Cunhado por Herbert Blumer, em um artigo escrito pelo mesmo em 1937 (BLUMER, 1980, p. 138), o termo Interacionismo Simbólico surgiu inspirado nas ideias de G. H. Mead, que chega a ser considerado o “pai fundador” da tradição, embora permaneça como uma referência remota (FRANÇA, 2007, p. 1). Em seu livro “Mind, self and society” (Mente, eu e sociedade), de 1934, Mead desenvolve uma tese que seria de extrema relevância para os estudos futuros, em que reconhece a mente, o eu e a sociedade como “três abordagens diferentes de um mesmo fenômeno, que é o ato social” (FRANÇA, 2004, p. 2).
Joas (1999) defende que uma verdadeira apreensão dos conceitos do Interacionismo Simbólico somente pode ser efetivada a partir de um contraste com os fundamentos da Escola de Chicago, perspectiva sociológica desenvolvida principalmente entre a primeira e a segunda guerra mundiais, que se destacou por elementos como a “preocupação com o cotidiano e o resgate das pequenas atividades do dia-a-dia; a combinação entre valores coletivos e atitudes individuais; a ênfase no trabalho empírico e a utilização de técnicas qualitativas, além de uma perspectiva claramente interdisciplinar” (FRANÇA, 2004, p. 1)10. A partir dessas perspectivas, autores como Joas (1999) e França (2004) percebem o Interacionismo Simbólico como uma continuação de determinadas nuances apresentadas pelos teóricos de Chicago.
[...] A Escola de Chicago foi de certa forma uma “reserva” de um pensamento mais humanista. E é nesse contexto, de ênfase nas relações e de regaste dos significados e valores para a compreensão da vida social, que se desenvolveu (mais particularmente no campo da psicologia social), o trabalho de G. H. Mead, conformando uma perspectiva muito promissora de reflexão posteriormente nomeada “Interacionismo Simbólico” (FRANÇA, 2004, p. 1).
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A Escola de Chicago é descrita por Joas (1999, p. 131) como uma “combinação de uma filosofia pragmática, de uma orientação política reformista para as possibilidades da democracia [...] e dos esforços para transformar a sociologia numa ciência empírica, sem deixar de atribuir grande importância às fontes pré-científicas do conhecimento experimental [...]”.
Lima (2007, p. 62), por sua vez, acredita que o Interacionismo Simbólico teve os seus primeiros registros séculos antes, identificados ainda nos trabalhos dos filósofos gregos da antiguidade, onde aponta que houve a percepção do princípio fundamental da abordagem: a existência de um elo entre a realidade e a mente mediante o uso da linguagem. Mesmo sem uma data consensual de surgimento, pode-se dizer, de maneira geral, que o Interacionismo Simbólico se diferencia das demais teorias sociais ao propor que “indivíduo e sociedade se constituam reciprocamente pois não são instâncias autônomas e separadas (ARAÚJO, 2007, p. 95), tendo como pressuposto central as possibilidades que os sujeitos “têm de atuar e construir regras normativas a partir de conhecimentos coletivos” (GOSS, 2006, p. 155).
Por essa abordagem, o comportamento adotado pelos indivíduos é percebido como um produto de construções subjetivas acerca do sujeito, “dos outros e das exigências sociais da situação. As pessoas criam construções de significado subjetivas e compartilhadas, para a realidade em que vivem, pelo que sentem, escutam e veem” (LIMA, 2007, p. 63). O significado das ações é produzido a partir do processo de interação humana, ou seja, “o Interacionismo Simbólico considera os significados produtos sociais, criações elaboradas em e através das atividades humanas determinantes em seu processo interativo” (BLUMER, 1980, p. 121).
Ainda de acordo com Blumer (1980, p. 119), a compreensão do interacionismo simbólico pode ser feita a partir de três premissas básicas, que são:
1) O ser humano age em relação ao mundo fundamentando-se nos significados que este lhes oferece;
2) Os significados de tais elementos são provenientes da ou provocados pela interação social que se mantém com as demais pessoas;
3) Tais significados são manipulados por um processo interpretativo (e por este modificados) utilizado pela pessoa ao se relacionar com os elementos com que entra em contato.
A partir desses fundamentos, percebem-se as características do processo informacional proposto pela teoria social, em que é estabelecida uma circularidade e não há
um ponto de partida (um emissor que envia uma mensagem...), mas diz respeito à intervenção dos sujeitos no mundo – uma intervenção pautada por sentidos, construídos junto com os outros, atravessando seus filtros de interpretação, que por sua vez reconfiguram os sentidos, que impulsionam as ações, e assim por diante (FRANÇA, 2004, p. 6).
Essa configuração se afasta do paradigma físico e do paradigma cognitivo da Ciência da Informação ao conformar o processo de informação em toda a sua complexidade. Assim, ao reconhecer o sujeito enquanto um construtor e modificador da realidade social, a relação com o paradigma social surge com maior intensidade.
Apesar de ser uma teoria relevante para os estudos de usuários sob a abordagem do paradigma social, o Interacionismo Simbólico não se apresenta sem críticas dentro das Ciências Sociais. Joas (1999, p. 168) é um dos autores que reconhece a riqueza do material oferecido pela tradição dos interacionistas simbólicos “nas categorias do comportamento coletivo e do movimento social, da determinação de estruturas sociais por negociação, e da democracia como um tipo de ordem social”. No entanto, o autor alerta que esses fundamentos têm sido utilizados de forma frequente em pesquisas de objetos com pouca relevância macrossociológica, o que promove a subutilização do potencial dos estudos.
A riqueza analítica do Interacionismo Simbólico permanece, assim, intocada para um diagnóstico dos tempos atuais que seja politicamente orientado e que leve em consideração o desenvolvimento histórico e o contexto da época. Isso terá de mudar se a tradição do interacionismo quiser desempenhar de novo o papel que a filosofia social do pragmatismo desempenhou em seus primórdios (JOAS, 1999, p. 168).
Uma vez que identifica pontos que, apesar de serem essenciais para uma execução plena dos princípios do Interacionismo Simbólico, têm sido pouco ou nada utilizados pelos pesquisadores da abordagem, essa crítica serve como ponto importante para esta pesquisa. Embora seja uma análise realizada há mais de quinze anos, é necessário olhar para a fonte e reiterar, assim, a importância de ir além do que tem sido feito até então, mesmo que alguns avanços já tenham sido alcançados nesse período.