A atitude espiritual dos habitantes da cidade grande uns com os outros poderia ser denominada, do ponto de vista formal, como reserva. Se o contato exterior constante com incontáveis seres humanos devessem ser respondidos com tantas quantas reações anteriores – assim como na cidade pequena na qual se conhece quase toda pessoa que se encontra e se tem uma reação positiva com todos - , então, ao habitantes da cidade grande estariam completamente atomizados interiormente e cairiam em um esta anímico completamente inimaginável (SIMMEL, 2005, p. 582)
Eu prefiro as amigas do Bolsa. Falo muito mais do que acontece comigo, com elas (Patrícia, em conversa via Facebook)
Georg Simmel escreveu sobre a metrópole e a vida mental em 1903, momento de intensas transformações urbanas, industriais e subjetivas nas sociedades modernas. O trecho acima se refere à passagem em que o autor fala do caráter blasé, fenômeno que atinge as subjetividades que habitam a grande cidade, por conta do excesso de estímulos presentes nas interações urbanas.
Para Simmel, a metrópole demanda dos indivíduos um excesso de atuação nervosa que culmina no oposto da intensidade, ou seja, em uma incapacidade de reagir aos estímulos, o que geraria uma postura de indiferença, de não estabelecimento de vínculos afetivos entre os habitantes da cidade grande.
Muito embora as observações de Simmel estejam pautadas pelo contexto do início do século XX, estar em uma metrópole como o Rio de Janeiro, me remeteu em diversos momentos ao caráter blasé, ressaltado pelo autor. A intensidade de circulação de pessoas, os estímulos luminosos e auditivos, os aspectos de desigualdade que saltam aos olhos, faz de cada um de seus habitantes um sujeito que precisa aprender a estar indiferente ou blasé para que possam sobreviver as estas dinâmicas sem entrar em colapso.
Com o advento e consolidação dos usos das mídias digitais, estar na metrópole parece ganhar outros significados e, os estímulos que promoveriam uma conduta blasé, podem ser recebidos de outra forma.
Visitar pela quarta vez o Rio de Janeiro, no ano de 2015, momento em que o uso do celular já habitava o cotidiano de meus sujeitos de pesquisa e dos moradores da cidade maravilhosa, significou entender que, onde quer que se esteja, por maiores que sejam os conflitos e as interações na metrópole, é possível estar em contato com espaços de acolhimento, via internet.
Conversar com o amigo do bairro de origem, com a família, com o namorado ou namorada tornou-se urgente em um ambiente que pode reforçar desigualdades, principalmente para mulheres, que, historicamente, estiveram alocadas mais no espaço da casa e da família e menos em espaços públicos. Para elas, tentarei mostrar, a internet surge como espaço fundamental de construção de formas alternativas de socialidade entre mulheres e de acesso à informação sobre assuntos diversos.
Dessa forma, a metrópole se constitui atravessada por um conjunto de estímulos e o uso das mídias digitais na cidade projeta o local para além das tradicionais fronteiras geográficas. Ao mesmo tempo, as tecnologias de informação e comunicação, mesmo que de forma paradoxal, reforçam laços locais e familiares, grupos de ajuda-mútua, relações de afeto por meio de suas dinâmicas. Parece ser possível ter uma conduta blasé com a cidade e estar completamente absorta por um diálogo sobre afetos e sentimentos no Whatsapp; sobre a esfera da família e sobre o cotidiano em casa e no ambiente de trabalho.
A frase que abre este capítulo, “Eu prefiro as amigas do Bolsa. Falo muito mais do que acontece comigo, com elas”, dita por uma de minhas interlocutoras de pesquisa, aponta para como a rede é importante lugar de socialidade e, por vezes, oferece maior acolhimento que o próprio local de moradia e que os círculos de amigos mais próximos.
Por meio da tecnologia é possível, tanto fazer frente aos estímulos da cidade estando em contato com o local de origem e moradia, quanto estabelecer relações consideradas de amizade que podem, inclusive, ultrapassar as fronteiras familiares e de amizade estabelecidas nestes locais. Esta frase, que remete a preferir o espaço online para falar de si, foi dita quando conversávamos sobre os motivos que a levaram a acessar o Bolsa de Mulher e ela relatou-me sua experiência de busca por apoio a respeito de uma relacionamento amoroso, apontando a importância do auxílio adquirido em rede.
Para compreender como o acesso à cidade se torna fundamental nos horizontes de desejo das pessoas que colaboram com essa pesquisa, é fundamental observar o percurso sócio histórico de espaços como a Baixada Fluminense e a Zona Oeste do Rio de Janeiro, uma vez que considerar as mídias como espaço relacional pressupõe olharmos com afinco para os ambientes off-line dos sujeitos e suas relações.
Nesta parte da tese, vou abordar como acontece o acesso à cidade por parte dos sujeitos da pesquisa, por meio da tecnologia, mas também fora dela e em um contexto anterior de menor acesso, principalmente, móvel por meio dos smartphones. Além disso, pretendi compreender como estes ambientes off-line e os sujeitos da pesquisa, caracterizados por uma relação histórica marcada por posições de subalternidade, se relacionam com espaços como a
Zona Sul carioca, lugar destinado a elites e que não apresenta os mesmos conflitos dos subúrbios do Rio.
Para compreendermos como se dá os usos das mídias por este público e como elas interferem em sua relação com o espaço urbano, considero que precisamos estar atentos às transformações históricas, sociais e econômicas destes espaços. A tecnologia aparece, nestes contextos, como uma forma de enfrentar espaços excludentes, relações de desigualdade da metrópole, impossibilidade de acesso a determinados espaços de lazer, limitações no tocante à manutenção e divulgação das culturas locais.
Noto, ao longo da pesquisa, que a mobilidade e a relação com a cidade compõem o horizonte de desejo desses sujeitos e o acesso à tecnologia pode, tanto proporcionar o contato com algo distante, expandindo as fronteiras geográficas e de origem; quanto se constituir como reforço de laços familiares e de amizade, de dinâmicas de expressão cultural local, todas características que dependem do uso feito das mídias digitais.
O campo fora de rede, como já adiantei na introdução deste trabalho, se deu na Baixada Fluminense e parte da Zona Oeste do Rio de Janeiro. Estes locais foram escolhidos por apresentarem um amplo público abarcado pelo recorte dessa pesquisa e pelo fato de a rede de colaboradores e colaboradoras ter se dado ativamente, ou seja, o próprio campo online indicou os espaços off-line que mereciam ser estudados na medida em que apontavam para determinadas regiões do país como locais representativos dos públicos em questão.
Figura 1 - Região da Baixada Fluminense I
FONTE: O Globo17
17 SCORZA, Antônio. Baixada Fluminense: os dilemas de uma população numerosa e carente de serviços
Figura 2 – Região da Zona Oeste I
Fonte: Google Maps
Figura 3 – Região da Zona Oeste II
Fonte: Desvendando a Barra da Tijuca e Jacarepaguá (2012)
As imagens acima mostram, por meio de mapas, os municípios que compõem as regiões da pesquisa off-line. O mapa do jornal O Globo apresenta a região da Baixada Fluminense e dentre os espaços em destaque as interlocutoras de pesquisa se situam em Nova Iguaçu, Belfor Roxo, Duque de Caxias e Mesquita. A região da Zona Oeste do Rio de Janeiro aparece, no mapa extraído do Google Maps, com os locais de moradia das mulheres da
fluminense-os-dilemas-de-uma-populacao-numerosa-carente-de-servicos-basicos-13968398>. Acesso em: 24
pesquisa – Sepetiba e Paciência. Por fim, na última imagem chamo atenção para Curicica, onde mora mais uma das mulheres da pesquisa, na região de Jacarepaguá, também Zona Oeste da cidade e espaço de periferia e de baixa renda, muito embora seja mais próximo da Barra da Tijuca.
Tanto a Baixada quanto os bairros populares da Zona Oeste são espaços que cresceram e que contam, atualmente, com uma estrutura socioeconômica que permite aos sujeitos acessarem bens e serviços variados, espaços de lazer, bem como serviços públicos e privados de saúde e educação, assim como uma melhor conexão com a internet.
No entanto, nem sempre foi assim. Ambas as regiões apresentam uma longa história de recepção de migrantes nordestinos, que buscavam esses espaços com vistas a trabalhar na capital carioca. Atualmente, pode-se dizer que são constituídos por pessoas que habitam ali, mas trabalham tanto no próprio lugar, quanto na Barra da Tijuca, no centro ou mesmo na Zona Sul da cidade do Rio de Janeiro.
A historia da Baixada aponta para um povoamento grande na década de 1950 devido ao baixo preço dos loteamentos decorrente de uma forte crise no setor da produção de laranja que aos poucos foi abandonado frente à venda de lotes das antigas fazendas e chácaras (ENNE, 2000). A região foi midiaticamente construída associada à violência, devido a sua história de desenvolvimento de grupos de extermínio no período da ditadura militar brasileira, bem como da histórica associação entre pobreza e criminalidade.
Nos anos 50, integrantes de grupos como os chamados “Homens de Ouro”, (que eram policiais protegidos por superiores, com liberdade para matar) ganharam notoriedade e fama de “justiceiros” na região assassinando supostos bandidos. Mas é a partir do final dos anos 60 que aumenta a taxa de homicídios devido à formação de grupos de extermínio no contexto de repressão da ditadura. Muito embora as mortes ocorressem na região não pelas mãos dos próprios moradores, mas de grupos policiais, os dados eram e ainda são, em grande medida, divulgados como parte da composição da Baixada.
Essa história de criminalidades era fortemente divulgada pela mídia da época e ainda na atualidade como resultado do crime organizado, o que fazia recair nas costas dos moradores o estigma de serem criminosos. No entanto, os grupos de extermínio e seu formato mais atualizado, o das milícias, se formavam e ainda se formam no interior do Estado, pela própria polícia18.
O tema das milícias adquiriu notoriedade no Rio de Janeiro no ano de 2006, quando o termo foi cunhado para descrever grupos de agentes armados do Estado (policiais, bombeiros, agentes penitenciários etc.) que controlavam comunidades e favelas, oferecendo “proteção” em troca de taxas a serem pagas pelos comerciantes e os residentes. Estes grupos passaram também a lucrar com o controle monopolístico sobre diversas atividades econômicas exercidas nestes territórios, como a venda de gás, o transporte alternativo e o serviço clandestino de TV a cabo. (CANO; DUARTE, 2012, p. 13)
Os grupos de extermínio não são uma característica somente do Rio de Janeiro ou da Baixada Fluminense, eles se formam em diversas regiões do país e do mundo para fazer frente a falta de segurança pública. O que difere tais grupos, nascidos nos anos 60 e 70, das atuais milícias é a mudança de foco não somente para as questões de segurança, mas também para venda e monopólio de determinados produtos. Quando visitei a Zona Oeste no ano de 2015, Mara relatou-me que preferia usar internet móvel oferecida pelas operadoras, do que ter que barganhar com as milícias, já que são elas que realizam a venda do gatonet, ligação clandestina que permite acesso a TV e internet da empresa NET. Apesar disso, a TV a cabo na casa de Mara e o serviço de acesso ao gás de cozinha são possibilitados pelas milícias, bem como a segurança do local que permite o trânsito dos moradores na madrugada, o veículo para fora da garagem, dentre outras coisas:
Os grupos de extermínio eram famosos nas décadas de 1970 e 1980 em várias capitais brasileiras, inclusive Recife e Salvador. Na Grande Rio, desde a década de 1960, Tenório Cavalcante notabilizou-se por empregar meios extralegais para resolver conflitos, afastar inimigos políticos e predadores da população. Nos anos 1980 também muito se falou sobre os justiceiros, os grupos de exterminadores e os linchamentos populares. Os nomes mudam, os arranjos avançam na ilegalidade das ações, mas constituem um processo histórico de longa data para compensar os fracassos das políticas estaduais e federais de segurança pública. Grupos de extermínio que ofereciam proteção e investiam nos negócios imobiliários já existiam desde os anos 1970 em algumas favelas da zona oeste da cidade do Rio de Janeiro, como em Rio das Pedras, povoada por migrantes nordestinos que se organizaram para impedir a entrada de traficantes, mas acabaram reféns dos que ofereceram segurança privada desde o início. A outra novidade é a presença maior, com dimensão só agora conhecida, de policiais e bombeiros nessas milícias. O que as difere dos grupos de extermínio é sobretudo o controle exercido sobre o território e o envolvimento com atividades comerciais que extrapolam a venda do serviço de segurança, tais como a cobrança de taxa indevida das cooperativas de transporte alternativo, a venda inflacionada de botijão de gás, a venda do gatonet (sinal pirata de TV a cabo), a cobrança de pedágios e de tarifa para proteção. (CONCEIÇÃO; ZALUAR, 2007, p. 91)
Até os anos 80, as mortes eram frequentes pelos grupos de extermínio e somente nos anos 90 existe uma diminuição dos assassinatos realizados pelas milícias. Nos dias de hoje,
apesar da manutenção de existência desses grupos, a Baixada se constitui como fruto de um processo de formação de movimentos sociais na década de oitenta, somado à promoção de programas de governo como, por exemplo, o “Baixada Viva” e o “Nova Baixada”; que buscam melhorar a infraestrutura local.
Temos, nas duas últimas décadas, um forte estimulo à produção da região como “mercado consumidor” aberto e em expansão, o que fica evidente com a inauguração, na última década, de diversos shoppings, lojas e centros comerciais, espaços de consumo de uma classe ascendente.
Além disso, os moradores, com maior acesso às mídias digitais e rede sociais, promovido nos últimos anos e de maneira bem recente, competem pelos discursos a respeito da Baixada com as mídias de broadcasting em um esforço de apontar a violência que integra o Estado. Nesses espaços, veremos aqui, existe um esforço de denúncia da violência que afeta a Baixada e que não é promovida por seus moradores; da mesma forma, tenta-se divulgar aspectos da região que valorizam sua cultura e que divulgam o cotidiano da população distanciada da violência.
A Zona Oeste, já chamada de Sertão Carioca, é formada por bairros como a Barra da Tijuca, de classe média alta, espaço nobre da cidade e por regiões como Paciência e Sepetiba, bairros pobres e distanciados desse centro de lazer e de cultura representado pela Barra que conta, por exemplo, com mais de 200 salas de cinema, diversos shoppings, teatros, hospitais e escolas.
Formada por planícies e morros, a Zona Oeste cresceu ao longo das estações ferroviárias e o trem é, ainda hoje, um dos principais meios de transporte de uma parte importante dessa população, fazendo longos percursos de até 70 quilômetros, do centro da cidade até os bairros mais distantes, como os de Campo Grande e de Santa Cruz. A outra via de acesso aos bairros é a Avenida Brasil. (NASCIMENTO, 2015, p. 40)
A urbanização tardia das regiões mais afastadas se deu como substituição das fazendas e chácaras, sobreviventes da época colonial, principalmente após a década de 50 e 60.
Presente na história da cidade desde a sua ocupação no século XVI a região se destacou pelo seu papel associado à produção agrária e abastecimento da região central. A ocupação ocorreu de forma desordenada, como em quase toda a cidade. Até a primeira metade do século passado predominava, na região, um cenário rural. Vale lembrar que a Zona Oeste já foi chamada de
sertão carioca, zona rural até ganhar a nomenclatura de Zona Oeste. (VIEIRA, 2012, p. 1)
A Baixada Fluminense e alguns espaços da Zona Oeste tiveram sua história caracterizada por se constituírem enquanto espaços denominados de “dormitórios”, ou seja, recebiam trabalhadores, principalmente nordestinos, que atuavam no centro do Rio, na Zona Sul e mesmo na Barra da Tijuca e se consolidavam enquanto lugares de moradia pra onde os sujeitos iam após o expediente de trabalho, para jantar e dormir.
Estas regiões também foram assinaladas ao longo da história do Rio, assim como as favelas, como sendo territórios marcados pela presença da população negra e de baixa renda. As áreas valorizadas da Zona Sul, da Barra da Tijuca e de Niterói possuíam entre 5% (por exemplo, no Leblon) e, no máximo, 20 % (em Niterói) de negros, enquanto os bairros pobres abarcavam mais de 60% de pretos e pardos19.
A cidade do Rio de Janeiro é bastante caótica para quem a frequenta com base no ponto de vista de uma pessoa que habitou o interior de São Paulo a vida toda, como eu. Como todas as cidades de grande porte, o fluxo de pessoas, veículos, barulhos, luzes, informações é bastante intenso.
O que sempre me chamou atenção no Rio, desde minha primeira visita, foi a intensidade com que o visitante é colocado cara-a-cara com a desigualdade e, compreender essas relações me pareceu, desde sempre, fundamental, uma vez que ela atravessa o cotidiano dos sujeitos dessa pesquisa, determina sua mobilidade pelo espaço urbano e, também, a forma de uso das mídias digitais.
Uma das formas mais eficazes de nos inteirarmos da dinâmica e interações da metrópole é olharmos para ela do ponto de vista das relações sociais ou de uma análise de caráter relacional. Nesse sentido, as regiões periféricas ou mesmo aquelas da área metropolitana que apresentam um público das classes populares, se constroem em relação à Zona Sul carioca, espaço reservado, desde o período colonial, às elites. A relação com a Zona Sul, como veremos abaixo, também acontece no cotidiano dos moradores que se confrontam com este espaço todo o tempo.
A Zona Sul teve uma ocupação tardia, se comparada com as regiões do centro da cidade. As partes que se desenvolveram primeiro foram a região da Lapa, a Glória e Catete. Posteriormente as regiões de Laranjeiras e Botafogo começaram a ser ocupadas de forma rural, por chácaras. A partir da segunda metade do século XIX, começaram a surgir
loteamentos e aglomerados urbanos que já apontavam para o que seria o centro e as regiões da população de alta renda.
Os aspectos socioeconômicos e simbólicos que envolvem fazer parte da Zona Sul do Rio de Janeiro ficam evidentes com a polêmica surgida no ano de 2013, no momento da Copa das Confederações, quando a cidade do Rio passou por alterações de trânsito, realocação de placas, sentidos e nomenclaturas urbanas. Nas placas realocadas, no ano de 2013, Flamengo e Botafogo ficaram de fora da região. Tais placas, colocadas na Avenida Osvaldo Cruz, apontavam que a Zona Sul ficaria mais a frente, o que gerou indignação entre seus moradores. Em matéria lançada pelo jornal O globo, na época, habitantes da região reclamaram da atuação da prefeitura: “já que não estamos na Zona Sul, podia diminuir o IPTU”, “se não somos Zona Sul, somos o que? Zona morta? Zona do agrião?”20.
O sentimento de pertença à Zona Sul, que faz com que tamanho incômodo esteja evidente nos enunciados de seus moradores, não se trata somente de uma demanda por território geográfico. Deixar de integrar a região mais rica da cidade é deixar de fazer parte da cidade maravilhosa, apresentada no horário nobre da rede Globo de televisão, é deixar de ter acesso, na prática, aos melhores serviços públicos, ao mobiliário urbano organizado, aos restaurantes, lojas caras e especulação imobiliária evidente; mas também, simbolicamente, é deixar de integrar o ideário da elite carioca, de renda alta, faces brancas, com poder de decidir os rumos da própria vida e da cidade. Em outros termos, é passar a fazer parte de outro Rio de