Com as novas configurações da divisão sexual do trabalho surgem diversos modelos de vínculo social entre a esfera doméstica e a profissional. A organização da maioria das famílias, ainda hoje, está estruturada de forma desigual, consagrando a ideia de que cabem exclusivamente à mulher as atividades domésticas e o cuidado com os filhos. Dessa maneira, as mulheres que trabalham precisam dispor de mecanismos que combinem os dois fatores, possibilitando a sua saída para o mercado de trabalho.
No modelo tradicional, no qual há uma nítida separação entre o espaço público
166 MARCONDES, Willer Baumgartem; ROTENBERG, Lúcia; PORTELA, Luciana Fernandes; MORENO,
Claudia Roberta de Castro. O peso do trabalho “leve” feminino à saúde. São Paulo em Perspectiva. v.17, n.2, 2003, p. 98.
167 RIZEK, Cibele Saliba; LEITE, Márcia de Paula. Dimensões e representações do trabalho fabril feminino.
(homem) e o espaço privado (mulher), é destinado inteiramente à mulher o papel doméstico, com o cuidado dos filhos e da casa, assumindo a responsabilidade de “reprodutora”, já ao homem cabe o papel de “provedor”, trazendo o sustento da casa.
A figura do pai de família, provedor e autoridade, complementa a autoimagem masculina, porém, essa responsabilidade de prover o sustento da casa gera impactos na estruturação das famílias por estar o trabalho na posição central da identidade masculina, sendo socialmente mais importante o trabalho para o homem do que para a mulher, pois se o homem perder o emprego, os efeitos serão mais severos para ele, por motivo de vergonha e humilhação.
Não é por acaso que pesquisas constatam que os homens casam-se com mais idade e as mulheres mais novas, com 3,6 anos de diferença.168 Essa margem de idade pode representar a busca do homem por um bom emprego, para assim, conseguir sustentar a família.
Apesar de esse modelo estar bastante presente em nossa sociedade não é o mais adotado nos dias atuais. Com a nova organização social, houve a passagem do modelo tradicional para o da conciliação.
Com a entrada da mulher no mercado de trabalho, ocorreu uma transformação nas relações pessoais e familiares e uma redefinição de papéis, surgindo o modelo de conciliação, no qual cabe às mulheres conciliar a vida familiar com a profissional. Essa situação é destinada apenas às mulheres, pois, o cuidado com a casa e com os filhos “não cabe aos homens”.
O modelo de conciliação consagra a ideia de que os homens e as mulheres não são iguais perante o trabalho profissional, pois, ao homem é dado tempo para sua formação e qualificação; à mulher, a tripla jornada de trabalho. Há um paradoxo na vontade de se alcançar a igualdade pela promoção da conciliação; dessa forma, certos pesquisadores propõem substituir “conciliação”, ou mesmo “articulação”, por “conflito”, “tensão”, “contradição” para evidenciar a natureza fundamentalmente conflituosa da incumbência
168 MARCONDES, Willer Baumgartem; ROTENBERG, Lúcia; PORTELA, Luciana Fernandes; MORENO,
Claudia Roberta de Castro. O peso do trabalho “leve” feminino à saúde. São Paulo em Perspectiva. v.17, n.2, 2003, p. 97.
simultânea de responsabilidades profissionais e familiares às mulheres.169
Outro modelo, cada vez mais presente, é o da delegação, que substitui ou se sobrepõe ao da conciliação. O paradigma da delegação se deve ao crescimento do número de mulheres em profissões de nível superior, pois elas têm, ao mesmo tempo, a necessidade e os meios para delegar a outras mulheres as atividades domésticas e familiares. Porém, essa experiência desencadeia uma outra problemática, as redes globais de afeto e assistência170, ou seja, essas mesmas mulheres que cuidarão dos filhos das patroas terão que delegar seus filhos para outras pessoas e assim sucessivamente. A delegação traz consequências para a família, acarretando a ruptura da relação mãe-pai-filho, além disso, mesmo nesse modelo há a desigualdade de gênero visto que a gestão do trabalho delegado será, quase sempre, de competência daquelas que delegam, ou seja, das mulheres.
O modelo que parece ser o mais adequado é o da parceria, que pressupõe igualdade de estatutos sociais entre os sexos. A relação de parceria entre o homem e a mulher está próxima da lógica de conciliação de papéis, porém sem contradição e conflito. Todavia, o que se constata é que essa prática não confirma a atualidade desse modelo, pelo contrário, permanecem as desigualdades na realização dos afazeres domésticos.
Na tentativa de se implementar um modelo de parceria, a França, assim como outros países, estabeleceu a licença parental, com a intenção de uma “nova paternidade”. Essa licença permite que tanto a mãe quanto o pai possa se afastar das atividades profissionais para criar o filho. Entretanto, pesquisas171 realizadas na França demonstraram que 99% dos beneficiários da licença parental são mulheres172, o que não significa que a política governamental seja ruim, pois, um passo para se avançar nessa questão já foi dado, a
169 HIRATA, Helena; KERGOAT, Danièle. Novas configurações da divisão sexual do trabalho. Cadernos de
Pesquisa. v.37, n.132, set./dez. 2007, p. 604.
170 Hirata utiliza-se da terminologia “redes globais de afeto e de assistência” para designar a globalização dos
trabalhos de cuidar de pessoas, com a migração internacional de pessoas dos países do Sul para o Norte, para trabalharem como empregadas domésticas. Nesses casos a consequência da ruptura é mais grave devido à distância estabelecida. HIRATA, Helena. Por quem os sinos dobram? Globalização e divisão sexual do trabalho. In: EMÌLIO, Marli; TEIXEIRA, Marilane; NOBRE, Miriam; GODINHO, Tatau (Orgs.). Trabalho e cidadania ativa para as mulheres: desafios para as políticas públicas. São Paulo: Coordenadoria Especial da Mulher, 2003, p. 24.
171 Institut Nacional de la Statistique et des Etudes Economique. Disponível em: www.insee.fr. Acesso em:
08.03.2013.
172 DEVREUX, Anne-Marie. A teoria das relações sociais de sexo: um quadro de análise sobre a dominação
possibilidade de escolha. Com o tempo e com a mudança de mentalidade será possível uma parceria entre o homem e a mulher.
No Brasil, o comunicado nº 149, de 2012, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), com base nos dados da Pesquisa Nacional por Amostra e Domicílios (PNAD) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2009, demonstra que 49,9% dos homens declararam fazer atividades domésticos contra 89,9% das mulheres. Além disso, os homens disseram despender 10,5 horas por semana contra 26,6 das mulheres.173
O acesso às creches e às escolas infantis também é uma medida que visa a colaborar com os modelos de vínculo social entre a esfera doméstica e a profissional, é um fator importante para o ingresso das mães no mercado de trabalho, tendo em vista a desigualdade ainda presente nas tarefas domésticas.
Com as desigualdades na realização das tarefas domésticas há um reflexo nas relações profissionais, prejudicando não só a mulher, mas também a família. Por isso, é importante que haja uma combinação entre o espaço público e o privado para que possa haver uma harmonia nas relações pessoais a fim de acabar ou pelo menos diminuir as desigualdades de gênero e sociais.