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Michel de Certeau nos leva a possibilidades de ver também a resistência à reprodução acontecendo. Também historiador e conhecedor das teorias de Foucault, considerando-as em contraponto para avaliar a cultura que palpita no cotidiano do homem ordinário, entende que o panóptico apresenta brechas, pelas quais o homem escapa e se liberta em reações de resistência. Seria a sombra instalada na cela do preso, o ponto cego, o esconderijo tático para que o homem reaja.

Dois modelos de reação podem tornar compreensível a intuição de Certeau. O primeiro é aquele a que o mundo houvera assistido: a Guerra do Vietnã (1964-1975). Comparada a vitória com a imagem bíblica do pequeno Davi contra o gigante Golias, mas um gigante de escalas planetárias, embora com muitas perdas, os soldados vietnamitas resistiram anos a fio utilizando-se de técnicas que descentralizavam seu ataque para surpreender o inimigo.

O segundo modelo de reação é o das etnias indígenas em relação aos colonizadores das Américas. Explica-nos Certeau (2002, p. 39) que,

[...] submetidos e mesmo consentindo na dominação, muitas vezes esses indígenas faziam das ações rituais, representações ou leis que lhes eram impostas outra coisa que não aquela que o conquistador julgava obter por elas. Os indígenas as subvertiam, não rejeitando-as diretamente ou modificando-as, mas pela sua maneira

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de usá-las para fins e em função de referências estranhas ao sistema do qual não podiam fugir. Elas eram outros, mesmo no sei da colonização que os ‘assimilava’ exteriormente; seu modo de usar a ordem dominante exercia o seu poder, que não tinham meios para recusar; a esse poder escapavam sem deixa-lo.

É a partir desses modelos que Certeau vai tirar seus conceitos de tática e uso. A tática:

[...] opera golpe por golpe, lance por lance. Aproveita as ‘ocasiões’ e delas depende, sem base para estocar benefícios, aumentar a propriedade e prever saídas. O que ela ganha não se conserva. Este não-lugar lhe permite sem dúvida mobilidade, mas numa docilidade aos azares do tempo, para captar no vôo as possibilidades oferecidas por um instante. (CERTEAU, 2002, p. 100).

O uso refere-se ao que o sujeito vai fazer daquilo que lhe está sendo ofertado. A crítica vigente vai olhar o consumidor, por exemplo, como alguém passivo e alertá-lo para a alienação que incorre sobre as horas desperdiçadas em frente a uma televisão ou sendo manipulado pelas páginas de um jornal de notícias semanais cuja consistência das verdades assemelha-se à resistência do próprio papel em que estão escritas. Porém, se se enxerga o consumidor como um fabricante a partir de algo, logo tornam-se visíveis as traduções que ele faz das notícias que recebe, as reelaborações, e as ações que ele engendra na clandestinidade das casas inventando o cotidiano. É como uma criança que, submetida à disciplina de uma aula, escapa através dos cochilos ou dos sonhos acordada, reinventando o mundo a partir dos elementos que a escola fornece. O que vemos na poesia “Página de Caligrafia” de Jacques Prévert:

Dois e dois quatro/ Quatro e quatro oito/ Oito e oito são dezesseis.../ Repitam! Diz o mestre./ Dois e dois quatro/ Quatro e Quatro oito/ Oito e oito são dezesseis/ Mas, ali está o pássaro-lira/ Que passa pelo céu/ O menino o vê/ O menino o entende/ O menino o chama:/ Salva-me!/ Brinca comigo, pássaro!/ Então, o pássaro pousa/ E brinca com o menino/ Dois e dois quatro.../ Repitam! Diz o mestre/ E o menino brinca/ O pássara brinca com ele.../ Quatro e quatro oito/ Oito e oito são dezesseis/ E dezesseis com dezesseis quanto é?/ Não é nada, dezesseis com dezesseis/ Nem mesmo trinta e dois é/ E eles se vão./ E o menino escondeu o pássaro/ Dentro da sua pupila/ E todas as crianças/ Entendem sua canção/ E todas as crianças/ Entendem a música/ E oito e oito, cada um a sua vez, se vão/ E quatro e quatro e dois e dois/ Cada um a sua vez, dão no pé/ E um e um não faz um nem dois/ Um a um se vão, pois/ E o pássaro lira brinca/ E o menino canta/ E o professor grita:/ Quando vocês vão parar de brincar!/ Mas todas as outras crianças/ Escutam a música/ E o muro da classe/ É derrubado tranquilamente/ E os vidros se transformam em areia/ A tinta se transforma em água/ As carteiras se transforma árvores/ O giz se transforma em penhasco/ O porta-pluma se transforma em pássaro8. (FRANCE TV, 2015, tradução nossa).

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«Deux et deux quatre/ quatre et quatre huit/ huit et huit font seize…/ Répétez ! dit le maître/ Deux et deux

quatre/ quatre et quatre huit/ huit et huit font seize./ Mais voilà l’oiseau-lyre/ qui passe dans le ciel/ l’enfant le voit/ l’enfant l’entend /l’enfant l’appelle :/ Sauve-moi/ joue avec moi/ oiseau !/ Alors l’oiseau descend/ et joue avec l’enfant/ Deux et deux quatre... /Répétez ! dit le maître /et l’enfant joue/ l’oiseau joue avec lui…/ Quatre

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É o sonho como tática de resistir à rigidez das formas. O uso que o aluno faz das lições que lhe são transmitidas como se ele fosse um zero. Pensa-se dominar as mentes, porém elas têm seus mecanismos de defesa: o do brincar, o do cantar, o da imaginação que transforma os significantes fixos em outros significados.

O muro da classe é derrubado tranquilamente. Não precisa do alvoroço das guerras com suas bombas de agente laranja. Dê-nos um pincel, algumas roupas e um nariz vermelho. Brincaremos de ser pássaro. Riremos juntos em alto e bom som. Explodiremos a matemática dos conceitos. É o campo do palhaço que se aproxima no horizonte. A partir de então, podemos ler a fala de J, um dos fundadores do Projeto Y, vendo nela um autêntico elemento de combate e não apenas um suspiro de ingenuidade:

[O objetivo do palhaço] É implodir toda uma mentalidade da faculdade de Medicina. Literalmente implodir. Implodir sem ser essa, talvez, a intenção. Implodir porque desorganiza uma estrutura que está muito bem montada, assim. [...] A gente desorganizava fisicamente, mas não é essa a desorganização maior. É, ao mesmo tempo, uma desorganização organizada. [...] Não é promover a desordem. A desorganização, no sentido de promover uma reflexão e, a partir da reflexão, estimular sempre acreditando que a capacidade está na mão de cada uma das pessoas, estimular a transformação. Estimular primeiro a transformação pessoal, que começou com a gente, estimular a transformação pessoal das pessoas com que a gente interage e, por consequência, estimular a transformação do ambiente, da cultura e, ao mesmo tempo, entendendo que isso é um processo, que é processo no sentido de que é algo gradual, permanente e que por ser gradual e permanente demanda um tempo. A gente queria mexer para refletir e se deixar refletir também. A gente não queria se contrapor a nada. A gente só estava buscando uma reflexão e um olhar mais amplo sobre o nosso trabalho, nosso ser, o nosso estudo, o impacto do nosso trabalho, o ser das pessoas, o que elas estavam buscando ali, quais eram as necessidades além do que é visível. O além que só é conseguido quando a gente conversa, quando a gente abre espaço para a pessoa falar. A gente não acreditava que o nosso caminho era o único ou era o melhor de todos. A gente só queria refletir sobre os caminhos como um todo, inclusive, sobre os nossos.

Para tanto, é mister que o palhaço entre em cena.