Fonte: Arquivo próprio
Um dos alunos coloca sua percepção e os resultados adquiridos com a aprendizagem da música de ouvido, referindo-se ao arranjo de Berimbau:
“A primeira música o professor optou por ensiná-la de ouvido, para trabalhar a percepção, possibilitando que o músico não se torne dependente de uma partitura e possa tocar também de ouvido, ajudando até quem toca na noite, que na maioria das vezes toca de ouvido” (Estudante C).
Nessa perspectiva, "tocar de ouvido", sem partitura, também pode auxiliar o aluno a explorar, com maior desprendimento, diferentes formas de execução de uma peça. Gane (1996, p. 63) propõe que "tocar de ouvido" seja considerado como uma elevação para um nível de execução mais alto, sugerindo que o professor encoraje os alunos a tocar outras músicas que se encontram ao seu redor.
O desprendimento ocasionado pela execução musical de ouvido é ceifado quando o aluno se restringe a execução instrumental através da leitura de partitura, uma vez que, nesta última, há uma concentração para decodificar os sinais musicais do papel. Swanwick (2003, p.
69) afirma “que músicos de outras culturas diferentes das tradições clássicas ocidentais são
muito conscientes desse terceiro principio62 - de que a fluência musical precede a leitura e a
escrita musical”.
Gordon (2000) é mais ambicioso ao dizer que deve ser retardado o máximo possível o contato dos alunos com a leitura musical. Entretanto, trato o trabalho com a partitura em paralelo com a prática musical. Assim, há músicas e exercícios estudados em sala sem o auxílio da partitura que posteriormente entrego para os estudantes. Nesse momento a leitura é melhor compreendia pelos alunos, uma vez que já adquiriram competências práticas ao instrumento, que lhes dão mais liberdade de decodificar os símbolos musicais.
Uma outra ação a isto relacionada e a proposição de que em cada escala musical trabalhada no instrumento sugiro para casa uma música para os alunos aprenderem de ouvido e, em seguida, escrevê-la na partitura naquela escala estudada. Tenho sugerido na maioria das vezes as músicas gravadas por Luiz Gonzaga, pois, pelo que observo, são mais próximas da realidade cultural dos estudantes e por oferecem desafios técnicos.
Ainda em relação à aprendizagem musical sem o auxílio da partitura, há diversas músicas com arranjos, por mim elaborados, que estão presentes no trabalho da Prática Instrumental para o desenvolvimento da aprendizagem musical de ouvido. Neste processo, estimulo os estudantes a realizar grupos de estudos extra-aula para haver uma aprendizagem recíproca e coletiva.
62 Para Swanwick (2003) há três princípios da educação: considerar a música como discurso, considerar o discurso musical dos alunos e fluência no início e no final.
Tradicionalmente, as escolas e os espaços de ensino de instrumentos de sopros, principalmente no ensino superior, não enfatizam o trabalho de “ouvido”, impedindo que os alunos desenvolvam aspectos peculiares a esta prática como improvisação e o desenvolvimento da audiação. Nestes locais, a aprendizagem é realizada somente com livros de exercícios musicais e, em seguida, a leitura de músicas em partitura. Este fato é perceptível por meio da pesquisa de Scott Júnior (2007) sobre os cursos de saxofone no Brasil, os quais enfatizam quase que exclusivamente a música europeia escrita.
Harder (2008) afirma que no século XVIII o ensino de instrumento se baseava na transmissão oral, mas após 1850, com o advento da impressão das partituras e métodos, os exercícios e a performance no instrumento se tornaram mais reprodutivas, com grande ênfase para o desenvolvimento de habilidades e menos ênfase para os processos de criação. A autora coloca ainda que nas aulas de instrumento no ensino superior as questões musicais são subpostas pelos estudos técnicos, reservando pouco tempo para os alunos expressarem suas ideias. Isto, segundo Harder (2008), deve-se ao fato de que os professores de instrumento, em sua maioria, reproduzem o modelo pedagógico de seus professores e pelos quais vivenciaram sua formação musical.
Os estudantes da Prática Instrumental, sujeitos desta pesquisa, que tiveram sua formação musical inicial em bandas de música, trazem consigo ampla habilidade voltada para a leitura musical devido a ser este um dos objetivos em tais espaços de formação musical e ainda, devido à aprendizagem teórica que ali ocorre antes da prática. Porém, as habilidades musicais exigidas para a execução musical sem a partitura são resguardadas em segundo plano. Ou seja, estes estudantes trazem dificuldades na aprendizagem musical de ouvido, na improvisação, na afinação de seus instrumentos, no desenvolvimento da musicalidade, criação e expressão musical, dentre outros. Por isso, a necessidade de um trabalho voltado para a audiação, na qual a escuta seja ferramenta relevante na sua formação musical e no desenvolvimento destes aspectos.
Além de Berimbau, cito o exemplo de uma música que foi inteiramente aprendida sem o auxílio da partitura (de ouvido). A música Samba de uma nota só63, de Tom Jobim e Newton Mendonça que possui a primeira parte de fácil execução com somente duas notas e, sendo uma música brasileira, as nuances de articulação e interpretação se aproximam da vivência musical dos alunos. A segunda parte, que possui elementos com maior grau de
dificuldade de execução é, inicialmente, executado por mim ou por um aluno mais experiente, mas todos são incentivados a estudá-la.
Assim, como já citado, durante os dois anos da disciplina de Prática Instrumental, proponho músicas para a aprendizagem musical de ouvido, a fim de que sejam trabalhadas pelos alunos no espaço da sala de aula e fora dela. São músicas, com e sem arranjos, em áudio, por vezes a gravação de minha execução instrumental e, às vezes, com o áudio produzido por meio de software (finale, musescore e band-in-a-Box) para que os alunos escutem e aprendam no instrumento o que há no áudio.
Samba de uma nota só foi proposta para a aprendizagem de ouvido nas turmas de 2011, 2012 e 2013 quando estavam iniciando o segundo semestre dos estudos de Prática Instrumental. Por conseguinte, houve momentos em que todas essas turmas juntas apresentaram publicamente este arranjo. Em algumas dessas apresentações foram convidados outros instrumentistas, alguns professores, (guitarra, baixo e bateria) para participar da execução, a fim de que fosse proporcionada uma experiência diferente aos estudantes, conforme se pode constatar através do exemplo no DVD em anexo, através do Vídeo 6 - Samba de uma nota só.
ii) parcialmente de ouvido
Outra proposição metodológica que realizo quando a música possui maior dificuldade de ser aprendida integralmente de ouvido é a escola de trechos escritos e outros retirados da música para ser aprendido de ouvido. Assim, quando a música ou arranjo possui mais dificuldade é entregue, junto ao áudio, uma partitura com somente alguns compassos escritos do arranjo, para servir de parâmetro, e os demais compassos em branco para o estudante aprender pelo ouvido e escrevê-los.
Para este tipo de ação, inicialmente, escolho uma música a ser executada no recital final por todos e realizo a montagem do arranjo. Em seguida, entrego somente o áudio da melodia principal da música para os alunos aprenderem e se apropriarem. Após a aprendizagem por todos da melodia principal, entrego somente o áudio específico de cada voz para cada instrumentista respectivo. Às vezes, ao final deste processo é entregue a partitura de cada voz a cada estudante para que a música seja ensaiada e executada no recital final.
Com isto, torna-se perceptível a facilidade que o aprendiz adquire na leitura musical e no olhar que direciona para a partitura. Esta atividade foi realizada em todas as turmas com várias músicas.
É válido destacar que, no áudio entregue para cada um, é gravado, com volume menor, as outras vozes do arranjo ou, quando for somente a melodia principal, o metrônomo está presente, a fim de que, mesmo estudando sua voz, o aluno compreenda o contexto coletivo musical que cerca o que ele está ouvindo e, em paralelo a isso, terá parâmetros musicais para desenvolver os aspectos de altura, harmonia e ritmo.
Para exemplificar tal proposição, coloco abaixo a voz do sax tenor no arranjo da música A vida do viajante, de Luiz Gonzaga e Hervé Cordovil64.
Partitura 4 - Voz do sax tenor com compassos em branco do arranjo da música A vida do