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4. DISKUSJON

4.1. Metodediskusjon:

O caminho escolhido para a análise das experiências de término e transição de carreira dos bicampeões foi a Narrativa Biográfica, cuja apreensão se deu mediante a utilização de estratégias e conceitos oriundos dos estudos da memória social e da história oral. Ao longo do século XX a história oral foi se consolidando como importante via de acesso ao conhecimento de processos históricos e psicossociais (QUEIROZ, 1998) e nos últimos anos tem sido amplamente utlizada pelas ciências humanas e estudos do esporte (RUBIO, 2001;

2004a; 2004b; 2008; 2010; 2014; RUBIO & FERREIRA JUNIOR, 2012) com os mesmos intuitos.

Concebida como método qualitativo por excelência, permite com que as qualidades e também limitações do ato de narrar memórias agreguem uma dimensão humana à busca pela compreensão dos fenômenos sociais, trazendo o indivíduo/narrador para o centro do processo interpretativo dos fatos e eventos que vivenciou e vivencia (RUBIO, 2001; 2004a; 2014; HOLANDA, 2009). Um conjunto de procedimentos éticos faz parte do trabalho de recolha e utilização dos depoimentos, a saber: o narrador precisa saber e estar de acordo com a realização da entrevista, enquanto que o entrevistador deve assumir o compromisso de retornar os bens da pesquisa ao primeiro. Meios digitais de registro audiovisual também fazem parte deste processo e seu domínio é indispensável à apreensão da narrativa, a qual deve passar por um processo de transcrição para análise posterior.

A história oral é um processo de construção narrativa em que o narrador seleciona uma série de eventos e experiências que lhe são afetivamente significativas e que dão a sua história contexto e significados. Constitui-se de uma relação de cooperação estabelecida entre ouvinte e narrador, através da qual o último, ao abrir as janelas de suas memórias, reflete sobre quem foi e quem é (QUEIROZ, 1989; RUBIO, 2001). O papel do pesquisador/entrevistador neste processo é, antes de tudo, dar ouvidos e possibilitar com que o narrador explore em profundidade suas recordações. O ato de retornar à experiências passadas implica não só na possibilidade de desvendamento de fatos pessoais ou históricos, mas na exploração das emoções e identificações que compuseram tais memórias. Isso confere à narrativa uma qualidade distinta, capaz de reforçar, complementar ou colocar em questão o que já está dado (HALBWACHS, 2006).

No caso da experiência de transição de carreira atlética, o grupo sobre o qual dirijo minha atenção é o dos pós-atletas, através dos quais posso acessar, retorspectivamente as experiências que determinaram o encerramento de suas carreiras atlética, bem como os elementos que utilizaram para lidar com a transição para a vida pós-atleta. Como são pessoas que a mais de 30 anos deixaram o papel de atleta, o processo de construção dessa narrativa é inevitavelmente sujeito aos desvios, descontinuidades, omissões, equívocos, silêncios e esquecimentos. Porém, diferentemente do que se poderia pensar como limitação metodológica, além de conferirem legitimidade à narrativa, essas “limitações” são elementos de identificação de conteúdos contidos em cada experiência (POLLAK, 1989; RUBIO, 2001; 2004; MEIHY & HOLANDA, 2007). A limitação metodológica propriamente dita estaria presente nas circunstâncias que não podem ser controladas, mas que interferem na entrevista,

bem como nas próprias limitações do olhar do pesquisador/entrevistador, que não estará isento das tentações reducionistas geradas pelas primeiras impressões e análises.

A História Oral se distingue enquanto método independente de concepções positivistas de verdade. Sua construção não é e nem pretende ser isenta das incertezas, das contradições e das ideologias (MEIHY & HOLANDA, 2007), tão pouco ser uma demonstração de sucessão cronológica de eventos – embora não exclua do seu repertório tais estruturas dialéticas. O ato de narrar a própria história também é um processo sensorial em que o autor pode recorrer a todos os recursos internos e externos disponíveis a sua rememoração, bem como sintonizar-se às imagens e emoções que acompanharam suas experiências e transitar entre o presente e a memória coletiva para construir uma memória individual (HALBWACHS, 2006). Neste processo a presença do pesquisador se faz crucial, visto que a memória significativa só pode florescer sob estímulos adequados.

Os inúmeros caminhos aos quais a história oral tem acesso encerram qualquer compromisso do método com uma realidade que não seja aquela criada pelo indivíduo. O terreno em que se edifica sua narrativa vai abranger, por exemplo, os campos da superrealidade (ideias, impressões, fantasia), da atemporalidade (do que não é afetado pelas ordens cronológicas) e do mito (do desejo de fazer da própria história uma experiência de caráter exemplar e cheia de significado) (RUBIO, 2001). Diante disso, cabe ao pesquisador, como parte estruturante desse arborescer de experiêcias, reunir o aporte teórico e experiência necessários para que consiga se aproximar o quanto possível do sentido e significados que se querem compreendidos, considerando não só o que é dito, mas o que é silenciado.

Os silêncios, segundo Pollak (1989), são fronteiras estabelecidas entre a memória e o esquecimento ou, em outras termos, vozes reprimidas, celadas pela angústia ou pelo temor da incompreensão, da punição e da fragmentação que a própria verbalização da experiência pode trazer aos significados de determinadas memórias. As razões dos silêncios são diversas e complexas. Envolvem situações de sofrimento e, por isso, são elementos muito difíceis de serem percebidos ou capturados; sem esquecer o fato de que as questões éticas se presentam para que a integridade do narrador não seja transgredida. Para vir a público, o silêncio precisa, antes de tudo, encontrar quem o ouça, bem como o ambiente e momento propícios que denunciam sua valorização.