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Os estudos sobre os potenciais efeitos da reforma na saúde têm adquirido uma crescente relevância em anos mais recentes devido ao crescente envelhecimento populacional.

A evolução do envelhecimento populacional e as dificuldades financeiras que os sistemas de pensões irão sofrer em anos futuros, levaram à implementação de políticas de aumento da idade de reforma. Todavia, os efeitos da reforma na saúde representam algo que não tem sido considerado quando são implementadas tais políticas, tal como já anteriormente referido (Seitsamo, 2007).

Um estudo longitudinal com 6257 funcionários municipais na Finlândia revelou um aumento de doenças músculo-esqueléticas e cardiovasculares em indivíduos do sexo masculino reformados (Tuomi et al., 1991).

Um estudo longitudinal de Mein et al. (2003) comparou 392 funcionários públicos reformados com 618 funcionários públicos não reformados (empregados) para determinar se a reforma aos 60 anos se encontrava associada a alterações na saúde física e mental. Demonstrou que a saúde mental pareceu deteriorar-se em indivíduos que continuaram a trabalhar com essa idade (60 anos), enquanto a saúde física pareceu deteriorar-se em ambos os grupos de trabalhadores e reformados (Mein et al., 2003).

Szinovacz e Davey (2004) observaram, em mulheres, que os sintomas de depressão aumentaram após a reforma e, principalmente, se esta tivesse sido percecionada como abrupta ou forçada (Szinovacz; Davey, 2004). Verificaram, ainda, que esse efeito era maior em mulheres casadas com homens com limitações funcionais (Szinovacz; Davey, 2004).

Sahlgren (2013) observou que estar reformado pareceu deteriorar o estado de saúde física e mental e a auto-percepção do estado de saúde e que esses efeitos negativos da reforma na saúde aumentaram com o passar dos anos em situação de reforma (Sahlgren, 2013).

Salokangas e Joukamaa (1991) observaram, pelo contrário, algumas melhorias na saúde mental após a reforma, mas nenhum efeito claro da reforma na saúde física (Salokangas; Joukamaa, 1991).

Ostberg and Samuelsson (1994) descreveram também os efeitos positivos da reforma na saúde (ou seja, que a reforma representa um fator responsável por melhorar o estado de saúde), recorrendo à medição da tensão arterial, presença de doença musculosquelética, sintomas psiquiátricos e número de visitas ao médico (Ostberg; Samuelsson, 1994).

Outros estudos terão, ainda, descrito efeitos positivos da reforma na saúde (Seitsamo, 2007; Coe; Zamarro, 2011); outros terão descrito a ausência de

associação (Westerlund et al., 2010) e outros terão observado, ainda, efeitos negativos (Overland et al., 2008; Behnke, 2012).

Uma recente revisão sistemática da literatura sobre os efeitos da reforma na saúde, desenvolvida por Van den Heide et al., (2013), onde foram incluídos cerca de 22 estudos longitudinais, concluiu que parece existir uma forte evidência de que a reforma tem um efeito benéfico na saúde mental (Van Der Heide et al., 2013). Contudo, relativamente à saúde física e à auto-percepção do estado de saúde referiram que a informação existente é muito discrepante e que, portanto, torna-se difícil atingir uma conclusão geral sobre essa matéria (Van Der Heide et al., 2013).

No que respeita, em particular, aos efeitos da reforma na doença crónica, no

Quadro 2 é apresentado um resumo dos estudos publicados entre 1992 e

2014. À semelhança do Quadro 1, o Quadro 2 foi obtido do relatório “Europeans of Retirement age: chronic diseases and economic activity” do RIVM (RIVM, 2012) e adaptado para português. Uma vez que o foco do presente trabalho é o estudo da associação entre a reforma e as doenças crónicas, dando maior relevância à direção da associação no sentido dos efeitos da reforma nas doenças crónicas, adicionalmente, a informação obtida pelo RIVM (2012) (RIVM, 2012), foi confirmada e completada com a adição: i) do desenho de estudo; ii) da dimensão amostral; iii) da população em estudo;

iv) da fonte de dados; v) dos métodos de análise estatística; vi) das variáveis

de confundimento; e vii) de novos estudos encontrados através do desenvolvimento de uma revisão da literatura no âmbito do presente trabalho de investigação.

O Quadro 2 resulta, então, de uma scoping review conduzida pelo RIVM (2012), para pesquisa de estudos publicados entre 1992 e 2012, utilizando as fontes de informação Medline, PsycoINFO, Social SciSearch e SciSearch (RIVM, 2012); e de uma revisão da literatura, conduzida em Dezembro de 2014, no âmbito do presente trabalho, para pesquisa de estudos, publicados entre 1992 e 2014, utilizando a fonte de informação Medline (Pubmed, 2006). A preferência pela Medline residiu no facto de existir evidência de que representa

uma boa fonte de informação para pesquisa de estudos relevantes na área das doenças crónicas e sua relação com a ocupação (Haafkens et al., 2006). Foram utilizadas as mesmas palavras-chave e critérios de inclusão considerados pelo RIVM (2012) para a identificação de estudos relevantes (RIVM, 2012).

A pesquisa permitiu a obtenção de 9 estudos diferentes publicados em inglês, entre 1992 e 2014 (Quadro 2). Foi encontrado apenas 1 estudo sobre os efeitos da reforma no Cancro, que indicou que a reforma pareceu ser responsável por diminuir a probabilidade de diagnóstico de Cancro (Behncke, 2012).Também foi observado apenas 1 estudo que investigou os efeitos da reforma na Doença Respiratória Crónica apontando, porém, para a ausência de associação entre estas (Westerlund et al., 2010).

Relativamente às Doenças Cérebro-Cardiovasculares, foram encontrados 4 estudos, sendo que 3 desses (Behncke, 2012;Moon et al., 2012; Kang; Kim, 2014) reconheceram a reforma como um acontecimento que aumentou a probabilidade de ter Doença Cérebro-Cardiovascular, enquanto outro estudo reportou, pelo contrário, a ausência de associação (Westerlund et al., 2010).

A Depressão foi a doença crónica em que se observou um maior número de publicações sobre o impacte da reforma (7), sendo contudo aquela com resultados mais contraditórios. Por um lado, 3 estudos indicaram um efeito negativo da reforma na Depressão (Buxton; Singleton; Melzer, 2005; Butterworth et al., 2006; Calvo; Sarkisian; Tamborini, 2012). Pelo contrário, outros 3 estudos observaram um efeito positivo da reforma na Depressão (Fonseca et al., 2014; Westerlund et al., 2010; Mojon-Azzi; Sousa-Poza; Widmer, 2007). Outro estudo verificou, ainda, a ausência de associação (Behncke, 2012).

No que respeita aos estudos sobre o impacte da reforma na Diabetes, foram encontrados apenas 2 estudos, sendo que ambos indicaram a ausência de associação entre a reforma e esta doença crónica (Westerlund et al., 2010; Behncke, 2012).

De facto, tal como referido anteriormente, é frequentemente reportada na literatura uma evidente falta de consenso entre diferentes estudos sobre os efeitos da reforma na saúde (Seitsamo, 2007; Behncke, 2012; Calvo; Sarkisian; Tamborini, 2012). Porém, se o foco for o indicador de saúde “doença crónica”, poder-se-á concluir que, de acordo com o Quadro 2, o reduzido (e recente) número de estudos desenvolvidos indica um desacordo mais notório para a saúde mental (Depressão). É de salientar, porém, que o número de estudos sobre os efeitos da reforma em cada doença crónica, em particular, é tão diminuto que torna difícil a afirmação da presença ou ausência de acordo entre eles.

Note-se que apesar de não terem obedecido aos critérios de inclusão considerados na revisão organizada da literatura de que resulta o Quadro 2, outros estudos sobre os efeitos da reforma nas doenças crónicas deverão, por certo, apresentar semelhante relevância e, consequentemente, serem considerados para a reflexão sobre este tema (Dentrea, 2002; Gill et al., 2006; Alavinia; Burdorf, 2008; Coe; Lindeboom, 2008; Mandal; Roe, 2008; Elgarresta; Miguel; Arruabarrena, 2009; Maimaris; Hogan; Lock, 2010; Latif; 2013; Calvo; Sarkisian, 2014; Mosca; Barret, 2014).