Tratava-se de uma mãe de 32 anos, casada, com ensino fundamental completo, que não trabalhava devido ao fato de ser a cuidadora da filha com 10 anos de idade, cuja família foi classificada como C1 pelo Critério de Classificação Econômica Brasil - CCEB 2008. Ela participou de 10 reuniões, faltando apenas na primeira.
Esta mãe sempre se mostrou muito interessada em participar do grupo desde o primeiro momento que recebeu o convite. Sua filha estudava em uma escola especial do estado, e, nesse local, ela fazia um trabalho de intermediação entre as mães dos demais alunos e a direção da escola, naqueles casos em que fosse necessário fazer alguma reivindicação ou reclamação a respeito dos serviços prestados. Talvez por isso, seu grande interesse em conhecer mais sobre os direitos das pessoas com deficiência.
Faz-se necessário contextualizar alguns fatos que estavam ocorrendo com esta mãe. A participante estava vivendo um momento muito delicado na relação entre ela e a escola especial de sua filha. A instituição estava, por meio da Lei da Terminalidade Específica, retirando da escola os estudantes mais antigos, e transferindo os mais jovens para as escolas comuns por determinação da Superintendência Regional de Ensino. A Lei da Terminalidade Específica não se aplicava à sua filha, mas duas tentativas anteriores frustradas de inclusão escolar fizeram com que ela se tornasse radicalmente contra a transferência da criança para a escola comum. Outro ponto relevante era a recente proibição da entrada das mães na escola para alimentar e medicar seus filhos no horário do lanche, fato que vinha acontecendo há anos naquela instituição.
Esses acontecimentos fizeram com que as mães dos alunos se organizassem para lutar contra essas determinações do estado, e escolheram P1 como representante neste confronto
entre família e escola. De um lado a escola dizendo que estava cumprindo as leis estaduais e de outro as famílias acusando a escola de maus tratos e fazendo denúncias na promotoria de justiça. O desgaste foi grande entre as partes, sendo que as famílias não alcançaram sucesso nas suas reivindicações. E esta era a realidade de P1 quando a mesma veio fazer parte do grupo.
P1 demonstrou ser, comunicativa, ansiosa e preocupada com os problemas levantados e discutidos pelo grupo. Conhecia pouco sobre os direitos das pessoas com deficiência e se esforçava para aprendê-los. Teve pouca participação nas propostas de encaminhamento, mas sempre interessada na solução dos problemas e disponível para participar das ações do grupo.
Logo na 3ª reunião se dispôs a participar, juntamente com suas amigas P4 e P10 de uma comissão que convidaria um palestrante da área da saúde, o que lhe proporciou a experiência de entrar em contato com autoridades.
Nas reuniões sobre saúde, P1 se mostrou sempre interessada, mas passiva, talvez porque não tivesse muita experiência nesta área, visto que sua filha não dependia tanto dos serviços públicos de saúde. Na 6ª reunião, o grupo estava discutindo que não havia políticas públicas voltadas para a saúde da pessoa com deficiência no município e P1 disse usando de um tom conclusivo: “A saúde [serviços de saúde] já é ruim para quem não tem deficiência e para quem tem é pior ainda.”
A 7ª reunião foi de especial importância para P1. Foi a primeira reunião sobre os direitos à educação e a palestrante convidada era representante da Superintendência Regional de Ensino (SRE). P1 agiu de forma agressiva e hostil com a palestrante em diversos momentos, contrariando suas idéias, duvidando das informações, fazendo acusações ao trabalho da SRE. A pesquisadora teve que mediar o contato entre a palestrante e o grupo, visto que os demais participantes também estavam contrárias às atitudes tomadas pela SRE em relação às famílias dos alunos com deficiência.
Um dos assuntos abordados pela palestrante foi “inclusão escolar”, e P1 deixou claro o quanto era contrária a esta idéia, contando as tentativas “desastrosas” de inclusão de sua filha com deficiência. Segundo P1, além de lhe negarem a matrícula por várias vezes, em duas escolas comuns que a criança já tinha frequentado, não conseguiam mantê-la em sala de aula, não conseguiam sucesso na alfabetização, e não garantiam sua integridade física por ser muito hiperativa e pelas tentativas de fuga. P1 disse de forma incisiva: “Minha filha não volta para a escola comum. Tirei ela de lá [da escola comum] desde o dia que fiquei sabendo que ela
passava a tarde toda no banheiro dando descarga. Assim era mais fácil para a professora, mas minha filha não merece isso.”
P1 também perguntou para a palestrante: “Eu fiquei sabendo que a gente não vai mais poder escolher e vai ser obrigado a matricular os filhos [com deficiência] na escola normal [escola comum]. Isso é verdade?”. Após a resposta da palestrante a respeito da legislação atual e a manutenção das escolas especiais ela ainda questionou de forma irônica: “Você tem vagas para todos os deficientes que estão nesta sala se caso quiserem se matricular? Não sei se você sabe, mas não tem vagas nem para os meninos normais, não sei onde vocês vão arrumar vagas para os deficientes”.
Por mais que a palestrante tentasse explicar que não estava sabendo dos problemas enfrentados pelas mães na escola especial do estado, P1 citou o nome de todas as funcionárias da SRE que tinham tido contato e ainda perguntou a respeito da necessidade de um enfermeiro nas escolas especiais para medicar os alunos, visto que tinham impedido a entrada das mães na escola para administrar os medicamentos. P1 estava revoltada com a falta de solução para os problemas enfrentados por ela na escola e ao se deparar com uma representante da instituição que veio lhes causar todos os transtornos, agiu de forma agressiva. A pesquisadora conversou em particular com P1, que percebeu ter se excedido durante a reunião. A pesquisadora explicou a P2 sobre relações interpessoais e habilidades sociais, e agendou uma reunião com este tema.
P1 foi muito participativa na reunião sobre habilidades sociais, aproveitou bastante a experiência e conseguiu entender o que era assertividade e as desvantagens das condutas e relacionamentos agressivos. P1 e os outros participantes relembraram casos semelhantes aos apresentados naquele encontro. Depois de terminada a reunião, P1 e P4 disseram à pesquisadora que talvez pudessem ter conseguido melhores resultados com a SRE se tivessem agido de forma assertiva.
Na discussão sobre a lei da terminalidade específica, P1 perguntou por que estava sendo aplicada nas escolas estaduais e não nas municipais e contou para a palestrante o que vinha ocorrendo na escola de sua filha.
Na 10ª reunião discutiam sobre a importância da escola na inclusão social e P1 disse: “Eu concordo com isso, mas acho que a função da escola é ensinar as matérias [conteúdo programático] e isso não estão conseguindo, pelo menos, com a minha filha não.” E dessa vez falou sem se exaltar, tentando impor a sua idéia, mas de forma clara e tranquila. Ela discordou também da fala de P20 que dizia que nas escolas especiais não existiam
discriminação e maus tratos: “Eu não sei, talvez seja menos, mas conheço muitos casos de discriminação na escola da minha filha, e maus tratos tem todo dia.”. E continuou citando exemplos.
Na 11ª reunião a palestrante insistiu na importância da inclusão escolar e P1 ainda se mostrou contrária a esta possibilidade, citando novamente as tentativas mal sucedidas com sua filha. Mas agora com menos resistência disse: “Eu não tenho coragem de deixar a minha filha na escola com aquele monte de aluno, mas se pelo menos ela ficasse sentada na sala de aula...”. P1 era uma mãe zelosa e superprotetora, e sua filha já tinha vivido situações de risco tanto na escola comum quanto na escola especial, talvez por isso se mostrava tão apreensiva quanto à segurança da filha.
Ao final dos trabalhos, notou-se que P1 estava bem menos ansiosa, mostrava segurança ao falar sobre os direitos das pessoas com deficiência e continuava interessada em mais conhecimento sobre o assunto. Ela que já vinha pensando em criar uma associação com as mães da escola de sua filha, tinha desistido da idéia e estava mobilizando-as para se associarem à AMADEMS – Associação das Mães e Amigos dos Deficientes Mentais Moderados e Severos, com o objetivo de unir esforços para continuarem na luta pelos direitos das pessoas com deficiência intelectual no município.
P1 não foi muito atuante no desenvolvimento de propostas de solução para os problemas levantados pelo grupo. Entretanto, seu crescimento pessoal e seu empoderamento em relação aos direitos das pessoas com deficiência foi observado no transcorrer das reuniões, sendo confirmado na avaliação quantitativa da FES como um dos melhores resultados entre os participantes.
P2 é exemplo de luta em favor dos direitos das pessoas com deficiência, no entanto, a ansiedade e as dificuldades em conseguir bons resultados, pode levar à atitudes exageradas e à agressividade. A discussão sobre relações interpessoais e habilidades sociais é importante para trabalhos em grupo. Atitudes semelhantes às de P2, foram observadas em outros participantes do grupo, e podem ocorrer também em outros grupos de pesquisa, mas devem ser evitadas.
A literatura sobre pesquisa-ação orienta sobre a importância da relação entre os participantes do grupo e entre esses e o pesquisador, a chamada dinâmica do coletivo (FRANCO, 2005). No entanto, baseado na diversidade humana encontrada nos grupos, o empoderamento dos participantes em relação às habilidades sociais, também deveria ser orientada. A introdução na agenda de pesquisa de uma reunião sobre relações interpessoais e
habilidades sociais, antes de se iniciar os trabalhos do grupo, preveniria atitudes como as de P2 e ainda os capacitaria para futuros contatos com profissionais e autoridades.