Solicitamos aos participantes que apontassem as três contribuições mais importantes da escola comum para a vida do filho com deficiência intelectual, como na categoria anterior. Com isso houve mais de uma escolha por participante e em alguns casos até mais que três opções. A tabela a seguir, apresenta a frequência das subcategorias de relatos.
Tabela 8 - Contribuições da escola na vida do filho com deficiência intelectual SUBCATEGORIAS PARTICIPANTES F % Atendimento educacional especializado P1, P2, P3, P4, P6, P7, P8, P9, P10, P13, P14, P16, P17, P18, P19, P20 16 67 Alfabetização P1, P2, P3, P6, P7, P9, P10, P13, P14, P20, P22, P23 12 50 Socialização P3, P4, P5, P7, P11, P13, P14, P15, P19, P20, P21, P24 12 50
Prazer e motivação em estar na escola
P1, P2, P3, P4, P7, P9, P15, P19 8 33
Forma como a escola desenvolve o trabalho P1, P9, P11, P14, P16, P18, P19, P20 8 33 Aprendizagem e desenvolvimento P1, P2, P4, P9, P12, P15, P17 7 29 Ter responsabilidade, disciplina e formar conduta
P8, P15, P19, P22, P23, P24 6 25
Estado geral de saúde P12, P14, P17 3 12,5
Aprender matemática P2, P6, P13 3 12,5
Ter independência P1, P5 2 8
Ter ocupação P19 1 4
Ter lazer P8 1 4
Ter acesso ao Atendimento Educacional Especializado (AEE) prestado pelas escolas foi apontado pela maioria dos participantes (dezesseis ou 67%) como a principal contribuição da escola na vida do filho. Os relatos a seguir, exemplificam essa evidência.
Eles (os professores do AEE) me ajudaram a descobrir as dificuldades que ela (neta) estava encontrando..., que tinha e tem ainda. Nesse período que ela está aqui (escola), eu só tenho que agradecer a equipe que a tem ajudado: os professores, orientadores de ensino especial. O ensino especial (AEE) principalmente. Porque eles (os professores do AEE) têm me ajudado muito. É tudo. Têm me ajudado demais, não tenho nem palavras pra agradecer o que eles têm feito. (chora). Aqui é meu porto seguro, aqui pode
contar com eles pra tudo que eles estão aqui... para me ouvir, me ajudar. Aqui eu me sinto segura sabe, assim como se eu estivesse protegida numa redoma (P18).
Acho que se ele não tivesse esse ensino (AEE) ele não estaria conseguindo passar de ano. É um reforço, igual a português e matemática. O ensino alternativo (AEE) foi muito importante (P2).
O Ensino especializado (AEE) contribuiu também, porque elas (as professoras) são muito atenciosas. Então ela aprendeu muita coisa, está mais calma, mas tranquila, antes era mais agitada, melhorou demais. Quando ela começou não tinha esse desenvolvimento que tem hoje, melhorou com o ensino especializado. No comportamento dela. Ela era muito agitada, depois do ensino especializado, ela está mais tranquila, mais calma, melhorou até em casa na paciência também. Antes era insuportável
(P13).
Os relatos mencionados evidenciam que a família acreditava que o Atendimento Educacional Especializado contribuiu na vida do filho. Elas pareciam percebê-lo como suporte terapêutico e sua concepção é que ele funcionava como reforço às atividades curriculares e auxiliava no comportamento do filho. Como já reportado, esse serviço na rede municipal de ensino de Uberlândia é oferecido aos alunos com necessidades educacionais especiais, como complemento ou apoio ao trabalho da classe comum, incluindo os com deficiência intelectual, e envolve a equipe de profissionais especializados do NADH, conforme apontado anteriormente. Ele é realizado conforme preconiza a política de Educação Especial proposta pelo poder público federal (BRASIL, 2008, 2005) e também de acordo com a Orientação SD nº 01/2005 da SEE/MG (MINAS GERAIS, 2005).
A alfabetização foi outra subcategoria, apontada pelas famílias (doze ou 50%) como uma das principais contribuições da escola para a vida do filho, como ilustram as falas a seguir.
Ele está lendo muito bem as letras do alfabeto, muito bem! Outro dia na rua ele parou no pátio e falou P A R E, rapidinho. Eu disse: nossa, você está esperto, heim! Então ele está lendo muito rápido. Eu atribuo à escola. Eu acho que a escola está indo mais a fundo na alfabetização. (P1).
Eu vi que agora ele sabe escrever, sabe ler...Graças a Deus. (P9).
Fez. Ele aprendeu, ele sabe ler tudo direitinho. Foi na escola que ele aprendeu a ler, escrever... (P20).
A socialização foi indicada por doze participantes (50%) como uma das principais contribuições da escola na vida do filho, conforme ilustram os relatos a seguir.
Porque ele conviveu só na APAE, só com criança igual a ele, só que para ele agora está sendo um mistério, ele está convivendo com outras pessoas, outras crianças. As professoras falam que os meninos o tratam muito bem. Ele está junto na sala convivendo com outras crianças. (P15).
Ela já conversa mais com as pessoas. Ela conversa, numa boa, o jeito dela reagir com as pessoas, porque antes não, ela era fechada demais. Ela não gostava de ninguém, agora não. (P24).
Outras contribuições da escola para a vida do filho com deficiência intelectual foram apontadas com menos frequência pelos familiares e estão relacionadas a seguir, acompanhadas dos relatos que ilustram sua ocorrência.
a) Prazer e motivação do filho em estar na escola.
Ele passou a querer vir mais pra escola, antes ele não gostava de vir e agora ele já toma banho pra vir, fica mais atento ao horário de vir pra escola, e não gosta de faltar de jeito nenhum. (P7).
b) Qualidade da atenção dada ao aluno.
A escola aqui é muito boa. Em primeiro lugar eles dão uma atenção especial pra ele. Trata ele com muito carinho. Pra ele isso é muito bom, pra gente também. (P19).
c) A aprendizagem e o desenvolvimento.
Ele desenvolveu bastante. Se não fosse a escola o que seria dele, ficar em casa sem saber nada. Ele já sabe mexer até no computador. (P2).
d) Ter responsabilidade, disciplina e formar conduta.
Ter educação. É importante isso e, a escola ensinou. Educação, também na forma de se comportar. Pai sempre ensina um pouquinho, mas a escola ajuda. (P23).
e) Preservar o estado geral de saúde mental.
Eu acho, ele era muito agitado, ficava agitado, isso mudou demais. (P14)
f) Aprender matemática.
g) Ter independência.
Ele vem pra escola sozinho. No começo eu vinha trazer e buscar. Foi importante para ele andar sozinho. (P2).
h) Ter ocupação.
A escola ocupa muito. Eu acho que a escola é uma ocupação muito boa, tanto pra ele quanto pra gente que é mãe. (P14).
i) Ter acesso ao lazer
Ajuda a ter um pouco de lazer. (P8).
Apenas um pai entre os 24 familiares respondeu que a escola contribuiu pouco para a vida do filho, apesar de ainda assim considerá-la importante, conforme mostra o relato a seguir.
Não, não acho que fez algo assim que... Alguma coisa assim... Pela dificuldade dele... mas é importante, eu acho que... não é que ela não contribuiu, mas, aquela coisa assim, não sei se é pela dificuldade dele mesmo. (P16).
É possível perceber certa hesitação na fala desse participante, o que parece indicar dúvidas se sua opinião apontando pouca contribuição da escola na vida do filho foi decorrente da limitação dele somente, ou poderia ser atribuída à própria escola. Essa situação de dúvida em que se apresentou esse familiar é passível de compreensão, pois a própria escola comum ainda não tem muita clareza a esse respeito e, nesse sentido, Batista e Mantoan (2007) afirmam que é desafiador para a escola comum conseguir alcançar o objetivo de levar o aluno com deficiência a aprender o conteúdo curricular, atuando na construção do conhecimento acadêmico.