A literatura demonstra que esta certificação surgiu no sentido de responder aos diversos códigos de conduta elaborados pelas empresas, principalmente daquelas que possuíam unidades de produção em países em desenvolvimento. Esta certificação obriga as organizações a cumprirem certos requisitos que estão relacionados com o trabalho infantil e forçado, saúde e segurança, liberdade de associação e direito à negociação coletiva, não discriminação, práticas disciplinares, horário de trabalho, remuneração e sistema de gestão.
Por se tratar de um processo bastante dispendioso, do ponto de vista financeiro e pelo tempo exigido para o cumprimento dos passos inerentes, são ainda parcas as empresas que optam pela certificação em Portugal.
Segundo a perspetiva dos entrevistados representantes das empresas certificadas, esta autenticação é o reflexo do trabalho desempenhado quotidianamente nas empresas. Para o entrevistado E4, a certificação “[…] permite ter uma fotografia do ponto de situação (…) em termos de organização (…) ficamos com uma fotografia muito mais clara, ou seja, nós dizemos, mas é diferente se outra pessoa disser, tanto para nós (…) como depois externamente […]”.
Já a entrevistada E6 refere-se à certificação como o “valor acrescentado” conferido à organização, que lhe proporciona uma vantagem competitiva face às suas concorrentes. Admite também que, a partir do momento que se encontram certificadas, as empresas possuem uma responsabilidade adicional, nomeadamente, por estarem comprometidas com os requisitos da norma.
Relativamente às empresas não certificadas, a importância da norma é igualmente reconhecida, como afirmam os entrevistados E3 e E5: “[…] acho que a norma é extremamente importante (…) vai ajudar a definir processos, procedimentos no âmbito da Responsabilidade Social […]”(Entrevistada E3); “[…] essa auto-verificação exterior dá alguma garantia, e quando se pede uma certificação não é tanto para usar no gabinete do administrador, mas por exigência de todos os colaboradores (…) não pode ser retórica (…) quantas mais certificações, mais autodomínio temos em relação ao cumprimento de metas […]” (Entrevistado E5).
processo: “Temos, de facto, vindo a pensar nisso nos últimos tempos. Ainda não há uma decisão, se avançamos ou não, mas é uma situação que está em análise (…) sem dúvida que no futuro vamos avançar (…) não posso é dizer que será este ano ou no próximo […]” (Entrevistada E7); “[…] estamos com alguns processos de certificação em curso, e esse também faz parte da carteira […]” (Entrevistado E5);
A entrevistada E3 confirma que existe a necessidade de uma vinculação da empresa a determinados processos, contudo, por razões que se prendem com decisões estratégicas da Administração, o processo de certificação não foi ainda concretizado.
Posteriormente, este grupo de entrevistados foi questionado acerca das vantagens que consideravam que traria a certificação pela norma SA8000. No seguimento dos exemplos referidos por Stigzelius e Mark-Herbert (2009), os entrevistados indicaram que a certificação pode suscitar vantagens como o compromisso com a Responsabilidade Social Corporativa (Entrevistado E5), a diferenciação do mercado (Entrevistado E10) e a criação de um padrão de procedimentos e práticas (Entrevistado E3, E8).
4.3.1. Processo de Certificação
No contexto das empresas certificadas, tornou-se importante compreender como decorreu o processo de certificação. Desde logo, é de reforçar que estamos perante um processo que envolve diferentes etapas até ao momento da certificação, pelo que é encarado por alguns entrevistados como “trabalhoso” (Entrevistado E1, E4) e “muito burocrático” (Entrevistada E1, E6), ainda que não seja um processo demoroso.
Portanto, é necessário que exista um grande envolvimento dos stakeholders, por forma a facilitar a concretização de alguns procedimentos. Neste sentido, impõe-se a resposta à seguinte pergunta de partida:
“Existirá um envolvimento pleno de todos os stakeholders no processo de certificação?”
De uma forma generalizada, todos os entrevistados referiram que existe bastante envolvimento
por parte dos vários stakeholders, desde colaboradores a clientes e fornecedores. Conforme indicado
num dos tópicos anteriores, a administração deve ser sempre a principal envolvida, não só na implementação de práticas de Responsabilidade Social Corporativa, como na decisão de obtenção da
certificação. A partir daí, existirá uma maior predisposição dos colaboradores para se envolverem neste processo.
A verdade é que este processo envolve, na maior parte das vezes, o trabalho conjunto de vários departamentos para que cada um possa dar o seu contributo para o cumprimento dos requisitos da norma.
De acordo com o entrevistado E4, numa fase inicial, procuraram fazer um diagnóstico interno, em parceria com uma empresa externa, que tinha como propósito aferir o grau de conformidade com os pressupostos da norma. Acrescenta ainda que o envolvimento com os fornecedores e subcontratados, apesar de constante, foi intensificado numa fase posterior, devido à imposição da norma de auditar estes parceiros: “Há uma série de coisas que eles têm que fazer e têm de ser envolvidos (…) na implementação propriamente dita, tirando essa parte de controlo de fornecedores, a norma é muito interna, portanto não houve grande necessidade de estarem envolvidos inicialmente […]”. Porém, alguns entrevistados assumem que ainda existe alguma resistência, principalmente por parte dos fornecedores ou clientes, pelo facto de estarem sujeitos a auditorias. Então, pode dizer-se que este é realmente o maior desafio para as empresas certificadas: “[…] o nosso “Calcanhar de Aquiles” é precisamente esse, os nossos fornecedores são a parte mais difícil […]” (Entrevistada E6); “Quando começamos a entrar nos fornecedores as coisas complicam-se (…) temos que tentar que eles façam as mesmas coisas que nós fazemos, o que é muito difícil (…) é uma área muito sensível e que vamos continuar a trabalhar no futuro […]” (Entrevistado E4).
Por outro lado, os entrevistados E6 e E9 confessam que existe uma grande abertura por parte de algumas empresas com que se relacionam, pelo facto de partilharem os mesmos objetivos: “[…] não reagem todos da mesma forma, porque muitos ou não acompanham efetivamente esta evolução ou não são certificados e não querem investir nessa área (…) mas, na maioria felizmente, todos vão ao encontro dos nossos objetivos, são muito recetivos e apoiam […]” (Entrevistada E6); “[…] é um processo fácil, geralmente as empresas com quem temos trabalhado estão abertas a esta nossa forma de pensar […]” (Entrevistado E9).
Denota-se, então, que é essencial o envolvimento de todas as partes interessadas no processo de certificação que devem, num primeiro momento, ser sensibilizadas para os requisitos da norma e, posteriormente, tidas em consideração na sua implementação.
4.3.2. Implicações da Certificação para as Empresas
Conforme acima mencionado, esta certificação é um processo bastante exaustivo e exigente, que implica sobretudo um grande compromisso por parte da organização.
Todavia, os resultados advindos da certificação prendem-se essencialmente com a diferenciação e reconhecimento externo: “[…] A norma é uma questão de mostrarmos ao mundo que somos socialmente responsáveis (…) e isso é a parte mais importante de termos um documento a certificar- nos, porque se não tivéssemos isso, não iríamos deixar de fazer o que fazemos (…) há clientes que só trabalham connosco porque somos socialmente responsáveis […]” (Entrevistado E9).
Desta forma, remete-se então para uma resposta à terceira pergunta de partida:
“A certificação pela norma SA8000 influencia as práticas de RS dinamizadas pelas empresas?”
De acordo com os entrevistados, o processo de certificação não requereu grandes alterações, uma vez que estas práticas já faziam parte do quotidiano da organização: “[…] só quem está envolvido nas partes mais burocráticas é que consegue ver a dinâmica inerente à certificação (…) os colaboradores nem se apercebem muito porque já faz parte da rotina deles […]” (Entrevistada E1).
A certificação pode ser também encarada pelos colaboradores como algo que lhes confere alguma segurança e conforto. Esta segurança e conforto emergem, em particular, da obrigatoriedade imposta pela revisão de 2014 da norma relativamente à existência de uma equipa de desempenho social, na qual incluem um representante dos trabalhadores, para além da administração, chefias, representantes dos sindicatos e colaboradores afetos ao processo de certificação (Entrevistado E4). Neste sentido, a entrevistada E6 salienta também a realização de reuniões periódicas entre os colaboradores e o seu representante, de forma a conhecer as suas inquietações.
Os entrevistados admitiram, não obstante, que a certificação permite diagnosticar oportunidades de melhoria ou corrigir certos comportamentos: “[…] permite-nos identificar rapidamente qualquer coisa que não esteja a correr bem (…) ou o que pode ser melhorado e agir rapidamente […]” (Entrevistado E4); “[…] mesmo sendo auditados temos zero não conformidades na SA8000 (…) mas poderá haver uma ou outra situação que poderá ter oportunidade de melhoria […]” (Entrevistado E9).
Na perspetiva da entrevistada E1, a norma condiciona, de certa forma, a liberdade existente na organização que representa, devido à necessidade de cumprir rigorosamente certos requisitos: “[…] é um entrave, porque temos mais liberdade sem a norma (…) atendendo à maioria das empresas acho que a norma é essencial, atendendo à realidade da nossa empresa, talvez não fosse necessário […]”.
Em síntese, pode constatar-se que as práticas de Responsabilidade Social Corporativa foram sempre algo que fez parte do quotidiano destas empresas, não implicando, por isso, uma necessidade de grandes alterações no momento de obtenção da certificação. Deste modo, não existem evidências que permitam confirmar uma clara influência da certificação sobre as práticas de Responsabilidade Social Corporativa.