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Ao contar a estória, Tatarana-narrador irá lograr o Demônio através dos atos de fingir, de ocultar, de contar o que não é e o que é. Tanto que irá nomeá-lo, dentre outros termos, de: “O Que-Não-Há”; “O Um-que-não-existe”; “O Ocultador”; “O indivíduo”, “O Outro”, “O Aquele”; “O Que-não-existe”; “Que-não-fala”; “A Figura”; “O Oculto”, cognomes que, previamente, já o caracterizam como simulacro, como esvaziamento, como niilidade. Para também, ao mesmo tempo, ser “O Que-diga”; “O solto-Eu”; “O Cujo”; “O Homem”; “O Diabo”; “O Rapaz”; “O Coisa-Má”; “O Filho do Demo”; “O Pactário”, preenchendo, dessa maneira, o espaço vazio e a sua inexistência. Assim, entre

o indizível e o dizível, o ex-chefe narra o Diabo e sua ausência, crê no seu existir,

pronuncia seu nome, aceita seu ser, todavia, também o vulgariza com suas palavras, duvida, questiona e conclui, ao final do seu contar, que “existe é homem humano. Travessia” (GSV p.624).

inventado...” (GSV p.268), Riobaldo, de certa forma, procura se filiar às narrativas que lhe conferem essas mesmas identificações, tanto que vai encontrar prazer na “leitura proveitosa” de “vida de santo, virtude”, “moral” e, para exemplo, cita “missionário esperto engabelando os índios”. Ora, há o desejo, a necessidade e a esperança de Riobaldo narrar essa esparrela, de procurar nessas narrativas modelares a salvação da sua. Além disso, a idéia de enigma, de moral, de retidão, de justiça são valores caros para que ele aprecie um “bom livro”.

Inda hoje, aprecio um bom livro, despaçado. Na fazenda o Limãozinho, de um meu amigo Vito Soziano, se assina desse almanaque grosso, de logogrifos e charadas e outras divididas matérias, todo ano vem. Em tanto, ponho primazia é na leitura proveitosa, vida de santo, virtudes e exemplo — missionário esperto engambelando os índios, ou São Francisco de Assis, Santo Antônio, São Geraldo... Eu gosto muito de moral. Raciocinar, exortar os outros para o bom caminho, aconselhar a justo. (GSV pp.30/31)

Assim, a Legenda, exemplo de virtualidade, de honestidade e de primor da vida dos santos, não leva em consideração a necessidade de veracidade dos fatos e dos sujeitos narrados, mas antes, são verossímeis por si só, por se constituírem a partir de recursos discursivos, por se utilizarem de uma linguagem que, previamente, é inquestionável, tal como informa André JOLLES (1976 p.46) a respeito dessa forma simples:

Mas que acontece durante a transmutação? Que força é essa que decompõe os acontecimentos em unidades primordiais — de certa maneira — antes de fecundá-los? E que realiza em seguida uma seleção dos acontecimentos para fixar-lhes determinados conceitos? É a linguagem.

Como formadora de um simulacro, essa linguagem apresenta uma verdade que está, de antemão, inscrita na ordem do aceitável e do modelar. Ao narrar “sua matéria vertente”, Riobaldo se filia a essa credibilidade do texto/logro, acresce-se a isso uma narrativa enviesada, que, em todos instantes, se constrói e desconstrói, mesmo que com aparência de desestruturada. Na feliz expressão de Walnice GALVÃO (1972 p.63): o narrador

jagunço “dissimula a História para melhor desvendá-la”. Seguindo essa mesma trilha, ao analisar a linguagem do narrador de Grande sertão: veredas, Willi BOLLE (2004

p.177) comenta que “Observador atento dos chefes, Riobaldo aprende a ‘pensar com poder’.(GSV:262) Ele descobre que o procedimento-chave do discurso do poder é a dissimulação”. Por essa perspectiva, é apropriado anunciar que a narração riobaldiana se valerá dos recursos que mais caracterizam a imagem do Diabo: o disfarce e a

dissimulação — “as caras todas do Cão” (GSV p.520) —, com intuito de com ela enganar o “Pai da Mentira”. É, portanto, a partir dessa essência demonológica que Guimarães Rosa cria sua narrativa mefistofélica, que não pode ser encerrada; que deve ser pronunciada para não ser esquecida; que deve sempre ser lembrada para que se conheça “a bula dele”.

O senhor sabe. O que me mortifica, de tanto nele falar, o senhor sabe. O demo! Que tanto me ajudasse, que quanto de mim ia tirar cobro? — “Deixa, no fim me ajeito...” — que eu disse comigo. Triste engano. Do que não lembrei ou não conhecesse, que a bula dele é esta: aos poucos o senhor vai, crescendo e se esquecendo... (GSV p.526)

A percepção do autor de Fórmula e fábula em relação ao livro será pelo veio da Sociologia, compreendendo que a narrativa de Guimarães Rosa é um “romance de formação do Brasil”, uma leitura que vê “Grande Sertão: Veredas como retrato do Brasil” (BOLLE, 2004 p.23). Para tanto, elege como ponto fundamental o “ato culposo: o pacto que ele fechou com o Diabo. Ato que pode ser igualmente considerado um crime

fundador, se o interpretamos alegoricamente como um falso contrato social, ou seja, a

representação da lei fundadora de uma sociedade radicalmente desigual”(BOLLE,2004 p.39). Esse ato, segundo o crítico, é entendido “como expressão do discurso da classe dominante”, por isso mesmo, “a fala do narrador pactário é investigada como uma retórica da legitimação e da dissimulação em que se revela o que se pode chamar a

função diabólica da linguagem” (BOLLE,2004 p.43).

É possível ver que Willi Bolle, de certa forma, já associara — da mesma maneira que esta tese — as características dissimulação e poder do Diabo à linguagem de Riobaldo. No entanto, sua compreensão difere sobremaneira da que aqui se está defendendo, isto é, a narrativa como possibilidade de lograr o “Tentador”, pois irá pensá-la a partir de um discurso político. Na sua explicação:

A credibilidade desse narrador é cuidadosamente construída, incluindo estratégias de retórica do poder e auto-análises críticas. Ou seja, nesse relato misturam-se elementos de dissimulação, próprios de um agente do poder, com elementos de confissão e de crítica, porque ele não visa a uma mera expiação de culpa pessoal, mas a compreensão das estruturas políticas e sociais. (BOLLE,

2004 p.175)

estruturas políticas e sociais” do Brasil. O que faz sentido por seus argumentos, mas daí a afirmar que a narrativa de Riobaldo “não visa a uma mera expiação de culpa pessoal” é forçar demasiadamente a argumentação, é perceber por uma ótica que rechaça um dos motes, tantas vezes anunciado pela crítica. Mesmo que não se possa reduzi-la a esse motivo, não há como negar que o ex-jagunço também pronuncia sua estória para, ao final do seu contar, “armar o ponto dum fato, para depois lhe pedir um conselho. Por daí, então, careço de que o senhor escute bem essas passagens: da vida de Riobaldo, o jagunço” (GSV p.232), ou numa frase: “O grande-sertão é a forte arma” (GSV p.359). Até porque a escolha dos interlocutores por parte do herdeiro da fazenda São Gregório não parece ser gratuita, como já se frisou antes. Outro argumento válido, aqui defendido, é que há uma adequação do narrado à narrativa. Por outras palavras, Guimarães Rosa consegue combinar o que se conta ao como é contado, fazendo sua escritura aproximar-se de sua escrituração. Ademais, Riobaldo deixa claro, ao longo da narrativa, sua luta com as palavras, seu estado de guerra permanente contra o Cujo, a necessidade do senhor lhe responder a pergunta armada:

Mire e veja. Tenho medo? Não. Estou dando batalha. É preciso negar o que o “Que-Diga” existe. Que é que diz o farfal das folhas? Estes gerais enormes, em ventos, danando em raios, o armar do trovão, as feias onças. O sertão tem medo de tudo. Mas eu hoje em dia acho que Deus é alegria e coragem — que Ele é bondade adiante, quero dizer. O senhor escute o buritizal. E meu coração vem comigo. Agora, no que eu tive de culpa e errei, o senhor vai me ouvir. (GSV p.329)

Ao Demônio são dadas as múltiplas características de tentador, sedutor, enganador, pois ele constantemente deseja arrebanhar os homens para sua obra. Para tal empresa, todos os esforços são feitos, mas, nessa tentativa, nem sempre consegue sair vitorioso, porque também lhe são peculiares a imperfeição, o equívoco e a burrice11. RUSSEL (2003 p.71),

comentando sobre o Diabo no folclore, lembra que nos contos populares ele pode ser ludibriado:

A imensa popularidade dos contos estava arraigada no ressentimento dos humildes com relação aos poderosos. Tais contos sugerem que até mesmo o Deus Escuro possa ser derrubado por coragem e bom senso, e esta idéia concorda com a teologia de que o Diabo, mesmo astucioso, é no fundo um bobo que não entende nada.

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E, consciente disso, os homens se utilizam desses elementos como estratégia na guerra contínua entre eles e o Maligno. A afirmativa de Alberto COUSTÉ (1996 p.56), ao

explicar sobre os hábitos e costumes do Diabo, é esclarecedora a esse respeito.

Os demonólogos garantem que nada enfurece tanto o Diabo neste mundo do que ser descoberto em suas trapaças, porque isso recorda-lhe sua imperfeição essencial, sua natureza como caricatura de Deus. Não obstante — e talvez porque o fira em ponto tão fundamental —, toda a sua fúria é vã nestes casos, pois ao ser posto em evidência perde todo o seu poder. Humilhado, pega as suas trouxas e sai de circulação.

A narrativa sinuosa de Grande sertão: veredas desloca os acontecimentos do lugar, impõe uma ordem que é estabelecida a partir da memória e do desejo do condutor do monólogo, fazendo surgir assim uma estória entrecruzada. Seus esforços são para conseguir pronunciar o Diabo, para dizer o indizível, para perceber suas artimanhas e estratagemas, com o intuito de vencer seu maior medo: a realização do pacto. Na sua procura, Riobaldo enviesa a narrativa, “opera o passado — plástico e contraditório rascunho. [Cria] nova, transformada realidade, mais alta. Mais certa?” (TE p.74), dito pela expressão do narrador de “Desenredo”. Ou ainda, pela voz do jagunço letrado: “Ah, mas falo falso. O senhor sente? Desmente? Eu desminto. Contar é muito, muito dificultoso. Não pelos anos que se já passaram. Mas pela astúcia que têm certas coisas passadas — de fazer balancê, de se remexer dos lugares” (GSV p.201).

Ora, pelo tempo narrado distanciado do narrativo, é possível observar que “as coisas que são importantes” (GSV p.116) para o latifundiário-narrador diferem muito das vivenciadas pelo jagunço Tatarana, pois através de seu contar “dificultoso” e “muito entrançado”, a memória não seria um problema. Mas, a questão premente é a “astúcia que têm certas coisas passadas”, de maneira que no vaivém dos fatos vividos, a linguagem precisa ziguezaguear na mesma proporção que o atilamento anunciado. Além do mais, ela sempre precisa de um acabamento por parte do leitor, como se pode depreender da carta, do dia 24 de março, de 1966 de Guimarães Rosa a Curt Meyer- Clason, que sugere ao tradutor a leitura do trabalho de Paulo Rónai e Roberto Schwarz. Nela comenta:

(Veja, do trabalho de Paulo Rónai: “Observando a fala de pessoas de poucas letras, ou de todo não alfabetizadas, podemos notar quão freqüentemente elas deixam a frase inacabada, como que suspensa, completando o sentido com o

silêncio da pausa. Em Guimarães Rosa, o vezo, de tão freqüente, ganha categoria sintática” (...) Um jovem crítico, Roberto Schwartz (sic), em sua percuciente análise da linguagem de Guimarães Rosa, chega a ver em tais sentenças a chave de toda a expressão do autor). (ROSA, 2003 pp.317/318)

Ciente dessa idéia, é válido se apropriar das leituras dos teóricos ao reforçar que há sempre um porvir que convida o leitor, “pelo silêncio da pausa”, a preencher “toda a expressão do autor”. Em toda obra rosiana, esse recurso tende a ser explorado ao máximo; assim, cônscio do trabalho de escritor, Guimarães Rosa — da unidade mínima à estória em seu todo — requer a participação do leitor para dar a vida ao texto, para adentrar o espaço de sua escritura. Não por menos, em Grande sertão: veredas, o condutor da narrativa pede a seu ouvinte a confirmação de sua fala, convida seu interlocutor a pôr, também ele, uma voz em seu discurso unilateral, bem como lhe tece fina rede discursiva para aprisionar sua atenção. A “decepção de logro” que o jagunço Tatarana cai em relação a Diadorim — “quem faz isso não é por se saber pessoa culpada?” (GSV p.78) — assemelha-se ao canto de sereia que é a narrativa riobaldiana.

3.

C

ONTAR SEGUIDO

,

ALINHAVADO

,

SÓ MESMO SENDO