EXPERIÊNCIA AO INICIAR AS ATIVIDADES NTPPS
Podemos observar que dos sete grupos entrevistados, seis fizeram alusão a falta de conhecimento identificadas a partir dos sentimentos de dúvida, confusão e incerteza (G01.1); vazio (G01.2); incômodo (G02.1) indiferença (G02.2) e desinteresse (G04; G05) atreladas ao início das atividades NTPPS. Conseguimos compreender que neste momento os jovens obtêm somente a informação sobre o que é o NTPPS e, por ser, uma metodologia diferenciada com pouca possibilidade de referências anteriores na escola, embora os alunos tenham passado mais de 10 anos neste ambiente, é um grande desafio a ser superado.
Revelando-nos que experiência se diferencia da informação pelo fato de que, saber coisas ou estar informado não quer dizer que houve aprendizagem. Já que, aprender é mais que adquirir e processar informação, portanto, a aprendizagem está vinculada a experiência que nos gera um saber, uma elaboração do sentido (LARROSA, 2015) que é um sistema composto por um conjunto de relações e processos que caracteriza o sujeito, o mundo e os outros em um determinado espaço-tempo (CHARLOT, 2000).
Nesse sentido, superar este desafio inicial parece ser possível quando os jovens pesquisam temáticas que sejam significativas. Já que, somente um grupo atribuiu a entrada do NTPPS como algo positivo, demonstrando interesse (G03). No entanto, este diferentemente dos grupos anteriores levaram em consideração a entrada no 2º ano do EM, sua segunda experiência com NTPPS, demonstrando para nós que ter passado por este primeiro momento garantiu nas palavras desses jovens a mobilização para recomeçar no ano seguinte.
O que, a maioria, traz para nós são significações diferentes para nomear a desmobilização que ocorre quando são colocados diante daquilo que “parecem” não ter conhecimento. Já que para eles “só se pode aprender o que já se sabe; quando não se sabe, não se pode aprender” (CHARLOT, 2000, p.66). No entanto, os jovens estão sendo chamados ao exercício da pesquisa e isso pressupõe atitudes diferentes tanto para eles quanto para os professores diante do que é aprender e ensinar dentro da escola (FREIRE, 2014).
Em outras palavras, a visão que cada um tem de si durante o processo, um exemplo trazido por uma jovem relativo a se reconhecer como alguém sem conhecimento no início da atividade NTPPS (G01.2) como se fosse possível chegar a escola como uma “folha em branco”. Para modificar essa relação é necessário instituir novas formas para estar sendo.
Vale ressaltar, que aprender não tem o mesmo sentido para professores e para os estudantes (CHARLOT, 2000). Para os jovens aprender tem um significado antropológico que está relacionado a “tornar-se alguém”, portanto, aprender as “coisas da vida” (CHARLOT, 2001, p.147). Por isso, alguns apontam como motivo para sua desmobilização a não utilidade (G02.2) e por não estar relacionado com seu projeto de vida (G05).
Se tomarmos como base que vamos a escola para continuar aprendendo e que a aprender é uma exigência dos seres humanos, compreendemos que a escola é um espaço de instrução, de educação, mas principalmente de vida (CHARLOT, 2000). Portanto, ninguém chega a escola sem referências, sem valores, sem experiências, sem desejos. Embora possuam mesmas características biológicas que os identificam em momentos formativos iguais (séries), são sujeitos únicos. Para haver mobilização é necessário que o sujeito se envolva em uma atividade movida por um desejo, em outras palavras, ações que propiciem chegar em uma meta (CHARLOT, 2001).
Vale ressaltar, que não se trata de aumentar o número de atividades (G02.1; G02.2), mas de fazê-las girarem em torno de um eixo comum que justifique a organização do currículo escolar. Já que a escola cada vez mais tem elevado o tempo permanência diária, fazendo com que os jovens não tenham experiências significativas pela falta de tempo, assim nada os acontece (LARROSA, 2015), impossibilitando a construção de um sentido mobilizador.
Por isso, que alguns jovens apresentaram relações entre um ano e outro tendo como base nas atividades e os seus desafios (regras), um exemplo disso acontece quando falam sobre o primeiro ano ser voltado mais a técnica, o como fazer e, no segundo ano, ser voltado ao aprofundamento (G01.1); e quando demonstram não lidar com as regras escolares e as regras das atividades NTPPS se evadindo das salas de aula para outros espaços mais relacionais (G04), ou até mesmo para fora da escola.
Algo que Freire (2006) relatou quando buscou falar sobre a questão da “evasão escolar” deixando claro que o que acontece é a “expulsão escolar”, pois os alunos acessam, mas não conseguem se manter por questões externas e internas a escola. Mostrando-nos que é possível, em suas palavras, organizar ações ao nível da Secretaria de Educação na prática escolar em conjunto com aqueles que fazem este espaço, afim de minimizar as negatividades da escola que contribuem para a “expulsão” dos mesmos.
Por este motivo um jovem apontou seu desinteresse referente as relações que estabelecia dentro da escola e a forma como ele se via, como alguém antissocial (G05).
Embora pareça algo que não influencie na aprendizagem está intrinsecamente ligada a mesma, pelo fato de que não se pode aprender se eu não me reconheço como sujeito em processo de aprendizagem e se eu não reconheço o outro como presença formadora que incita a reconhecer-me como diferente (FREIRE, 2014).
Aprender é exercer uma atividade em situação, isto é, “em um local, em um momento da história e em condições de tempos diversas, com ajuda de pessoas para a aprender” (CHARLOT, 2000, p. 67). Mostrando-nos a importância da intervenção do professor, algo que pode ser percebido quando os jovens citam que o desinteresse se estabelece pela relação conflituosa com a professora (G02.1) e pela troca de professores durante o ano provocando desmotivação (G03).
Em síntese, os aspectos trazidos pelos jovens estão relacionados com: a experiência NTPPS (a atividade do sujeito); o professor e a escola.
EXPERIÊNCIA APÓS O TÉRMINO DAS ATIVIDADES NTPPS
Para realizar uma análise da relação com o saber devemos fazê-la tomando como base duas dimensões, a epistêmica e a identitária. Por ser uma relação que se estabelece a partir de um sujeito, portanto, um ser humano, social e singular que age sobre o mundo, cuja presença pré-existente o produz e é produzido por ele, pela necessidade de aprender (CHARLOT, 2000). Portanto, é necessário considerar o sujeito no desenvolvimento e na manutenção de uma determinada atividade e em confronto com as normas específicas da mesma.
Dessa forma, todo ser humano aprende e esta relação possui formas diferentes para se apropriar de um saber conforme podemos observar por meio dos grupos entrevistados (com suas respectivas subdivisões), quando indagados sobre como se sentiam no final do processo NTPPS, fizeram alusão referente: a aprendizagem (G01.1; G01.2; G02.2; G03); a interação (G02.1); ao envolvimento (G04) e ao interesse (G05). Portanto, sabemos que são formas diferentes como cada sujeito avaliou o percurso vivido a partir de suas experiências no NTPPS, trazendo assim a influência de aspectos pessoais e interpessoais amparado pelo outro durante a entrevista.
Assim, todos os grupos fizeram alusão a aprendizagem sob três aspectos: o primeiro, referente a atividade de pesquisa (G01.1; G02.2; G03; G04) ao domínio do processo (escolher tema, criar, preparar, aprofundar, relatar, apresentar); o segundo, a interação pelo
trabalho em grupo (G01.2; G04; G05) e suas formas de relacionamento entre si (G02.2); o conhecimento de si e do outro (G03) e do mundo escolar (G04) e das interações entre as disciplinas (G05); e, o terceiro, referente a preparação para a vida fora da escola (G01.1; G05). Em outras palavras, aprendizagens relacionadas: a interação (7); a atividade de pesquisa (4) e por fim, a vida (2).
Estes dados corroboram com as três categorias classificadas por Charlot (2001, p.145-146) referente a aprendizagem dos jovens, são elas: aprendizagens ligadas a vida cotidiana (aprendizagens de base como andar e falar; cuidados pessoais; lazer; esportes); aprendizagens relacionais, afetivas, pessoais, com forte conotação ética e moral (comunicar- se; ser educado; distinguir o bom e o mau); e, as aprendizagens intelectuais e escolares (ler, escrever e contar).
Vale ressaltar, que estas categorias surgem a partir de pesquisas (SCHHNEIDER et al, 2009) que questionam os jovens sobre “o que eles aprenderam desde que nasceram” e “o que eles gostariam de aprender”. Fazendo uma transposição para este estudo seriam as seguintes perguntas: “o que vocês aprenderam desde que entraram no NTPPS até o fim do ano letivo” e “o que vocês querem aprender dentro da escola”, importante frisar que está última pergunta se refere a uma outra atividade dentro desta pesquisa que será desenvolvida mais à frente.
É evidente que nos diferenciamos neste estudo pelo fato de tomarmos como base um fragmento da experiência humana, vivida em um espaço-tempo escolar, com pessoas que desempenham determinadas funções para chegar a um objetivo específico que é educar, segundo as legislações educativas. No entanto, chamamos atenção para a constituição do sujeito que não se fragmenta conforme o espaço em que se encontra, mas que se potencializa mais ou menos conforme solicitações externas e internas feitas ao mesmo.
Quando justificamos o motivo deste estudo partimos das deficiências escolares que relativas especificamente, a aquisição de conceitos e que pouco dizem sobre como é estar nesse espaço com as pessoas que o compõe. Para alguns isto é desnecessário, no entanto, a teoria da relação com o saber tem demonstrado a necessidade de nos interessarmos pela atividade do educando e do professor.
Assim, retomando os estudos sobre a relação com o saber de jovens analisado por Charlot (2001) percebemos que quando são solicitados a refletir sobre a aprendizagem durante vida, direcionaram suas respostas para uma maior confluência as aprendizagens
ligadas ao cotidiano e, quando nós relacionamos a aprendizagem ao programa NTPPS tivemos maior convergência com aprendizagem ligada a interação, aos aspectos relacionais.
Algo que pode ser percebido quando os jovens relatam sobre as interações que ocorrem a partir do NTPPS, em suas atividades voltadas tanto a pesquisa como ao desenvolvimento das competências sócio emocionais (G05), possibilitando o jovem se confrontar com as ideias do outro e mesmo sendo divergentes conseguirem conviver modificando o significado que o NTPPS tinha no primeiro momento (G02.1).
Outro ponto elucidado pelos jovens, foi o envolvimento com o processo embora iniciado por outras vivências dentro da escola como o movimento grevista, que em sua experiência possibilitou outras reflexões sobre a escola e consecutivamente sobre a pesquisa, almejando assim outras formas possíveis para se desenvolver um conteúdo como matemática como para melhorar o processo NTPPS, com a ampliação dos temas de investigação e das formas de apresentação (G04). Assim, conseguimos compreender como um processo extremamente mobilizador por instituir formas mais relacionais dentro da escola.
6 MOSAICOS: EXPERIÊNCIA COM ESPORTE E LAZER
CAMINHOS ANALÍTICOS: DESENHOS E ÁUDIOS
Os dados apreendidos nas entrevistas em grupo por meio dos desenhos e da transcrição dos áudios deste momento, referente ao eixo investigativo experiência com esporte e lazer. Este eixo foi composto por dois momentos: de criação do desenho e de compartilhamento buscando compreender os motivos da escolha pelo macro campo esporte e lazer, que estão intimamente ligados à área da EF. Portanto, atividades individuais que poderiam ter intervenção de outros no compartilhamento. Eram feitas duas perguntas- temáticas mobilizadoras para as duas atividades do eixo: O que fez vocês escolherem este macro campo? Que experiências na vida de vocês fez com que escolhessem o esporte ou lazer para pesquisar?
Ao analisarmos os áudios transcritos chegamos a 3 categorias gerais, que se diferenciam conforme o grupo entrevistado e as suas respectivas frequências das unidades de registro temática (URT) são elas: metodologia NTPPS; esporte e lazer.
Tabela 3- Categorias por grupo entrevistado.
GE CATEGORIAS DA ANÁLISE DE CONTEÚDO
ESPORTE LAZER METODOLOGIA NTPPS
G01 11 0 15 G02 0 6 11 G03 0 1 8 G04 3 0 7 G05 0 3 6 Ƒ(URT) 14 10 47
Fonte: autoria da pesquisadora.
Tabela 4 - “Núcleos de sentido” referente categoria Esporte. NÚCLEOS DE SENTIDO CATEGORIA:
ESPORTE GRUPO DE ENTREVISTA G01 G04
Esporte e drogas 1 1
Esporte e lazer 1 1
Esporte e seus benefícios 1 0
Esporte e vida 2 0
Esporte na atualidade 1 1
Esporte na visão social 4 0
Esporte para comunidade 1 0
Fonte: autoria da pesquisadora.
Tabela 5 - “Núcleos de sentido” referente categoria Lazer. NÚCLEOS DE SENTIDO CATEGORIA:
LAZER G02 GRUPO DE ENTREVISTA G03 G05
Representações do lazer 6 1 3
Fonte: autoria da pesquisadora.
Tabela 6 - “Núcleos de sentido” da categoria Metodologia NTPPS. NÚCLEOS DE SENTIDO CATEGORIA:
METODOLOGIA NTPPS G01 GRUPO DE ENTREVISTA G02 G03 G04 G05
Identificação com o tema 8 8 4 4 3
Pesquisa 7 3 4 4 3
Fonte: autoria da pesquisadora.
Ao analisarmos semiologicamente os desenhos chegamos a quatro categorias gerais que se diferenciam conforme o grupo entrevistado, e suas respectivas frequências das unidades de registro de representação (URR): corpo-caminho (8URR); corpo-espaço (4 URR); corpo-experiência (7 URR); corpo-expressão (2URR) e corpo-vida (6 URR).
Tabela 7 - Categorias da análise semiológica dos desenhos.
CD CATEGORIAS DA ANÁLISE SEMIOLÓGICA
CORPO- CAMINHO CORPO- ESPAÇO CORPO- EXPERIÊNCIA CORPO- EXPRESSÃO CORPO- VIDA CD01 2 1 1 0 4 CD02 3 2 1 0 2 CD03 1 1 0 2 0 CD04 0 1 3 0 0 CD05 0 0 0 3 0 Ƒ(URR) 6 5 5 5 6
Fonte: autoria da pesquisadora.
Tabela 8 - “Núcleos de sentido” da categoria Corpo-caminho. NÚCLEOS DE SENTIDO CATEGORIA:
CORPO-CAMINHO G01 GRUPO DE ENTREVISTA G02 G03
Escolhas 1 2 1
Busca 1 0 0
Cuidado 0 1 0
Ƒ(URR) 2 3 1
Fonte: autoria da pesquisadora.
Tabela 9 - “Núcleos de sentido” da categoria Corpo-vida. NÚCLEOS DE SENTIDO CATEGORIA:
CORPO-VIDA GRUPO DE ENTREVISTA G01 G02
Cuidado 0 2 Fases 1 0 Escolhas 1 0 Desejo 1 0 Respeito 1 0 Ƒ(URR) 4 2
Fonte: autoria da pesquisadora.
Tabela 10 - “Núcleos de sentido” da categoria Corpo-espaço. NÚCLEOS DE SENTIDO CATEGORIA:
CORPO-ESPAÇO G01 GRUPO DE ENTREVISTA G02 G03 G04
Reprodução 0 2 1 0
Marca 0 0 0 1
Desejo 1 0 0 0
Ƒ(URR) 1 2 1 1
Fonte: autoria da pesquisadora.
Tabela 11 - “Núcleos de sentido” da categoria Corpo-experiência.
NÚCLEOS DE SENTIDO CATEGORIA:
CORPO-EXPERIÊNCIA G01 GRUPO DE ENTREVISTA G02 G04
Memórias 1 1 1
Eu e o outro 0 0 2
Ƒ(URR) 1 1 3
Tabela 12 - “Núcleos de sentido” da categoria Corpo-expressão. NÚCLEOS DE SENTIDO CATEGORIA:
CORPO-EXPRESSÃO GRUPO DE ENTREVISTA G03 G05
Sentimentos 0 3
Manifesto 2 0
Ƒ(URR) 2 3
Fonte: autoria da pesquisadora.
Devido à grande quantidade de categorias foi criado um mosaico por “núcleos de sentido” para cada categoria com uma descrição sintética dos Inventários de Análise Semiológica (IAS) (ver APÊNDICE Q – U) buscando convidar o leitor para imagem produzida, composta pela junção de imagens de diferentes grupos de entrevista que visualmente demonstram: caminho (GE 01; GE02; GE03); espaço (GE 01; GE02; GE03); experiência (GE 01; GE02; GE04); expressão (GE03; GE05) e, vida (GE 01; GE02).
Assim, atrelamos uma categoria semiológica com uma categoria temática ficando dessa forma: corpo-caminho com esporte; corpo-espaço e lazer; corpo-experiência com metodologia NTPPS (identificação com o tema); corpo-expressão com Metodologia NTPPS (pesquisa) e corpo-vida com juventude, uma categoria proposta pela pesquisadora utilizada na seção posterior “Orientações juvenis para escola”. Buscamos atrelar características específicas fazendo a união entre elas.
Por tratar-se ser um eixo que tem como objetivo desvelar as relações estabelecidas pelos jovens com e na pesquisa NTPPS, trazemos aqui as variadas formas com que cada jovem nos revelou sua identificação. Dessa maneira, nossa discussão dos dados será dividida em quatro etapas: primeiro, trazendo o relato dos jovens para problematizar a pesquisa e suas características; segundo, trazendo os relatos dos jovens sobre sua identificação com o tema
esporte; terceiro, trazendo relatos com relação a identificação com o lazer; e, quarto, a