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3.4.1.2.1 Construção dos conjuntos de propriedades observáveis

Em busca de um instrumento que nos servisse de base para a descrição das produções escritas que constituem o corpus do teste diagnóstico, optamos pelo modelo de observação de Bronckart (2007), ou melhor, de leitura como ele próprio denomina. Esse instrumento de análise que aqui foi utilizado se revelou pertinente e eficaz para que identificássemos alguns aspectos próprios da organização textual, visando atestar o domínio de certas técnicas de produção que os alunos já possuem sobre os gêneros socialmente valorizados que lhes foram solicitados, conforme relacionamos mais adiante.

Tomamos, para este fim, como referencial os índices de frequência dos elementos dos conjuntos de propriedades observáveis pertinentes a um mesmo tipo discursivo, o que nos permitiu estabelecer as médias de ocorrências e/ou ausências das unidades e estruturas que aparecem em cada tipo discursivo.

De acordo com Bronckart (2007), os três conjuntos de propriedades observáveis, são:

- observáveis de ordem semântica – leitura inicial que nos fornece os índices referentes ao contexto e ao modo como o autor se situa em relação ao contexto;

- observáveis de ordem léxico-sintática – permite-nos uma primeira apreensão dos subconjuntos de categorias e de regras gramaticais que parecem ser mais particularmente mobilizadas pelo texto;

- observáveis de ordem paralinguística – nos textos escritos, a leitura inicial nos permite identificar também as unidades semióticas não verbais (quadro, imagens, esquemas, etc.) que chamamos de unidades paratextuais. A leitura também nos permite observar as estruturas supratextuais de formatação da página (título, subtítulos, paragrafação) e de relevo (sublinhados, itálicos, negritos, etc.).

Para que os conjuntos de propriedades observáveis correspondessem claramente ao nosso objetivo, foi necessário que criássemos um quadro para que os relacionássemos a cada gênero de texto.

Quadro 2 – Conjuntos de propriedades observáveis CONJUNTOS DE PROPRIEDADES OBSERVÁVEIS GÊNEROS DE

TEXTO* SEMÂNTICA LÉXICO-SINTÁTICO PARALINGUÍSTICA

CONVITE

Contexto imediato: identificação do tema de acordo com o gênero de texto.

Predomínio dos tempos verbais no presente e no futuro.

Regularidades de organização: título, nome do convidado, data, horário e local destacados, nome do aniversariante.

RECEITA

Contexto imediato: identificação do tema de acordo com o gênero de texto.

Predomínio do tempo verbal no imperativo.

Regularidades de organização: separação bem delimitada (divisão em colunas: horizontal ou vertical) entre os ingredientes e o modo de fazer. Na primeira: Título, ingredientes.

Na segunda: Modo de fazer, utensílios necessários e porções.

Foto

NOTÍCIA

Contexto imediato: identificação do tema de acordo com o gênero de texto.

Título

Lide (respostas às seis questões básicas: quem, o quê, onde, quando, como e por quê).

Corpo (predomínio da narração, com a presença dos elementos essenciais: fatos, pessoas envolvidas, tempo em que ocorreu o fato, o lugar onde ocorreu, como e por que ocorreu.

Predomínio do tempo verbal no passado. Verbos e pronomes empregados na 3ª pess. Linguagem formal e direta.

Regularidades de organização: divisão em colunas.

Título, lide e corpo.

Corpo do texto divido em parágrafos.

CARTA

Contexto imediato: identificação do tema de acordo com o gênero de texto.

Predomínio dos tempos verbais no presente e/ou passado. Linguagem depende do grau de intimidade entre os interlocutores.

Regularidades de organização: local e data à esquerda da página. Saudação à esquerda, mensagem, despedida, assinatura. *Os gêneros de texto que serviram de demonstrativos para este quadro, são os mesmos que foram solicitados no teste diagnóstico.

Este instrumento nos permitiu determinar quais eram as categorias e estruturas que melhor caracterizam os gêneros solicitados. Assim como, mensurar as frequências das ocorrências, que contribuem para atestar as habilidades ou não de escrita dos alunos pertencentes aos grupos controle e experimental e sobre seu conhecimento acerca de qual gênero escolher a depender da situação de comunicação, de acordo com as tabelas (Apêndice D e E) que nos serviu ainda para analisarmos os níveis de letramento em escrita no qual cada aluno se inscreve.

Tabela 1 – Conjuntos de propriedades observáveis – notícia / GC

Aluno Identifica ção do tema Título Corpo do texto Predomínio do tempo no pret.perf. Verbos e pronomes na 3ª P. Lingua gem formal e direta Regularidades de organização/ composição Total/a luno Nível D.1 + + + + + + Ø 6 3 D.2 + + + + + + + 7 3 D.3 Ø Ø Ø Ø Ø Ø Ø 0 SN D.4 + + + Ø Ø + + 5 2 D.5 + Ø + Ø Ø + Ø 3 2 D.6* - - - 0 SN D.7 Ø + + + Ø + + 5 2 D.8 + + + + + + + 7 3 D.9 Ø + + + Ø + Ø 4 2 D.10* - - - 0 SN D.11 + + + + + + + 7 3 D.12* - - - 0 SN D.13* - - - 0 SN D.14* - - - 0 SN D.15* - - - 0 SN D.16* - - - 0 SN D.17 + + + + + + + 7 3 D.18* - - - 0 SN D.19* - - - 0 SN D.20 + + + + + Ø Ø 5 2 D.21 Ø + + + Ø Ø Ø 3 2 D.22* - - - 0 SN D.23 + Ø Ø + + Ø Ø 3 2 D.24 + + + + + + + 7 3 D.25 + + + + + + + 7 3 D.26* - - - 0 SN D.27* - - - 0 SN D.28 + + + + + + + 7 3 D.29 + + + + Ø Ø + 5 2 Tot. 13 14 15 14 10 12 10 % 45 45 45 45 45 45 45

3.4.1.2.2 Sobre a tabulação dos dados

Para a tabulação dos dados, utilizamos os recursos do programa Excel 2007 da Microsoft Office.

Os parâmetros adotados para o estabelecimento dos níveis de letramento em escrita, para que o programa formulasse os resultados, foram baseados nos níveis de letramento em leitura do INAF32 e definidos de acordo com o quadro abaixo.

Quadro 3 – Nível parâmetro por gênero de texto

GÊNERO NÍVEL PARÂMETRO

Convite SN* Ø 1 1 a 4 2 5 a 6 3 >6 Demais gêneros SN* Ø 1 1 a 2 2 3 a 5 3 >5

* Para designar a condição dos entrevistados que não responderam corretamente a nenhum ou a pouco (até dois itens do teste), o INAF optou pelo termo analfabetismo. Aqui, optamos por identificar sem nível (SN), os alunos que não acusaram habilidade em nenhum dos três níveis.

Para a aferição resumimos os resultados que constam nos quadros 4 e 5. Para tanto, primeiramente, tomamos como referência os níveis de letramento em escrita, segundo as orientações de Bronckart (2002), o qual indica as três categorias para o ensino de gênero de texto. Em seguida, relacionamo-las às informações iniciais sobre os conjuntos de propriedades observáveis já mencionados acima, para que pudéssemos atestar, com maior veracidade, o nível em que cada aluno se inscreve, de acordo com o gênero de texto escrito.

32 O INAF define três níveis de alfabetismo (1,2 e 3), descrevendo-os a partir das habilidades voltadas para a leitura.

Aqui, iremos definir estes níveis voltados para a habilidade na escrita, tomando como referência Bronckart (2007). O nível 1- corresponde à habilidade de escolher o gênero de acordo com a situação de comunicação solicitada; o nível 2 - corresponde à capacidade de gerenciar os tipos de discurso e a infra-estrutura global que entram na composição do texto, por exemplo, no gênero receita culinária: atentar para colocação dos ingredientes, ao modo de fazer, quantidade de porções; nível 3 - corresponde ao domínio dos dois primeiros níveis mais os elementos de coerência e coesão, por exemplo, no gênero receita culinária: utilizar o imperativo.

Quadro 4 –Nível de letramento em escrita do aluno por gênero de texto Grupo Controle

NÍVEL CONVITE RECEITA NOTÍCIA CARTA

SN 15 3 13 2

1 4 0 0 0

2 6 14 8 7

3 4 12 8 20

Quadro 5 –Nível de letramento em escrita do aluno por gênero de texto Grupo Experimental

NÍVEL CONVITE RECEITA NOTÍCIA CARTA

SN 9 2 3 0

1 1 0 0 0

2 0 5 4 7

3 0 3 3 3