Kapittel 3. Utopi
3.8. Oppsummerende
Esta pesquisa buscou compreender as relações entre as mudanças do universo das manifestações religiosas no rural brasileiro, em tempos de alta-modernidade, em concomitância com as transformações sociais, econômicas e produtivas que caracterizam a emergência das chamadas novas ruralidades. Nesse sentido, procuramos compreender de que modo e em que medida a manifestação religiosa nas áreas rurais do município de Viçosa se encontrava atrelada às transformações na esfera de emprego e renda.
Desde a Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo tornou-se notória a possibilidade de manifestação de uma afinidade eletiva entre as perspectivas de vida profissional e as manifestações de caráter religioso. Contudo, muito pouco foi pesquisado, até então, acerca dessas transformações ético-religiosas no universo rural brasileiro, em um período de franca aproximação dos modos de vida urbanos e de perda da centralidade da terra para a geração de renda e garantia da sobrevivência. Nossa pesquisa procurou, justamente, contribuir com esta quase completa ausência de estudos que investiguem as transformações ideais por que passam as comunidades rurais brasileiras diante de um novo contexto material de existência, marcado pelo crescimento das ocupações rurais não agrícolas (ORNAs). Cada vez mais é possível perceber que a dinâmica de empregos e ocupação que se apresenta no perfil dos proprietários foge à característica comum às tradições de trabalho no campo. As fontes de renda das famílias dos entrevistados não estão mais dadas predominantemente pelas atividades ora encontradas no meio rural, tais como a agricultura e a pecuária mas, antes, por trabalhos de tradição urbana. O vínculo campo-cidade mostra-se de forma acentuada na combinação de atividades rurais e urbanas observadas dentre os proprietários rurais que residem no campo, nele desenvolvendo atividades de caráter complementar a renda aferida em empregos ou trabalhos no meio urbano. Tal circunstância, além de trazer impactos em
termos da qualidade de vida e bem estar desta população rural, aproxima-os sobremaneira de um outro modo de vida, de valores citadino, marcados por uma maior emergência do indivíduo em detrimento do grupo, da família. Mas como todas estas transformações nas condições materiais de vidas desses “rurbanos” estariam se correspondendo com suas idéias no campo religioso?
Tratando especificamente das comunidades rurais pesquisadas torna-se perceptível as influências trazidas pela presença da Universidade Federal de Viçosa, seja em decorrência da ida de estudantes e professores de todas as partes do Brasil e do mundo para viver no meio rural, nos entornos da universidade, passando, então, a conviver e interagir de forma próxima com as pessoas dessas comunidades rurais, através da oferta de trabalho e da convivência em eventos culturais, como festas e encontros em bares. O meio rural de Viçosa ficou mais diversificado, portanto, em relação a presença destes de “fora”, que levaram para o meio rural, também, suas crenças e práticas religiosas ou mesmo a ausência de fé em quaisquer delas.
Mas para além destas formas de contato com a difusão de inovações tecnológicas, tais como sementes e raças de animais melhoradas geneticamente, técnicas de cultivo, novos implementos, levados a esta população através de programas de extensão universitária, como o Gilberto Mello, o Convênio Nestlé, bem como através de tantas outras iniciativas advindas de professores, técnicos e estudantes através de projetos universitários, trouxeram alterações para a racionalidade produtiva desta população. Ou seja, a presença da Universidade Federal de Viçosa, presente na região da Zona da Mata Mineira há mais de 80 anos, decididamente irradiou influências no modo de viver e pensar das pessoas ao seu entorno.
Constatamos, dentro do perfil de ruralidade em Viçosa a presença de grupos de estudantes e professores, que poderíamos classificar como de “neo-rurais”, por terem adotado a moradia em áreas rurais como opção de vida. Estes novos moradores do meio rural de Viçosa, como tantos outros grupos de neorurais pelo Brasil a fora, procuravam uma forma de vida mais simples e ao fazê-lo traziam novas significações a este rural; novas formas de se relacionar com a natureza, através de práticas de cultivo alternativas, em sua maioria, trazendo novos desenhos arquitetônicos para as habitações do meio rural, bem como a introdução de templos religiosos e novas práticas religiosas, como à doutrina do Santo Daime e articulam a explicação e motivação para residirem no campo
à uma retórica de sustentabilidade ambiental. Assim, a presença e o crescimento de formas de trabalho, assim como de rendas urbanas em área rural, parecem estar se atrelando à transformação no campo religioso, caracterizada sobretudo pela presença de formas religiosas que escapam à tradição católica, que servia de fundamento para um modelo de sociabilidade calcado na indissociabilidade entre família, terra e trabalho e que perde a sua hegemonia com o crescimento das formas de ocupação não agrícolas no meio rural.
Ao lançarmos nossa atenção para as características referentes ao campo religioso nas comunidades estudadas, é evidente que a sua dinâmica se caracteriza por uma proximidade em relação a cidade, no que diz respeito a tendência à pluralidade de denominações religiosas. Como no meio urbano, percebemos uma maioria de católicos, mas também, um número representativo de protestantes históricos, pentecostais, adeptos do Santo Daime, assim como entrevistados que declararam não manter vínculos em relação à nenhuma instituição religiosa. Tal situação não implicaria em afirmar uma indistinção da especificidade identitária do rural em relação ao urbano, mas, sim, que o rural se reconstrói e se redefine dentro de uma dinâmica global, guardando ritmos e formas de absorção diferenciados, que lhe dão uma especificidade de caráter dinâmico. Não estamos, também, alegando o fim de um rural católico, mas procuramos salientar que essa matriz, cada vez mais, se pluraliza, diversificando suas idéias, suas práticas, modificando seus costumes, fazendo surgir um novo cenário a ser conhecido, um rural de novas feições, ainda tradicional, contudo, cada vez mais marcado pela presença do ideário da modernidade e dos valores referentes ao indivíduo. Falar da cultura religiosa no rural Viçosa significaria, hoje, antes de mais nada, falar de um campo de metamorfoses, ainda que lentas e gradativas.
Quando nos atentamos para o modo como os nossos entrevistados parecem lidar com o ganho material, encontramos entre os católicos uma renda econômica que se coaduna com os preceitos de que o ganho material deve ser contido, em benefício de uma vida de simplicidade e solidariedade. Desse modo, o acúmulo material ilimitado e a exploração do trabalho alheio para fins de lucro e enriquecimento ainda são tidos como posturas não almejadas e até condenáveis, por serem concebidas como formas que exarcebam o individualismo e a ganância dentro da comunidade. Nossos dados mostraram haver uma correspondência entre os entrevistados com menor renda e a
filiação ao catolicismo. Embora houvesse católicos também nos grupos de maior renda, sobressaía dentro deste grupo a diversidade de denominações religiosas, com presença expressiva de crentes vinculados a denominações protestantes.
Embora estes indícios de pluralidade de denominações religiosas dentre os entrevistados de maior renda não se apóiem em uma pesquisa quantitativa, com uma amostra representativa da população, o que permitira que pudéssemos ter um maior poder de generalização dos resultados, estes são indícios importantes, que apontam para uma possibilidade de modificação não apenas do modo de vida rural, mas, antes, da própria racionalidade econômica que fundamenta as práticas de trabalho e os desejos e aspirações das pessoas no meio rural brasileiro.
Se afirmamos, por um lado, a convicção de que os diferentes ritmos e formas de absorção das influências urbanas, corroboram para que o rural mantenha as suas especificidades face ao urbano, não podemos também negar, por outro, que a descentralidade da terra, como fonte de geração de renda e subsistência, bem como a penetração dos valores advindos do individualismo moderno e as novas tecnologias produtivas e comunicativas, assim como a abundância de bens de consumo que alteram as possibilidades de vida no meio rural, influenciaram sobremaneira as cultura existente no meio rural.
Nossa pesquisa mostra que um novo rural está surgindo, atrelando ao crescimento das atividades rurais não agrícolas e ao aumento da renda no campo, novas formas de religiosas, que se relacionam de forma diferente com este novo modo de vida, quando comparados com os preceitos católicos que fundamentavam a tríplice aliança: terra, trabalho e família, no rural agrícola brasileiro. Face ao novo rural, temos também uma nova caracterização das práticas religiosas, fundamentando novas condutas de vida e de sociabilidade no meio rural.