2. METODE
2.1 V ALG AV METODE
Alguns autores adotam como parâmetros alguns elementos que caracterizam a gramaticalização, como por exemplo:
A- Manipulação conceitual: a gramaticalização implica alteração do significado da forma fonte;
B- Unidirecionalidade: a direção da mudança se dá das formas lexicais para as gramaticais ou das menos gramaticais para as mais gramaticais e não no sentido contrário;
C- Assimetria forma/significado: as formas fontes, isto é, os itens que deram origem à forma gramaticalizada não desaparecem necessariamente após o surgimento da nova forma. Isso leva a casos de polissemia com uma mesma forma passando a codificar dois ou mais significados.
D- Descategorização: as formas em processo de gramaticalização passam de uma categoria para a outra, deixando de ser modificadas pelos processos morfossintáticos da classe original;
E- Perda de autonomia: as formas acabam por perder sua autonomia morfossintática em consequência da fusão ou dependência de palavras vizinhas, causadas pelo enfraquecimento de tonicidade ou erosão fonética;
F- Erosão: vai-se dando a perda do material fonético, o que torna as formas reduzidas.
G- Recategorização: dá-se, então, a constituição de morfemas específicos, restaurando a simetria forma/significado.
Heine e Kuteva (apud MARTELOTTA 2011) propuseram quatro parâmetros de gramaticalização demonstrando a tendência à unidirecionalidade, quando vistos atuando juntos no fenômeno da mudança. São eles:
1- Extensão (ou generalização de contextos): caracteriza-se pelo desenvolvimento de usos em novos contextos. É um fenômeno que ocorre de forma gradual.
2- Dessemantização (ou bleaching, redução semântica): caracteriza-se pela perda de conteúdo semântico. Os elementos envolvidos no processo de gramaticalização perdem valor representacional, e, ao assumir a nova função gramatical, adquirem funções de natureza pragmático-discursiva.
3- Decategorização (ou mudança categorial): caracteriza-se pela perda de propriedades típicas das formas fontes, com aquisição de novas características morfossintáticas ou discursivas.
4- Erosão (ou redução fonética): caracteriza-se pela perda de substância fonética. O elemento tende a sofrer coalescência (fusão de formas adjacentes) e condensação (diminuição de formas).
Não se pode deixar de considerar também outro aspecto na gramaticalização: são as suas diferentes fases. Deve-se caracterizar o início, seu desenvolvimento e seu término. Heine & Reh (apud NEVES 2004) mostram que os três níveis da estrutura linguística afetados pela gramaticalização – o funcional, o morfossintático e o fonético – em geral se organizam na gramaticalização, nessa mesma ordem cronológica: os processos funcionais (como dessemantização, expansão e simplificação) precedem os morfossintáticos (como permutação, composição, cliticização e afixação), que precedem os fonéticos (como adaptação, fusão e perda). Além disso, as alterações em um nível são acompanhadas de alterações em outros níveis, assim os autores Heine & Reh (apud NEVES 2004) destacam que quanto mais gramaticalizada uma forma se torna:
A – mais perde a complexidade semântica, significação funcional ou valor expressivo;
B – mais perde em significação pragmática e ganha em significação sintática;
C – mais reduzido torna-se o número de membros que pertencem ao mesmo paradigma morfossintático;
D – mais sua variabilidade sintática decresce, isto é, sua posição dentro da cláusula se torna mais fixa;
E – mais obrigatório torna-se seu uso em certos contextos e mais agramatical em outros;
F – mais funde-se semântica, morfossintática e foneticamente com outras unidades;
G – mais perde em substância fonética.
Hopper (apud NEVES 2004) afirma que, se levarmos em conta o estudo de mais de uma língua, é possível chegarmos a regularidades emergentes que têm potencial para ser instâncias de gramaticalização:
1 – categorias como aspecto, número, tempo e caso, entre outras, ocorrem frequentemente, nas línguas, na morfologia afixal. Todavia podem ocorrer também sob formas livres, como, por exemplo, elementos adverbiais.
2 – certos tipos de itens lexicais evoluem, tipicamente, para clíticos gramaticalizados e para afixos. Alguns exemplos são os casos de verbos de cópula e de verbos de movimento que se tornam, eventualmente, afixos causais.
Vilar (2004) afirma que Hopper e Traugot, ao focalizarem a gramaticalização, reconhecem que a reanálise e a analogia é que são responsáveis pelo processo de mudança morfossintática. Entretanto a reanálise é considerada por eles como o mais importante mecanismo na gramaticalização, ficando a analogia num plano secundário. Ainda segundo Vilar (2004), eles também concebem a reanálise como sendo um processo por meio do qual os falantes mudam sua percepção de como os constituintes de sua língua são ordenados no eixo sintagmático, isto é, novas estruturas são geradas a partir de estruturas antigas e a abdução é a operação mental que permite isso. De acordo com Andersen (1973), (apud Hopper e Traugott, 1997, p.39-40), a abdução provém de um resultado observado, invoca uma lei e infere, então, o que poderia ser o caso. Assim, dada a situação que Sócrates morreu, podemos correlacionar esse fato com a lei geral de que todos os homens são mortais, e, portanto, Sócrates era um homem.
Mostra ainda a autora (2004) que Hopper e Traugott, analisando o exemplo de Andersen, observam que, nesse tipo de raciocínio, as premissas são sempre verdadeiras,
porém a conclusão a que se chega não precisa ser: uma das premissas pode competir para a conclusão errada de acordo com a lei. A afirmação “talvez Sócrates não seja um homem e, sim uma lagartixa”, é uma conclusão errada, porém é compatível com uma das duas premissas: a lagartixa também é mortal assim como o homem.
Por meio da abdução os limites entre determinados constituintes são apagados, estabelecendo-se outros limites, sem alterar a manifestação superficial da unidade com a qual está se operando, desencadeando um processo em que, futuramente, surgirá uma nova categoria gramatical. A seguir abordamos os mecanismos de gramaticalização.
1.4. MECANISMOS DE GRAMATICALIZAÇÃO
Para Martelotta (2011, 110-115), a gramaticalização apresenta alguns tipos de motivações, como a motivação comunicativa e a motivação associada ao contato linguístico. As motivações mais fortes não apenas para a gramaticalização, mas também para a mudança linguística de modo geral estão em fatores de natureza comunicativa, os quais, aliás, também se manifestam como motivadores da unidirecionalidade da mudança. São eles:
1- A necessidade de expressar domínios abstratos da cognição em termos de domínios concretos.
2- A negociação do sentido por falante e ouvinte no ato da comunicação. 3- A tendência dos ouvintes para selecionar estruturas ótimas.
4- A tendência dos falantes para usar expressões novas e extravagantes. 5- A iconicidade, a marcação e a frequência.
A motivação associada ao contato linguístico mostra que a gramaticalização de um termo pode ser acionada pelo contato com outra língua.
De acordo com Martelotta (1996, 53), não existe um consenso em relação aos mecanismos que veiculam o processo de gramaticalização. Ainda segundo o autor (1996), Heine et alii (1991), por exemplo, falam em transferência metafórica e Lehmann (1991) aponta a importância da analogia no processo, sobretudo, como influenciadora do modo como ele vai se alastrando na língua.