Baseando-se em Locke, Arendt (2005) aborda a distinção entre mãos que trabalham e o corpo que labora, ou entre o artífice e aqueles que, como escravos, atendem com o corpo (trabalham com o corpo) às necessidades da vida.
Nos tempos antigos, antes do pleno desenvolvimento da cidade-estado, distinguia-se entre escravos (inimigos vencidos), que trabalhavam para prover o próprio sustento e o dos seus senhores, e os operários do povo em geral, que se movimentavam fora da esfera privada e dentro da esfera pública. Posteriormente, mais uma categoria foi incluída, a dos artesãos - aqueles que centravam suas atividades em seu ofício e não na esfera pública. Somente a partir de fins do século V é que as ocupações passaram a ser classificadas pelo esforço que exigiam.
Ainda Arendt (2005) nos indica que os antigos consideravam imprescindível ter escravos devido à natureza servil das ocupações que davam conta das necessidades de manutenção da vida. Dessa forma, laborar significava “ser
106
escravizado pela necessidade, escravidão essa inerente às condições da vida humana“ (p. 94). Assim, a escravidão não foi na Antiguidade uma forma de conseguir mão de obra barata, mas uma forma de excluir o labor das condições da vida humana.
A autora considera o trabalho como artificialismo humano e inerente à condição humana. Brown (1976) também observa a necessidade do trabalho na vida do homem e assim se manifesta: “o trabalho é parte essencial da vida do homem, uma vez que constitui aquele aspecto de sua vida que lhe dá status e o liga à sociedade” (p. 170).
E ainda Friedmann (1972, p. 192), com base em Freud, ressalta sua importância:
Freud transpõe para o interior de seu sistema, reduzindo-o ao quadro do indivíduo, o papel fundamental do trabalho para a espécie humana. Se o trabalho é capaz de desempenhar na vida de muitos homens, o papel capital que lhe atribui com razão, Freud, é porque constitui uma atividade essencialmente humana, criadora, aquela mesma que distingue o homem, homo faber, no conjunto das espécies animais e o elevam acima delas.
O tecelão Severino enfatizou implicitamente a importância que dá ao trabalho e à qualidade do mesmo:
... eu acho que, para melhorar essas coisas, que a gente já deu um toque para ele [Sr. José] tem que melhorar bastante coisas, porque a gente já tem experiência de outras malharias, então a gente tem ambientes que a gente pega pessoas boas, tem outro que não pega, então muitas coisas a gente aprende na vida.
107
Pedro (estoquista) fez sobressair o trabalho e a forma de com ele lidar:
A gente se diverte. A gente se dá bem. A gente trabalha sabendo que tem que trabalhar, mas dá uma risadinha de um lado e de outro; é assim, senão não vai.
Maria (passadeira) salientou mais explicitamente o mérito e interesse no trabalho:
Se houver alguma coisa errada, eu já aviso. Se der para mim consertar, eu procuro corrigir aquele erro e consertar, sem precisar amolar o tecelão, levar o problema para o patrão, entendeu? Eu acho assim, que o bom profissional não é aquele que qualquer coisa que acontecer vai e fala: “ isso está errado”. Não, eu acho que é aquele que procura corrigir... se você pode fazer, porque só vai apontar os defeitos da pessoa? As falhas... .se eu posso consertar, entendeu? O trabalho é tudo.
No que se refere à divisão do trabalho, Arendt (2005) salienta que, historicamente, primeiro fez-se distinção entre trabalho produtivo e improdutivo; mais tarde, entre trabalho qualificado e não qualificado e, finalmente, todas as atividades foram divididas entre trabalho manual e intelectual. Do ponto de vista social, a autora afirma que todo trabalho é produtivo e “perde sua validade a distinção entre a realização de tarefas servis, que não deixam vestígios e a produção de coisas suficientemente duráveis para que sejam acumuladas“ (p.100). Enfatiza, ainda, que toda atividade requer certo grau de qualificação e que a diferenciação entre, por exemplo, limpar e escrever um livro mostra certos estágios e qualidades de cada um deles.
108
Na atualidade, o pensamento de Arendt é corroborado por Simões (2005), quando enfatiza que a globalização da economia e o acelerado desenvolvimento tecnológico incitam a competitividade, fazendo com que a capacidade de inovar seja importantíssima para as empresas, tendo como conseqüência a diminuição da divisão entre trabalho intelectual e trabalho braçal; com isso, os empregos de baixa qualificação perdem mercado.
Nesse sentido, o pronunciamento de Maria (passadeira) pareceu diferenciado de outros integrantes da MIS, e trilha a linha de colocação de Simões:
De tudo eu faço um pouquinho. Eu procuro saber de tudo um pouquinho. Eu posso, se precisar arrematar, eu arremato; se precisar costurar, eu costuro; ponho etiqueta, entendeu? Eu procuro fazer o melhor.
Retornando à divisão do trabalho baseada em Arendt, e procurando fazer um paralelismo com Durkheim, Abranches (2004) nos coloca que, no século XIX, Durkheim analisou os diversos problemas da sociedade e os considerou como patologia social, cunhando o termo anomia para designar essa sociedade doente. Na tentativa de curá-la, o autor escreveu uma de suas famosas obras, denominada “A divisão do trabalho social”, em que enfatiza a necessidade de se estabelecer uma solidariedade orgânica entre os membros da sociedade. Seguindo o esquema biológico, em que cada órgão tem sua função e depende do outro para sobreviver, Durkheim concluiu que cada pessoa deve exercer uma função na divisão do trabalho e sentir a necessidade de se manter coeso e
109
solidário com os outros. É importante, pois, que o indivíduo se sinta parte de um todo, que realmente precise da sociedade de forma orgânica.
Essa linha de pensamento de Durkheim tem analogia com estudos de Friedmann (1972), que constata que o sentimento de solidariedade moral e uma rede de vínculos duradouros observados em certo grupo humano, objeto de um de seus estudos, não são devidos à interdependência das operações impostas pela divisão do trabalho, mas sim a sua condição social, à consciência comum diante do empregador (patrão ou seus representantes) e, em geral, da sociedade a qual esse grupo pertence.
Para Friedmann (1972), a divisão do trabalho ocorrida a partir do século XIX, baseada na crença em sua racionalização científica, aumentou o rendimento dos trabalhadores especializados e baixou os preços de custo de objetos fabricados em escala bastante grande. E, especificamente, o ramo de confecções foi aquele em que a fragmentação das tarefas foi mais desenvolvida:
A divisão das operações em todas as empresas de confecção de certa importância adquiriu, o que é normal, a forma de trabalho em cadeia e acarretou um planejamento rigoroso. Todo o pensamento do trabalho se acha absorvido em sua preparação, que alcança até o menor detalhe (p. 32).
Segundo o autor, na pesquisa efetuada junto às indústrias, os engenheiros observaram que, em casos de grande divisão das operações e de extrema especialização, há a tendência a rendimentos decrescentes, aliada ao fato de que a qualidade da obra é diminuída em virtude do aborrecimento dos operários.
110
Antunes (2001, p.37) também se pronuncia sobre a divisão do trabalho, caracterizando o processo de linha de montagem como “mescla da produção em série fordista com o cronômetro taylorista, além da vigência de uma separação nítida entre elaboração e execução”, concluindo que o capital, dessa forma, acaba suprimindo a dimensão intelectual do operário “que era transferida para as esferas da gerência científica. A atividade de trabalho reduzia-se a uma ação mecânica e repetitiva” (p.37).
Muitas vezes essa separação do trabalho do operário e o seu planejamento pode gerar apatia e alienação, conforme nos alerta Dejours (1992, p.19): “ao separar, radicalmente, o trabalho intelectual do trabalho manual o sistema Taylor neutraliza a atividade mental dos operários” .
Essa visão dos autores pode ser observada na fala angustiada do tecelão Severino:
Então eu pretendo... porque é bom a gente conversar com a pessoa e a pessoa dar atenção, porque isso é importante, a gente conversar e a pessoa ir buscar o princípio: “vou ver, vou ver se corto”, entendeu? Então, a
gente pretende falar e a pessoa escutar, porque se não escutar, não vale a pena. A gente está com um plano na cabeça, então a gente fala para o senhor e o senhor pô ! Dá atenção na hora e depois esquece então de dizer....”
O tecelão Alberto assim se pronunciou quanto a oferecer alguma sugestão para os dirigentes:
111
Não sei se vai adiantar dar a minha opinião, de qualquer forma o patrão fica um pouco mais esperto. Quando a
gente sugere a coisa para ele, ele num...” .
De uma forma explícita ou implícita, observa-se na MIS que a organização do trabalho baseada na divisão das tarefas contribui para certa acomodação dos trabalhadores mais ligados diretamente à produção. Esse fato certamente deixa adormecidas condições subjetivas que poderiam contribuir para o prosperar da criatividade.
Oliveira (1995) aponta para o fato de que não são as novas tecnologias em si que tornam o trabalho mais humano e interessante. Ele pode ser igualmente repetitivo, monótono ou criativo, dependendo do contexto e das circunstâncias. É através do envolvimento dos trabalhadores para identificar, analisar e resolver problemas que o trabalho tende a se tornar mais desafiante e mais interessante. A fala isolada da passadeira Mara, explicitada linhas atrás, corrobora firmemente essa análise do autor.
Há ainda que se considerar que as empresas não reagem da mesma maneira para resolver seus problemas. Enquanto umas encorajam os técnicos a resolverem problemas, outras mantêm uma equipe especializada para lidar com essas situações.
Afirma Oliveira (1995, p.26):
A organização, normas e rotinas do trabalho definem quem deve pensar e quem deve apenas executar as tarefas. É isso que pode tornar um trabalho mais ou
112
menos interessante e um grupo de trabalho mais ou menos criativo.
Pelos depoimentos colhidos, foi possível observar que os funcionários da MIS, principalmente os tecelões, referiam-se às suas funções como repetitivas, rotineiras e fragmentadas, em oposição a um tipo de trabalho que poderia ser mais criativo. Assim, eles tinham de alimentar a máquina (repor o fio) e observar o que estava sendo produzido. Segundo Severino a função do tecelão é:
verificar o funcionamento delas [das máquinas]. Não
deixar o fio acabar...
Alberto, outro tecelão que trabalhava havia quatro meses na empresa e há doze anos na área de tecelagem, assim descreveu o seu trabalho :
A gente chama de alimentar a máquina... repor a matéria prima... .controlar o que está sendo produzido, pois elas [máquinas] falham muito.
Alencar (1993) analisa as influências para a existência da criatividade e cita Moustakar:
A educação e a socialização devem não apenas ajudar o indivíduo a se tornar mais informado, mais seguro, mais efetivo socialmente, mas devem também habilitá-lo a desenvolver o seu self individual, atualizar os seus talentos particulares e a viver de uma forma autentica e criativa (p.57).
Para Csikszentmihalyi (1988, apud Alencar, 1993), a criatividade não é um atributo do indivíduo:
mas antes de sistemas sociais que fazem julgamentos sobre indivíduos, destacando de forma enfática que as condições sociais e culturais em interação com as
113
potencialidades do indivíduo, que fazem emergir objetos e comportamentos a que denominamos criativos (p. 59).
Stein (1974, apud Alencar, 1993) enfatiza o ambiente social e as pessoas que nele vivem como estimuladores da criatividade, além do estímulo ao indivíduo:
Se aqueles que circundam o indivíduo não valorizam a criatividade, não oferecem o ambiente de apoio necessário, não aceitam o trabalho criativo quando este é apresentado, então é possível que os esforços criativos do indivíduo encontrem obstáculos sérios senão intransponíveis (p.59).
São, portanto, autores que reforçam e salientam as idéias colocadas anteriormente, sobre a relevância do ambiente e da socialização para o estímulo à criatividade.
A fala do tecelão Alberto também foi enfática no que se refere à existência, na MIS, de um ambiente não apropriado para o fomento da criatividade. Quando questionado sobre melhoramentos de trabalho, sugestões, criatividade, assim se pronunciou:
Sugestão pode ser a gente tentou mudar alguma coisa no ponto da máquina, corretamente então... como sou antigo, tem sempre algo novo. Mas os outros não querem nem
saber...
O tecelão Eduardo, com doze anos de casa, falou sobre as dificuldades ambientais para o desenvolvimento da criatividade no seu trabalho:
Não tem área de desenvolvimento. Você não tem acesso a computador mais sofisticado. ... [a criatividade] é
limitada. Você precisa se desenvolver; se você não
114
patamar e estaciona. Nesse ramo nosso, você sempre está aprendendo. Você nunca fala: “sou um tecelão profissional...eu sei tudo”.
E Severino, que exercia a função de tecelão, afirmou:
Eu me acho [uma pessoa criativa]. Só que aí é que está o problema: ter alguém para apoiar. Porque não adiante eu
ser criativo, querer e não convencer a pessoa que está do lado. A pessoa tem que ter a mesma cabeça pra dizer:
“puxa, vamos ver se vai dar certo”. Até agora não deu. A gente só fala, a gente já vem com experiência de fora. Foi o que eu falei: as pessoas que estão aqui dentro, estão acostumadas com esse hábito. Não abriu a cabeça, estão só aqui; a gente já vem com uma experiência de fora, a gente passou em muitas empresas.
Severino comentou que, ao entrar na malharia, encontrou alguns colegas com os quais já havia trabalhado anteriormente:
Quando eu entrei aqui, a primeira coisa que eu vi foram os cabecinhas... Já conhecia... a gente já trabalhou junto.
Então, eu espero que, pra sair dessa... a gente, um escuta o outro, porque precisa. Se ficar numa cabeça
só pra dizer....é assim , dessa forma eu não quero.
De fato, esses depoimentos confirmam a existência de um ambiente interno não enfático para o vicejar da criatividade.
Ao analisar a criatividade nas empresas, Kassoy (2005 a) alerta para o seu lado ameaçador:
Queremos pessoas empreendedoras, participativas e líderes. Mas será que as empresas conseguem realmente
115
estimular os donos deste perfil? ...a criatividade pode ser incômoda pois quebra e linearidade do pensamento (p.1).
Para essa autora, tudo que é novo envolve riscos. Além disso, mudanças nos procedimentos geram irritação e resistência e por isso são evitadas. A empresa, porém, não deve poupar esforços para minimizar esses riscos, seja através de projetos pilotos, seja através da avaliação das idéias novas.
Sob esse ponto de vista, o Sr. João às vezes pronunciava-se com um discurso democrático e participativo, de descentralização das decisões, mas como ele mesmo afirmou, no final, ele próprio decidia. Pode-se verificar isso quando relatou o trabalho junto com a estilista Luciana:
...quando complica um pouco, então eu vou lá, quando o molde é complicado, as medidas têm algum detalhe... então a gente tem que corrigir, conversar e tal. Ela está aprendendo. Está aprendendo bastante. É uma moça esforçada.
Em outro momento, relatou acerca da própria Luciana:
Mas a gente tem experiência e as pessoas, vamos dizer, as estilistas dificilmente entendem de malhas tricot, então, quando vem o pedido, eu vou dando continuidade ao pensamento delas, eu vou emendando o que estão pensando lá na cabeça delas, então eles ficam satisfeitos. Porque ela [Luciana] já percebeu que vai dar certo.
Essa postura centralizadora do Sr. João direciona-se na contramão do que Alencar (1996, p. 27) considera, em seu método de análise, as condições necessárias para expressão do potencial criador nos indivíduos: “habilidade de pensamento, motivação, redução de bloqueios, domínio de técnicas, bagagem
116
de conhecimento e o clima psicológico percebido pelo individuo no seu ambiente de trabalho”.
Embora o tecelão Eduardo se considerasse uma pessoa criativa, ele não parecia se sentir estimulado a propor idéias novas, e isso pode sugerir um reflexo da falta de autonomia e falta de conhecimentos mais aprofundados.
Schleder (1999) destaca algumas características dos indivíduos criativos, dentre as quais podemos citar: fluência, flexibilidade; busca do novo, autonomia, independência, busca de aperfeiçoamento, realização de idéias etc.
Algumas dessas características pareciam estar presentes nos funcionários da área administrativa da MIS – eles tinham maior escolaridade do que os da área operacional e a maioria cursava faculdade. Eles falaram em termos de trabalho dinâmico, cooperação e trabalho criativo. Entretanto, também vincularam esse “trabalho criativo” à figura do Sr. João.
Laura, que trabalhava no PCP (Planejamento e Controle da Produção), disse: Eu acho que o trabalho é bem dinâmico... a gente aprende coisas todo dia.
Sobre se considerava-se ou não uma pessoa criativa, respondeu:
...fico um pouco sem tomar decisão, posso ter idéias
criativas, mas não colaboro na prática, fico assim,
acanhada....
Exemplificou sobre um projeto novo que está sendo desenvolvido por ela e pela estilista Luciana, que é aproveitar os fios que estão sobrando (ponta de estoque)
117
e desenvolver produtos novos. E quando questionada sobre quem teve essa idéia, respondeu que havia sido o Sr. João. E acrescentou:
Eles [patrões] incentivam bastante; eles sempre falam: “se tiver alguma coisa que a gente não esteja vendo ou idéias que vocês querem falar, a gente está aberto”...eles sentem que a gente está cooperando também.
Já Luciana (estilista) respondeu sobre ser ou não uma pessoa criativa:
Eu me considero. Tem que ter criatividade, porque na faculdade a gente trabalha muito com criatividade, bolar muitas coisas “piradas”,...então aqui no trabalho a gente
tem que ter um pouco o pé no chão.
Quando perguntada se era estimulada a dar idéias criativas na empresa, falou: Sim. Tudo tem um limite, porque o Sr. João é um pouco
de segurar; ele fala: não é bem assim...eu acho que tem de ser assim.... Então pelo menos as peças que eu
fiz até agora ele foi a favor.
Percebeu-se, implicitamente, nas falas do pessoal administrativo, certa abertura por parte do Sr. João, para expressão de opiniões. Entendeu-se que essa diferença de postura pode ser devida a certa aura de admiração e respeito para com os funcionários que cursaram ou cursam o ensino superior.
Em síntese, embora se perceba existir na Malharia Irmãos Silva um clima harmonioso e cordial, não foram identificadas outras características de empresa criativa, tais como: ambiente propicio à criação de novas idéias, requalificação profissional, liderança, autonomia, valorização da criatividade e sistema de recompensa. Essa percepção vai ao encontro da hipótese inicial deste estudo,
118
de que, nas pequenas empresas familiares do setor tradicional da economia brasileira, os proprietários pouco estimulam a criatividade nos funcionários.
119
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A criatividade é uma característica própria do ser humano e hoje, mais do que nunca, é de relevância no ambiente de trabalho em todas as organizações, quer o ator seja empresário/empreendedor, quer seja funcionário administrativo ou empregado nas mais diversas funções. Isso porque vivemos uma época de globalização dos negócios, e a competitividade faz com que as relações nas organizações, tanto internas como externas, necessitem de constantes adaptações e mudanças. Dessa forma, ressalta-se a necessidade de os seres humanos expressarem sua criatividade para, principalmente, gerarem inovações de todos os tipos e que, em última análise, vão permitir a sobrevivência das instituições (grandes empresas, pequenas empresas, instituições de ensino, organizações não governamentais etc).
Este estudo teve como objeto a criatividade na pequena empresa, especificamente uma pequena empresa familiar de um setor tradicional da economia - Malharia Irmãos Silva – MIS. Procurou-se avaliar como a criatividade era percebida pelos empregados e dirigentes e se o ambiente (clima organizacional) estimulava o seu vicejar.
Foi possível verificar que a MIS é uma empresa com tradição no mercado, sendo que o sub-setor no qual está inserida vem atravessando dificuldades, principalmente em função da concorrência de produtos similares, de origem
120
asiática, como os da Coréia. Os sócios pareciampossuir espírito empreendedor, apresentando várias de suas características, tais como: senso de oportunidade, disposição para aprender, disposição para assumir riscos calculados e autoconfiança. Com isso, vinham proporcionando o pleno funcionamento da empresa nas diversas fases, desde a fundação, e contribuindo fortemente na busca de soluções que permitissem a sobrevivência e o desenvolvimento da firma no ambiente turbulento pelo qual vem passando os atores da economia nacional.
Também foi possível observar que a malharia objeto do estudo apresentava várias características das empresas familiares, tais como laços afetivos fortes influenciando relacionamentos internos, dificuldades em separa aspectos racionais e emocionais, valorização da antiguidade etc. Além disso, os empregados pareciam se identificar, na relação de trabalho, com o mito da família, sendo evidenciadas a cooperação e a solidariedade para vencer condições adversas.
O poder na MIS concentrava-se, realmente, nas mãos dos dois sócios gerentes. O tipo de poder mais evidentemente observado foi o autocrático, ou seja, exercido pelos sócios. As decisões sobre a programação das máquinas eram centralizadas em um dos sócios gerentes, e a operação, de responsabilidade dos tecelões. A liderança do sócio responsável pela área operacional pôde ser percebida em vários de seus depoimentos. Esse poder autocrático