conjunto com uma experiência significativa. Em suma, é uma decisão que envolve uma reflexão sobre si mesmo em conjunto com o que se vivenciou. Nesse sentido, percebemos que em uma entrevista, ao contar sobre sua relação com a música, há uma seleção de memórias significativas para o sujeito, e essas memórias fazem parte daquilo que a pessoa é, e, portanto, referem-se a sua identidade. De acordo com Pollak (1992), a memória, diferente da história social, é um fenômeno individual, relativamente íntimo da própria pessoa, que está relacionada com suas percepções da realidade. Embora a memória seja também construída com um fenômeno coletivo e social, que apresenta, portanto, flutuações, transformações e mudanças constantes, ela na maioria das vezes exibe marcos e pontos invariáveis. (POLLAK, 1992). Na verdade,
́ como se, numa história de vida individual [...] houvesse elementos irredutíveis, em que o trabalho de solidificação da memória foi tão importante que impossibilitou a ocorrência de mudanças. Em certo sentido, determinado números de elementos tornam-se realidade, passam a fazer parte da própria pessoa, muito embora outros tantos acontecimentos e fatos possam se modificar em função dos interlocutores, ou em função do movimento da fala (POLLAK, 1992, p. 201).
Melhor dizendo, a memória pode ser chamada de individual ou coletiva. É individual, quando os acontecimentos são vividos pessoalmente e, é coletiva, quando os acontecimentos são vividos por uma coletividade que o sujeito sente pertencer. Assim, “são acontecimentos dos quais a pessoa nem sempre participou, mas que, no imaginário, tomaram tamanho relevo que, no fim das contas, é quase impossível que ela consiga saber se participou ou não” (POLLAK, 1992, p. 201). Esse autor afirma que na memória coletiva ocorre uma projeção com o passado que é tão forte que poderia se falar até em uma memória quase herdada. Além dos acontecimentos, a memória é constituída de pessoas e personagens. Cada um deles não precisa necessariamente ter sido sentida pessoalmente, podem originar-se de experiências coletivas, vividas por um grupo da qual a pessoa se sente pertencente. Nesses casos também a memória apresenta fenômenos de projeção e transferência. Pollak (1992) explica que
Esses três critérios, acontecimentos, personagens e lugares, conhecidos direta ou indiretamente, podem obviamente dizer respeito a acontecimentos, personagens e lugares reais, empiricamente fundados em fatos concretos. Mas pode se tratar também da projeção de outros eventos. É o caso, na França, da confusão entre fatos ligados a uma ou outra guerra. A primeira Guerra Mundial deixou marcas muito fortes em certas regiões, por causa do grande número de mortos. Ficou gravada a guerra que foi mais devastadora, e frequentemente os mortos da Segunda Guerra foram assimilados aos da Primeira. Em certas regiões, as duas viraram uma só, quase que uma grande guerra (POLLAK, 1992, p. 202).
Em relação aos acontecimentos e suas relações com as datas gravadas na memória, Pollak (1992) afirma que “em função da experiência de uma pessoa, de sua inscrição na vida pública, as datas da vida privada e da vida pública vão ser ora assimiladas, ora estritamente separadas, ora vão falar no relato ou na bibliografia” (POLLAK, 1992, p.203). Dessa forma, pessoas mais ligadas à família podem ser muito mais precisas em fornecer dados referentes aos acontecimentos da vida familiar – como os nascimentos de parentes –, porém imprecisas em relação às datas ligadas a vida pública. Em campo oposto, quando se entra em contato com uma personagem pública, a vida privada quase que desaparece.
Desse modo, chegamos a uma compreensão de que “a memória é seletiva, nem tudo fica gravado. Nem tudo fica registrado” (POLLAK, 1992, p. 203). Assim, é seletiva na medida em que as preocupações do momento constituem um elemento estruturador. Isso se observa também na memória coletiva, especificamente nas disputas pelas datas comemorativas que vão
ser gravadas na memória do povo, isto é, “Todos sabem que até as datas oficias são fortemente estruturadas do ponto de vista político” (POLLAK, 1992, p. 204). Assim, a memória é um fenômeno construído, um produto de um processo de organização, feito de forma consciente ou não, em função das preocupações pessoais e políticas do momento. De fato, “o que a memória individual grava, recalca, exclui, relembra, é evidentemente o resultado de um verdadeiro trabalho de organização” (POLLAK, 1992, 204).
Nesse sentido, parece haver uma ligação estreita entre memória e identidade, pois possuem elementos comuns, ou seja, estão relacionados à imagem que uma pessoa constrói de si mesma ao longo da vida e também a imagem que ela constrói para aos outros. Para Pollak (1992) há três elementos constituintes da identidade: a compreensão da unidade física (o corpo) e o pertencimento a um grupo; a continuidade dentro do tempo (fisicamente, moralmente e psicologicamente); e o sentimento de coerência e de unidade desses elementos. Pollak (1992) explica que “a memória é um elemento constituinte do sentimento de identidade, tanto individual quanto coletiva” (POLLAK, 1992, p 204). E essa identidade envolve a participação de outros. Se há uma relação entre a memória individual e a memória dos outros, quer dizer que a identidade compreende valores disputados por meio de embates entre vários grupos sociais. Dessa maneira,
se assimilarmos aqui a identidade social à imagem de si, para si e para os outros, há um elemento dessas definições que necessariamente escapa o indivíduo e, por extensão, ao grupo, e este elemento, obviamente, é o Outro. Ninguém pode construir uma auto-imagem isenta de mudança, de negociação, de transformação em função dos outros. A construção da identidade é um fenômeno que se produz em referência aos outros, em referência aos critérios de aceitabilidade, de admissibilidade, de credibilidade, e que se faz por meio de negociação direta com os outros. Vale dizer que memória e identidade podem perfeitamente ser negociadas, e não são fenômenos que devam ser compreendidos como essências de uma pessoa ou grupo (POLLAK, 1992, p. 204).
De certo modo, a entrevista com os acadêmicos aparece como um momento no qual a identidade é demonstrada na medida em que se pergunta sobre a relação com a música, o acesso aos bens culturais e sobre suas experiências musicais. E essa identidade não é fixa, portanto, expressa as condições do momento e não uma condição permanente. Muitos fatos que não apareceram poderão ser lembrados posteriormente ou as opiniões podem mudar de acordo com outras experiências vívidas. Além disso, há certamente uma seleção das memórias compartilhadas, algumas foram expressas e outras provavelmente escondidas.