3. Anisotropi
3.3 Metoder for å bestemme anisotropi i leire
Observando o trabalho dos homens-sanduíche, proponho aqui um novo tipo de corpo imposto pela sociedade das imagens: o corpo-anúncio. Posto que o homem-sanduíche é uma mídia eminentemente visual, sua visibilidade repousa em sua capacidade particular de mediação, que controla sua percepção e atrai a atenção do observador. Não há imagem visível que nos atinja de forma não mediada. As mídias visuais, portanto, competem com as imagens que transmitem. Elas tendem a se dissimular e, quanto menos prestamos atenção a uma mídia visual, tanto mais nos concentramos nas imagens, como se elas surgissem por conta própria. Partindo do pressuposto de que o corpo do homem-sanduíche, assim como sua placa, atua como uma mídia, esse corpo tende à dissimulação para o nascimento de uma imagem, dando origem ao corpo-anúncio.
No homem-sanduíche, imagem e mídia estão diretamente ligadas ao corpo. Mas o corpo é mais do que um receptor passivo da mídia visual que o moldou. Sua atividade (por exemplo, caminhar por uma determinada região, como a Praça da República, em São Paulo) é necessária para a existência da mídia visual. Um cartaz afixado em um lugar não tem a mesma abrangência ou o mesmo impacto do homem-sanduíche. A mídia homem-sanduíche não existe sem o corpo. São corpos que performatizam imagens, ou seja, transformam-se em anúncios itinerantes. Com a ajuda de máscaras, tatuagens, roupas, performance, dispositivos eletrônicos, os corpos produzem imagens de si próprio. Nesse caso, “eles agem como uma mídia no sentido mais pleno e original. Seu monopólio original na mediação de imagens permite-nos falar de corpos como o arquétipo de todas as mídias visuais” (Belting, 2006: s/p). O corpo se transforma numa espécie de outdoor ambulante, móvel, e o que é o homem-sanduíche, senão uma mídia, no sentido mais pleno e original? Vivemos um fenômeno que só recentemente começou a revelar seus imensos efeitos: a silenciosa transformação do
corpo numa imagem do corpo (Kamper, 2000: s/p). E, quando transformado em imagem, revela sua natureza paradoxal, por ser a presença de uma ausência e a ausência de uma presença. A imagem pode ser traduzida como a “ausência do corpo” ou “renúncia ao corpo”, “o oposto das aparições fantasmagóricas de corpos sem sombra, trata-se aqui de sombras sem corpos” (Baitello, 2005: s/p). A transformação de corpos em imagens de corpos ocorreu numa seqüência de passos da abstração:
Abstração significa aqui “subtrair o olhar a” (Absehen von). O poder do olhar manifesta-se naquilo que não é visto, que é deixado à margem como vítima da primeira distinção de uma visão focalizadora. Os corpos que nos circundam foram inicialmente distanciados e estilizados em retratos, estátuas e corpos ideais (Bildkörpern); depois fotografados em superfícies e transformados em imagens corporais (Körperbildern); e finalmente projetados sobre suportes de imagens de diversos materiais, da tela de linho à TV, sendo aqui irresistível a tendência à imaterialidade. Do circundante (Umgebung), passando pelo em frente (Gegenüber), até o objeto (Gegestand) e até o fantasma (Gespenst), do circunjeto (Circumjekt) passando pelo objeto ao projeto a ao projétil, parece não haver parada. Contudo, o fantasma-projétil comporta-se no fim como um zumbi (Wiedergänger) (Kamper, 2004: 83).
Quando o homem-sanduíche põe o cartaz sobre os ombros, seu corpo, de carne e osso, torna-se ausente, transforma-se em porta-imagem. Sua tendência à imaterialidade é simplesmente irresistível. Comporta-se como um fantasma, um zumbi, gerando o fenômeno das realidades bidimensionais: o corpo tridimensional é reduzido à bidimensionalidade. “Por trás de uma imagem sintética, já não há sequer uma imagem concreta e muito menos um corpo de matéria tridimensional” (Baitello, 2005: 88). Surge um anúncio, uma peça publicitária, bidimensional, sem profundidade, ocultando um corpo e, conseqüentemente, sua história.
A fusão entre corpo e cartaz cria uma peça publicitária; não é mais o corpo que ali está, mas uma imagem, um anúncio que, ao mesmo tempo em que revela uma mensagem, anula o corpo. “De fato, a transformação de um objeto em imagem implica a negação de dimensões materiais como o relevo, o peso, o cheiro, mas também o tempo e o sentido. Reduzem-se a duas as três dimensões do universo” (Sodré, 2005: 23).
A imagem é, portanto, igualmente meio de esclarecimento e obscurecimento, ela tanto mostra quanto esconde, tanto expõe quanto oculta. E, quanto mais se aperfeiçoam os recursos, as técnicas e as possibilidades que o homem tem de se comunicar com o mundo, com os outros homens e consigo mesmo, aumentam, também, em idêntica proporção, suas incapacidades, suas lacunas, seus entraves ao mesmo processo, ampliando um território tão antigo que é o território da incomunicação11. Assim como o silêncio traz consigo uma
ambivalência, a comunicação:
(...) tal como aparece definida nos dicionários, denota transmitir uma mensagem e eventualmente receber outra mensagem como resposta, mas, por outro, implanta um domínio de ocultação, uma realidade de incomunicabilidade da qual, queiramos ou não, depende qualquer processo comunicativo (Cañizal, 2005: 20).
O corpo-anúncio também surge em outras ocasiões e momentos, mas difere dos homens-sanduíche pela motivação. Enquanto este carrega sua placa por necessidade de sobrevivência, um homem que veste uma camiseta estampando uma marca, por exemplo, é também um corpo-anúncio, mas a exibe pelo status que lhe confere a marca. Outro exemplo
11 A esse respeito, vale destacar o pioneirismo do Centro Interdisciplinar de Semiótica da Cultura e da Mídia (CISC), responsável pelo ciclo de Semiótica e Cinema intitulado Os Meios da Incomunicação, um conjunto de palestras e posterior exibição de filmes e debate com o público. O evento ocorreu de 6 a 11 de novembro de 2001, na sede do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), em São Paulo. Com a curadoria de Norval Baitello Junior, o ciclo discutiu as muitas faces da incomunicação e os espaços em que se insere. Em 2005, Baitello, Malena Segura Contrera e José Eugênio de O. Moraes organizaram o livro Os meios da incomunicação, publicado pelo CISC. Com o mesmo tema, em outubro de 2006, o CISC organizou o 3º Encontro Internacional de Comunicação, Cultura e Mídia, em que apresentei o trabalho “A obscuridade de uma mídia: a (in)comunicação nas entranhas da atividade performática dos homens-placa em São Paulo”.
são os atletas que emprestam seu corpo para a divulgação das mais diversas marcas. Basta ver os uniformes dos pilotos de Fórmula 1, onde um sem número de logotipos disputa cada centímetro quadrado de tecido.
O uso do corpo para expressar idéias é algo que não pode ser controlado nem pelo interesse público, nem pelo privado. Uma camiseta, por exemplo, pode ostentar tanto o logo de uma marca famosa quanto uma mensagem qualquer. E a indústria não deixou de perceber esse potencial de marketing:
Os homens de marketing e os da propaganda descobriram que a camiseta tem a vantagem de veicular intensamente um conceito publicitário, sendo ao mesmo tempo um brinde, uma mercadoria desejada. Se os “homens-sanduíche” (...) cobravam para exibir a mensagem, os jovens de camiseta, ao contrário, eram capazes de pagar para vestir um anúncio de refrigerante (Joffily apud Guimarães, 2005: 86).
Quem define magistralmente o corpo-anúncio é o poeta Carlos Drummond de Andrade (1985: 26-27):
EU, ETIQUETA
Em minha calça está grudado um nome Que não é meu de batismo ou de cartório Um nome... estranho.
Meu blusão traz lembrete de bebida Que jamais pus na boca, nesta vida, Em minha camiseta, a marca de cigarro Que não fumo, até hoje não fumei. Minhas meias falam de produtos Que nunca experimentei
Mas são comunicados a meus pés. Meu tênis é proclama colorido De alguma coisa não provada Por este provador de longa idade. Meu lenço, meu relógio, meu chaveiro, Minha gravata e cinto e escova e pente, Meu copo, minha xícara,
Minha toalha de banho e sabonete, Meu isso, meu aquilo.
Desde a cabeça ao bico dos sapatos, São mensagens,
Letras falantes, Gritos visuais,
Ordens de uso, abuso, reincidências. Costume, hábito, permanência, Indispensabilidade,
E fazem de mim homem-anúncio itinerante, Escravo da matéria anunciada.
Estou, estou na moda.
É duro andar na moda, ainda que a moda Seja negar minha identidade,
Todas as marcas registradas, Todos os logotipos do mercado. Com que inocência demito-me de ser Eu que antes era e me sabia
Tão diverso de outros, tão mim mesmo, Ser pensante sentinte e solitário
Com outros seres diversos e conscientes De sua humana, invencível condição. Agora sou anúncio
Ora vulgar, ora bizarro.
Em língua nacional ou em qualquer língua (Qualquer principalmente).
E nisto me comparo, tiro glória De minha anulação.
Não sou - vê lá - anúncio contratado. Eu é que mimosamente pago Para anunciar, para vender
Em bares festas praias pérgulas piscinas, E bem à vista exibo esta etiqueta Global no corpo que desiste
De ser veste e sandália de uma essência Tão viva, independente,
Que moda ou suborno algum a compromete. Onde terei jogado fora
Meu gosto e capacidade de escolher, Minhas idiossincrasias tão pessoais, Tão minhas que no rosto se espelhavam E cada gesto, cada olhar
Cada vinco da roupa
Sou gravado de forma universal, Saio da estamparia, não de casa, Da vitrine me tiram, recolocam, Objeto pulsante mas objeto
Que se oferece como signo dos outros Objetos estáticos, tarifados. (...)”
Conforme descreve Drummond, “agora sou anúncio”, portanto, sou uma imagem. E, na era das imagens, a compulsão pela reprodutibilidade conduz a uma profusão de superfícies e a uma crescente perda das profundidades, marcas inconfundíveis e indeléveis no corpo. É justamente nesse contexto que sucumbem os corpos, na perda da dimensão de profundidade:
E porque sucumbem os corpos, transformam-se as pessoas em imagens das imagens, superfícies das superfícies. Corpos de imagens e imagens de corpos já não se distinguem sob o imperativo compulsório da reprodutibilidade, abrindo caminho para uma outra ordem social. A nova sociedade não vive mais de pessoas, feitas de corpos e vínculos, ela se sustenta sobre os pilares de uma infinita serial imagery, uma seqüência de imagens, sempre idênticas (Baitello, 2005: 50-51).