importância?
Quando se discute a situação da mulher nos séculos XVI, XVII, XVIII e XIX no Brasil, faz-se menção à questão do dote e sua importância para a constituição da propriedade no Brasil, como um singular instrumento de inserção da mulher no mundo econômico.
O dote era uma antiga prática herdada dos portugueses: o pai, poderoso escravocrata, senhor de engenho de cana-de-açúcar ou fazenda de café, combinava o casamento de sua filha com o filho de um outro senhor igualmente poderoso. A moça levava consigo um dote, em bens ou dinheiro. Aquela que não possuía “esse atributo” corria o risco de morrer solteira.
Nazzari (2001), apesar de fazer um recorte sobre o tema, delimitando-o à sociedade paulista, afirma que o dote era uma prática comum em todas as regiões do Brasil, diferenciando-se apenas por haver províncias mais ricas que outras e, portanto, a quantia com a qual as mulheres entravam no casamento variava conforme o tamanho da riqueza. O declínio dessa prática esteve condicionado às mudanças econômico-sociais sofridas pela sociedade paulista. Conseqüentemente, o casamento, a família e o papel da mulher sofreram profundas mudanças ao longo do tempo.
O papel da mulher como representante do marido era reconhecido pelas autoridades; na ausência dele era ela que efetuava e recebia pagamentos. As esposas não só representavam seus maridos em ocasionais transações comerciais, como administravam os bens comuns e as propriedades da família
enquanto seus maridos, filhos e genros ausentavam-se anos seguidos. Só adquiriam, entretanto, o status de chefe da casa quando enviuvavam.
Se no século XVII a mulher de elite era uma peça-chave do sistema produtivo, visto que o dote trazia a viabilização material para o início da formação da família, no século XIX, Nazzari (2001) mostra a inversão desse papel: o contexto urbano socialmente mais complexo, como o paulista, formado em sua maioria por pequenos comerciantes, proprietários e profissionais liberais. Sendo assim, os pais não dispunham de recursos como aqueles de seus antepassados para dotar suas filhas, de modo que as moças iam, em boa medida, de mãos abanando para o casamento.
O declínio dessa prática fez a mulher de elite migrar para uma posição secundária no casamento, alterando o sentido do matrimônio, visto que os atrativos de enriquecimento passaram a não ser o que levavam o noivo ao altar. A família extensa e o poder do patriarca foram diminuindo, os filhos precisavam adquirir mais autonomia e sair em busca de seu próprio sustento. Afinal, não havia mais sinais de um bom dote e as transformações econômicas e jurídicas vividas pela sociedade brasileira viriam a enfraquecer o outrora tão absoluto pater
familias.
Nazzari (2001) concorda que foi o século XVIII o período de transição no qual o costume do dote se enfraqueceu bastante, mas ainda era mantido por algumas famílias que podiam se dar o luxo de adornar suas filhas com recursos financeiros suficientes para atrair um casamento.
Outros acontecimentos também contribuíram para o declínio do dote na sociedade brasileira: O advento de pressupostos individualizantes, próprios da sociedade burguesa, que teria levado a uma maior autonomia dos filhos, o declínio da família patriarcal e o predomínio do casamento baseado no amor. Essa, entretanto, é uma conclusão na qual Nazzari (2001) chega, mas é bastante questionável, tendo em vista que, em uma sociedade fortemente senhorial e com vigorosa herança personalista e privada como a brasileira, esses pressupostos
individualizantes não parecem ter encontrado ambiente propício para se desenvolverem plenamente, principalmente no século XIX.
A família patriarcal pode ter-se enfraquecido na prática, mas em termos de estrutura de pensamento ainda teve vida longa, diríamos, até hoje. O dote na sociedade paulista enfraqueceu não pelo avanço do individualismo, mas pelo fortalecimento econômico das famílias cafeeiras, de modo que o casamento passou a ser um meio de somar fortunas, não de arranjar um genro que tocasse o empreendimento da família da noiva ou a enobrecesse com seu sobrenome.
O trabalho de Nazzari (2001) enfatiza a questão econômica, não havendo em muitos momentos um olhar mais aprofundado para certas especificidades da sociedade brasileira. O declínio da família patriarcal é evidente pela cessação de algumas práticas, porém ainda predomina certo sentido masculino, por exemplo, quando algumas famílias, em sua prática de sucessão, excluem a mulher do processo decisório. São inegáveis os avanços da mulher no campo profissional, ao contrário de nossas antepassadas. Não são os pais que escolhem os maridos, mas a mulher continua, em boa parte, sendo peça-chave no sustento das famílias. O dote agora é a cada dia... trabalhando e, muitas vezes, na empresa da família.
Seguindo a trajetória histórica, avançaremos até as revoluções femininas, o feminismo e a conceituação de gênero, compondo dessa forma o eixo da história da luta emancipatória da mulher na sociedade.
4 REVOLUÇÕES FEMININAS: lutas e conquistas da mulher brasileira
Existem as mulheres maltratadas, aviltadas, submetidas. Mas a maioria de nós pode lutar com determinação por uma vida mais plena.
Lya Luft
Sabemos que a cultura do patriarcado fez-se presente em quase todas as partes do mundo e sua decadência, ou melhor, suas transformações ocorreram de distintas formas, assinalando uma intensa transformação na posição ocupada pela mulher seja na família, seja no ambiente profissional.
O movimento feminista no Brasil, as questões relativas ao conceito de gênero e as conseqüentes rupturas que fizeram parte da conquista de alguns direitos civis e trabalhistas por parte da mulher foram pilares de sua inserção cada vez maior no mercado de trabalho.
As mulheres que participaram desta pesquisa são proprietárias das empresas onde trabalham. Muitas vivem, além dos conflitos habituais de uma mulher profissional, conflitos na esfera da ordem familiar, uma vez que sua inserção dá-se por duas pontas: a família e a empresa, exercendo sobre elas e sobre a relação com seus pais uma forte pressão.
Este capítulo serve-nos de base para entender o processo tortuoso e complexo que circunda o “vir a ser” de uma mulher. Faremos uma breve retrospectiva da história dos movimentos feministas no mundo e, em seguida, no Brasil, para chegarmos ao conceito de gênero e seus desdobramentos na relação pai e filha.