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Apesar de na década de 1960 alguns linguistas críticos na Grã-Bretanha já articularem a Teoria Linguística Crítica com a Gramática Sistêmico-Funcional de Halliday para análises textuais, foi em 1990 que um grupo de estudiosos formado por Norman Fairclough, Teun A. van Dijk, Gunther Kress, Theo van Leeuwen e Ruth Wodak iniciou discussões sobre a questão da luta e transformações de poder nos estudos de linguagem. Surgia, então, a Análise Crítica de Discurso, que teve como base princípios, anteriores à segunda guerra mundial, de estudos da psicologia e ciências sociais.

Teoria Social de Discurso, assim denominada por Norman Fairclough, fundamenta-se no princípio de que a língua é um tipo de prática social de representação e significação, e que textos produzidos resultam de ações entre falantes/ouvintes e escritores/leitores, por meio de escolhas realizadas pelo poder e pela dominação.

As análises propostas pela ACD têm como objeto de estudo os textos, o micro contexto como materialidade linguística e a compreensão do discurso, geralmente velado, que participantes, envolvidos em práticas discursivas, constroem; e estuda o uso do poder nessas relações sociais de acordo com fatores sociais, históricos e culturais.

A Análise Crítica de Discurso proposta por Fairclough (2001) apresenta uma base tridimensional e adota uma concepção de discurso no sentido de texto e interação. O modelo de análise proposto engloba três dimensões interligadas que permitem: (i) a compreensão dos significados construídos em textos; (ii) a determinação histórica; (iii) as condições contextuais de produção.

Nesse sentido, o discurso - língua em uso - é visto como texto, como prática discursiva e como prática sociocultural.

Como método de estudo do discurso, Fairclough (2001a) afirma que, em uma análise de qualquer evento comunicativo, devemos considerar: (i) a descrição do texto como materialidade falada/escrita, a partir do vocabulário, da gramática, da coesão e da estrutura; (ii) a interpretação da prática discursiva como produção realizada nas interações que indiquem valores e formações ideológicas e (iii) a explanação da prática social, as circunstâncias institucionais e organizacionais do evento discursivo ou a direção da mudança das relações.

Fairclough (1989) estuda a língua em uso de modo crítico e menciona que, nas interações, as relações de poder e de subordinação podem ser, muitas vezes, veladas nos discursos das pessoas. Visto por esse ângulo, possibilita analisarmos as interações sociais, a partir da análise de textos, e apontar aspectos nem sempre explícitos nas relações, pois, dentre as muitas funções de uma língua, uma delas é também a de obter, exercer e manter o poder.

A ACD faircloughiana, busca a relação do elemento linguístico com o elemento social. O seu foco de pesquisa é a instância de interação social e a mudança social, a partir da mudança discursiva. A LSF fornece à ACD aporte metodológico para a investigação da relação entre uma prática social e a prática discursiva.

Fairclough (1989) discute a questão do poder no discurso e por trás do discurso. Ele se refere ao poder no discurso como “lugar onde as relações de poder são de fato exercidas e legalizadas” a exemplo do poder exercido no discurso falado, na interação face a face.

Refere-se, igualmente, ao poder por trás do discurso ao apontar que “as ordens do discurso como dimensões das ordens sociais das instituições sociais ou sociedades, são moldadas e constituídas por relações de poder” (FAIRCLOUGH, 1989, p. 43).

O autor exemplifica uma situação de interação durante exame clínico de um paciente por um aluno, na qual são apontados, pelo profissional médico, aspectos que demonstram o exercício do seu poder no discurso sobre esse aluno. Assim o faz ao interromper as contribuições do aluno em questão, nas instruções e nas suas avaliações sobre o que o aluno diz e ao apontar suas falhas; o médico utiliza técnicas de controle por meio do discurso. Ele detém o poder sobre o conteúdo do que foi feito ou dito e na sua relação social com o sujeito subordinado (FAIRCLOUGH, 1989, p. 43-45).

O exemplo do discurso médico procura mostrar o efeito do poder exercido por meio das convenções nessas relações particulares relatadas. Aponta ainda, que as convenções e posições legitimadas são efeito de poder das instituições médicas. Fairclough alega, ainda, que os procedimentos padronizados e as convenções existentes nas instituições resultam das ideologias dominantes da Medicina como instituição social.

Fairclough (2001) dá uma interpretação de diferentes tendências nas variadas práticas discursivas que buscam eliminar os marcadores de hierarquia e assimetria de poder. Ele caracteriza as mudanças do contexto social e cultural de três maneiras: a democratização, a comodificação e a tecnologização do discurso. Para ele, as duas primeiras são mudanças efetivas nas práticas de discurso. Já a terceira indica que pode ser uma “intervenção consciente nas práticas discursivas...” (Fairclough, 2001, p. 247). Destacamos as mais apropriadas e que parecem relacionar-se com o fenômeno estudado.

A democratização do discurso pode ser entendida como a eliminação de desigualdades e assimetrias dos direitos, obrigações e prestígio do discurso e língua de certos grupos. Há cinco áreas de "democratização discursiva" apresentadas por Fairclough (2001). Dentre essas, o autor cita o ‘aconselhamento’, que parece ser envolvido por três delas: (i) no acesso a tipos de discurso de prestígio, (ii) na eliminação de marcadores explícitos de poder em tipos de discurso institucionais com relações desiguais de poder; (iii) e na tendência à informalidade da língua.

A tecnologização do discurso diz respeito às estratégias utilizadas para obtenção de um fim em um dado contexto. As tecnologias discursivas são geralmente institucionalizadas com o propósito de produzir efeitos e assim são aperfeiçoadas com estratégias de convencimento

do público alvo por meio de vocabulário específico, entonação de voz, postura, expressão facial e outros recursos.

Dessa maneira, a possibilidade de analisar o fenômeno com base na ACD teve tão somente o objetivo de analisar os discursos dos fonoaudiólogos em seus aspectos textuais e contextuais para saber como a interação é representada, as relações que possam consolidar (ou não) a identidade e o status profissional; e a construção de conhecimentos e crenças sobre a interação com mães.

A LSF como uma teoria da língua em uso se articula com a ACD, pois tratam a língua como um sistema aberto ao perceber não somente as estruturações dos textos, mas o seu potencial inovador no sistema. Isso justifica o uso de diferentes recursos linguísticos sistêmicos mesclados nos textos.

Por meio de uma análise crítica é possível vincularmos as escolhas linguísticas de atores sociais e os contextos sociais, nos quais os textos são constituídos.

Em 2003, Fairclough amplia o diálogo entre a LSF e a ACD e propõe a articulação entre as metafunções hallidayanas e os modos como os discursos fazem parte de práticas sociais.

O autor relaciona os três principais significados dialéticos do discurso - significado acional – as relações sociais, significado representacional - representação e significado identificacional ou modos de identificar - aos três elementos de ordens do discurso: gênero, discurso e estilo. A equivalência se dá, pois o discurso é concebido de três maneiras: (i) como parte de práticas sociais, (ii) na relação entre texto-contexto, (iii) como eventos ou modos de agir, de representar e de ser.

Sendo assim, a partir de uma visão multifuncional de texto, para Fairclough (2003), os três tipos de significados de textos moldam-se à visão constitutiva de discurso, possibilitando a investigação da constituição simultânea de sistemas de conhecimentos e crenças (função ideacional/experiencial), das relações (função interpessoal) e de identidades (função textual) mediados pela língua.

Como método para uma análise textual, a ACD se apropria de conceitos e categorias desenvolvidas pela Linguística Sistêmico-Funcional e configura-se como importante instrumental que articula os recursos linguísticos de textos com condições sociais e culturais circunscritas nos mesmos.

Nosso objetivo foi realizar uma análise linguística por meio de diferentes recursos disponibilizados pela Linguística Sistêmico-Funcional por intermédio da TRANSITIVIDADE

e da AVALIATIVIDADE; e o estudo dos significados manifestos sobre a prática discursiva e social da interação, segundo os pressupostos de Fairclough (1992, 2001 e 2003) a fim de

considerar a estrutura social na análise textual.

A análise dos textos, sob a perspectiva da ACD, envolveu simultaneamente o significado (a) representacional ou representação das atividades das pessoas e as formas institucionais de realização linguística; (b) acional ao questionar as relações sociais e (c) na identificacional, como fonoaudiólogos constroem e ou negociam identidades nos discursos.

Lembramos que não temos a pretensão de contrapor as teorias linguísticas a nenhuma teoria social, psicológica ou mesmo fonoaudiológica. O propósito de nosso trabalho é oferecer uma contribuição para a Linguística de modo geral e, principalmente, à Fonoaudiologia.

No capítulo a seguir, passamos a detalhar os procedimentos metodológicos para a realização de nosso estudo.

CAPÍTULO 3

METODOLOGIA