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4.1 Miljøvannføring og miljøtiltak

A compreensão do preconceito como um construto científico emergiu apenas ao longo do século XX, relacionado, sobretudo, à questão racial. Até então, e basicamente durante o século XIX, grande parte da comunidade científica norte-americana e européia não se preocupava com a questão, por que se baseava na premissa de que realmente havia diferenças entre as raças, por umas serem inferiores a outras. Naquele momento, falar de preconceito racial não tinha nenhum significado especial (Lima, 2002).

Entretanto, há que se assinalar que, na segunda metade do século XIX, já havia um princípio de sistematização na Europa da ideologia da hierarquização dos homens em razão das pertenças raciais (Machado, 2000).

Autores franceses, como Arthur de Gobineau, que, em 1852 publicou o Ensaio

sobre a desigualdade das daças dumanas, ou Georges Vacher de Lapouge, que, no final

do século escreve, dentre outros títulos, O ariano e o seu papel social (1899), são habitualmente dados como os principais sistematizadores deste pensamento, mesmo que ainda embrionário.

Assim, a ideia de preconceito que expressa, sobretudo, um posicionamento negativo em relação a um grupo social, também pressupõe, como o seu nome já indica, um "prejulgamento negativo sobre os membros de uma raça ou religião ou sobre os ocupantes de qualquer outro setor social” (Jones, 1972). Entretanto, foi a obra seminal de Gordon Allport (1954) The nature of prejudice, na qual a influência de traços de personalidade, emoções e cognições, foi investigada com maior ênfase, é considerada o surgimento do estudo do preconceito.

Segundo Allport (1954-1977-1979), o preconceito pode ser definido como sendo uma “atitude hostil ou prevenida contra uma pessoa que pertence a um grupo, simplesmente porque pertence a este grupo, supondo-se, portanto, que possui as qualidades atribuídas a este grupo” (p. 22).

43 Em outros termos, as generalizações, como processo de construção do preconceito podem ser compreendidas como um sentimento de via única (Fernandes, 2008), que parte do grupo majoritário em direção ao grupo minoritário. Elas são capazes de denegrir a imagem social, intelectual e íntima da vítima prejudicando de forma irreparável a identidade social dos grupos discriminados.

Na primeira metade do século XX, os estudos sobre o preconceito e suas formas de expressões foram férteis. Nomeadamente nos Estados Unidos da América (EUA) e Europa, onde foram desenvolvidas diversas teorias na tentativa de explicar os comportamentos de exclusão e de diferenciações interindividuais e intergrupais (Adorno, 1950-1993; Berkowitz, 1962; Dollard, Doob, Miller, Mowrer & Sears, 1939; Rokeach, 1960).

Entretanto, os estudos sobre o preconceito que segundo Cabecinhas e Amâncio (2004), podem ser compreendidos como uma clivagem entre as representações do grupo de pertença e as representações de outro grupo, ao longo dos anos vem sofrendo alterações consideráveis. A partir da Segunda Guerra Mundial, o conceito de raça, foi progressivamente substituído pelo de grupo étnico, assente em diferenças culturais e comportamentais e não mais em diferenças genotípicas (Cabecinhas, 2004).

A Unesco (1960/1973) recomendou, a partir de então, o abandono da palavra raça no meio científico e a adoção e uso da designação grupo étnico, por considera-la não discriminatória. Desde então, a expressão grupo étnico tem sido utilizada para referir-se aos grupos em situações sociais minoritárias.

O fato, segundo Cabecinhas e Amâncio (2004), da hierarquização racial ter sido banida do discurso público e científico, não exclui comportamentos e percepções racistas, de tal forma que, como a hierarquização racial é contranormativa, as pessoas têm tido o cuidado de velar os seus discursos discriminatórios, deslocando e enfatizando as diferenças culturais.

Apesar de a ideia de classificação humana por raça ser ultrapassada, continua a estruturar a percepção que se tem acerca dos outros e a operar o discurso de exclusão, ainda mais ou menos camuflada, mas, sobretudo, naturalizada, o que significa dizer que o discurso não racializante de grupos humanos constituiu na construção de novas expressões do preconceito.

44 Nesse novo cenário, as pesquisas sobre o preconceito étnico racial, nos EUA, na Europa e no Brasil, têm apresentado resultados que apontam transformações na sua forma de expressão (McConahay & Hough, 1976; McConahay , 1986; Gaertner & Dovidio, 1986; Katz & Hass, 1988; Pettigrew & Meertens, 1995; Brown, 1995; Lerner, 1980; Turra & Venturi, 1995; Lima & Vala, 2004), cujos resultados demonstram que as pessoas cada vez mais se preocupam em não ferir as normas antirracistas, preservando, desse modo, sua autoimagem de pessoa igualitária, ao mesmo tempo em que busca utilizar a diferenciação intergrupal como forma de atender à norma.

Os recentes resultados dos estudos sobre o preconceito nos EUA (Pettigrew & Meertens, 1995) e no Brasil (Turra & Venturi, 1995; Pereira, Cícero; Torres & Almeida, 2003; Fleury & Torres, 2006 – 2007 - 2010), apontam uma clara interação entre modificações ambientais e alterações comportamentais. Alguns fatos podem ter influenciado preponderantemente essas transformações: A Declaração Universal dos Direitos Humanos, que condena há mais de cinqüenta anos todas as formas de discriminação; a declaração condenatória da Unesco sobre as classificações raciais; e a Declaração Universal dos Direitos dos Povos Indígenas da Organização das Nações Unidas, que reconhece e estabelece aos povos indígenas o direito coletivo a terra e ao uso dos recursos naturais e à autodeterminação política.

Apesar de todos estes mecanismos terem influenciado a percepção das pessoas em relação aos comportamentos e expressões preconceituosas, diversos estudos na Europa e nos EUA demonstram que o preconceito tem mudado sua forma de expressão, na maioria das vezes buscando atender à norma do igualitarismo, mas não tem necessariamente diminuído.

De um modo geral, esses estudos indicam uma expressão do preconceito ora mais sutil e, portanto, menos flagrante (Pettigrew & Meertens, 1995), e até cordial (Turra & Venturi, 1995), como no caso brasileiro, cumprindo a norma de não discriminação, gerando uma atitude do politicamente correto.

45 2.2 Níveis de análises

As investigações do fenômeno do preconceito que, ao longo do século XX, foram elaboradas possibilitaram a formulação de teorias que podem ser compreendidas com base em sua cronologia, mas, sobretudo, pelos níveis de análise. Desenvolvidos pela Escola de Genebra, essa perspectiva explica as práticas discriminatórias mediante quatro níveis de análise das teorias psicológicas. O modelo de análise proposto (Doise, 2002) trata as atitudes preconceituosas tendo como referência a compreensão individual, interpessoal, intergrupal e societal.

Em seu artigo - Da psicologia social à psicologia societal-, Doise (2002) alerta que não se trata de uma possibilidade classificatória, mas antes de tudo uma possibilidade de análise. O primeiro nível de análise focaliza o estudo dos processos intraindividuais. “Os modelos utilizados tratam da maneira pelas quais os indivíduos organizam suas experiências com o meio ambiente”, afirma Doise (2002. p. 2).

O segundo nível descreve os processos interindividuais e situacionais. Os indivíduos são considerados como intercambiáveis e são os seus sistemas de interação que fornecem os princípios explicativos típicos das dinâmicas desse nível.

Um terceiro nível leva em conta as diferentes posições que os atores sociais ocupam no tecido das relações sociais, características de uma sociedade, e analisa como suas posições modulam os processos do primeiro e segundo níveis. Segundo Doise (2002), sobretudo, as pesquisas com grupos de status diferentes, dominantes e dominados, majoritários e minoritários, situam-se nesse nível de análise.

Um quarto nível remete aos sistemas de crenças, representações, avaliações e normas sociais. Doise (2002) indica que as produções culturais e ideológicas, características de uma sociedade ou de certos grupos não somente dão significação aos comportamentos dos indivíduos, como também criam ou dão suporte às diferenciações sociais em nome de princípios gerais. Portanto, articulam-se de forma privilegiada os estudos sobre o preconceito com a teoria das representações sociais.

Nesse contexto, o modelo da Escola de Bristol (Tajfel, 1981) surgiu com uma perspectiva no quadro das relações que pretende não apenas ultrapassar, mas, sobretudo, extrapolar os estudos das relações de conflito no nível intraindividual e interindividual para o nível das relações intergrupais. O modelo de Bristol ressalta a importância de

46 compreensão do fenômeno do preconceito como resultante de diferentes posições que os atores sociais ocupam, permeados por um sistema de crenças, representações e normas sociais.

Os resultados preliminares da Escola de Bristol deram conta que uma categorização provocava uma diferenciação que se traduzia em uma avaliação positiva da categoria de pertença em detrimento da outra categoria. Importava saber, nesse sentido se esse processo de categorização também se traduziria em discriminação, isto é, “num comportamento de favoritismo do endogrupo em detrimento do exogrupo” (Tajfel, 1981).

Esse objetivo orientou a construção do paradigma denominado grupo mínimo, que integrava investigações sobre as reais condições de discriminação intergrupo. Os estudos do grupo mínimo consistiam em duas experiências com sujeitos adolescentes – todos do sexo masculino – cuja primeira etapa consistiu em convidar os indivíduos a manifestarem sua preferência estética por um conjunto de quadros que lhes eram apresentados – Klee e Kandinsky. Simultaneamente, um experimentador que supostamente considerava as respostas, na verdade fazia a distribuição aleatória dos dois grupos (Álvaro & Garrido, 2006).

Na segunda etapa, os indivíduos eram convidados a participarem de um processo de tomada de decisão. Todos recebiam um caderno com números que representavam valores em dinheiro, que os sujeitos da pesquisa deveriam repartir entre os membros do próprio grupo e por um membro do outro grupo.

Dentre os resultados obtidos, o mais surpreendente foi o fato de os sujeitos da pesquisa manifestarem clara preferência pelo autofavoritismo relativo, mesmo que isso significasse a perda em valores absolutos. Estes dados confirmam a existência da diferenciação grupal mesmo nas situações em que só existe categorização social sem interação, nem real nem antecipada entre os dois grupos.

Com o intuito de explicar os resultados obtidos, Tajfel (1981) lançou mão do conceito de identidade social, cujos estudos originalmente foram empreendidos por Sherif (1961), na qual a questão da identidade do grupo é colocada em debate. Para Tajfel (1981), a identidade social é “a parcela do autoconceito dum indivíduo que deriva do seu conhecimento da sua pertença a um grupo (ou grupos) social, juntamente com o significado emocional e de valor associado àquela pertença” (p. 291).

47 Quanto maior o sentimento de pertença, maior a tendência a diferenciar-se de maneira favorável ao seu próprio grupo (endogrupo) em detrimento do outro grupo (exogrupo). Assim, a identidade social, esse sentimento de pertença, ocorre segundo Tajfel (1981), com base em três pressupostos:

a) como um continuum indo do comportamento interpessoal ao comportamento intergrupal;

b) a identidade social não é um ato, mas, sobretudo um processo social que se operacionaliza no interior do indivíduo, no espaço das relações individuais e no espaço das relações institucionais; É, portanto, um processo intraindividual, interindividual e intergrupal, em um processo dialético pois o sujeito muda o comportamento com base na sua participação no grupo, mas também muda o grupo à medida que se alteram as concepções do indivíduo;

c) esse processo não ocorre no vazio, mas em um certo contexto histórico em que podem ocorrer fusões ou conflitos e, portanto, pressupõe certa organização social, estrutural e de legitimidade e estabilidade.

Os pressupostos apresentados por Tajfel (1981) possibilitam compreender que a identidade social pode ser compreendida como um sentimento de pertença, portanto, de crença na pertença (Del Prette & Del Prette, 2003). Permitem também inferir que a crença social, assim como o sentimento de pertença, se situa em um continuum, no qual um extremo se situa a crença na mobilidade social e no outro a crença na mudança social (Tajfel, 1981).

Por mudança social, pode-se entender “um movimento social que representa um esforço de um grande número de pessoas para resolver coletivamente um problema sentido como comum” (Tajfel, 1981. p. 277). Por outro lado a mobilidade social é, segundo Tajfel (1981), “o movimento dos indivíduos, famílias e grupos de uma posição social para outra” (p. 277). Assim, as crenças na mobilidade social, abrindo perspectivas de ascensão social individual, estimulam estratégias individualistas de ação (comportamentos interindividuais), ao passo que as crenças na mudança social favoreceriam estratégias coletivas (comportamentos intergrupais). Dessa forma, em ambos os casos, a relação entre crenças e ação é mediada pelos processos de identidade social e diferenciação grupal.

48 As críticas à escola de Bristol foram essencialmente dirigidas ao fato de Turner (1975) ter negligenciado procura da distintividade e a substituído pela motivação, pondo em dúvida a generalização, o que segundo Billing (1976) não pode existir sem a estrutura e a ideologia sociais. Para compreender a emergência de uma identidade social positiva é necessário compreender, segundo o autor, a própria emergência das condições sociais.

Apesar dessa perspectiva crítica, os estudos sobre a identidade social e o sentimento de pertença dão conta de explicar como, em situações de conflito, o grupo (ou o sujeito representante deste grupo) tende a posicionar-se de maneira favorável ao seu próprio grupo (endogrupo), em detrimento do outro grupo (exogrupo).

Nesse sentido, os níveis de análises propostos pela Escola de Genebra procuram a integração e a articulação, considerando a categorização proposta por Tajfel (1981) como um processo psicológico de estruturação do meio. Entretanto, também integra a esse processo a análise no quadro situacional ou estrutural das relações intergrupais, ou seja, integrando a estrutura e ideologia sociais (Billing, 1976).

Inspirado nos estudos sobre as relações de conflito, nos quais a sua evolução é acompanhada por uma evolução das imagens que cada grupo desenvolve de si mesmo e do outro grupo, Doise (2002) mostra que as representações desempenham três tipos de funções cognitivas nas interações entre os grupos: seleção, justificação e antecipação. A seleção traduz a centralidade dos conteúdos relevantes para a relação intergrupal. A justificação revela os conteúdos das representações que a imagem do exogrupo veicula, justificando sua posição no contexto da interação. A antecipação orienta a relação entre os grupos, e a relação entre a realidade objetiva dos grupos e a sua representação subjetiva, posiciona a escola de Genebra na perspectiva de análise psicossociológica. Neste trabalho os principais conceitos desenvolvidos por Moscovici (1978) na teoria das representações sociais são articulados com essa perspectiva.

49 2.3 As novas formas de expressão do preconceito

Se o preconceito como era visto refletiu o contexto histórico e cultural no seu processo de construção e, apesar de alguns autores, na tentativa de distanciar conceitualmente o preconceito do racismo apresentarem uma série de distinções, como a naturalização e a hierarquização (Hirsfield, 1998) dos grupos como as características que mais acentuam essa diferença, importa neste estudo, não delimitar esses campos conceituais, mas na verdade, aproximá-los. Assim, tanto o preconceito quanto o racismo expressam-se em razãoo de contextos e normas sociais, historicamente aportados, evocando e referenciando um conjunto heterogêneo de fenômenos. A memória do passado cumpre, em última instância, funções sociais específicas, justificadas na assimetria das relações entre os grupos.

A liberação das fronteiras nas economias continentais, o chamado ciberespaço, conforme denominado por Levy (2002), o fluxo migratório entre países do denominado terceiro mundo e os países desenvolvidos, conduzem as nações, por meio dos organismos internacionais, a uma tomada de posição em relação aos processos discriminatórios.

Camino, Silva, Machado e Pereira (2001) relatam que, em razão do fato de a discriminação contra grupos minoritários ser publicamente condenada pela lei, parece estar ocorrendo uma mudança nas formas de expressão e conteúdo do preconceito. Observa-se atualmente que, o preconceito pode decorrer não tanto pela atribuição de traços negativos, mas pela negação de traços positivos.

De acordo com Vala, Brito e Lopes (1999), pode-se supor que, atualmente, nos países ocidentais, o preconceito não se expressa pela atribuição de traços negativos a um grupo-alvo, mas pela negação de atributos positivos a ele. Pesquisas realizadas após a segunda Grande Guerra, nos Estados Unidos da América, em países da Europa e no Brasil indicam invariavelmente uma mudança nas formas de expressão do preconceito.

No contexto norte-americano, segundo Lima (2002), a teoria denominada de racismo moderno ou simbólico, formulada com base na escala proposta por McConahay e Hough (1976), no qual o “conceito de racismo moderno reflete a percepção de que os negros estão recebendo mais do que merecem e violando valores importantes para os brancos” (Lima, 2002. p. 43), indicando a ambivalência entre sentimentos negativos e a força da crença na igualdade e na liberdade.

50 Sobre a ambivalência, Katz, Wackenhut e Hass (1988) informam que é uma das características mais acentuada nas relações raciais do branco norte-americano. De um lado, valorizam a democracia e, de outro, valorizam a liberdade pessoal, gerando conflitos de sentimentos.

Em um contexto diferente, Pettigrew e Meertens (1995), também na tentativa de identificar essa nova engenharia nas formas de expressão e conteúdo do preconceito, constataram que o preconceito na Europa se apresenta de duas formas: sutil e flagrante. O preconceito flagrante é constituído de dois fatores: a rejeição de intimidade e a percepção de ameaça econômica (Fleury, 2006, Fleury & Torres, 2010). Já o preconceito sutil apresenta três componentes: “a negação de emoções positivas em relação aos membros do exogrupo, a percepção de que estes não aderem aos valores do trabalho e do sucesso e a acentuação das diferenças culturais” (Fleury, 2006, p. 82).

Com o intuito de testar esse modelo teórico, Pettigrew e Meertens (1995) pesquisaram em quatro países da Europa - Inglaterra, França, Alemanha Ocidental e Holanda - os diferentes grupos de imigrantes que residiam em cada um desses países. Os autores utilizaram questões relativas à política de imigração, direitos dos imigrantes e tolerância.

Combinando a rejeição à intimidade com a expressão emocional, Pettigrew e Meertens (1995) caracterizam três formas de relações raciais: o preconceito flagrante - alta rejeição à intimidade e negação das emoções positivas; o preconceito sutil - pouca rejeição à intimidade e negação de emoções positivas; e o igualitarismo - baixa rejeição à intimidade e expressão de emoções positivas.

Os autores também verificaram que os preconceituosos flagrantes desejavam restringir os direitos dos imigrantes, os não preconceituosos, desejam alargar os direitos e os preconceituosos sutis assumem uma posição intermediária, queriam manter os direitos como estão. No que se refere à política de imigração, os autores verificaram que os preconceituosos flagrantes aprovavam medidas drásticas do tipo mandar embora. Os preconceituosos sutis e flagrantes concordavam com a repatriação, quando havia uma justificação: se o imigrante estivesse ilegal ou tivesse cometido um crime.

Nesse sentido, Pettigrew e Meertens (1995, p. 11) afirmam que “racismo flagrante é a forma tradicional de racismo, podendo ser caracterizado como quente próximo e direto. O racismo sutil é frio, distante e indireto”.

51 Para testar a hipótese de que a discriminação se expressa atualmente não tanto pela atribuição de traços negativos, mas pela não atribuição de traços positivos ao grupo, Vala, Brito e Lopes (1999) compararam o número de traços positivos e negativos atribuídos ao português e aos imigrantes negros, em 435 sujeitos. Foi apresentada aos sujeitos uma lista com oito traços, quatro positivos (alegre, bonito, inteligente e trabalhador) e quatro negativos (desonesto, egoísta, impulsivo e agressivo). Com base nesses traços, pediu-se aos participantes que indicassem aqueles que refletiam a sua opinião sobre um português típico e um negro típico.

Os autores observaram que os portugueses escolheram significativamente mais traços positivos para descreverem a si mesmos do que para configurar os imigrantes negros. Acerca dos traços negativos, Vala, Brito e Lopes (1999) não encontraram diferenças significativas. Os resultados mostram que, em relação aos afetos, houve um favoritismo ao próprio grupo.

Os resultados desses estudos também são coerentes com os pressupostos das novas teorias sobre o fenômeno do preconceito, cujo postulado indica que, após a formulação de leis que proíbem as práticas discriminatórias, o preconceito adquiriu formas ainda mais sutis de expressão (Fleury & Torres, 2007). Trata-se do preconceito aversivo.

O preconceito aversivo (Gaertner e Dovídio, 1986) é sugerido como um produto da assimilação tanto de valores igualitários como da vivência de sentimentos e crenças negativos. Esses sentimentos e crenças negativos, por sua vez, são produtos de dois mecanismos:

a) do contexto racista onde os indivíduos são socializados e;

b) dos mecanismos da categorização e do viés intergrupal, que contribuem para o preconceito (Tajfel, 1981), em que o termo aversivo usado por Gaertner e Dovídio (1986) refere-se à aversão ao próprio preconceito.

Assim, tanto o preconceito simbólico ou moderno, e, atualmente, o preconceito aversivo situam-se em uma posição ambivalente, pois refletem simultaneamente a crença em uma sociedade igualitária e democrática. Se a ambivalência dos sentimentos, crenças, atitudes é uma característica fundante das sociedades modernas, o racismo ambivalente (Katz, Wackenhut & Hass, 1988), também teorizado no contexto da sociedade norte- americana, resulta da hipótese de que quanto maior a preponderância dos valores do

52 individualismo, maior a emergência dos sentimentos negativos, portanto, maior a