A investigação produzida pela execução de um experimento didático transcorreu durante as aulas da disciplina Filosofia em unidade escolar pública localizada em uma área central de um município pertencente à Região Metropolitana do Estado de São Paulo. As crianças e os jovens regularmente matriculados pertencem ao Ensino Fundamental II, no período vespertino, e ao Ensino Médio, no período matutino e noturno. Nessa escola, cerca de duas mil crianças e jovens regularmente matriculados no ano corrente de 2014 pertencem a diferentes níveis sociais e residem em pontos diversos do município, inclusive em outras cidades.
29 É possível localizar a pesquisa pelo nome do projeto inicial (“O fracasso escolar e a ausência da apropriação
de conhecimentos teóricos pelos escolares”) e/ou pelo número do protocolo supramencionado em <http://aplicacao.saude.gov.br/plataformabrasil/login.jsf>.
As aulas foram devidamente gravadas, a fim de que o registro fosse fidedignamente documentado. Constam como parte da documentação trabalhos, redações, sínteses textuais, respostas dissertativas e afins, fotos e vídeos da produção coletiva e individual dos estudantes e um Diário de Bordo, com a descrição sintética do dia a dia da sala de aula.
O Diário de Bordo na presente pesquisa, elaborado como um relatório sumário- descritivo das ocorrências da atividade pedagógica, constituiu-se em uma primeira etapa da organização dos dados obtidos em sala de aula, com a explicitação detalhada das relações escolares. Nele estão apontados os acontecimentos de cada aula, as datas da pesquisa de campo, a localização das ocorrências escolares e os eventos nos registros documentados como, por exemplo, o nome do áudio e/ou vídeo captado, o tempo em que ocorreu (indicação dos minutos e segundos de um determinado registro) e a produção escolar devidamente identificada com o nome dos estudantes. Na presente pesquisa, são apresentados os dados do Diário de Bordo que expressam o processo do movimento de não objetivação e objetivação do ensino, devidamente tratados30.
Dentro das possibilidades de turmas do ano de 2014 atribuídas a esta pesquisadora, foi escolhida para a objetivação da pesquisa de campo uma turma com baixo rendimento31 no
primeiro bimestre, e, segundo os professores dessa unidade escolar, o mais baixo considerando ser o fim do ciclo da Educação Básica, uma terceira série do Ensino Médio, a qual possuía inúmeros problemas, entre eles o fantasma da evasão escolar e o da repetência.
A turma é composta por um grupo heterogêneo de indivíduos, 43 oficialmente matriculados, contando com as ocorrências de abandonos, remanejados e transferidos, e cerca de 20 escolares frequentes32 no início da pesquisa de campo. Alguns já passaram pela experiência de repetir alguma série e outros por motivos pessoais tiveram que abandonar os estudos em algum momento, isso no âmbito das questões escolares.
Parte significativa dos jovens que compõem a turma ou tem mais de 18 anos ou está prestes a completar a maioridade; vários não estavam familiarizados ao significado da escola
30 O Diário de Bordo em sua inteireza não será apresentado por conter elementos que apontam a identidade dos
sujeitos da pesquisa (estudantes e seus familiares, professores e funcionários da escola) e inclusive os dados da própria instituição de ensino.
31 Isso significa de modo geral, no interior do contexto escolar e de suas práticas, que o rendimento da turma
eram notas inferiores ao valor cinco e que, representada por seus sujeitos tomados individualmente, estes tinham notas inferiores ao valor indicado em mais de quatro disciplinas. A tabulação do rendimento dos escolares consta no Anexo C, apresentando o rendimento do primeiro e do segundo bimestre.
32 Lista dos escolares frequentes no início do experimento didático consta no Anexo E, essa lista também é
enquanto instituição promotora de humanização, pois a frequentavam ou porque os pais e/ou responsáveis os obrigavam ou porque a justiça solicitava (jovens sob a condição de liberdade assistida) ou, ainda, porque viam a escola como ambiente para encontro de seus pares. Uma parcela mínima dos escolares estava na escola por almejar acesso ao Ensino Superior, ou por gostar de estudar33.
A reprodução do preconceito no interior da escola acontecia veladamente. Em função de sua constituição, a turma elencada sofria o estigma do fracasso escolar de modo recorrente no decurso do ano letivo; possuía um número significativo de jovens que já haviam repetido alguma série e/ou evadido (abandonado a escola) em algum momento de sua trajetória escolar.
Os escolares percebiam certo tratamento diferenciado, como constatado durante a pesquisa de campo, nas gravações da aula, no dia 8 de agosto de 2014, quando os escolares relatam que se sentem como se fossem “o resto da escola”; na fala de uma jovem denominada como V.H., para preservar sua identidade, “esta é a sala dos excluídos”. Eis a transcrição de parte da conversa:
V.H.: Parecem que escolheram a dedo os alunos que iriam estudar nesta turma, porque aqui só tem o resto da escola. Esta é a sala dos excluídos.
Professora: Vocês não deveriam falar desta forma, vocês são muito bons. O que falta é um motivo para o estudar, mas isso é uma construção que leva tempo e que precisa ser incitada por um professor cuja intenção seja promover o estudo e a apropriação do conhecimento teórico.
G.B.: Professora, observa. Aqui só tem os lixo. É gente repetente, uns que não estão nem aí para nada, o Febem (apelido de um dos escolares), grávidas, e tem gente aí com o nome na chamada que eu nem conheço, porque nunca vem!
L.S.: Eu mesma nem era dessa sala. Pedi para o povo (a escolar se refere à equipe gestora, a direção) para mudar de turma e me colocaram aqui. E parece que estou no lugar certo.
Professora: Vocês estão de fato desmotivados, não é? Pensem que o que relataram são apenas aspectos que constituem a turma, mas não impedem que ninguém aqui aprenda e estude. Vamos fazer assim, eu vou no ritmo de vocês e no fim do ano letivo iremos pensar coletivamente o que foi esta turma. Tudo bem?
Alguns concordam, mesmo com uma expressão de "desacreditados". (Transcrição de acompanhamento à sala de aula, Diário de Bordo, 8/8/2014)
Percebe-se no diálogo a explicitação por parte dos escolares do porquê se consideram uma turma propensa ao fracasso escolar. O diálogo evidencia a culpabilização dos sujeitos no processo de ensino e aprendizagem, indivíduos que enxergam as características da coletividade da turma como produtora do fracasso a priori do movimento para a atividade pedagógica.
33 Dados obtidos por meio das interações e diálogos em sala de aula, os quais estão registrados no Diário de Bordo e foram sistematizados posteriormente. Cf. Anexo D.
O fracasso escolar tem diversas manifestações na teoria, como já explicitado, algumas evidenciam a carência cultural de indivíduos que não estão preparados para frequentar os bancos escolares por pertencerem a uma determinada classe social e/ou etnia; outras explicitam que há distúrbios de aprendizagem inatos ou constituídos pelos aspectos físico- cognitivos, étnico-raciais e socioeconômicos.
As teorias tradicionais acerca do fracasso escolar realizam um recorte sobre o escolar que apresenta algum problema de escolarização, torna natural o que é de ordem sociopolítica, visto que se trata de um fenômeno que reproduz a organização social no interior da escola. Daí o escolar ser tratado como culpado pelo insucesso na escola.
Na turma, período noturno, apenas 21 dos 32 escolares matriculados frequentavam as aulas no momento inicial da pesquisa de campo; 21 trabalhavam e os demais participavam dos cuidados do lar no decorrer do dia. Do total de matriculados, 12 nunca repetiram ou abandonaram os estudos durante sua trajetória escolar, mas 20 já haviam sofrido algum problema de escolarização (evasão, repetência, defasagem idade-série, dificuldades no processo de apropriação de determinados tipos de conhecimentos teóricos). Cerca de 40% tinham mais de 18 anos e cerca de 20% tinham filhos; tais circunstâncias de vida impactavam diretamente o modo como viam a escola e o sentido que atribuíam ao estudar34.
A prática de um experimento didático cuja finalidade é a pesquisa acadêmica foi tida como algo positivo por parte da equipe que atua na escola, porque consideraram a pesquisa como um exame das possibilidades que ainda existem no seio escolar para a superação, mesmo que parcial, do fracasso escolar. Outros a enxergaram apenas como mais uma receita que se diz pronta para o agir pedagógico. E outros como uma inovação, porque nunca haviam conhecido ou acompanhado de maneira tão próxima a construção teórica de uma pesquisa que se dá no interior do contexto escolar por alguém que faz parte dele.
Como um processo que lida diretamente com os trâmites burocráticos, para que o consentimento da coleta de dados fosse deliberadamente concedido, uma das primeiras dificuldades da pesquisa está ligada à liberação de sua prática para a coleta de dados, e outra é a ausência de compromisso para com o efetivo cumprimento do calendário escolar.
As instituições de ensino, de maneira geral, apresentam, por diversas vezes no ano letivo, reuniões que oficialmente não compõem o calendário homologado pela resolução que
34 Dados obtidos por meio das interações e diálogos em sala de aula, os quais estão registrados no Diário de Bordo e foram sistematizados posteriormente (Anexo D).
sanciona o ano letivo, cria inúmeros projetos pedagógicos35que impedem e/ou interrompem o
efetivo exercício da atividade pedagógica na sala de aula, assim como a própria Secretaria da Educação do Estado de São Paulo (SEE/SP) convoca indiscriminadamente o corpo docente e a equipe gestora para encontros – que em nada colaboram para a efetiva transformação do fracasso instituído na escola – ou altera o que está disposto em lei de forma equivocada, por meio de resoluções e decretos.
Além disso, existem os problemas de ordem estrutural nos sistemas de ensino e suas instituições, como, por exemplo, a ausência de material apropriado para um trabalho diferente em sala de aula (ou o simples, como folha sulfite, fotocopiadora e computador que funcionem adequadamente), há constantes mudanças nos horários de aula (o que prejudica o planejamento tanto do professor quanto do escolar que nem sempre têm o material a ser utilizado em mãos), falta de estrutura predial (um exemplo é a constante queda na energia elétrica, como as aulas para coleta de dados são no período noturno, algumas ficaram impedidas de ocorrer), entre outros eventos. Assim, a governança da escola interfere na formação dos indivíduos porque não consegue sobrepujar a precariedade e motivar o escolar a frequentar o espaço que obteve legalmente por meio da matrícula efetivada, como Assali (2014) aponta.