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2. Materialer og metoder

2.5 Metoder for måling av infiltrasjonshastighet

É apresentada aqui, brevemente, a tipologia feita por Honoré de Balzac sobre os jornalistas de Paris, em meados do século XIX. Ressalte-se, entretanto, que essa tipologia foi empregada para exemplificar a análise que este estudo propõe fazer, mas salientando que busca uma própria tipologia dos jornalistas identificados nos romances de Erico Verissimo.

Para tanto, será utilizado o texto de Balzac “Monografia da imprensa parisiense”, publicado juntamente com “Os salões literários e as palavras”, em uma única edição intitulada “Os jornalistas” (1999). Nessa obra, Balzac aponta as

características dos jornalistas de seu tempo, no qual a personagem-jornalista está em primeiro plano. Inclusive, em um de seus textos, Balzac (1999, p. 5) critica a atuação dos escritores no jornalismo, acompanhando o pensamento construído até aqui:

O mal que o jornalismo produz [...] é bem maior: ele mata, devora os verdadeiros talentos. Os jornais, com exceção de duas ou três páginas puramente literárias, onde só aparecem obras conscienciosas, são uma verdadeira sociedade de Jesus que seduz os melhores espíritos do país, que os faz gastar colunas frequentemente escritas de forma admirável as mais ricas esperanças da literatura [...].

Aliás, ressalta-se aqui o pensamento de Carlos Heitor Cony, que, no prefácio da obra, chama a atenção para o quadro apresentado por Balzac, que “pouco ou nada difere daquilo que hoje conhecemos como mídia” (BALZAC, 1999, p. 11). Feitas essas considerações, parte-se para a tipologia apresentada por Balzac, que, logo na abertura da “Monografia da imprensa parisiense”, já destaca que a França tem duas faces: uma militar, em tempos de guerra; e a outra das ideias, em tempos de paz. “A Pluma e a Espada, estas são as duas armas favoritas” (BALZAC, 1999, p. 17).

Nesse contexto, Balzac dividiu os profissionais da imprensa em dois grandes gêneros em sua obra: o publicista e o crítico. No entanto, ele chama a atenção para o fato de que “o principal caráter destes dois gêneros é não ter caráter” (BALZAC, 1999, p. 18), dando, assim, o tom crítico que o acompanha em todo o texto, que se estende para o público francês: “O público, na França, acha aborrecidas as pessoas com convicções, e acusa as pessoas com mobilidade de não terem caráter” (BALZAC, 1999, p. 19).

Sobre o primeiro gênero, publicista, Balzac escreve que o nome escolhido, que já foi atribuído a grandes escritores como Montesquieu e Rousseau, acabou se tornando compatível a todos os “escrevinhadores que fazem política” (BALZAC, 1999, p. 21). O publicista seria, então, um homem preocupado com os compassos flutuantes daquela época. São muitas as frases de efeito e as metáforas utilizadas pelo autor para definir esse gênero: “O publicismo era um grande espelho concêntrico: os publicistas de hoje o quebraram e têm todos um pedaço que eles fazem brilhar aos olhos da multidão” (BALZAC, 1999, p. 21).

Balzac divide esse primeiro gênero em sete subgêneros: o Jornalista, o Homem de Estado, o Panfletário, o Publicista de Carteira, o Escritor Monobíblia, o Tradutor e o Autor com Convicções. Cada subgênero apresenta variedades. O

primeiro deles, o Jornalista, é dividido em cinco variedades: o Diretor-redator-em- chefe-proprietário-gerente, o Tenor, o Fabricante de artigos de fundo, o Mestre- Jacques e os Camarilhistas. Para algumas variedades, Balzac apresenta um axioma, ou seja, ele dá uma proposição ao título que é evidente por si mesmo.

Serão apresentadas aqui as variedades do Jornalista, pois, é o que interessa a este estudo. Na primeira variedade, o Diretor-redator-em-chefe-proprietário- gerente, ele inicialmente aponta que esse tipo de profissional é um publicista justamente por aquilo que ele não escreve:

[...] este indivíduo, que oferece sempre uma das quatro faces de seu título quádruplo, tem algo do proprietário, do dono de mercearia, do especulador, e, como ele não é conveniente para nada, acaba sendo conveniente para tudo (BALZAC, 1999, p. 22).

Ele seria uma espécie de filtro do jornal: escolhe os artigos que passam à vontade e os que ficam resfriando no mármore da tipografia. “Pode empurrar um livro, um caso, um homem, e pode às vezes arruinar o homem, o caso, o livro, segundo as circunstâncias” (BALZAC, 1999, p. 22). Outra característica fundamental dessa variedade é que, “de tanto conversar com os redatores, agita as suas idéias, tem o ar de quem tem grandes visões e se coloca como um verdadeiro personagem” (BALZAC, 1999, p. 23). Já no axioma dessa variedade, o autor é ainda mais explícito: “Só houve (ele morreu) um diretor de jornal, na verdadeira acepção desta palavra. Este homem era sábio, tinha uma personalidade forte, tinha genialidade; assim jamais escrevia coisa alguma” (BALZAC, 1999, p. 23). Ele apresenta outros três tipos dessa variedade: o ambicioso, o homem de negócios e o puro-sangue, descrevendo cada um deles: o ambicioso empreende um jornal para defender um sistema político ou para se tornar um político, fazendo-se temer; o homem de negócios vê em um jornal a possibilidade de ganhar dinheiro; e o puro-sangue tem a gerência na sua vocação, compreendendo essa dominação, sentindo prazer em explorar as inteligências, sem abandonar os lucros do jornal.

Já a segunda variedade do Jornalista é o Tenor. Ele é chamado assim porque “ele é ou se acredita o dó de peito que faz a assinatura, como o tenor que traz a receita para o teatro. Nesta função, é difícil que um homem não deforme sua genialidade e se torne medíocre” (BALZAC, 1999, p. 26). Nesse sentido, haveria dois moldes para o Tenor, que ele também chama de Premiers-Paris: o molde da

oposição e o molde ministerial. O primeiro seria uma constante negação, enquanto o outro seria uma constante afirmação, colocando, assim, “à parte a cor que faz a nuança da prosa de cada partido, pois há terceiros partidos em cada partido” (BALZAC, 1999, p. 26). Balzac ainda salienta que o Tenor tem duas opções: sair dessa função e se tornar um homem superior ou nela ficar e tornar-se medíocre. No entanto, ele aponta:

Mas há todas as razões para se acreditar que os redatores dos Premiers-

Paris são medíocres de nascença, e se tornam ainda mais medíocres

através deste trabalho fastidioso, estéril, no qual se ocupam bem menos em exprimir seus pensamentos do que em formular aqueles da maioria dos seus assinantes (BALZAC, 1999, p. 27).

Além disso, o Premier-Paris só existe devido à divinização do pensamento do seu assinante, que se satisfaz com o que o jornalista escreve. Ou seja, o Tenor escreve aquilo que o assinante quer ler, e, assim, o assinante se satisfaz com isso. “O assinante recompensa este jogo de Viva o amor, a carta cumpriu sua missão! com doze ou quinze francos a cada três meses” (BALZAC, 1999, p. 27). Nesse sentido, não se ousa dizer as coisas como elas são, mas sim como o assinante gostaria que fossem. Balzac defende que a imprensa não é tão livre quanto o público pensa e critica a expressão liberdade da imprensa. “Para sua vergonha, a Imprensa só é livre face aos fracos e às pessoas isoladas” (BALZAC, 1999, p. 28). Além disso, ele também faz uma crítica ao Tenor, que se julga imprescindível para a sociedade:

O Premier-Paris também tem um comportamento orgulhoso; ele acredita estar falando à Europa e acredita que a Europa o escuta. Quando morre um destes tenores, ninguém sabe o nome do ilustre escritor que todos os jornais choram (BALZAC, 1999, p. 29).

Balzac (1999, p. 37) segue criticando o Tenor, que se acha necessário ao público, além de citar brigas entre os Tenores nos jornais da época e ironizar a importância que os próprios Tenores se dão: “Se os jornais não existissem, qual seria a profissão dos tenores políticos? A resposta é a mais cruel sátira da existência atual deles”.

A terceira variedade dos jornalistas de Balzac é o Fabricante de artigos de fundo. Esse jornalista tem uma opinião que diz respeito ao fundo comum da política do jornal, “pois deve sempre se ligar à opinião dos jornais através de algumas

frases” (BALZAC, 1999, p. 38). Dessa maneira, por aparentar expor livremente suas

opiniões, ele passa a ter um valor real maior do que o Tenor. Balzac (1999, p. 39) resume bem esse tipo de jornalista no seguinte trecho:

Nos jornais ministeriais, estes redatores tem um futuro: tornam-se cônsules- gerais nas paragens mais distantes, são pegos como secretários particulares pelos ministros, ou fazem educações; enquanto que aqueles da Oposição ou dos jornais antidinásticos só têm como asilo as academias de ciências morais e políticas, as inscrições e as belas letras, algumas bibliotecas, até mesmo os Arquivos, ou o triunfo excessivamente problemático de seu partido.

Já a quarta variedade é o Mestre-Jacques do jornal, que em português teria o mesmo sentido de um João-Ninguém. Para Balzac, esse é o jornalista que faz os pequenos artigos a que o autor chama de notícias breves, Faits-Paris (casos de Paris) ou, simplesmente, reclames. O Mestre-Jacques é extremamente importante devido a sua funcionalidade, que, no entanto, é banalizada e ironizada por Balzac (1999, p. 41):

A Notícia Breve se comete, como os grandes crimes, no meio da noite. O gerente, o tenor, o Mestre-Jacques, algumas vezes um agregado (olhe sempre mais embaixo), algumas vezes a faxineira, acrescentam os gracejos, reúnem suas inteligências para escrever esta Notícia Breve, que raramente ultrapassa dez linhas, e que frequentemente só tem duas.

No axioma do termo, Balzac ainda afirma que as notícias breves são as mesmas em todos os jornais. Segundo o autor, o Mestre-Jacques escolhe as notícias breves conforme suas amizades ou suas raivas, levando-as até o gerente e inspirando-lhe suscetibilidades, ou simplesmente ele as publica sem dizer palavra, tornando-se, assim, uma espécie de censor do jornal. O futuro dessa variedade de jornalista também já está traçado:

Este gato do lar vê certo, não tem paixão política: o jornal muda de mestre ou de opinião, ele não muda de lugar! Depois de dez anos de prática, é quase sempre um homem distinto, de bom senso, que conhece os homens, e que levou a vida mais agradável. Depois de ter protegido os livreiros e os teatros, depois de ter descoberto o jogo de todas as inaugurações, mesmo aquela de uma dinastia, ele criou para si uma biblioteca e uma filosofia. Com freqüência superior aos intrigantes, meditou seriamente a respeito do avesso das coisas públicas. Acabou se tornando prefeito, juiz de paz, comissário real, ou secretário particular do Tenor, quando o Tenor se tornou ministro (BALZAC, 1999, p. 44-5).

A última variedade dos jornalistas são os Camarilhistas25. Esse é o jornalista que

cobre as Câmaras e que lhes dá a cor do jornal. A função desse jornalista, na época, era colocar, por inteiro, os discursos dos deputados que estão ligados ao jornal, corrigindo os erros gramaticais, realçando-os por meio de sensação e emoção. Além disso, o Camarilhista também tem como função analisar em algumas linhas os discursos dos adversários políticos, repassando-os de maneira incompleta. Balzac (1999, p. 47) compara a cobertura política desse jornalista a uma sinfonia:

Assistir a uma sessão, é ter ouvido uma sinfonia. Ler as sessões em todos os jornais, é ouvir separadamente a parte de cada instrumento; você pode reunir os jornais, você nunca terá o conjunto: o regente, a paixão, a confusão do combate, as atitudes, falta tudo aí, e a imaginação nela não se substitui. O jornal que desejasse ser verdadeiro neste ponto teria um imenso sucesso.

Além disso, os Camarilhistas de todos os jornais se conhecem, até porque eles se encontram sempre na Câmara, em uma tribuna. Conforme Balzac, geralmente são jovens e se adaptam rapidamente ao jogo da política. “Os Camarilhistas conhecem o pessoal da política, conhecem pequenas anedotas bonitinhas que são raramente publicadas e que merecem a publicidade; pois elas pintam muito bem os atores do drama político” (BALZAC, 1999, p. 48).

Outro subgênero que merece ser abordado aqui é o Jornalista - Homem de Estado, que apresenta quatro variedades: o Homem Político, o Agregado, o Agregado Desligado e o Político de Brochuras. Sobre a primeira variedade, o Homem Político, Balzac (1999) explica que todo jornal tem esse tipo de jornalista, que atua como uma espécie de profeta.

O jornal é o jornal, o homem político é seu profeta. Ora, você sabe que os profetas são profetas muito mais por aquilo que eles não dizem do que por aquilo que eles disseram. Não há nada de mais infalível do que um profeta mudo (BALZAC, 1999, p. 51).

Nesse sentido, o Homem Político do jornal “permanece no seu santuário, jamais é visto nos escritórios” (BALZAC, 1999, p. 52). Com isso, todos os demais integrantes do jornal, do redator até o proprietário, vão até ele, que se encontra na

25 Deriva do termo camarilha: cortesãos que, convivendo com o monarca, influem maleficamente nos negócios públicos; grupo de pessoas que lisonjeiam o chefe de Estado ou os administradores e influem em suas decisões (FERNANDES; LUFT et GUIMARÃES, 1992).

Câmara. “Algumas vezes, o Homem Político desce ao Premier-Paris, ou se manifesta através de uma Notícia Breve” (BALZAC, 1999, p. 52). Além disso, o Homem Político usa o jornal para se promover dentro do cenário da política.

A segunda variedade desse subgênero é o Agregado. “Essas pessoas, com freqüência, não são nada no jornal, são algumas vezes o conselho do jornal, são, com freqüência, o homem de ação do jornal” (BALZAC, 1999, p. 54). O Agregado geralmente se torna conhecido pela energia e por seus princípios, passando por homem de bom caráter, sólido e com o qual se pode contar.

A terceira variedade é o Agregado Desligado. Pode-se resumir essa variedade no seguinte trecho da obra de Balzac (1999, p. 47):

[...] ele tece seu nó entre os jornais e os artigos, serve os ministros, trai e se acha fino; reveste com freqüência, de puritanismo, tem algum talento, tem freqüência na Universidade; é ao mesmo tempo redator político e redator literário.

Outra característica do Agregado Desligado é que ele presta os seus serviços a um preço baixo; entretanto, janta em todas as mesas, encarrega-se de atacar algum político qualquer em algum jornal, e de louvar outro em outro jornal. Enfim, “estes larápios da Imprensa são freqüentemente abandonados por aqueles a quem serviram; mas eles são sempre esperados!” (BALZAC, 1999, p. 56).

A última variedade desse subgênero é o Político de Brochuras. Esse político se manifesta por meio de brochuras, que o próprio Balzac ressalta que já não eram mais lidas na época em que a obra foi escrita. “As brochuras não são mais lidas, mas no passado fizeram alguns homens políticos” (BALZAC, 1999, p. 56).

Completam a lista de subgêneros do Publicista: o Panfletário (sem variedades), que representa a oposição e pode ser radical ou monárquico; o Nadólogo ou Vulgarizador (sem variedades), que é aquele que “coloca no jornal uma idéia de idéia em uma cesta de lugares comuns e derrama mecanicamente esta horrosa mistura filosófico-literária em folhas contínuas” (BALZAC, 1999, p. 62); o Publicista de Carteira (sem variedades), que mistura um pouco do Homem Político e do Nadólogo e que, por isso, é um tipo transitório; o Escritor Monobíblia (sem variedades), que é o homem de inteligência que a burguesia procura, pois ela o quer de forma barata; o Tradutor (subgênero desaparecido); o Autor com Convicções, que tem três variedades: o Profeta, o Incrédulo e o Sectário. Este trabalho não se aprofundará

nesses últimos subgêneros e variedades por considerar os dois primeiros subgêneros descritos no início deste subcapítulo como os mais importantes para a pesquisa, por apresentarem, realmente, tipos de jornalistas, no sentido em que é entendida a concepção do profissional jornalista, já descrito anteriormente, ou seja, o jornalista profissional remunerado, que trabalha na imprensa.

Já o segundo gênero, o crítico, é dividido em cinco subgêneros. Antes de serem citados esses subgêneros, ressalte-se que, entre as características gerais apontadas por Balzac, para esse gênero, está a impotência. “Não podendo criar nada, o crítico se faz o mudo do bordel, e, entre estes mudos, é possível encontrar aqui e ali um Narsès e um Bagoas” (BALZAC, 1999, p. 75). Não serão aprofundados aqui todos os subgêneros. No entanto, recorre-se ao resumo desse gênero feito pelo autor:

Os críticos de todo tipo fazem questão sobretudo de passar por bons filhos, eles fazem o mal, não por especulação, mas porque o público gosta que lhe sirvam todas as manhãs três ou quatro autores no espaço como perdizes e cobertos de ridículo. O que o crítico acha eminentemente engraçado e de bom gosto é apertar-lhe a mão, parecer seu amigo, ao mesmo tempo em que enfia-lhe as agulhas envenenadas de seus artigos. Se ele faz um elogio a você em um jornal de Paris, ele poderá muito bem assassiná-lo em um outro jornal de Londres (BALZAC, 1999, p. 78).

E assim Balzac aborda os cinco subgêneros do crítico. O primeiro é o Crítico da Nobreza Antiga, que tem duas variedades: o Universitário e o Mundano. O segundo subgênero é o Jovem Crítico Louro, que apresenta três variedades: o Negador, o Farsante e o Incensador. O terceiro subgênero é o Grande Crítico, que tem duas variedades: o Executor de Grandes Obras e o Eufuísta. Já o quarto subgênero é o Folhetinista, que não tem variedade, mas que é descrito como mimado e acariciado, por Balzac (1999, p. 97): “[...] enfim as peças manufaturadas hoje, como meias ou panos de prato, gozam de uma análise completa e periódica”. Por fim, o último subgênero são os Pequenos Jornalistas, que contam com cinco variedades: o Bravo, o Embusteiro, o Pescador, o Anônimo e o Guerrilheiro.

4 A INFLUÊNCIA DO JORNALISMO NA CRIAÇÃO LITERÁRIA DE ERICO VERISSIMO

Antes de se chegar à já mencionada mudança de Erico Verissimo para Porto Alegre, em 1930, apresentar-se-á brevemente como teve início essa relação do escritor com o jornalismo ainda na sua infância, em Cruz Alta. O pesquisador confia que a participação de Verissimo no jornalismo, atuando como redator, tradutor, diretor, ilustrador, paginador, escritor e editor, influenciou fortemente sua criação literária; foi fundamental para que em toda a sua obra se tornasse significativo o número de personagens-jornalistas presentes nos livros de ficção. Porém, antes de ser abordada essa tribo jornalística, apresentando a tipologia dessas personagens, far-se-á um breve resgate histórico da biografia de Erico Verissimo, destacando a aproximação que ele teve com o jornalismo e a sua atuação dentro dele. Aliás, essa influência da atuação profissional e da vida pessoal do escritor sobre a criação literária foi destacada pelo próprio Erico, em entrevista concedida ao jornal Opinião (apud BORDINI, 1999, p. 166-7):

É preciso saber que as condições econômicas de minha vida pessoal, particular, influenciaram muito os romances que escrevi entre 1933 e 1940. Observe-se como meus personagens dos livros dessa época preocupavam- se com as contas a pagar no fim do mês. Eu trabalhava longa e duramente durante mais de 12 horas por dia. Traduzia livros de várias línguas para o português (mais de 40), inventava histórias para programa de rádio para a infância, armava páginas femininas para o Correio do Povo, tudo isso enquanto trabalhava na revista e na editora do Globo. Isso explica a pressa com que escrevi meus próprios romances naquela década de 30. Considero essa fase de minha carreira um período de exercícios em que me preparei, consciente ou inconscientemente, para a obra com que comecei a sonhar depois de 1935 e que acabou sendo publicada a partir de 1949 sob o título geral de “O tempo e o vento”. Depois de “Olhai os lírios do campo”, romance cheio de defeitos, mas com grande carga emocional, comecei a ganhar

royalties que melhoraram minha situação econômica. Pude trabalhar mais

devagar e tive mais tempo para ler [...] e para me ver e julgar.

Essa ressalva de Verissimo antecipa como foi forte a influência da sua participação no jornalismo na composição de suas obras. Já Hohlfeldt e Strelow, em estudo apresentado no XXVII Congresso da Intercom, na PUCRS, em 2004, dividiram a participação de Erico nos meios de comunicação em três fases:

a) o jornalista - melhor dizer, o colaborador de jornais - incluindo aí sua pequena experiência de radialista, além do b) editor de revistas e o editor de livros e c) o escritor-jornalista, cabendo nessa parte final uma contribuição mais pessoal do autor desse estudo, pela interpretação que ela acarreta, quer em relação aos livros de viagem por ele produzidos, quer em relação ao conjunto de toda a sua ficção e, nesta, a seleção de uma personagem, representante da categoria dos jornalistas, segundo a perspectiva adotada pelo escritor (HOHLFELDT; STRELOW, 2004, p. 1).

Após essas breves considerações, o estudo apresentará como o jornalismo influenciou e marcou a vida e a carreira de Erico Verissimo, começando pelos primeiros contatos do escritor com jornais e revistas, ainda na infância vivida no interior do Rio Grande do Sul.

4.1 A LEITURA DE JORNAIS E REVISTAS NA INFÂNCIA EM CRUZ ALTA

Nascido no dia 17 de dezembro de 1905, no município de Cruz Alta, no interior do Rio Grande do Sul, Erico Verissimo teve, desde a infância, contato com o