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A casa é considerada socialmente como o primeiro e principal lugar da construção de laços afetivos, da intimidade, enquanto a rua se configura como o espaço extrafamiliar mais próximo dos idosos na produção dos múltiplos encontros, de práticas e significações.

Da Matta (1997) em sua obra A Casa e a Rua, explicita a distinção entre estes dois espaços um de ordem privado e outro como sendo público. Para ele, a casa define tanto um espaço íntimo e privativo de uma pessoa (por exemplo: seu quarto de dormir) quanto um espaço máximo e absolutamente público, como ocorre quando nos referimos ao Brasil como nossa casa. Tudo, obviamente, depende de outro termo que está sendo-implícita ou explicitamente contrastado.

Deste modo, o quarto (por oposição aos outros quartos) é a "minha casa". Já na vizinhança, se refere ao mesmo termo, incluindo na expressão não só a residência em si, mas também o seu jardim e o seu quintal. Se estiver no "centro" da cidade, minha casa pode muito bem ser o meu bairro, com todas as suas ruas e jardins. (DA MATTA, 1997).

Destarte, a casa para o autor, se apresenta como um espaço das vivências, de compartilhamentos, das intimidades, dos segredos, dos planejamentos, dos sonhos e das esperanças e das memórias. Bobbio (1997) afirma que o grande patrimônio do velho está no mundo maravilhoso da memória, fonte inesgotável de reflexões sobre nós mesmos, sobre o universo em que vivemos, sobre as pessoas e os acontecimentos que, ao longo do caminho, atraíram nossa atenção. Cada canto da casa, possui um rastro, uma lembrança. A cozinha é lugar de receber a família para as refeições, momento sagrado, de comunhão. A sala o lugar de encontros com amigos ou de reunir seus membros para ver televisão. Nela, todos os assentos têm lugares marcados, de pertencimentos e não podem ser violados. O quarto é com certeza o espaço mais intimo. Dos afetos mais ”chegados” e especialmente o lugar do sono e do descanso.

As paredes da sala e dos corredores são lugares para exporem suas memorias através das fotografias. Retratos dos pais que já se foram, dos filhos e netos. Registros que eternizam os bons momentos vividos, preservados através de álbuns. Prática de armazenamento da memória ilustrada por Barros (1989), quando este expõe ter nas imagens contidas nas fotos rastros de memórias. “Na fotografia antiga do grupo de família, visualiza-se um modelo de família: a grande-família cujas relações estão estabelecidas anteriormente à existência dos indivíduos particulares que a compõem” (BARROS, 1999, p. 39).

Os móveis geralmente se misturam ente o antigo e o moderno. Alguns são bastante resistentes ao tempo devido à qualidade da madeira, são mobílias herdadas ou adquiridas no início do casamento, portanto não estão descartadas da decoração, pois são peças importantes na preservação das suas memórias.

Ainda em relação à rua, apesar de ser um espaço de domínio público é um lugar subjetivamente particular. Os idosos falam dela como pertencente a eles. Por isso, a frase “A minha rua” tenha sido a mais expressada por eles, indicando-a como objeto próprio. A relação do morador com a rua é tão forte, que muitas vezes o seu nome não significa apenas a indicação precisa para a sua localização, mas sim, a composição do nome da pessoa com o da mesma. Por exemplo, se alguém perguntar: Você por acaso conhece dona Terezinha a lavadeira? A vizinhança com certeza não saberá responder se não for vinculado o nome da pessoa procurada ao de sua rua. Dona Terezinha da Xavier da Cunha? Ou dona Terezinha das Neves da Fontoura? O nome e a profissão da pessoa não serão referências para encontra-la, mas sim o nome da rua “pertencente” a ela.

Quanto ao cotidiano, esse espaço envolve ainda as relações sólidas e permanentes entre os vizinhos com mais tempo de moradia ou com os mais próximos da sua casa. Além disso, existem as relações secundárias, superficiais, sem vínculos afetivos nenhum como as mantidas com o carteiro, o leiteiro, o entregador de pizza, da conta de luz ou da água, o vendedor de portas, os garis que limpam a rua em dias alternados, entre outros.

Magnani (1993, p. 3), afirma que “É a rua que resgata a experiência da diversidade, possibilitando a presença do forasteiro, o encontro entre desconhecidos, à troca entre diferentes, o reconhecimento dos semelhantes, a multiplicidade de usos e olhares – tudo num espaço público e regulado por normas também públicas”.

Tais normas estão na verdade intrinsicamente ligadas aos sujeitos. São elas que levam os mesmos a reconhecerem os limites de invasão que a rua permite. A privacidade, por exemplo, é algo que costuma normalmente ser invadida, seja através da escuta ou da espionagem sobre o buraco da fechadura. O fato é que se algo de anormal acontece, a rua inteira fica sabendo, pois alguém viu ou escutou. No caso dos idosos, às vezes a relação destes com a sua família é comentada na calçada quando pessoas “de fora” se incubem na divulgação dos descasos contra eles.

Casos de denúncias de maus tratos salvaram vidas de idosos através de práticas como essas. Por isso, não se pode afirmar que tais práticas sejam de total negatividade. Faz parte das relações e do cotidiano da rua. As calçadas das casas compõem um vasto campo de sociabilidades. São sobre elas que se afloram as conversas, às vezes os conflitos, as

vigilâncias, os olhares, os julgamentos, os momentos de descontrações, são lugares para rir, cenários de festas e de religiosidades - no caso dos cultos evangélicos.

Conforme a senhora Terezinha na rua em que vive é tradicional ao fim da tarde as famílias sentarem nas calçadas. “Parece uma festa”, diz ela. Conforme a mesma, as crianças brincam sobre as vigilâncias dos mais velhos enquanto estes “se balançam” em um cadeira, puxam conversa com os transeuntes, “fofocam” a vida alheia.

Figura 2: Amigas na calçada. Fonte: Arquivo pessoal.

Aos domingos, geralmente acontece uma festa particular em alguma casa. Um churrasco ou feijoada compartilhada com os amigos mais próximos. Quando alguém aniversaria é momento também de abrir a casa para celebrar junto à família. Em outras ocasiões como o Natal e o ano novo, é tradição de algumas famílias fazerem juntas reuniões em suas garagens ou calçadas para a celebração da data. “Nóis se junta com duas ou três famílias e combina fazer a ceia ou a passage de ano”, diz seu Francisco. “cada um fica

responsáve em trazer alguma coisa. Um traiz o peru ou o pernil do porco. Outro traz salada, bebida, quarquer sobremesa e assim vai se comemorando a noite inteira, dançando,

abraçando, desejando paiz ou trocando presente um com outro”.

Outro espaço de agregação da família é a igreja católica do bairro. A religião se faz muito presente na vida desses sujeitos. Para os mesmos é uma espécie de refúgio da alma, de

consonância com o divino, uma “casa sagrada” para reunir a grande família do pai eterno. Na qual, os demais fiéis são irmãos e a missa, uma indispensável reunião familiar.

Na capela do bairro, são realizados os festejos de são Pedro ao final do mês de junho. Seu Francisco relata que durante este período, o pátio da igreja vira uma grande quermesse com barracas, brincadeiras, shows após as novenas e leilões. O penúltimo dia é marcado com um jantar comunitário. O encerramento religioso advém com a procissão da imagem do santo percorrendo as principais ruas do bairro. Portanto, um momento de felicidade para os idosos, quando se envolvem em atividades, mudam a rotina para dedicar-se ao festejo, renovam o vestuário. “Tenho que comprar vestido e sapato novo, ir bonita pras novenas”. Comenta dona Terezinha.

Seu Pedro afirma ser a fé uma prática essencial para a sua vida, pois fortalece o seu compromisso com Deus e lhe oferece esperanças de uma vida eterna após a sua morte. Assim, significa a velhice como sendo um presente divino. “Se eu não tivesse Deus nem teria vivido tanto assim minha filha”. Diz ele. Dessa maneira, os idosos vão reafirmando a importância da família em suas vidas.

2.3 AS INSTITUIÇÕES PROJETADAS PARA O CONVIVO SOCIAL DOS IDOSOS – O