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METODOLOGIA UTILITZADA PER DESENVOLUPAR EL TREBALL

A partir dessa “estetização radical”, as tramas que são intrínsecas a qualquer sociedade fundada nas bases do capital, como a exclusão, marginalização e o controle social dos despossuídos, ganham outros contornos no Brasil, uma outra roupagem, uma brasilidade. A modernização da sociedade brasileira e sua incorporação na radicalidade da ordem econômica do capitalismo tardio é realizada “[...] sem abrir mão do arsenal de maldades do absolutismo e

da escravidão.”387 E o racismo vai condicionar os processos de apartamento gerados pelo

capital.

No Brasil periférico a demanda por ordem no capitalismo contemporâneo e o “mal- estar da pós-modernidade” vai adquirir contornos dramáticos. Aquela tempestade que Walter

Benjamin388 nos fala chamada “progresso” chega ao Brasil acompanhada de uma chuva ácida

e corrosiva, carregada daqueles escombros e ruínas do empreendimento colonizador e escravocrata, formando uma estética radicalizada da escravidão que nem as mais tocantes e fortes palavras conseguiriam descrever. Jean Baptiste Debret, não por acaso, precisa recorrer à

384 Ibidem, p. 105. 385 Ibidem, p. 135. 386 Ibidem, p. 77. 387 Ibidem, p. 138.

388 Walter Benjamin faz uma ácida crítica ao tão proclamado “progresso” do capitalismo a partir de uma outra

perspectiva da história. Trabalhando “sobre o conceito da História” ele nos fala das características de uma espécie de “anjo da história”: “seu rosto está dirigido para o passado. Onde nós vemos uma cadeia de acontecimentos, ele vê uma catástrofe única, que acumula incansavelmente ruína sobre ruína e as dispersa a nossos pés. Ele gostaria de deter-se para acordar os mortos e juntar os fragmentos. Mas uma tempestade sopra do paraíso e prende-se em suas asas com tanta força que ele não pode mais fechá-las. Essa tempestade o impele irreversivelmente para o futuro, ao qual ele vira as costas, enquanto o amontoado de ruínas cresce até o céu. Essa tempestade é o que chamamos de progresso.” BENJAMIN, Walter. Obras escolhidas I - Magia e técnica, arte e

pintura para nos mostrar os contornos e raízes dessa brutal estética que muitos teimariam em acreditar apenas lendo. O horror de sua moldura no nosso cotidiano é de fato corrosivo e dói. Mas se por um lado essa estética ainda é muito viva e intensa numa concretude perceptível aos olhos de todos (e no corpo e mente dos indivíduos de cor), por outro lado, ela parece entrar pelos olhos de todos (e pela pele e carne negra daqueles que ousam ultrapassar as fronteiras desse modo de existir) e se naturalizar, como se fosse uma paisagem que faz parte da natureza. O extermínio de milhares de jovens afrodescendentes são os efeitos mais

concretos dessa “estética da escravidão” que Vera Malaguti Batista389 nos apresenta.

Arranjos estéticos que entram pelos olhos, se introjetam, se naturalizam e se

cristalizam390. A estética está implicada com as subjetividades de uma determinada ordem

social, reprodutora de sua hierarquia. Para Vera Malaguti Batista “a estética, assim, insere o poder social o mais profundamente no corpo daqueles a quem subjuga, atualizando a

hegemonia política necessária à ascensão burguesa.”391 A Ordem social de matrizes

escravistas produziu em nosso cotidiano essa “estética da escravidão”. Um processo de estetização das relações que vão desde a fala submissa e obediente das classes subalternas para com os de cima ao trato profundamente hierarquizador e violento com os homens e mulheres de pele escura.

É nesse ponto que a estética da escravidão carrega marcas daquele “autoritarismo de

corte tomista” de matriz ibérica que, segundo Gizlene Neder392, é regido por uma visão de

hierarquia social rígida que projeta um lugar determinado para cada indivíduo classe ou raça na estrutura social.

Naquele olhar sobre a demanda por ordem imposta pela “visão de pureza”, Bauman393

percebe que ingressamos num mundo em que muitos aspectos terríveis são tão óbvios que já não são sequer notados e nem precisam de qualquer esforço de decifração para estarem invisivelmente presentes em tudo o que fazemos em nosso cotidiano, desde nossos atos às coisas sobre as quais agimos. Para Vera Malaguti Batista “o lugar do negro na sociedade

389 BATISTA, Vera Malaguti. O medo na cidade do Rio de Janeiro: dois tempos de uma história. Rio de

Janeiro: Revan, 2003, pp. 203-221.

390 Ibidem, p. 53. 391Ibidem, p. 77.

392 NEDER, Gizlene. Iluminismo Jurídico-Penal Luso-Brasileiro: Obediência e Submissão. Rio de Janeiro:

Revan, 2ª ed. agosto de 2007, p. 177.

393 BAUMAN, Zygmunt. O mal estar da pós-modernidade. Trad. Mauro Gama e Claudia Martinelli Gama;

brasileira é um exemplo deste processo, em que uma rígida hierarquização social é

naturalizada a ponto de se tornar imperceptível”394

É bastante intrigante como esses arranjos estéticos, talvez rearranjos, se consolidaram no campo social brasileiro tendo como pano de fundo, por exemplo, o momento de crise dos mecanismos e das ideologias da dominação senhorial, principalmente a partir da segunda metade do século XIX, quando os negros no Brasil, com o advento da “abolição”, precisaram ser controlados não só em relação a sua força de trabalho, mas em relação ao seu movimento pelas cidades e seus anseios de sedição.

Sidney Chalhoub395, analisando as estratégias de controle social da população negra e

as resistências a esse controle no século XIX, nos apresenta um “teatro vivo da escravidão” que permanece entre nós até hoje. Em meio a uma trama permeada por um “medo branco de

almas negras”, Sidney Chalhoub396 chama a atenção para a estratégia da “suspeição

generalizada”, com a construção de uma ordem social/senhorial na “cidade idealizada” do Rio de Janeiro que desconfiava de tudo e que, para desconfiar, transformava todos os negros em suspeitos. Os movimentos e circulação dos negros, principalmente os escravos, era um entrave na construção de uma “cidade branca” com relações verticalizadas, daí lançar mão da “suspeição generalizada” contra os despossuídos: os escravos e os que se enquadravam na

categoria de “pessoas suspeitas” ou “as pessoas que se julguem não possuírem... objetos”397.

E o quanto dos atos e cenas desse teatro pode ser observado ainda hoje nas grandes cidades brasileiras, nas situações em que determinados segmentos populares, como a juventude negra, precisam provar a licitude dos bens que portam consigo quando são abordados.

É possível imaginar também o quanto dessa mentalidade da “suspeição generalizada” não foi determinante para o fuzilamento de um veículo onde se encontravam cinco jovens

negros na cidade do Rio do Janeiro em 30/11/2015398. Afinal, jovens negros dentro de um

carro se divertindo estão “fora do lugar”, causando mal-estar, borrando a paisagem e a estética da escravidão que se naturalizou entre nós.

Não temos somente “ideias fora do lugar”, como pontua Robert Swarchz ao falar de nossa formação social, mas pessoas “fora do lugar”, pessoas que não se ajustam, que insistem

394BATISTA, Vera Malaguti. O medo na cidade do Rio de Janeiro: dois tempos de uma história. Rio de

Janeiro: Revan, 2003, p. 78.

395 CHALHOUB, Sidney. Medo branco de almas negras: escravos, libertos e republicanos na cidade do Rio de

Janeiro. Revista Brasileira de História, São Paulo, v. 8, nº 16, p.83-105, 1988.

396 Ibidem, p. 91. 397 Ibidem, p. 96.

398 ESQUERDA DIÁRIO. Cinco jovens negros tem carro fuzilado pela Polícia Militar no RJ. Disponível em:

http://www.esquerdadiario.com.br/Cinco-jovens-negros-tem-carro-fuzilado-pela-Policia-Militar-no-RJ. Acesso em 10 de março de 2016.

em sujar, ultrapassar as fronteiras, poluir os espaços em que se idealiza a pureza e a ordem. Pessoas ou coisas que insistem em desobedecer aquela “estética da escravidão”. Pretos/pobres em posição de protagonismo ofendem o senso esteticamente agradável e moralmente tranquilizador da harmonia que Bauman descrevia naquele “sonho de pureza” tão presente na contemporaneidade brasileira. Aliás, ver o preto/pobre preso ou morto já é cultural, como nos

ensina Edy Rock e Mano Brown.399

Ousamos dizer que no Brasil não são só as características forjadamente atribuídas aos negros/pobres que os transformam em empecilho à construção da ordem, mas também e principalmente sua localização dentro da ordem das coisas idealizada sob a estrutura e a estética escravista. Mais do que obedecer a essa estética espacialmente, parafraseando Gizlene Neder, os negros são levados a ser, ver e sentir o seu lugar na estrutura social. Sentir o peso da super-exploração do seu trabalho ou/e a força das engrenagens da máquina mortífera que é o sistema penal brasileiro.

Um modo de existir que naturalizou a desigualdade abissal entre ricos e pobres; a super exploração do trabalho; a profunda hierarquização social; a obediência e a submissão nas relações sociais; a assombrosa violência e a brutalidade contra os de baixo, inclusive a exercida entre eles; naturalizou um controle social-policial absoluto e mortífero.

A “estética da escravidão” também naturalizou todo aquele acúmulo de técnicas e mecanismos de punição do empreendimento escravocrata que tinham como cerne a corporalidade, desde os castigos mais simples com a palmatória, passando pelos castigos físicos com açoites e chibatas, até chegar nas diversas técnicas de tortura no tronco e a morte pelas mais diversas formas. Esse arcabouço fez com que a tortura fosse exercida entre nós

mais como um objetivo do que um meio;400 o castigo físico em público e o extermínio se

transformassem em uma cena cotidiana exercida com certa naturalidade pela polícia contra negros e pobres.

Dentro do projeto humano erguido em torno dessa estética no Brasil, podemos constatar que o jovem negro/pobre não é descartável por si, por ser portador do mau, mas se torna descartável mediante a lógica do racismo. É com o racismo presente nas práticas de controle social da instituição de menores, por exemplo, que ele é colocado na condição de perigoso ou mau e consequentemente lançado ao extermínio. Esses jovens não são exterminados por serem perigosos ou criminosos (como se costuma propagar), mas são

399 RACIONAIS MCs. Fórmula mágica da paz. Álbum: Sobrevivendo no inferno, Cosa Nostra, 1998.

400 BATISTA, Vera Malaguti. O medo na cidade do Rio de Janeiro: dois tempos de uma história. Rio de

colocados nessa condição de perigosos e criminosos por serem sempre destinados ao extermínio.

Na construção da ordem neoliberal no Brasil, sob os escombros da escravidão e de nossas matrizes ibéricas, mais do que um lugar, os negros/pobres, principalmente os jovens, também são vistos cada vez mais sob o prisma do descarte. Como pessoas/coisas que não ofendem a estética da escravidão só por sua localização ou por suas características, mas por não ter um lugar reservado, uma funcionalidade à reprodução do sistema, na nova roupagem que ganhou o projeto estético e político da sociedade brasileira no capitalismo tardio. Essas sobras, esses excessos decorrentes da forma como o capital se reproduz, simplesmente não têm sequer lugar na estrutura social, nem mesmo nas funções mais subalternizadas reservadas aos negros/pobres ao longo da história, sua simples existência é um estorvo à manutenção da ordem. Aqui entra em cena como nunca antes o intenso funcionamento do moinho de gastar gente preta e jovem.

É por meio da análise do projeto de sociedade autoritário e violentos na formação social brasileira, com suas permanências de longa duração, que teimamos em afirmar o duplo papel do saber ou dos discursos de verdade que desqualificam a vida da juventude popular. Eles funcionam para dar suporte e continuidade ao “moinho de gastar gente”, para fazer com que as estruturas desses projetos humanos sejam mantidas, para fazer com que os tataranetos daqueles homens de pele escura, que foram excluídos, criminalizados e exterminados no momento de formação dessa ordem, sejam direcionados para o mesmo destino.