Cliente Final
17. Operativa logística
17.2. Metodología de pago
Se Lícia Manzo nos falou que nas crônicas de Clarice para o Jornal do Brasil a escritora “escrevia o que se poderia, mais tarde, chamar de „autobiografia‟, ainda que de modo inteiramente não planejado.” (MANZO, 1997, p. 89), seria aqui necessário nos
perguntarmos que tipo de autobiografia viria a se materializar no espaço dessas crônicas do jornal.
O nosso trabalho se configura, antes mesmo que no defender ou rechaçar essa configuração autobiográfica das crônicas de Clarice, no problematizar os limites de tal imbricamento. Pois, se é inegável que os fatos verificáveis da biografia da escritora foram parar nas páginas do jornal, é também verdade que esses “fatos de vida” nunca escaparam do tratamento estético-literário singular à escrita clariciana.
Sinalizemos aqui que, para situar esse modo de inscrição da vida de Clarice em sua escrita, é importante levar-se em conta as considerações da escritora com relação a
literatura. De que é exemplo uma das cartas de 1942, enviada para sua irmã Tania96, uma
das primeiras entre aquelas cartas reunidas no terceiro volume de sua correspondência a ser publicado, o livro Minhas queridas (LISPECTOR, 2007):
Estou só num quarto, (...) Não escrevi uma linha, o que me perturba o repouso. Eu vivo à espera de inspiração com uma avidez que não dá descanso. Cheguei mesmo à conclusão de que escrever é a coisa que mais desejo no mundo, mesmo mais que amor. Tenho recebido cartas formidáveis do Maury97. Houve uma briga entre nós
porque ele interpretou como literária uma carta que eu mandei. Você bem sabe que isso é a coisa que mais pode me ofender. Eu quero uma vida – vida e é por isso que desejo fazer um bloco separado da literatura. E além do mais, eu tinha escrito a carta com uma espontaneidade integral. Escrevi interrompendo o nosso caso. Pois recebi imediatamente um telegrama e duas cartas uma em cima da outra. O telegrama com resposta paga. Isso me comoveu e mesmo eu já estava arrependida. Mas, mesmo tendo certa certeza de amor, mesmo tudo, eu continuo querendo mais que todas as coisas a que você sabe. (LISPECTOR, 2007, p. 23)
O trecho da carta serve-nos para registrar, que já em 1942, data dessa correspondência, a jovem escritora Clarice Lispector se preocupava bastante em manter seus escritos separados de sua vida. Sendo que considerava, como viria a considerar, bastante ofensivo ser rotulada de escritora, em detrimento de ser percebida, em primeiro lugar como uma pessoa. Mas, se Clarice confessava, na carta a irmã em 1942, o desejo, e mesmo a necessidade, de separar a literatura da sua vida, confessaria também, aos seus leitores, em uma de suas crônicas do Jornal do Brasil, em 1968, o seguinte:
Por enquanto L. de A., não estou largando a coluna: mas aprendendo um jeito defender minha intimidade. Quanto a eu me delatar, realmente isso é fatal, não digo nas colunas, mas nos romances. Estes não são autobiográficos nem de longe, mas fico depois sabendo por quem os lê que eu me delatei.
96Carta de Clarice Lispector para a irmã Tânia Kaufmann, enviada da Fazenda Vila Rica, Estado do Rio, em
janeiro de 1942, (Minhas Queridas, 2007, p. 23).
No entanto, paradoxalmente, e lado a lado com o desejo de defender a própria intimidade, há o desejo intenso de me confessar em publico e não a um padre. O desejo de enfim dizer o que nós todos sabemos e no entanto mantemos em segredo como se fosse proibido dizer às crianças que Papai Noel não existe, embora sabendo que elas sabem que não existe. (DM, 1999, p. 78-79)
Nesse trecho já citado da crônica “Outra carta”, de 24 de fevereiro de 1968, Clarice
retoma o assunto de sua intimidade se denunciar no espaço das crônicas, quando responde à carta de uma de suas leitoras que lhe escrevera perguntando se a escritora iria abandonar a coluna no jornal (DM, 1999, p. 78-79). O paradoxo da pessoalidade da escrita cronística de Clarice pode ser percebido na medida em que o consideramos como movimento que a nega, ou a descredencia, no movimento de confessá-la.
Desse paradoxo que é negar ou se esquivar da inscrição autobiográfica de suas crônicas quando se sente realmente autobiograficamente implicada, temos um perfeito exemplo na já referida crônica “Fernando Pessoa me ajudando”. Voltemos novamente a essa crônica, naquela derradeira frase, em que, cita Fernando Pessoa: “Falar é o modo mais simples de nos tornarmos desconhecidos.” (DM, 1999, p. 137). Na qual, e ao que nos parece, Clarice não se esquiva de afirmar sua pessoalidade na sua escrita, mas a problematiza, a desestabiliza, como sendo um lugar vazio, lugar do intangível, do inapreensível, da ausência.
E se passamos ao espaço de suas cartas, esse espaço que em princípio não se estrutura como tendo em vista a publicização de seu conteúdo, percebemos que também aí
Clarice se permite apropriar-se de si mesma, pois o mesmo movimento de “transmigração
intra-textual” (SÜSSEKIND&DIAS, 2004, p. 625) operada por ela entre seus romances,
contos e crônicas inclui alguns dos seus escritos de missivista, posteriormente reelaborados para integrarem sua obra de escritora.
Disso seria exemplo a crônicas “Lembrança de uma fonte, de uma cidade”, de 14 de
fevereiro de 1970, (DM, 1999, p. 270), em sua relação com a carta enviada por Clarice, de Berna, ao amigo Lúcio Cardoso, em 23 de junho de 1947, (LISPECTOR, 2002, p. 135). E
é assim com as crônicas sobre viagens98, nas quais o conteúdo noticiado aos seus amigos e
familiares sobre suas viagens, no espaço das cartas, se tornou motivo das posteriores
98As crônicas: “Viajando por mar (1ª parte)”, 5 de junho de 1971, (DM, 1999, p. 349-350); “Viagem de
trem”, 5 de junho de 1971, (DM, 1999, p. 350-351); “Já andei de camelo, a esfinge, a dança do ventre (conclusão)”, 12 de junho de 1971, (DM, 1999, p. 351); “Falando em viagens” 12 de junho de 1971, (DM, 1999, p. 352-353); “Estive na Groelândia, 12 de junho de 1971, (DM, 1999, p. 353); e ainda a crônica: “Estive em Bolama, África”, 12 de junho de 1971, (DM, 1999, p. 353)
crônicas que Clarice escreveu para o jornal. E no que se refere à correspondência de
Clarice Lispector, André Luis Gomes99, afirma que esta seria:
extremamente esclarecedora para aqueles que se dispõem a decifrar seus textos literários e foi fundamental para a organização e elaboração das várias biografias da escritora existentes. Transcrita e publicada no livro Correspondências – Clarice Lispector (LISPECTOR, 2002), facilita a pesquisa e amplia o prazer daqueles que buscam conhecer um pouco mais sobre essa mulher que escreveu sobre as inquietações de sua época, suas descobertas e, assim, descortinou um mundo desconhecido. Como em um teatro em que os elementos vão sendo revelados, (...), Clarice vai revelando sua própria história __ contando e se contando __, em seus textos literários e nas correspondências. (GOMES, Cerrados: revista, 2007, p 17) Tratando desse espaço epistolográfico, Silviano Santiago, (SANTIAGO, 2006), nos fala do modo pelo qual o missivista, ao dar-se a ver aos olhos do outro, no espaço de sua correspondência, consegue, através da resposta de seu interlocutor, conhecer-se também
pelos olhos do outro. Mas o espaço das cartas enseja, nesse movimento de “dar-se” a ver, e
de se “ver” o outro, que recai sobre ambos, a inscrição de uma atitude performática, cênica, à medida que, no processo de se mostrar ao seu correspondente, o “eu” epistolográfico acaba por apresentar-se ao outro como o produto de uma delimitação, uma escolha prévia
do que se vai mostrar100.
Mas voltemos aqui ao espaço da crônica, que enquanto gênero exige, daqueles que o praticam, a inscrição de sua referencialidade, seu corpo, sua identidade no produto dessa escrita. Um exemplo da consciência dessa exigência seria o tratamento que Rubem Braga confere, em uma de suas crônicas, a esse assunto. Estamos nos referindo à crônica “Sobre o Inferno”, de julho de 1948, (BRAGA, 2004, p. 89-90), na qual ele dirá:
Mas o jornalista profissional Rubem Braga, filho de Francisco de Carvalho Braga, carteira 10 836, série 32ª registrado sob o número 785, Livro II, fls. 193, ergue a fatigada cabeça e inspira com certa força. Nesse ar que inspira entra-lhe pelo peito a vulgar realidade das coisas, e seus olhos já não contemplam sonhos longe, mas
99GOMES, André, Luís. “Entre Focos: correspondências e Textos Literários”. In: Cerrados: revista. Brasília,
DF: UNB Tema especial: Literatura e presença: Clarice Lispector. Vol. 16, N. 24, 2007, p. 27.
100 Silviano Santiago ao analisar as cartas trocadas entre Mário de Andrade e Carlos Drummond de Andrade,
diz que, no espaço da carta, mesmo que se entregue ao seu correspondente, o missivista jamais se distância de si mesmo. Isso devido ao fato de que a escrita epistolográfica seria “semelhante ao alter ego do escritor em busca de diálogo consigo e com o outro”. A escrita da carta seria, segundo Santiago, “a forma mais desinibida e sublime da „écriture de soi‟, para retomar o conceito de Michel Foucault”, ela está em relação direta com o “sujeito empírico”. O escritor que inscreve a si próprio no espaço da carta ainda no mesmo movimento de dirigir-se ao outro, seu correspondente. Pois, ao “querer instigar e provocar o outro, à espera de reação, de preferência uma resposta, o missivista retroage primeiro sobre si mesmo”. O destinatário da carta é para o missivista, na esperança da carta-resposta, o outro do qual ele espera receber palavras que atuem sobre ele de forma ativa, seja como “tônico, calmante ou vermífugo...”, (SANTIAGO, 2006, p. 65).
apenas um varal com uma camisa e um calção de banho, e, ao fundo, o tanque de lavar roupas de seu estreito quintal, desta casa alugada em que ora lhe movem uma ação de despejo.
E é bom que haja uma ação de despejo, sempre devia haver, em toda casa, para que assim o sentimento constante do precário nos proibisse de revestir as paredes alheias com nossa ternura e de nos afeiçoarmos sem sentir até à humilde torneira, e ao corrimão da escada como se fosse um ombro de amigo onde pousamos a mão. Sinto com a máxima precisão que as letras, nos bancos, se aproximam precipites de seus vencimentos, e que os deveres se acumulam com desgraciosa urgência, e tudo é preciso providenciar, telefonar, mercadejar, sofrer.
Suspiro como Jorge Machado Moreira, meu antigo co-responsável, e Luís Vaz de Camões, meu antigo poeta, sobre tanta necessidade aborrecida. E acabando o suspiro me ergo e vou banhar o triste corpo, porque a alma, oh-lá-lá, devo mergulhá-la não no sempiterno Nirvana, porém na desgraça miúda e suja da jornada civil, lítero-comercial, entre apertos de elevador e palavras sem fé. Dou apressado adeus a mim mesmo e o bonde São Januário, disfarçado em escuro e feio lotação, leva mais um operário. (BRAGA, 2004, p. 89-90)
Toda essa materialidade, essa referencialidade com a qual Braga joga para a construção de sua crônica está presente também, nas crônicas escritas por Clarice Lispector. Assim não fosse e o livro Aprendendo a viver, 2004, nunca teria vindo à lume, pois sua publicação refere-se justamente ao desejo de propiciar ao leitor de Clarice Lispector o contato com uma seleção de crônicas nas quais a escritora se inscreveria de modo não-ficcional. E deste modo, o livro que nos pretende colocar em contato com a Clarice que fala de si mesma, começa por, cronologicamente, apresentar as crônicas que, consensualmente são citadas como relacionadas diretamente com a vida da escritora, suas memórias e experiências biograficamente comprováveis.
Deste modo, teremos nesse volume, em primeiro lugar a crônica “Banhos de mar”, de 25 de janeiro de 1969, na qual recordemos, Clarice falará: “Meu pai acreditava que todos os anos se devia fazer uma cura de banhos de mar. E nunca fui tão feliz quanto naquelas temporadas de banhos em Olinda, Recife. (...)” (APV, 2004, p. 7- 9). Em seguida temos a crônica “Restos de carnaval”, de 16 de março de 1968, na qual inegavelmente vemos o tratamento que a escritora conferiu, ao ocorrido naquele carnaval: o fato de sua
mãe doente ter subitamente piorado e quando ela estava “vestida de papel crepom todo
armado” (APV, 2004, p. 9 -12) a mandaram “comprar depressa um remédio na farmácia”
(APV, 2004, p. 9 -12), e foi assim que ela saiu correndo “vestida de rosa”, pelas ruas
apinhadas de foliões. Após voltar da farmácia e de sua mãe melhorar, conta que:
Quando horas depois a atmosfera em casa acalmou-se, minha irmã me penteou e pintou-me. Mas alguma coisa tinha morrido em mim. E, como nas histórias que eu havia lido sobre fadas que encantavam e desencantavam pessoas, eu fora
desencantada; não era mais uma rosa, era de novo uma simples menina. (APV, 2004, p. 11)
O conteúdo dessa história, e mesmo o título, “Restos de carnaval”, é já conhecido por haver sido publicado como conto em por constar em diferentes dos livros de contos de Clarice. Mas o que o torna interessante, quando apresentado como crônica é que a dimensão referencial, autobiográfica que se percebe na história toma proporções mais palpáveis. As crônicas seguintes compartilham da mesma dupla inscrição no interior da obra clariciana, ou seja, aparecem publicadas tanto como contos como crônicas, e ainda situam-se, ao que consta, no delicado, e até inexistente limite entre ficção e escrita autobiográfica na medida em que apresentam fatos comprovadamente referencias da vida, aqui da infância, da escritora.
Assim, temos a crônica “Cem anos de perdão”, de 25 de julho de 1970, que fala da aventura de “roubar rosas” (APV, 2004, p. 12-14), praticada na infância por Clarice junto
com uma amiga. Ou a crônica “Medo da eternidade”101, de 6 de junho de 1970, em que nos
conta como ela experimentou goma de mascar pela primeira vez e como ficou apavorada
diante da bala que durava para sempre: “a vantagem de ser bala eterna me enchia de uma
espécie de medo, como se tem diante da idéia de eternidade ou infinito” (APV, 2004, p.14- 15). Isso para nos atermos aqui apenas às primeiríssimas crônicas que se forma reunidas em Aprendendo a viver. Nádia Gotlib (2009), que trata desses escritos nas suas respectivas versões de contos, não deixa contudo, de apontar que vários deles passaram pela crônica. E de nomeá-los como:
“contos de memória da Infância em Recife” um conjunto de contos, alguns dos quais integram o volume Felicidade Clandestina, tais como: “Felicidade Clandestina”, “Restos do Carnaval”, “Cem Anos de Perdão”. Outros, que bem poderiam integrar esse volume, pela qualidade estética e afinidade temática, foram publicados no Jornal do Brasil, e depois, em A descoberta do mundo, como “As grandes punições”. (GOTLIB, 2009, p. 80)
Mas falemos ainda do seguinte, Clarice nessas crônicas, não oscila apenas entre as formas, conto e crônica. Oscila também entre, por exemplo, o tratamento anunciado de temas de sua vida e memórias de sua infância, e a negação dessas relações, vida e escrita,
101Nesse sentido, ainda poderíamos citar aqui as seguintes crônicas de Aprendendo a viver: “As grandes
punições”, de 4 de novembro de 1967, (APV, 2004, p.16-17); “Tortura e glória”, publicada em 2 de setembro de 1967, (APV, 2004, p.18-20). As já referidas crônicas, “O primeiro livro de cada uma de minhas vidas”, 24 de fevereiro de 1973, (APV, 2004, p.20-22); “Vergonha de viver”, 14 de outubro de 1972, (APV, 2004, p. 23-25); E ainda, “O passeio da família”, 24 de abril de 1971, (APV, 2004, p. 22-23).
que tem lugar em outras de suas crônicas. Assim, entendemos, é que se dá na crônica “A
explicação que não explica”, 11 de outubro de 1969. Na qual, após o anuncio do sugestivo
título da crônica, vamos acompanhar a escritora percorrer 13 dos contos que integram sua
obra na tentativa de responder “como” ou “por que” de tê-los escrito (DM, 1999, p. 238-
240).
Mas não nos deteremos nesse percurso de Clarice, basta-nos aqui o que a vemos
dizer, às primeiras linhas da crônica: “Não é fácil lembrar-me de como e por que escrevi
um conto ou um romance. Depois que se despegam de mim, também eu os estranho.”
(DM, 1999, p. 238-240)102 Clarice afirma que, como a concentração necessária ao ato da
escrita a deixava alheia ao que não fosse necessariamente escrever, ainda que não se tratasse de um “transe”, restar-lhe-ia tentar “reconstituir” alguma coisa no intuito de responder a pergunta que lhe havia sido dirigida (DM, 1999, p. 238-240). Não havia aqui, nesse sentido, uma relação direta entre seus escritos e a materialidade de sua vida, suas memórias, sensações, enfim.
Mas, acompanhemos o pêndulo inclinando novamente para o outro lado, ao sabor dessas oscilações, para não dizer contradições, de Clarice no tocante a constituição de sua
escrita e de sua relação com ela. Passemos a crônica “Ao correr da máquina”, de A
descoberta do mundo (1999), da qual devemos dizer, antes de mais nada, que na verdade são duas. Novamente Clarice estará se utilizado do mesmo título para duas publicações diferentes, a primeira, em 20 de setembro de 1969, (DM, 1999, p. 232-233), e a segunda “Ao correr da máquina”, em 17 de abril de 1971, (DM, 1999, p. 340-342). Em seguida devemos dizer que a segunda crônica parecer ter sido uma retomada do tema, e ter sido desenvolvida pela escritora a partir da primeira.
Assim, passemos a primeira “Ao correr da máquina”, na qual a escritora trata dos seguintes assuntos e na ordem em que aqui os apresentaremos. Começa, interjeitivamente, por dizer: “Meu Deus, como o mundo sempre foi vasto e como eu vou morrer um dia.”(DM, 1999, p. 232-233). Daí se volta para o tempo, o tempo que antecede a morte, “E até morrer vou viver apenas momentos?”, (DM, 1999, p. 232-233), questionando a forma
102 É praticamente o mesmo tom utilizado por Graciliano em uma de suas crônicas, quando trata da sua
relação com alguns de seus escritos, e da relação de sua ficção com dados não ficcionais: “Um amigo me pede que diga como nasceram as personagens principais de alguns romances meus ultimamente publicados. Eu desejaria não tratar dessa gente que, arrumada em volumes, se distanciou de mim.” – na crônica “Alguns tipos sem importância” de Graciliano Ramos (1892-1953), em Linhas Tortas: obra póstuma. 4ª ed. Rio de Janeiro: Record; São Paulo, Martins, 1976. p. 194-196.
com que lhe foi dado receber, ou perceber, esse tempo. Depois de uma certa divagação, ainda sobre o tempo:
Não, dai-me mais do que momentos. Não porque momentos sejam poucos, mas porque momentos raros matam de amor pela raridade. Será que eu vos amo, momentos? Responde, a vida que me mata aos poucos: eu vos amo, momentos? Sim? Ou não? Quero que os outros compreendam o que jamais entenderei. Quero que me dêem isto: não a explicação, mas a compreensão. (DM, 1999, p. 232-233)
Passa a um assunto que comumente vemos surgir em sua obra cronística, e em sua obra em geral. Trata-se de falar das empregadas domésticas, do serviço doméstico, da vida das mulheres que prestam esse serviço e de como se dá sua relação, enquanto patroa, com elas, as empregadas. Assim, a vemos falar mais uma vez desse assunto quando, à sua divagação sobre o tempo, emenda com o seguinte:
Será que vou ter que vive a vida inteira à espera de que o domingo passe? E ela, a faxineira, que mora na Raiz da Serra e acorda às quatro da madrugada para começar o trabalho da manhã na Zonal Sul, de onde volta tarde para a Raiz da Serra, a tempo de dormir para acordar às quatro da manhã e começar o trabalho na Zonal Sul, de onde. __ (DM, 1999, p. 232-233)
Em seguida, se dirigindo a alteridade de uma segunda pessoa do singular,
acrescenta: “Eu vou te dar o meu segredo mortal: viver não é uma arte. Mentiram os que
disseram isso. Ah! existem feriados em que tudo se torna tão perigoso.” (DM, 1999, p.
232-233). Clarice parece comprazer-se em subverter a lógica inerente a tudo o que anuncia, pois seria possível explicar, de outra maneira, períodos como os citados aqui? E
poderíamos compreender de outro modo à forma elíptica através da qual ela “esclarece” ao
seu leitor, __aqui mais para um confidente, tal a proximidade com que a escritora o trata__ daquele seu “segredo mortal”?(DM, 1999, p. 232-233).
O que podemos afirmar aqui é que seu modo de escrita nessa crônica parece ser o resultado de uma técnica, ou melhor dizendo, de um modo de escrever ao qual Clarice
particularmente recorre em seus textos cronísticos. Refere-se ao “correr da máquina” __
que por sinal dá nome a essa crônica__, ou a escrita que se faz ao sabor das emoções, das sensações, memórias e palavras que afloram no momento mesmo em Clarice se põe a escrever. E havemos de lembrar ainda que, esse modo de escrita poderia ser resumido no trecho de “Ao correr da máquina” que diz: “Mas a máquina corre antes que meus dedos
corram. A máquina escreve em mim. E eu não tenho segredos, senão exatamente os mortais. Apenas aqueles que me bastam para me fazer ser uma criatura com os meus e um dia morrer.” (DM, 1999, p. 232-233).
Ou em outras palavras: o método clariciano para a composição cronística se resume, muitas vezes, em apenas se deixar levar pelo encantatório ato de datilografar na