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As redes sociais de apoio a idosos são caracterizadas por normas de conduta, valores e expectativas que lhes são específicas, diz Goldani (1999).

Afirma que por meio dos contratos sociais definidos em contextos

socioculturais específicos se dará o cuidado à pessoa idosa, seu principal

suporte social nessa etapa da vida. Um dos contratos sociais bem implícitos na cultura coreana é o que se denomina piedade filial. Trata-se de contrato entre pais e filhos, regido pela norma de que os pais cuidarão dos filhos e lhes darão suporte emocional e financeiro na infância. Em troca, os filhos cuidarão dos pais quando não mais puderem cuidar de si mesmos (GOLDANI, 1999). Na cultura brasileira esse contrato não é explícito, mas estabelece a forma de intercâmbio na sociedade, garantindo o cuidado familiar à pessoa idosa.

As redes são alternativas para desenvolver e assegurar a identidade étnica do grupo de imigrantes. As primeiras redes de apoio foram observadas

dentro da família. A criação desses estreitamentos afetivos foi incentivada por parentes residentes no Brasil, que chamavam parentes coreanos, oferecendo toda a ajuda possível na adaptação, por meio de recursos financeiros, moradia e emprego. As redes familiares foram importantes no crescimento econômico na área da confecção.

As igrejas, especialmente as protestantes,18 tornaram-se para os

imigrantes idosos coreanos uma de suas principais redes de apoio. Primeiramente tiveram papel fundamental como fator de conservação da identidade (BARTH, 1969/1997; FAUSTO, 1999), e na formação da rede de suporte social da comunidade coreana. Redes que permitiram estabilização financeira relativamente rápida dos coreanos no País. Segundo Truzzi (2001), dois mecanismos aparecem como fundamentais à compreensão da rápida

mobilidade econômico-social experimentada pelos coreanos em São Paulo: o engajamento da família no trabalho e a capacidade de articular redes internas à colônia para facilitar a inserção na nova pátria. Eles foram capazes de, em pouco tempo, se autossustentarem no ramo de confecções, superando grupos humanos tradicionais nesse setor, como os judeus.

Apesar do poder limitado no que se refere ao alcance político da época, as igrejas, dentro da coletividade, foram relevantes para dar suporte àqueles que se sentiam solitários ou mesmo excluídos. Dentro dela a mulher ocupa papel importante, como ocupa na cultura coreana, especialmente quanto à criação das redes de relacionamento. O universo feminino coreano mantém certos aspectos da própria cultura, incluindo o suporte religioso.

As igrejas, especialmente as presbiterianas, desde cedo procuraram proceder de forma a acolher os recém-chegados. Algumas igrejas foram criadas juntamente com a chegada de imigrantes, a partir da preocupação em conceder suporte imediato e efetivo. As igrejas deram importante suporte social

18 As igrejas evangélicas nasceram da Reforma do século 16 liderada por Martinho Lutero.

Observam com rigor os textos da Bíblia. Seus membros não reconhecem a autoridade papal. Também não aceitam o culto a Maria e a veneração de santos. Algumas correntes protestantes admitem o divórcio, métodos anticoncepcionais, e até toleram a ingestão de bebidas alcoólicas.

e econômico aos imigrantes. Apesar de o confucionismo19 ser a base espiritual na Coreia, os imigrantes eram principalmente protestantes, tradicionalmente mais propensos a valorizar o sucesso material e a imigrar do que os praticantes do confucionismo.

Para superar as dificuldades em obter créditos em bancos, os coreanos desenvolveram uma espécie de consórcio entre amigos e conhecidos, chamado de Guê, que os ajudou a alavancar os empreendimentos. O reverendo Kang Hee Dong, um dos primeiros imigrantes a chegar ao Brasil, em 1956, declarou que as igrejas, algumas vezes, eram fiadoras de imóveis alugados por fiéis. Segundo ele, "temos um papel importante de apoio,

principalmente aos recém-chegados".

As igrejas foram e são local de encontro daqueles que compartilham os mesmos laços culturais. Elas proporcionam sentimento de pertencimento. Nas igrejas os imigrantes coreanos tiveram vida comunitária, como indivíduos separados uns dos outros, condição de nossa contemporaneidade. Ali continuam experimentando uma possibilidade concreta, um novo arranjo social, mais amplo, público e democrático, para a velhice, etapa da vida entendida como tempo de possibilidades e não dirigida à sua finitude.

A sociabilidade dessas mulheres, marcadas não só pela mudança na estrutura da família e função de seus membros, mas pelas novas condições dos idosos na sociedade urbana, gravita em torno dos valores religiosos, fazendo com que as igrejas tenham papel fundamental nas trocas entre as mulheres idosas. Para muitas, é o espaço mais efervescente de sociabilidade. Portanto, as atividades religiosas são importantes, pois nelas as relações sociais se recriam e a solidariedade acontece.

As igrejas foram se impondo como comunidade, possível solução para a

19 O confucionismo é doutrina (ou sistema filosófico) criado pelo pensador chinês Confúcio no

século VI a.C. Possui, além das ideias filosóficas, abordagens pedagógicas, políticas, religiosas e morais. A principal ideia dessa filosofia é a busca do Tao (caminho superior). Por meio desse caminho é possível ter vida equilibrada e boa. Pelo Tao os seres humanos podem viver mantendo equilíbrio entre as vontades materiais (prazeres, bens, objetos, desejos) e as do céu.

resolução de distintos problemas locais, questões específicas de grupos de pessoas que se fixaram nas sociedades urbanas (MERCADANTE, 2002). A sobrevivência na sociedade urbana implica o desenvolvimento de formas de vida diferentemente da tradicional. Para Mercadante, organiza-se de modo mais aberto, não coercitivo e nem tampouco compulsório.

Drucker (1998), um dos autores que mais se dedicam à questão, assinala que as comunidades urbanas devem ser livres e voluntárias, mas

também precisam oferecer ao indivíduo da cidade uma oportunidade de realizar, de contribuir, de ter importância. As igrejas permitiram espaços nos

quais os coreanos estabeleceram relações de maior proximidade, de intimidade, de lugar no País que os recebeu.

Mercadante assinala ainda que o sentimento de pertencer - no caso às igrejas - fundamenta a relação social em uma comunidade. Para explicar o que é comunidade, Mercadante cita Weber (1973), que diz o seguinte: chamamos

comunidade a uma relação social quando a atitude na ação social – no caso particular, em termo médio ou no tipo puro – inspira-se no sentimento subjetivo (afetivo ou tradicional) dos partícipes na constituição de um todo.

Mercadante esclarece, no entanto, que comunidade não significa homogeneidade. Segundo a autora, ela só se apresenta como comunidade na medida em que mostra a sua heterogeneidade, reconhecendo assim as diferenças internas que são apresentadas pelos seus membros. Portanto, as igrejas, como comunidade, possibilitam a existência de diversas velhices. Nelas, a solidão negativa pode ser transformada em solidão positiva (KATZ, 1996).

Nas igrejas os coreanos fazem contatos de negócios e constroem novos laços afetivos, que passam a substituir os alicerces familiares deixados na Coreia. A importância dessas igrejas é clara quando se analisa o número de templos estabelecidos nestes 45 anos. São cerca de 49 templos evangélicos, enquanto há apenas uma igreja católica instalada na região do bairro do Bom Retiro e um templo budista. A formação de redes apresenta várias motivações -

políticas, sociais, econômicas e religiosas. O objetivo é promover a inter- relação dos imigrantes. As redes sociais criadas nas igrejas protestantes coreanas em São Paulo foram muito importantes, fosse ele legal ou clandestino.

A rede, como forma de organização das instituições, determina a identidade do grupo representado, dando-lhe uniformidade. Os frequentadores devem preencher um padrão comum. Por exemplo, língua comum, região de origem e nacionalidade. Unem-se em torno do religioso ou social, que se estende em corrente de assistência e solidariedade. Os imigrantes, muitas vezes, integraram-se a grupos, familiares e compatriotas, a fim de buscar ajuda e informações úteis para viver no novo país. Isto aconteceu com os coreanos. Um exemplo foi o auxílio dos primeiros imigrantes coreanos, prisioneiros de guerra. Eram coreanos naturalizados japoneses que já residiam no País, e atuaram como intérpretes dos recém-chegados.

A manutenção cultural nas comunidades coreanas confirma essa realidade. Os cultos são, em sua grande maioria, na língua coreana, as atividades de recreação preservam os jogos coreanos e os costumes étnicos. Algumas mudanças incorporaram-se à dinâmica dos cultos, a fim de que, mesmo mantendo as características culturais, ela se aproxime da realidade brasileira. Tentativa de se integrar ao novo país e em respeito às gerações 1.5 e segunda geração, além do acolhimento das famílias provenientes de casamentos inter-raciais.

Diante deste quadro, mudanças significativas foram implantadas, como os cultos em português, adaptação dos cultos coreanos, tornando-os mais próximos dos cultos brasileiros e seus louvores, que devem ser bem compreendidos para sentirem a verdadeira “presença do Senhor”. As reuniões em “células”, também chamadas fazendas, são importante local de renovação da espiritualidade e suporte social. Dentro do aspecto social, a integração é ponto fundamental. Todas as ações estão voltadas para proporcionar ambiente amigável e de integração de um novo membro ou “irmão” (em Cristo). Após as cerimônias religiosas acontece a confraternização. Nela, as pessoas são

encorajadas a fazer negócios e manter contatos. As amizades feitas nas igrejas servem ao suporte financeiro.

Considerações finais

Apesar de sermos um grupo étnico no Brasil oficialmente há 47 anos, não existem estudos sobre o envelhecimento dos imigrantes coreanos, nem mesmo material pertinente ao assunto pesquisado. Portanto, os dados e o material foram totalmente produzidos em campo. Na cidade de São Paulo, esta é a primeira produção acadêmica sobre a imigração coreana na área da Gerontologia. Nosso desejo é que esta pesquisa estimule estudos que visem ao bem-estar dos idosos coreanos. A longevidade foi a grande revolução/evolução do século. Deve-se pensar em como auxiliar os idosos a viverem com qualidade esses anos de sua existência. Ou seja, mais vida aos anos, e não simplesmente anos à vida.

A possibilidade de ter um perfil do idoso coreano nos faz rascunhar no imaginário as diversas possibilidades de ações e intervenções para o grupo. Muitos programas e benefícios são de total desconhecimento por parte dos idosos, principalmente pela dificuldade de compreensão da língua. Pretende-se contribuir com subsídios e formulação de norteadores para ações sociais e educacionais abrangentes e inclusivas, dirigidas à comunidade de idosos coreanos. Eles se excluem de ações e programas voltados à terceira idade por desconhecimento, dificuldade de comunicação ou porque consideram as atividades exclusivas, voltadas aos paulistas, brasileiros, ocidentais. Este estudo tem o objetivo, ainda, de contribuir para a promoção da solidariedade e de ações em relação aos imigrantes instalados na cidade de São Paulo.

Citamos no corpo de nosso trabalho a ENKYO, Beneficência Nipo- Brasileira de São Paulo, entidade de assistência social que presta atendimento a pessoas em situação de vulnerabilidade e risco social, além de atendimento médico aos usuários de origem nipônica. Uma equipe multidisciplinar está apta a fazer atendimentos sociais e médicos em japonês, além de programar atividades que valorizam as tradições e cultura japonesa. Nos Estados Unidos, existem centros específicos que atendem os imigrantes com auxiliares bilíngues.

A proporção populacional é pequena se comparada ao povo nipônico, com história de mais de 100 anos de imigração. Mas deve-se sempre refletir sobre longevidade e mudanças nos perfis familiares. Principalmente na colônia coreana, em que a mulher, comerciante, empresária, é obrigada a trabalhar à

exaustão. Certamente passará a ter cada vez menos filhos, tendência mundial que leva a pensar não em políticas públicas, mas em políticas privadas ou de associações com o governo coreano e entidades civis da comunidade.

Os atuais idosos, imigrantes da primeira geração, deveriam ser realmente reverenciados. São pessoas com histórias e biografias sofridas que passaram pela dominação japonesa. Para alguns, houve a fuga de sua terra natal, à qual jamais retornarão, a Coreia do Norte. Perderam tudo e reconstruíram a vida na Coreia do Sul. Viveram uma guerra civil, um golpe militar e a imigração para um país de cultura e valores diferentes. Novamente, com pouco dinheiro e recomeçando a viver, uma nova história. Mas em todo o tempo, sempre confiantes e repletos de esperanças e sonhos.

Sofrimentos diante da língua e da comida. Decepção e desespero em encontrar terras inférteis, improdutivas. Desesperança em sustentar a família que atravessara 56 dias em um navio rumo ao desconhecido.

Verdadeiros heróis, duplamente vencedores.

Vencedores pelo trabalho, criação e educação dos filhos e restante da família. E “vencedores” da vida, pois foram privilegiados com a longevidade.

Em minha terra natal, quando reverenciamos uma grande autoridade (um rei, por exemplo), ajoelhamo-nos e inclinamos o corpo para baixo. Colocamos as mãos espalmadas para fora, na testa, e inclinamos a cabeça em direção ao solo, sinal de respeito máximo.

Que a tradição do código de piedade filial, existente desde a época dos reinados, seja ininterrupta, transmitida de geração a geração. E que, como detentores da comunicação e intercomunicação com os idosos, que pouco falam e nem compreendem a língua, sejamos a interface dos seus direitos e seus interlocutores, para terem consciência da sua VEZ e da sua VOZ.

Centrais de tradutores, ou disponibilidade de haver tradutores a distância (como médicos plantonistas a distância), acionados quando solicitados, talvez seja alternativa plausível. Tradutores voluntários conseguiriam atingir maior

número de pessoas, auxiliando, por exemplo, o diálogo nas consultas médicas e internações.

Como em 2013 a comunidade completará 50 anos de imigração para o Brasil, esta pesquisa pretende analisar, identificar e nortear ações que as instituições comunitárias ou empresas privadas coreanas, com espírito de responsabilidade social, planejam adotar para beneficiar os idosos que fizeram e fazem parte do caldeirão de etnias do Brasil.

Ao se conhecer o perfil de um grupo de idosos imigrantes na metrópole, ações específicas devem ser instituídas, como centros-dia, centros de referência e associações que visem à integração entre os povos. O intuito da pesquisa, apesar de referir-se a uma comunidade, tem como um de seus objetivos fundamentais maior integração com o povo que os acolheu de modo tão significativo. Afinal, a pluralidade identitária reforça a existência de diversos “outros”, e não um “nós” indiferenciado ou homogêneo.

No entanto, os dados da presente pesquisa mostram um “eu étnico”, presente especialmente nos imigrantes de primeira geração, que demanda a preparação de profissionais bilíngues, com competência multidisciplinar, para atender a procura. Atualmente não há, na cidade de São Paulo, cuidadores de pessoas idosas que falem a língua coreana. Além disso, ao se pensar em instituições de longa permanência, deve-se levar em conta a língua e a alimentação. Devemos ressaltar que, neste momento, para atender aos idosos mais idosos, a comunidade coreana deveria refletir sobre a criação de moradias coletivas, com especificidades e singularidades da comunidade e da velhice.

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