Ao propor uma análise sobre as necessidades que os estudantes apresentam para determinada área do conhecimento é possível, também, analisar e verificar as lacunas apresentadas por eles, visto que em diversas circunstâncias aquilo que os alunos afirmam ser uma necessidade trata-se, na verdade, de uma lacuna presente no seu processo de ensino-aprendizagem sobre um conteúdo específico.
Para analisar e verificar as lacunas presentes, bem como saber se elas realmente existem no processo de aprendizagem da língua materna, utilizei ao longo das entrevistas questões como: “Você se considera um bom usuário da língua portuguesa? Por quê?”, “Em quais aspectos da língua acha que precisa melhorar?” e, ainda, “O que faz para aprimorar seu conhecimento em Português?”.
Para refletir sobre as possíveis lacunas apresentadas pelos estudantes, divido este tópico em dois subtópicos de análise, sendo eles: lacuna gramatical, referente aos aspectos relacionados diretamente às questões gramaticais; e lacuna vocabular, para analisar os aspectos relacionados à defasagem vocabular citada pelos alunos.
4.3.1 A lacuna gramatical
A1: Eu me considero um usuário mediano de Português. P: Por que mediano?
A1: Porque assim como todos, cometo erros da língua.
P: Qual ponto você precisaria melhorar para ser um bom usuário da língua?
A1: Principalmente na gramática, mas eu sei algumas coisas.
P: Mas gramática é muita coisa. O que, especificamente, acha que precisa melhorar em gramática?
A1: Nunca sei como conjugar os verbos do jeito certo, também sempre erro o ‘que’. O professor fala que uso ‘que’ demais. A11: Acho que sou razoável.
P: O que você considera um usuário razoável da língua?
A11: Uma pessoa que sabe escrever o que é necessário, sem muita frescura.
P: O que você acha que precisaria para melhorar no uso da língua? A11: Precisaria saber melhor as regras de gramática e acentuação. Ao analisar esses excertos, é possível observar a concepção dos estudantes sobre a relação que estabelecem com a língua e, mais uma vez, perceber que alunos como A1 e A11 posicionam-se diante da língua com determinada inferioridade e caracterizam-se como incapazes de realizar, na língua, pela língua e com a língua atividades específicas que consideram rebuscadas ou aprimoradas.
Esse posicionamento, como já apresentado na seção teórica deste trabalho, se dá pelo fato de haver uma super valorização da norma padrão com um uso criterioso e normativo da língua, desprezando suas variações e possibilidades, o que promove no jovem estudante a descrença de que seja capaz de se manifestar adequadamente na língua. Como afirmam Azevedo e Rowell (2009), essa falsa impressão de incapacidade linguística inibe a produção do estudante, acarretando a este a errônea conclusão de não ser um bom usuário da língua.
Tal concepção está presente, principalmente, na fala dos estudantes A1 e A11, ao afirmarem ser necessário aprimorarem seus conhecimentos gramaticais para que possam utilizar de modo adequado e satisfatório a língua.
Para esses estudantes, existe um espaço a ser preenchido no que se refere a alguns pontos gramaticais, como os por eles citados. É importante, no entanto, observar a fala de A1, ao perceber-se como um falante que comete erros, como todos os outros falantes da língua, mas que nem por isso sente-se incapaz de comunicar-se.
4.3.2 A lacuna vocabular
A5: Não acho que sou bom usuário da língua, porque quase não consigo entrar nos textos. Parece que nunca entendo bem o que é que está dizendo.
P: Para ser um bom usuário da língua precisa entender o que o texto está dizendo?
A5: Sim. Não tem como ser bom em uma língua e não entender o sentido das coisas.
P: Para entender mais acha que precisa melhorar em que?
A5: Acho que principalmente na leitura de livros. Só entendo quando é coisa mais simples. Textos de literatura geralmente fico boiando.
A7: Eu penso que sou um bom usuário da língua, mas só na hora de pensar porque para escrever geralmente não consigo me expressar direito. Sou um pouco fraco na seleção das palavras. P: Por que você se acha ‘um pouco fraco na seleção das palavras’? A7: Acho que meu vocabulário é meio pobre… precisava saber mais
palavras.
Diferentemente dos estudantes A1 e A11, os estudantes A5 e A7 apresentam uma interessante perspectiva ao afirmarem, de acordo com suas experiências, que a dificuldade para compreenderem textos e, também, para redigí-los é um problema linguístico, ou uma lacuna, por falta de vocabulário para tal.
O aluno A5 declara conseguir interpretar textos que apresentam conteúdos cotidianos, mas apresenta dificuldade ao ter que interpretar textos literários. Seria então um erro ou um problema o trabalho com textos literários na escola? Absolutamente, não. O equívoco talvez esteja no objetivo do trabalho com o texto, bem como na forma como um dado texto e sua respectiva compreensão são
propostos ao aluno. Um jovem capaz de compreender e se relacionar com eficiência em língua materna não teria grandes dificuldades ao estar diante de um texto literário, desde que o propósito e o percurso traçados fossem claros e coerentes.
Segundo os PCN-EM-LCT (BRASIL, 2000), a linguagem é sempre um objeto que promove e provoca a interação com um outro. Não é possível a compreensão de uma expressão linguística que tenha como fim ela própria ou uma simples fossilização de interpretações aleatórias e não relevantes. O objetivo da linguagem será sempre “um outro”; um outro que poderá dialogar com esse texto a partir de suas experiências e visão de mundo. De acordo, ainda, com os PCN-EM-LCT (BRASIL, 2000, p.7), “toda linguagem […] é prenha de significados e significações
que vão além do seu aspecto formal”.
A dificuldade apresentada pelo estudante A5 carrega a manifestação de um ensino de língua que está envolto em interpretações e achismos sobre a detenção de um objeto (texto literário) que deveria pertencer igualmente a todos. Embora A5 direcione sua dificuldade linguística, principalmente quanto à compreensão de textos literários, podemos relacioná-la à dificuldade manifestada por A7, já que uma das possíveis ausências no processo de aprendizagem, que pode acarretar tal lacuna, seja a ausência de repertório vocabular, ou seja, quanto menos o aluno for exposto a diferentes e variados textos, menor será sua capacidade linguística, tanto para a leitura e consequente interpretação, quanto para a escrita de textos.