• No results found

Os processos de uma investigação deverão ser sempre alvo de algum questionamento por parte do investigador. O conjunto de opções técnico-metodológicas deve surgir como parte integrante e central de uma investigação. Deste modo, é possível atribuir objetividade, validade e fiabilidade ao estudo empírico.

Neste ponto pretendemos refletir sobre as opções realizadas tendo sempre presente que as conclusões a que chegámos sobre os pressupostos definidos no início deste estudo são aplicáveis apenas a esta investigação, não devendo, por isso, ser generalizáveis a outros grupos, docentes ou contextos educativos ou sociais, podendo, contudo servir de ponto de partida ou de formulação de hipóteses para a realização de estudos semelhantes.

O estudo empírico realizado, como referimos anteriormente, faz-se acompanhar de um estudo de caso que tem como função criar um cenário que complementa a rede textual e teórica que sustenta e estrutura esta investigação, não podendo, por isso, ser considerado o centro do mesmo.

Temos, por isso, consciência que o número de entrevistas e observações realizadas não têm representatividade estatística mas ajudam-nos a fortificar o corpo deste estudo empírico e, citando Ghiglione e Matalon “ (… )é necessário substituir a noção global de representatividade por uma noção mais ampla, a de adequação da amostra aos objetivos estabelecidos” (1993, p.65).

Em investigações qualitativas, o facto de o investigador escolher um tema, um grupo, um contexto implica que a sua visão seja, à partida, limitada e não total do contexto em que decorre a investigação. Bogdan e Biklen referem-se a este facto como um ponto que pode conduzir a alguma “distorção” ou a um “ato artificial” (1994, p.91). Há também que ter em conta, o que Campenhoudt e Quivy (1992, p.166) sublinham como “fontes de deformações e erros”, referindo-se aos instrumentos utilizados para a

exemplo as entrevistas. É de extrema importância controlar estas fontes de modo a não incorrermos em falsidades nas informações recolhidas.

No que diz respeito a enviesamentos da amostra deste estudo empírico, teremos de considerar o facto de uma das docentes ter adoecido o que condicionou o número de crianças da sala B que participaram no primeiro momento das observações.

Apesar de algumas das crianças deste grupo frequentarem a sala A aquando do primeiro momento de observação outras não estariam a frequentar o jardim de infância o que limitou ligeiramente o número de indivíduos a participar neste primeiro momento. Consideramos que é um enviesamento relativo uma vez que as crianças estavam integradas no seu contexto habitual e apesar do ambiente educativo estar organizado de modo diferente da sua sala de atividades estão familiarizados com a estação de trabalho da IBM e com os adultos e pares desta sala com quem mantém um contacto diário.

Manuel Pinto cita Jensen quando afirma que “(…) o acionamento de qualquer instrumento de pesquisa representa «uma intervenção que reconstrói o contexto social que é examinado»” (2000, p.187). A interação que se desenvolve entre entrevistador/entrevistado ou observador/ observado pode, de algum modo, condicionar o estudo pelo que toda a atenção é pouca. Na realidade, o que temos acesso aquando da realização das entrevistas e das observações é a pequenos fragmentos do quotidiano dos sujeitos e do seu contexto educativo, e não ao todo.

Sublinhamos como um dos momentos importantes deste estudo, a tomada de consciência por parte dos docentes de vários fatores, mais precisamente, de dimensões do seu quotidiano, evoluções dos alunos e autoavaliação de práticas pedagógicas verbalizadas pelos próprios, e que se tornaram imprescindíveis para uma melhoria do seu trabalho e do nosso estudo.

Impõe-se neste momento um breve olhar sobre os nossos instrumentos de recolha de dados:

a. As entrevistas

Um aspeto sobre o qual gostaríamos de tecer algumas reflexões são as condicionantes que a técnica da entrevista, no caso as semi-diretivas, pode arrastar consigo.

As entrevistas “(…) permitem ao investigador desenvolver intuitivamente uma ideia sobre a maneira como os sujeitos interpretam aspetos do mundo” (Bogdan & Biklen, 1994, p.134), mais precisamente, e tendo como referência o estudo empírico apresentado, como os sujeitos interpretam os diferentes textos digitais e escritos com que se cruzam no seu quotidiano numa sala de pré-escolar.

Para a realização das entrevistas o investigador teve o cuidado de definir um guião exploratório, como referimos anteriormente, de modo a não correr o risco de conduzir ou estruturar o pensamento e interpretação do entrevistado sobre o tema da entrevista, desenvolvendo uma interpretação artificial das perguntas.

O investigador teve o cuidado de não conduzir as respostas e atitudes do entrevistado, limitando-se a seguir o guião exploratório e os temas que estavam definidos em cada um dos blocos, uma vez que consideramos fundamental para garantir a validade e fiabilidade deste instrumento de recolha de dados, não esquecer a necessidade do investigador ser objetivo mantendo a independência do processo.

b. As observações

Segundo Damas e De Ketele (1985, p.63), a validação da observação é “(…) o processo pelo qual o investigador se assegura do que quer observar, do que observa realmente e da maneira como a observação conduzida serve adequadamente o objetivo da investigação.”

Consideramos pertinentes para a investigação as observações ecológicas49 efetuadas no âmbito do presente estudo e que foram realizadas num “quadro habitual” (De Ketele & Roegiers, 1993, p.202) mais precisamente, durante uma aula normal dos docentes e das crianças, apesar de não poderem ser consideradas observações generalizáveis. Consideramos ainda, que as observações estão adequadas ao objetivo da investigação, uma vez que focam a interpretação de texto e a utilização do computador como pontos principais.

49 cf. De Ketele, J. & Roegiers, X. (1993). Metodologia de Recolha de Dados – Fundamentos dos

Em alguns momentos da recolha de dados, sentimos que os docentes criaram um determinado clima50 para que o investigador tivesse acesso a todo um conjunto de atividades e ações que se realizam nos contextos educativos em questão. Ou seja, os sujeitos queriam que o investigador registasse o máximo de situações que tivessem a ver com o objeto de estudo sobre o qual já possuíam alguma informação após as entrevistas.