A docência, para Gramsci, significa o ato de reapresentar, para os ouvintes, a sequência dos esforços, dos erros e das vitórias pelos quais os homens passaram para
65 Contido no artigo ―Homens ou Máquinas‖, do jornal socialista ―Avanti‖, de 24 de dezembro de 1916.
Disponível em: <http//gramscigramsci.blogspot.com200902homens-ou-maquinas.html>. Acesso em: 20 set. 2009.
alcançar o conhecimento atual. A docência é o que forma o estudioso; que lhe dá a elasticidade da dúvida metódica; que faz do amador um homem sério; que purifica a curiosidade (entendida no sentido vulgar) e a torna um estímulo sadio e fecundo do conhecimento. Torna-se um ato de libertação, reveste-se do fascínio de todas as coisas vitais, representa uma espécie de carta magna da concepção metodológico-didática de escola (NOSELLA, 2004, p. 52). Uma escola feita de docentes em ―cada componente deve dar sua contribuição como conferencista ou relator de determinados temas científicos, históricos ou filosóficos, mas especialmente didáticos e pedagógicos‖ (GRAMSCI, 2005, p. 167).
―Gramsci defende um método que parta das experiências concretas de todos, valorizando-as e estudando-as coletivamente, elevando o nível cultural de cada um e do conjunto‖ (NOSELLA, 2004, p. 116), uma escola como um ―círculo de cultura‖.
Essa escola, para Gramsci, deveria ser única, um contraponto à escola clássica burguesa. Essa última tinha a função de educar alguns intelectuais para as classes dominantes. Destinava-se, para os outros, a instruir e habilitar ao trabalho.
A dualidade dos fins dessa escola (re)produzia e (re)definia o sistema de classes: de um lado, prática, de outro, científica.
Sua oposição se firmava na concepção de escola para a formação de um novo tipo de intelectual, o intelectual orgânico, pela escola única. ―[...] a escola única, intelectual e manual, tem ainda esta vantagem: a de colocar o menino em contato, ao mesmo tempo, com a história humana e com a história das ‗coisas‘, sob o controle do professor‖ (GRAMSCI, 1982, p. 142). Trata-se de uma escola que poderia ―[...] confluir e solidificar o trabalho das academias e das universidades com as necessidades de cultura científica das massas nacionais-populares, reunindo a teoria e a prática, o trabalho intelectual e o trabalho industrial [...]‖ (p.155).
Essa escola, ainda, trazia exemplares contribuições dos círculos de cultura, a exemplo do que ocorria nas redações de revistas66, que, com função de instituições pós- escolares especializadas, produziam condições do progresso científico (NOSELLA, 2004).
66 Para as revistas, Gramsci (2010) reconhece que se podem estabelecer três tipos fundamentais: 1º pode ser
definido pela combinação dos elementos diretivos que se encontram de modo especializado. O 2º é de crítico- histórico-bibliográfico, pela combinação de elementos que caracterizavam os fascículos mais bem elaborados. O 3º, pela combinação de alguns elementos do segundo tipo com o tipo de semanário. Cada um desses tipos
O registro da prática tem especial destaque na obra de Gramsci, especialmente nas ―Cartas do Cárcere‖. Registrar, desenvolver e coordenar as experiências e as observações pedagógicas e didáticas são consideradas as atividades mais importantes a serem desenvolvidas pelo corpo docente. É mediante a reflexão oriunda dos processos vividos que se sustenta a capacidade formadora.
Com o papel de estabelecer a vinculação entre a escola e a vida dos educados, observa-se a centralidade ocupada pelo educador nesse modelo. Trata-se da capacidade que se fecunda pela interpretação e compreensão da trajetória docente, seguida de novos agires e pensares. ―Só deste trabalho contínuo pode nascer o tipo de escola e o tipo de professor que o ambiente requer: [...] deve ser aplicado o método das experiências mais minuciosas e da autocrítica mais desapaixonada e objetiva‖ (GRAMSCI, 2005, p. 167).
O método gramsciano é o historicista. Defendido, objeta o método enciclopédico estanque.
O historicismo é compreendido como a forma de vivificar e recriar a ciência. Este é o método entendido como exequível na formação de cientistas humanistas, cientistas que revivam o drama por outros homens vividos, diante do problema, da dúvida, da hipótese como possível solução, do erro como tentativa, da solução como história provisória. É um caminhar pelo passado, refeito para aprender a caminhar e a avançar um pouco mais.
A cultura, neste sentido, não é o saber enciclopédico em que as pessoas são como recipientes a serem preenchidos com dados empíricos, fatos brutos e desarticulados.
Esta não é cultura, é pedanteria, não é inteligência, é intelecto; e contra ela com razão se deve reagir. A cultura é algo bem diferente. É organização, disciplina do próprio eu interior, é tomada de posse de sua personalidade, é conquistar uma consciência superior, através da qual consegue-se compreender seu próprio valor histórico, sua própria função na vida, seus direitos e seus deveres. Mas tudo isto não acontece por evolução espontânea [...]. Esta consciência não se forma pela força brutal das necessidades físicas, e sim pela reflexão inteligente, primeiro de alguns e em seguida de toda uma classe [...]. É através da crítica à civilização capitalista que se formou ou estamos formando a consciência unitária do proletariado; e crítica quer dizer cultura e jamais evolução espontânea e naturalista (GRAMSCI, apud NOSELLA, 2004, p. 44).
deveria ser caracterizado por uma orientação intelectual muito unitária e não ontológica, ou seja, deveria ter uma redação homogênea e disciplinada, com orientação redacional organizada, de modo a produzir um trabalho intelectual homogêneo. Isso se daria num organismo unitário de cultura, que oferecesse aos diversos estratos do público os três tipos.
A integração do mundo do trabalho e o mundo da cultura, a ciência produtiva e a ciência humanista, a escola profissional e a escola desinteressada deveriam ter como ponto de partida o unitário, uma base sólida teórica para pensar coerentemente uma sociedade, escolas realmente unitárias e modernas, visto que um ponto de partida epistemológico não se organiza por modo integrado. Por conseguinte, não seria possível um distanciamento do bipolarismo ou da dicotomia. Um unitário ponto de partida gramsciano reside no trabalho industrial moderno, na fábrica. Essa intimidade concentra uma filigrana do embrião germinativo de todas as novas formas de humanismo e de cultura: a comissão interna, o conselho de fábrica, o sindicato, o partido, a economia geral, a história e o socialismo, a escola unitária (GRAMSCI, apud NOSELLA, 2004, p. 65).
O partido e o sindicato devem educar, porém devem antes ser educados. Não são instâncias organizativo-culturais de base, mas inseridos às formas organizativo-produtivas, como departamentos, comissões de fábricas, conselho de fábrica67, fontes promovedoras da formação do operário e da operária concretos.
O trabalhador se forma na fábrica; complementa a formação no sindicato e no partido. É preciso educar a partir da realidade viva do trabalhador e trabalhadora, para a gestão da fábrica, para o autogoverno.