4. Sedimentundersøkelser Vansjø
5.2 Metode
A mídia de fronteira parte de uma ideia de integração que permeia diversos aspectos do cotidiano local: da história de ocupação e delimitação do território, da geografia e da paisagem natural, até as tradições, produção artística, e, evidentemente, o idioma. A língua se torna um ponto especial no caso das fronteiras, sobretudo das brasileiras, porque essas sempre serão confrontadas com o idioma espanhol. Expressões, gírias e sotaques estão mais próximos do outro lado da fronteira do que das metrópoles brasileiras mais influentes, localizadas em sua maioria no centro ou leste do país: “a mídia produzida nos espaços de fronteira acaba acionando a estratégia de naturalizar as línguas mais empregadas na região, marcas culturais do local” (MÜLLER et al, 2010, p. 8). Em função disso, é comum a identificação de termos que não constam entre os jargões jornalísticos dos grandes veículos.
Quanto às representações da fronteira, há variações de acordo com a perspectiva da qual se parte, o que evidencia, por exemplo, o papel de importância do
espaço geográfico e de suas escalas na construção dos discursos. De acordo com Zamin (2008), o discurso da fronteira se dá de duas maneiras: pela fala na fronteira, que surge no próprio local, dando conta, portanto, da dinamicidade das relações fronteiriças, justamente por vivenciar seu cotidiano; e pela fala sobre a fronteira, isto é, mais distante do limite e, portanto, tendendo a representá-lo, por vezes, de forma estereotipada, para corresponder a um critério de consonância entre leitores de diferentes regiões.
Ainda assim, quando se fala em fronteiras internacionais, elementos de integração e de distanciamento se cruzam a todo instante, o que torna sua representação variável entre distintos produtos midiáticos. Como explica Silveira (2007), a representação pela produção televisiva ficcional volta-se ao legado cultural regional, sendo esse, para as culturas regionais, uma forma de se projetar nacionalmente, a partir de seus símbolos, folclores e personagens. No entanto, “se esta perspectiva mítica costuma apresentar suas melhores cartas nas produções de ficção, no jornalismo impresso ela tem sido fonte de alimentação dos mais diversos estigmas sociais” (p. 4), o que evidencia, de início, uma caracterização que vai além do espaço, calcando-se nas diferentes linguagens que a representação midiática assume.
Além disso, ainda conforme a autora, há uma diferenciação clara da presença e do enquadramento das áreas de fronteira entre as mídias local e nacional. No segundo caso – fora, portanto, do espaço fronteiriço –, observa-se uma espécie de “condensação” dos valores que frequentemente se atribui ao termo “fronteira”. Não raro as notícias nacionais posicionam as fronteiras como “atreladas a um imaginário de situações recorrentes articuladas pela ausência de estado, caos e violência” (SILVEIRA, 2007, p. 1). No entanto, essa conotação negativa, reforçada pela imprensa “de fora”, estaria, de fato, presente no senso comum – a própria colonização portuguesa iniciou-se pela costa litorânea do Brasil, expandindo, por consequência, a condição periférica das fronteiras aos âmbitos social e cultural.
Como coloca Bento (2012), há diversos exemplos dessa conotação negativa na própria constituição dos termos, a exemplo dos movimentos e das atividades “sem fronteiras”: “Médicos sem fronteiras”, “Repórteres sem fronteiras”, “Ciência sem
É paradoxal que os que sonham com um mundo mais pacificado e livre adotem ideologias sem-fronteiristas, já que na função filtro está contida a função pacificadora das fronteiras, pela identificação e captura de sujeitos coletivos não comprometidos com a legalidade. A paz e justiça mundiais certamente não necessitam da abolição das fronteiras, mas de sua qualificação. (BENTO, 2012, p. 7)
Pensar as fronteiras em seu sentido objetivo de existência – espaço regido por regras de proteção a quem a cruza, a quem a habita, à economia e ao comércio, à criminalidade transnacional, dentre outros aspectos, obviamente conduz a uma visão da fronteira como zona estratégica, cujo desenvolvimento pode ser benéfico para o país como um todo. Acredita-se, portanto, que a mídia cumpra um determinado papel na condução a esta visão generalista, e que ela possivelmente se diferencie quanto à escala de abrangência do veículo jornalístico. Na grande mídia brasileira, parece comum que esses espaços periféricos apareçam de acordo com estereótipos amplamente compartilhados. "Terras sem lei", onde o crime e a insegurança imperam, são visões frequentemente atribuídas às fronteiras, tal como ocorre com bairros pobres em periferias urbanas.
No caso das populações fronteiriças do Brasil meridional, por um século enfrentando a estagnação econômica e já “acostumadas a dividir suas misérias”, como dizem ao aludir à flutuação cambial que ora favorece a Brasil, ora a Uruguai, Argentina ou Paraguai, demandam soluções de desenvolvimento regional que devem ser pensadas a partir do espaço local. O predomínio de uma agenda orientada pela ocorrência de acontecimentos negativos nas fronteiras internacionais do Brasil, agregada a um imaginário de preconceitos e estereótipos, opera contra a integração cultural e econômica do Mercosul e referenda os valores do nacionalismo exacerbado. (SILVEIRA, 2007, p. 12)
O jornalismo local nas fronteiras, portanto, teria um protagonismo midiático tão grande como sua missão: quebrar com os estigmas das áreas fronteiriças. Também a partir do local é que podem surgir novas representações do espaço, tendo em vista muito mais a integração entre os países do que a separação estatal entre eles. Se a fronteira, como linha divisória, se faz mais demarcada quanto mais distante se está dela, é de se supor que, ao representar a si mesma, a fronteira ganhe novos sentidos. Assim, o falar na fronteira traz consigo uma conotação de integração, enquanto que o
falar sobre a fronteira costuma recorrer a um imaginário fomentado historicamente pelos esforços políticos e econômicos insuficientes que o estado brasileiro confere aos seus limites.