Em relação à PSA a literatura mundial geralmente registra apenas os custos financeiros que os países têm com indenizações, sacrifício de animais, diagnóstico laboratorial, perda de produção, gasto com pessoal, combustível, material de divulgação, além de perda de divisas pela
interrupção de exportações. No Brasil, além desses prejuízos financeiros deveria ser contabilizado também o custo social, decorrente da demissão de trabalhadores em todos os setores da suinocultura, da paralisação de empresas e indústrias, da falência de criadores individuais, da perda de fonte protéica por uma parcela considerável da população e do aumento do preço da carne nos açougues e supermercados. Há que considerar também o aspecto estigmatizante que a doença representou, pois mesmo que o criador retomasse seu negócio, depois de cumprido todo o período de vazio sanitário determinado pelas normas sanitárias indicadas para a PSA, dificilmente conseguiria manter o mesmo nível de comercialização. Coube à mídia revelar esse outro lado do drama criado com o episódio da PSA no país: um cenário sombrio, porém real, em que estão representados o drama dos criadores, dos empresários e a comoção social imposta aos moradores das favelas e cortiços das cidades. Há que se lembrar que, na época, o porco constituía, para muitas famílias, a única garantia de carne para a alimentação e o fornecimento da gordura indispensável na preparação dos alimentos.
Com a paralisação do abate e da industrialização da carne suína, por trinta dias, no início da epidemia, o vice- presidente da Associação dos Criadores de Suínos do Rio de Janeiro, informou que os prejuízos que o Estado estava sofrendo com ICM eram incalculáveis. A Sola Indústria Alimentícia de Três Rios contribuía com Cr$11 milhões (US$ 610 095,00) mensais e a Bel Prato, em Barra do Piraí, pagava três milhões (US$166 390.00). Além disso, os abatedouros e frigoríficos estavam demitindo os empregados. Com relação aos criadores, os repórteres do Jornal do Brasil entrevistaram o Sr. José de Carvalho, proprietário de uma granja modelo em Petrópolis, com três mil suínos, onde nasciam 500 animais por mês, e que, desde a proibição da comercialização no Estado do Rio, não sabia o que fazer com os porcos de sua criação. A respeito das matrizes que se encontravam prenhas há três meses e meio, disse que elas teriam leitões a partir
daquele mês e que não havia espaço disponível para colocar as novas crias, uma vez que não poderia se desfazer dos animais ali existentes, conforme Suinocultor... (1978)
Em telegrama enviado, no dia 19 de junho de 1978, ao Presidente Geisel, a Associação dos Criadores de Suínos do Estado do Rio reclamava que, face ao embargo no abate de animais, determinado pelo Ministério da Agricultura, os suinocultores do Estado, não poderiam arcar com os prejuízos da retenção de animais, que já durava trinta dias e sugeriam, dentre outras medidas, a autorização para abate em estabelecimentos sob fiscalização federal ou estadual, conforme Governo... (1978a). A situação das 19 indústrias vinculadas à Associação dos Industriais da Carne do Rio de Janeiro era grave. A queda do faturamento foi de 35%, em nove empresas pesquisadas, que representavam 65% do volume de operações. Na Indústria Sola S.A (Três Rios), a queda foi de 53%; na Martuscello (Barra do Pirai), a queda foi de 41% e na Sarandi (Duque de Caxias), foi de 45%. A Dallari colocou em férias forçadas 85 funcionários; a Lisamar 3; a Sarandi 38 e a Frizen demitiu 25 pessoas. A situação estava se normalizando aos poucos, com um financiamento de Cr$ 80 milhões (US$ 4 347 830.00) do Governo Federal, para distribuição entre as indústrias fluminenses afiliadas à Associação. Esse financiamento seria utilizado no abate de 20 mil suínos para serem estocados para futuro consumo. O Banerj já havia liberado 126 milhões (US$ 6. 441 100.00) para 12 empresas, Peste... (1978c).
Também a Secretaria Municipal de Saúde de Belo Horizonte estabeleceu que, no dia 1o de agosto de 1978, iria começar a matança de suínos nas favelas, porém, no “Morro do Papagaio”, onde existiam cerca de 20 mil cabeças de porcos, poucos moradores estavam informados sobre essa medida, Nas Favelas... (1978a).
Para Roppa (1981), a suinocultura seria responsável por cerca de 380 mil empregos
diretos, ajudando a fixar o homem no campo. Somente na região Sul do Brasil, que possuía 42% do rebanho nacional e aproximadamente empregava 160 mil trabalhadores, a crise que afetou o setor provocou uma paralisação de, pelo menos, 30% das criações, afetando 48 mil empregados, fato que não teve grande destaque no noticiário nacional.
Uma pesquisa realizada em 20 de junho, no Mercado Central de São Paulo, comprovou- se uma sensível diminuição na procura pela carne de porco. O Sr. Saulo da Silva Santos, um dos açougueiros entrevistados, confirmava que a venda dessa carne caíra 75%, Peste... (1978h).
Também no Rio de Janeiro a imprensa, em matéria de 22 de junho de 1978, verificou que a carne de porco, frango e boi havia desaparecido de muitos supermercados e que nos últimos trinta dias, em alguns açougues, a carne de boi chegava a custar 70% mais caro do que a vendida nos supermercados, Rio... (1978a).
Em Minas, foi montado o golpe do porco, praticado por falsos agentes sanitários, que confiscavam os porcos em favelas e bairros da periferia de Belo Horizonte, Governo... (1978c).
O Ministro Paulinelli declarou à imprensa, em 23 de junho de 1978, que estava suspendendo exportação de carne suína e explicou que a medida estava sendo tomada para que o Brasil não perdesse sua credibilidade no exterior”, Governo... (1978e).
A imprensa noticiou que dez navios carregados com 20 mil toneladas de pellets e de farelo de soja brasileiro, com destino à Alemanha, estavam estocados no porto de Hamburgo, à espera de liberação por uma comissão de sanitaristas alemães que estavam no Brasil avaliando o risco da PSA, conforme Peste... (1978p). Também a Polônia, Romênia e Bulgária passaram a exigir das autoridades brasileiras um certificado de que a região produtora de soja, nos últimos seis meses, não esteve
exposta ao vírus da PSA, em Paulinelli... (1978c).
Em razão da ocorrência da PSA, a Secretaria de Agricultura de Minas Gerais suspendeu as exposições de gado em vários municípios (Carlos Chagas, Águas Formosas, conforme Sindicatos... (1978). Segundo o Ministério da Agricultura foram sacrificados 66.966 suínos, com o pagamento de Cr$44.313.945,00 (US$2118827.00, a preços de 1978), conforme Brasil... (1984).
4.6 Peste suína clássica versus peste