Kort tunnel
5. Miljørisiko og anbefalinger
As falas dos colaboradores evidenciam que estes atribuem à educação das pessoas a diversos atores, instituições e espaços. Concebem, portanto, a educação como um processo permanente, que não se restringe ao espaço escolar.
Eu acho que o lar, a família acaba ensinando muito na vida, a igreja em si acaba ensinando muito na vida (Voz de colaborador).
Pai educa bastante, mas a gente não escuta tanto o pai, a mãe (Voz de colaborador).
Tudo o que a gente passa na vida é um momento de aprendizagem, aqui, lá fora (Voz de colaborador).
A música também ensina muito, ela causa sentimento na vida de cada um (Voz de colaborador).
O mundo ensina a viver (Voz de colaborador). No momento que você tem um filho na sua vida, você aprende a ter mais educação com as pessoas, ter mais educação com você mesmo e dar uma educação para uma pessoa (Voz de colaborador). As falas dos colaboradores corroboram a defesa de autores como Mayer (2013, 2011, 2006), Rangel (2009), Onofre (2011) e Ireland (2011a, 2011b) de que a educação não pode ser vista como um processo específico de um momento ou fase da vida, assim como não ocorre apenas em instituições com finalidades educativas. Trata-se, portanto, de um processo intrínseco ao viver e conviver. Por esta razão, as instituições educativas, dentre elas a escola, não podem se fechar em si mesmas considerando-se as únicas responsáveis pela formação das pessoas. É necessário agregar à formação escolar os saberes advindos de outros espaços e vivências, como defende Freire (2011b). Nesse sentido, a educação em espaços de privação e restrição de liberdade:
Terá de reconhecer os saberes e os conhecimentos anteriores dos detentos, sem obrigatoriamente aprová-los. A validação ou pelo menos considerar-se as experiências adquiridas é importante. Todos os detentos têm alguma experiência de vida, às vezes de escola, frequentemente de fracasso, às vezes de revolta, muitas vezes de incompreensão. Têm experiências de sobrevivência, de relações familiares e sociais, de economia informal, de estratégias de abordagens sociais, de fracasso... Não se trata, evidentemente, de valorizar os atos que levaram à condenação, mas de dar outra vez o gosto pela aprendizagem, com conhecimento, ou mesmo compreendendo o passado do aprendiz. Deve-se permitir ao detento distinguir por si próprio (e não mais perante o tribunal – isso já foi feito) suas forças e fraquezas e persuadi-lo que é com essas forças que ele pode construir não apenas um programa de formação qualificador ou não, mas um projeto de vida na prisão e após ela (DE MAEYER, 2011, p.50). Por essas potencialidades de emancipação criadas pela educação ao longo da vida que o referido autor afirma que esta é, por si só, libertadora.
A prática esportiva foi destacada por um dos colaboradores como importante instrumento educativo, em especial no contexto prisional.
O esporte dentro do sistema prisional é quase tudo. Ensina a ser companheiro (Voz de colaborador).
O valor das práticas esportivas é apontado por Rangel (2009, p. 87) em sua investigação sobre a situação da educação nas prisões da América Latina:
La educación deportiva es en este sentido de gran valor y puede contribuir de manera significativa en varios aspectos. Uno de ellos es un espíritu de grupo o comunitario tan necesario en los centros
penitenciarios. Aunque se menciona que no todos los centros cuentan con instructores o professores de educación física. A menudo los centros penitenciarios cuentan con escasso material deportivo y sobre todo con acceso limitado a canchas o espacios deportivos adecuados y más aún los gimnasios bien equipados. Incluso se verificó que algunas veces no se utilizan los espacios disponibles por motivo de seguridad. Es evidente que la promoción de actividades de educación deportiva deben organizarse de manera regular por los centros penitenciários. As questões apontadas pelo autor que dificultam a realização das práticas esportivas são também encontradas na realidade brasileira. No CR apesar de haver uma quadra esportiva, não há professor nem aulas de educação física, pois o período escolar é noturno e, por questão de segurança, a quadra não pode ser aberta à noite. Tem-se, mais uma vez, a educação sendo posta em segundo plano dentro da lógica prisional.
Dentro dessa perspectiva mais abrangente da educação, alguns colaboradores trazem a dimensão da dor, violência e perda como fatores marcantes e importantes no processo educativo.
O quatro quina22 educa (Voz de colaborador). Na verdade não era para educar ele, era para outros não fazer [referindo-se ao espancamento e morte de um ladrão no bairro do traficante] (Voz
de colaborador).
Mão também educa (Voz de colaborador).
Ninguém aprende ganhando (Voz de colaborador). A dificuldade, a situação, as circunstâncias, as pedras que a gente superou acaba criando uma musculatura para suportar um obstáculo cada vez maior (Voz de colaborador).
É importante salientar que esse destaque feito pelos colaboradores revelam suas experiências de vida, marcadas por experiências de violência e sofrimento. Não há dúvida que tais vivências produzem aprendizagem, porém, faz-se necessário refletir que tipos de aprendizagens estão sendo produzidas e adquiridas nessas experiências de vida. Vale lembrar que essa é uma dimensão que tem uma forte influência das religiões cristãs, nas quais a penitência é o recurso utilizado para reprimir condutas indesejadas e é também o princípio dos castigos e punições. Essa é a mesma lógica que alimenta parcela da opinião pública que defende o acirramento das penas com fins de redução da incidência criminal.
22 Segundo os colaboradores quatro quina é um pedaço de madeira, semelhante a um caibro, que é utilizado nas unidades prisionais pelos internos para bater naqueles que infringem as normas de convívio estabelecida pelos próprios presos. Quando o quatro quina é deixado de molho na água e envolvido por pano não deixa marcas aparentes na pessoa espancada, o que dificulta a percepção dos funcionários da unidade da violência cometida.
Neste último exemplo tem-se percebido a ineficiência de imputar sofrimento para conter a criminalidade. O tratamento desumano que as pessoas aprisionadas têm recebido não as têm ensinado a respeitar as regras do convívio social, pelo contrário, elas têm aprendido com isso que se não se organizarem por si próprias (nas cada vez mais organizadas facções criminosas) estarão completamente abandonadas.
Essa proposta de reflexão não consiste em acreditar ou defender, ingenuamente, que é possível uma vida em sociedade sem restrições, perdas e sofrimento. Trata-se, todavia, de analisarmos criticamente as estratégias que dispomos para desencadear os processos de aprendizagem e avaliarmos sua eficácia nos diferentes contextos. Será que os castigos e punições, tal como tem sido aplicados, tem sido eficientes no estabelecimento dos imprescindíveis limites para o convívio social?
Mesmo tendo todos evadidos da escola, nota-se que os colaboradores reconhecem o valor do conhecimento e educação como bens que propiciam melhores condições de vida.
É a educação que te leva a onde você vai morar, é a educação que te faz ser o que você é (Voz de
colaborador).
O importante no ser humano é o conhecimento, se ele não tiver vontade de conhecer, ele nunca vai buscar nada, ele nunca vai crescer na vida (Voz
de colaborador).
Existe, portanto, uma atribuição de significado de potência à educação, ela é entendida por eles como uma ferramenta que pode contribuir para os progressos e conquistas ao longo da vida. Entretanto, é importante notar que esse reconhecimento não é suficiente para mantê-los na escola e as demais dimensões da vida pulsam mais fortes e os levam por outros caminhos.
Nessa mesma perspectiva, Scarfó, Breglia e Frejtman (2011, p.152) afirmam que “a educação amplia as possibilidades genuínas de organização de um projeto de vida próprio, de tal maneira que a inserção econômica, social e cultural na saída da prisão se constitui uma opção real com maiores opções de viabilidade”. A educação escolar nos espaços de privação de liberdade deve então ter como horizonte esta possibilidade: contribuir para a construção de novos projetos de vida.
Os colaboradores apontam que a relação positiva com o conhecimento é uma descoberta difícil, mas que quando acontece propicia uma vivência prazerosa e que contribui para uma expressão mais clara de suas impressões e opiniões sobre a vida e o mundo ao seu redor.
Quando você não entende, você encara como chato, ignora (Voz de colaborador).
Aprendi esses dias com o professor que depois que aquelas palavras que estavam escondidas, que você não entende, que você passa a entender elas, dá gosto de usar (Voz de colaborador).
Você lendo, você se expressa melhor, você encaixa sim palavras melhor e a pessoa que está te ouvindo tem um entendimento nítido do que você está tentando passar (Voz de colaborador). Quando eu consigo entender aquela matéria, quando eu consigo desenrolar aquela conta, ou até mesmo aquela história, ou até mesmo aquilo que o professor tenta passar, aquilo é muito motivante pra mim, aí eu quero mais. Agora quando isso não acontece, você não vê a hora da hora passar (Voz de colaborador).
Vindo ao encontro das falas dos colaboradores Freire (2013b, p.324) reflete: Estudar é mesmo uma tarefa penosa, às vezes até cansativa. Mas, quando o jovem apreende, sente dentro dele, quando ilumina, quando decifra o objeto de estudo, ele explode de alegria. Encontrar o que se busca é mesmo uma delícia. Agora “decoreba”, de que os estudantes falam tanto nesse debate, ah, isso ninguém aguenta. Não é conhecer, não é ensinar, não é aprender e não dá alegria.
Evidencia-se, assim, o desafio posto à educação escolar: tornar-se atraente e prazerosa. Isso não significa reduzi-la à diversão, acreditando que a aprendizagem será possível sem esforço e dedicação. Porém, faz-se necessário que a escola deixe de ser um espaço desinteressante, chato e castrador, para se tornar um espaço de potência, inventivo e criador.
Os colaboradores reconhecem o conhecimento como um saber infinito e apontam a importância da utilização deste saber para que ele tenha de fato algum valor.
O conhecimento, por mais que você tenha, ele nunca é o suficiente (Voz de colaborador). Não adianta nada se a pessoa tem o conhecimento de uma coisa e não pode aplicar ele (Voz de
colaborador).
A concepção manifestada pelos colaboradores da educação como um saber que precisa exercer sentido na vida dos alunos, que lhes seja um conhecimento útil, no sentido de lhes ajudar a viver melhor corroboram as reflexões de Mosé (2013) sobre os desafios da escola na contemporaneidade. Para a autora, todo saber é provisório e por isso a escola
deve se constituir como espaço de construção de novos (e infinitos) saberes, ao invés de se ater a reprodução de conhecimentos. Nessa perspectiva, ela defende que:
É preciso que a escola seja um lugar onde se aprende por meio da ação, e não da passividade, onde os conteúdos se relacionem, sempre que possível, com situações vividas pelos jovens e pelas crianças, e a aprendizagem aconteça em situações em que eles se reconheçam (MOSÉ, 2013, p.56).
Onofre (2014), após entrevistar alunos em situação de privação de liberdade de diferentes níveis escolares, constatou que os alunos não alfabetizados são os que mais valorizam e frequentam a escola na prisão. Tal situação se justifica porque “ler e escrever na prisão é fundamental, pois não ter essas habilidades implica dependência com o companheiro. É com esses conhecimentos que os detentos podem escrever e ler cartas, bilhetes e acompanhar o desenrolar dos seus processos criminais” (ONOFRE, 2014, p.145). Nesse sentido, as falas dos colaboradores reafirmam a importância da educação escolar estar atrelada as necessidades concretas da vida dos alunos. Ela precisa, portanto, dialogar com o cotidiano e com a realidade deles, sem se restringir a isso, é claro.
Opinião marcante entre os colaboradores refere-se à existência ou não de possibilidade de escolha. Para eles, a supressão dessa liberdade nega-lhes a própria identidade.
Eu acredito que a educação, tudo aquilo que é imposto, não dá certo (Voz de colaborador). A gente tem que ter uma escolha, se a gente não tiver uma escolha a gente não vence (Voz de
colaborador).
O que motiva a minha vida, o que leva a minha vida a ser vida é a minha livre escolha. Eu deixo de ser eu quando eu sou obrigado a qualquer tipo de coisa (Voz de colaborador).
Essa é uma dimensão importante de ser analisada, pois não são todas as concepções e práticas de educação que consideram a importância dos alunos estarem inseridos em seus processos de formação enquanto sujeitos e não meros objetos. A partir do contexto prisional estudado por Onofre (2007, p.27), a autora afirma que:
A escola, visto ser apontada como local de comunicação, de interações pessoais, onde o aprisionado pode se mostrar sem máscaras, afigura-se, portanto, como oportunidade de socialização, na medida em que oferece ao aluno outras possibilidades referenciais de construção de sua identidade e de resgate da cidadania perdida.
Com base nas falas dos colaboradores, essa leitura do espaço escolar não pode ser feita se este se configurar como um espaço de frequência obrigatória, seguida de atividades também obrigatórias. Se o espaço escolar impede a manifestação de autonomia e reproduz a lógica da opressão, por mais que seja considerado um espaço educativo, se configurará como mais um locus de mutilação do eu.