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Military-­‐civilian  relationships:  the  relationship  with  the  people

Carla para falar dos japoneses, geralmente usa os brasileiros para exemplificar melhor suas considerações e nessa comparação acaba definindo o nikkei sempre como o oposto dos brasileiros. Assim, os estereótipos são resgatados: os brasileiros com significações de alegres,

festivos, abertos, acolhedores, expressam seus sentimentos ao extremo (às vezes violento demais), diretos, bonitos, legais e possuem mais gingado (corporalmente). Os japoneses, por sua vez, são introvertidos, não são diretos, “nerds” (que só pensam em estudos), tímidos, disciplinados, rigorosos consigo mesmos, fechados, educados (respeito ao próximo, “mais

civilizados”) e unidos.

Para ela, o aspecto físico dos brasileiros é mais atraente e explica pela mídia a sua preferência.“(...) porque eu nunca vi um japonês bonito na tv, mas sempre vi um Brad Pitt (ator americano) e um Bruno Gagliasso (ator brasileiro).” Acredita que na televisão, o espaço para os homens japoneses é: “Os homens eu acho que vai mais pra esse lado de nerdões (que só estudam), cientistas sempre descobrindo novas tecnologias.”. Carla configura estes estereótipos da mesma forma e acredita que não só ela, mas qualquer pessoa quando olha um japonês, já o associa como uma pessoa inteligente que não pensa em mais nada além de estudar. Até na forma de lidar com as pessoas, na abordagem dos meninos para com as meninas, nos relacionamentos amorosos, os brasileiros para Carla são mais interessantes.

“(...) ah, eu acho eles mais bonitos, eu acho eles mais bonitos em relação aos orientais, talvez porque eles tenham olhos azuis, cabelos claros (risos). Mas é que sei lá, os orientais que eu conheço são todos meio tímidos assim, não... não sei explicar mas eles são... eles não... como se fala, eles... eles não são muito diretos. Os ocidentais são um pouco mais diretos já, já dão... quando você está na rodinha com eles, eles já dão umas indiretas pra ver se você se liga (risos), pra você ver o que eles querem, essas coisas. Os orientais já não são assim, eles falam para a amiga e a amiga vem falar. É por isso mesmo, eu prefiro que o menino venha e fale. Acho que é por isso. (risos)”

Do seu relacionamento com seus pares, os adolescentes japoneses acabam sendo divididos por Carla em três grupos distintos: “os colônias”, “os nerds” e “os estilosos”. Os colônias são aqueles que possuem estilo (no modo de se vestir, mas que ela particularmente não gosta), mas que só andam com descendentes japoneses mesmo possuindo oportunidade de andar com brasileiros, então estes seriam mais fechados e todos iguais. Os nerds, como só pensam em estudos, não trazem conversas interessantes. Já os estilosos, que Carla considera como sendo aqueles que vão a shows de rock e que seriam os mais legais, ela se refere como sendo meninas que pintam seus cabelos de rosa-choque, usam saias e botas pretas.

Dentro destes aspectos até aqui delineados, Carla acaba por desvalorizar a maioria dos nikkeis e valorizar os brasileiros num processo que parece ao de assimilação como definido por Berry (2004), pois Carla parece procurar uma interação com os ocidentais, ao mesmo tempo

que refuta os descendentes japoneses colocando-os como “cabecinhas”, pessoas que não são interessantes. Portanto, o movimento de Carla é procurar uma identificação com os ocidentais e procurar se relacionar preferencialmente com estes.

Yamamoto (1999) relata que o oriente sempre foi visto pelos ocidentais como a representação do exótico, do estranho, do que “não seria deste mundo”. Dessa forma, o japonês se configura como um outro para os ocidentais e suas características fenotípicas, que os denunciam etnicamente japoneses, se transformaram em máscaras que marcam a invisibilidade desses indivíduos. Para a autora, todas as fantasias e representações que se fazem dos orientais estão à frente dos nikkeis, tornando-os invisíveis em suas individualidades.

Interessante perceber que Carla resgata os estereótipos japoneses colocando-os nessas máscaras, mas como veremos a seguir, ela se põe como uma pessoa que se distingue destes. É importante ressaltar que o interessar-se por ocidentais para Carla, além de ser significado como uma forma que pode ter auto-expressão, é também, e principalmente, um meio de poder encontrar um parceiro, um namorado. Conquistar um namorado ocidental aparece no subtexto de Carla como a sua possibilidade de inserção nesse mundo dos brasileiros. Se os meninos nikkeis são significados como “cabecinhas”, feios e desinteressantes, algumas meninas japonesas (“as

estilosas”), para Carla, são construídas de maneira diferente, ganhando uma valoração mais positiva.

Assim, Carla encontra uma via para valorizar a si mesma, pois algumas meninas

nikkeis passam a ser bonitas e atraentes, os meninos ocidentais as procuram e a mídia as reconhece. Desta forma, Carla pode se distinguir dos estereótipos que ela mesma considera como japoneses, que em geral são negativos, da mesma maneira que é por essa via que tenta encontrar o seu espaço no mundo ocidental. Assim Carla impõe uma diferença entre meninos japoneses e meninas japonesas.

“(...) a gente estava conversando, eu e minhas amigas daqui (escola). A gente

chegou na conclusão de que os meninos japoneses preferem mais as meninas japonesas mais do que as meninas japonesas preferirem meninos japoneses. Tipo, pelo que a gente sabe, entendeu, a gente já viu muitas meninas japonesas ficando com loirinhos ou com... ocidentais, mas já os meninos... a gente vê mais os meninos com as meninas japonesas, entendeu.”

“Que eu sou muito feliz por isso (risos). Porque os ocidentais me procuram (risos),

se eu fosse um menino e preferisse as ocidentais, seria mais difícil entendeu. É essa a conclusão, foi isso que eu pensei.”

A valorização da beleza da mulher japonesa é explicada por Carla, através das suas experiências no dia-a-dia, de ver principalmente casais mistos (ocidentais e orientais), sendo estes constituídos principalmente por mulheres orientais e homens ocidentais. Acredita também que a mídia destaca as mulheres japonesas diferentemente que os homens descendentes. “(...) na

tv, seja na Globo, existem atrizes japonesas, que são tipo a Daniela Suzuki, ou mesmo a Sabrina, ela é bonita, não é muito inteligente mas ela é bonita. Daí, os japoneses não são muitos, acho que existem mais atrizes japonesas do que atores.”

Pode-se considerar de todos os aspectos aqui relatados, a observação de González Rey (2003) no que tange a gênese de toda a subjetividade individual. Para o autor, ela é constituída no espaço de uma determinada subjetividade social que antecede a organização do sujeito psicológico concreto. A subjetividade individual mostra os processos de significação associados à experiência social do indivíduo, bem como as formas de configuração destas experiências por meio do curso da história do sujeito.

Vemos assim o processo de Carla e não podemos entendê-lo sem suas dimensões individuais e históricas/sociais. Como vemos, suas significações em relação ao ser japonesa se alicerçam na realidade social em que vive, que possui uma historicidade e que também possui uma subjetividade social com sentidos e significados prévios para os japoneses. Assim, a subjetividade individual se constitui reciprocamente com a subjetividade social em que um alimenta o outro. Mas nesse processo, as configurações de Carla em ser bom ou ruim, ter cara de japonesa ganham um colorido particular e portanto individuais também. Suas significações são ao mesmo tempo individuais e sociais.