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Flores (1994) aponta como uma das características de procedimentos interpretativos, a flexibilidade ao longo do processo. Mesmo partindo de pautas e tarefas específicas, os procedimentos não devem ser rigidamente padronizados, devem se manter abertos e flexíveis, pois existe a possibilidade de divergências com o estabelecido.

Embora o procedimento interpretativo seja apresentado em fases, não significa que essas ocorram em uma seqüência temporal. Ao contrário, muitas vezes as ações ao longo do processo são executadas concomitantemente. A interpretação começa praticamente no levantamento dos dados, a exemplo do diário de campo, que envolve um processo de interpretação do que o pesquisador captura como material empírico. Por sua vez, a interpretação e a análise se misturam, quando ao se aprofundar cada vez mais nos dados, o pesquisador recorre à análise dos escritos, muitas vezes re-categorizando ou gerando novas categorias a partir de suas interpretações (FLORES, 1994).

Nesse estudo, os materiais empíricos foram tratados, analisados e interpretados conforme as técnicas de análise de dados qualitativos apresentadas por Flores (1994). Esse autor argumenta que tais técnicas se aplicam à análise de dados gerados pela própria investigação e transformados em textos, utilizando categorias para organizar e apresentar conceitualmente a informação. Porém, o interesse é pelo conteúdo das categorias e não pelas freqüências dos códigos, tradicionalmente associadas a técnicas quantitativas.

As categorias podem ser estabelecidas a priori, com base em categorias empregadas por outros pesquisadores ou em instrumentos de investigação, tais como o roteiro de entrevistas, que permite utilizar as questões como fonte de categorias para a organização dos dados. No entanto, o pesquisador deve manter-se aberto a outras categorias que podem surgir a partir dos próprios dados, permitindo o refinamento das categorias iniciais (FLORES, 1994).

6 Pesquisa realizada pelo Instituto Great Place to Work com empregados de empresas, buscando identificar as

100 melhores empresas para trabalhar, a partir da classificação das respostas e das práticas de gestão de pessoas adotadas pelas organizações.

Em um primeiro momento, utilizamos categorias semelhantes às de Domenico (2007), agrupando as práticas por períodos, de acordo com acontecimentos que se destacavam no processo de mudança, porém, novas categorias foram emergindo dos próprios dados, sendo refinadas à medida que íamos desenvolvendo a análise.

Após a preparação de todos os materiais empíricos sob forma textual, o processo de análise contemplou as três fases descritas por Flores (1994), as quais descrevemos a seguir:

1) Iniciamos o processo com a leitura dos diversos materiais, bem como a audição das entrevistas repetidas vezes, buscando encontrar temas relacionados às práticas existentes ao longo da existência da organização e ao processo de mudança organizacional. Essa prática nos permitiu ter uma impressão adequada do conjunto de dados e algumas categorizações começaram a surgir já a partir das primeiras leituras.

2) Os dados foram agrupados em torno dos temas encontrados, em um processo de extrair dos materiais empíricos o que considerávamos relevante, associando a um determinado tema e, em alguns casos, a mais de um inclusive. Essa fase é semelhante ao que tradicionalmente é conhecido como categorização. As categorias se referiam aos marcos identificados ao longo do processo de mudança, a práticas presentes nas interações entre stakeholders, visões dos participantes sobre o fundador e informações gerais sobre a organização-objeto de estudo.

3) Buscamos, então, encontrar tendências e formular conclusões a partir do material agrupado nas categorias. Para chegarmos às conclusões centramo-nos nas idéias presentes ou ausentes nos discursos, na comparação entre estes e na busca de relações para identificar tendências, tendo sido necessário por diversas vezes retornar aos escritos ao longo desse processo.

De acordo com Flores (1994), a análise de dados qualitativos consiste em uma tarefa intuitiva, pois o pesquisador trata os dados tendo sua intuição como principal instrumento, sem que nenhum procedimento algoritmo ou conjunto de regras pré-definidas determinem como será desenvolvida a análise e interpretação para a massa de dados no início do processo.

No entanto, mesmo sendo uma tarefa intuitiva, nossa análise seguiu uma determinada ordem, conforme recomendado por Flores (1994), sendo que, num primeiro momento, nos concentramos sobre a ‘micro-situação’, na tentativa de buscarmos consistência entre as possibilidades de significados. No segundo momento, consideramos a ‘macro-situação’, interpretando à luz do referencial teórico o que foi encontrado como um reflexo do contexto social amplo em que emergiam os discursos analisados.

Não podemos passar ao largo da questão da dificuldade do pesquisador em lidar com a grande quantidade de informações gerada pela utilização do método qualitativo no levantamento de dados, conforme nos chama a atenção Flores (1994) ao recomendar que o pesquisador deva desenvolver estratégias para lidar com um conjunto amplo de dados qualitativos textuais.

Nesse sentido, utilizamos o software NVivo 8 na fase de tratamento dos materiais empíricos. A utilização desse recurso tecnológico trouxe grande contribuição à pesquisa por facilitar a organização e o tratamento dos dados, principalmente por garantir que estes ao serem extraídos de suas fontes originais no processo de categorização, mantivessem sua rastreabilidade, o que facilitou o processo de análise e interpretação. No entanto, a lida com os dados continua a ser quase o trabalho de um artesão, a qual consideramos ser a riqueza do trabalho interpretativo. Ao lidar manualmente com as entrevistas, as relações foram sendo construídas com os demais dados e a análise ocorrendo naturalmente. À medida que surgiam novas informações, fazíamos comparações entre os dados e discutíamos nossas interpretações a partir das relações e tendências entre os dados analisados.

Finalizamos esse capítulo com a sumarização das opções metodológicas adotadas na realização do presente estudo (Quadro 4).

Quadro 4: Opções metodológicas

Item Descrição

Posicionamento Paradigmático

Interpretativista

Questão de Pesquisa Como os valores relativos à competição organizacional (VRCO) são construídos e reconstruídos ao longo do processo de mudança organizacional?

Objetivo Geral

Objetivos Específicos

Compreender como os VRCO são construídos e reconstruídos ao longo do processo de mudança organizacional de uma empresa de consultoria na área fiscal e tributária da cidade de São Paulo.

Descrever a mudança organizacional.

Apreender os VRCO a partir das práticas entre os diversos stakeholders da organização.

Estratégia de Pesquisa Estudo de caso

Unidade de análise: a organização Método de Pesquisa Qualitativo

Fontes de Materiais Empíricos

Entrevistas semi-estruturadas e em profundidade Observação não-participante

Conversas espontâneas entre stakeholders Documentos

Tratamento, Análise e Interpretação de Materiais Empíricos

Categorização (utilização do software NVivo8) Análise de dados qualitativa (FLORES, 1994)

5 APRESENTAÇÃO, ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS

Não há fatos eternos, como não há verdades absolutas. Friedrich Nietzsche

Neste capítulo, abordamos a análise e a discussão dos resultados encontrados em nossa investigação empírica. Realizamos a descrição do processo de mudança organizacional pelo qual a organização-objeto de estudo vem passando desde sua concepção, ao longo do qual apreendemos os valores relativos à competição organizacional subjacentes às interações entre seus stakeholders, discutindo sobre como os VRCO foram construídos e reconstruídos ao longo da existência da organização.

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