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A atuação de Monteiro Lobato junto à Revista do Brasil é exemplar no que diz respeito à contribuição do escritor para o aprimoramento de nosso campo intelectual e cultural. Ligada inicialmente ao grupo responsável pelo jornal O Estado de S. Paulo, a

Revista do Brasil é fundada em 1916, com um programa nacionalista voltado para o estudo

e a discussão de coisas brasileiras. Editada mensalmente, a revista contou, desde sua

18 MELEK, Paul. “Do Jeca ao alzheimer”. Texto de junho de 2000, disponível no seguinte endereço

fundação, com a participação de Monteiro Lobato, que, para o respeitado órgão, escreveu ensaios, publicou os contos que mais tarde seriam reunidos no volume Urupês, além dos diversos artigos sobre literatura, pintura, escultura, arquitetura e questões estéticas em geral. Estes artigos, junto a alguns outros, publicados no jornal O Estado de S. Paulo, foram reunidos no volume Idéias de Jeca Tatu, editado em 1919, pela editora que, sob a tutela de Lobato, se desenvolveria a partir da Revista do Brasil. A tecla básica sobre a qual Lobato incide nestes artigos é o desenraizamento cultural do brasileiro de então, a obediência servil aos ditames estéticos e culturais europeus, sobretudo franceses, e a necessidade premente de um novo grito do Ipiranga, dessa vez no campo cultural. O nosso “Sete de Setembro” estético, que os modernistas fizeram tanta questão de arrogar para si, vinha sendo defendido por Lobato pelo menos desde 1916, como se vê em um artigo onde, entre outras coisas, defende a importância do Liceu de Artes e Ofícios para a formação de uma consciência nacional entre os artistas brasileiros que a instituição formava.19 Em alguns momentos, nos artigos reunidos em Idéias de Jeca Tatu, Lobato exprime opiniões declaradamente xenófobas, sobretudo contra a França, à época, principal influência cultural brasileira.

[...] à luz do ponto de vista brasileiro era de desejar que a França fosse tragada por um maremoto a fim de permitir uma livre e pessoal desenvoltura à nossa individualidade (LOBATO, 1957b, p. 48-49).

19 LOBATO, Monteiro. “A propósito do Liceu de Artes e Ofícios”. In: Idéias de Jeca Tatu. São Paulo:

Porém, consideramos importante observar que a aversão de Lobato, como se verifica em toda a sua ensaística e mesmo em sua correspondência, é mais contra a cópia, a “macaqueação”, a covardia estética, do que contra a França em si.

Em maio de 1918, com o dinheiro da venda da fazenda Buquira, Lobato compra a

Revista do Brasil, que acabaria por se tornar a base para seu projeto editorial. Na direção da

revista, que até então era deficitária, apesar do prestígio de que desfrutava por conta de sua qualidade editorial e do vulto dos intelectuais que freqüentavam suas páginas, Lobato empreendeu ações empresariais arrojadas de propaganda e prospecção de novos assinantes, levando-a, em um curto espaço de tempo, a, sem se desviar do programa nacionalista que orientava a revista, se tornar um negócio lucrativo. O trecho que segue, retirado de uma carta do escritor ao amigo mineiro, ilustra bem algumas das estratégias utilizadas por Lobato para tirar o periódico do vermelho:

A Revista do Brasil vai bem. Quando me fiquei com ela, entravam em média 12 assinaturas por mês. Hoje entra isso por dia. Nesta primeira quinzena de agosto registrei 150 assinantes novos. Meu processo é obter em cada cidade o endereço das pessoas que lêem e enviar a cada uma o prospecto da revista, com uma carta direta e mais coisas – iscas. E atiço em cima o agente local. Estou a operar sistematicamente pelo país inteiro. Mande-me pois daí o nome das pessoas alfabetas menos cretinas e merecedoras da honra de ler a nossa revista (LOBATO, 1957a, v. 2, p. 179-180).

A partir das oficinas gráficas da Revista, Lobato funda, em março de 1919, a casa editora Monteiro Lobato & Cia. Como editor, Lobato se preocupou primeiramente com os reduzidos pontos de venda com que contava o objeto livro, elevando, em curtíssimo espaço de tempo, graças a uma ação inovadora e inusitada, seus pontos de escoamento a uma

escala inimaginável para os padrões da época. Em uma entrevista concedida a Silveira Peixoto para a revista Vamos ler, contida na obra de Lobato Prefácios e entrevistas, o escritor aborda, de maneira esclarecedora, este momento decisivo da história editorial brasileira. O escritor revela a Silveira que, conversando com Octales Marcondes, ainda nos primórdios de suas atividades editoriais, por volta de 1919, chegara à seguinte conclusão:

“Mercadoria que só dispõe de quarenta pontos de venda está condenada a nunca ter peso no comércio de uma nação. Temos de mudar, fazendo uma experiência em grande escala, tentando a venda do livro no país inteiro, em qualquer balcão que exista e não somente em livraria” (LOBATO, 1957d, p. 190).

Dessa conclusão à ação foi apenas um passo. Lobato pediu, através de uma carta- circular, ajuda aos agentes do Correio, solicitando que indicassem casas comerciais – papelarias, farmácias, jornais, bazares, padarias, etc. – minimamente sérias, que pudessem vender uma mercadoria denominada livro. Os agentes, assustados, responderam ao pedido de Lobato, que, para completar sua pesquisa, obteve informações junto a “prefeitos e o diabo”, conseguindo, assim, mil e duzentos nomes de pontos comerciais que, aparentemente, poderiam servir como canal de escoamento das obras que vinha editando. O próximo passo foi redigir uma outra circular, desta vez endereçada às casas comerciais indicadas pelos agentes do Correio e outros informantes de que Lobato lançara mão, indagando se seus proprietários se interessavam em vender livros. Como afirma o próprio Lobato nesta mesma entrevista, esta circular iria constituir a pedra básica da indústria

editorial brasileira. Vale a pena transcrevermos um trecho da mesma, tanto pelo seu valor histórico como pela verve com que Lobato a produziu.

“Vossa Senhoria tem o seu negócio montado, e quanto mais coisas vender, maior será o lucro. Quer vender também uma coisa chamada ‘livro’? V. S.ª não precisa inteirar- se do que essa coisa é. Trata-se de um artigo comercial como qualquer outro, batata, querosene ou bacalhau. E como V. S.ª receberá esse artigo em consignação, não perderá coisa alguma no que propomos. Se vender os tais ‘livros’, terá uma comissão de 30%; senão [sic] vendê-los, no-los devolverá pelo Correio, com o porte por nossa conta. Responda se topa ou não topa” (LOBATO, 1957d, p. 190).

Curioso notar, ainda na entrevista concedida a Silveira, a sinceridade de Lobato com relação às suas intenções quando da redação e envio das circulares. Para quem esperava que o escritor fosse se vangloriar de tal iniciativa, dada sua importância no contexto cultural brasileiro, Lobato é de uma singeleza desconcertante.

“Mas não pense que me gabo disso. Eu estava a mil léguas de imaginar o que iria sair daquilo. Não pensei na Pátria, não pensei em coisa alguma, a não ser em alargar o campo de venda das ediçõezinhas que andávamos fazendo” (LOBATO, 1957d, p. 190).

Observa-se, assim, que Monteiro Lobato prestou valorosas contribuições para o progresso intelectual e cultural do país. Como demonstra o exemplo que ora mencionamos, Lobato, pretendendo aumentar os pontos de venda de suas “ediçõezinhas”, acabou por ampliar de modo surpreendentemente rápido o campo literário brasileiro, sobre o qual –

como vemos em Na trilha do Jeca (2003), de Enio Passiani – manteria a hegemonia até por volta de 1925. Segundo Passiani,

Tanto a revista quanto a editora de Lobato tornaram-se o centro da atividade intelectual brasileira. Por lá passaram senão todos pelo menos a maioria da intelligentsia brasileira, dos mais variados matizes (PASSIANI, 2003, p. 65).

Outra preocupação constante de Lobato era com a materialidade das obras. O editor Monteiro Lobato, além de ter revolucionado o sistema de distribuição livreira no país e investido maciçamente no marketing de seus produtos, se dedicou com muito esmero ao aspecto físico das obras, tendo implementado alterações profundas no padrão editorial dos livros que editou. A primeira preocupação do editor Monteiro Lobato ao publicar um livro, como não poderia deixar de ser, era com a capa, que passou a confeccionar bastante colorida e ilustrada, em oposição às enfadonhas capas amarelas e sem ilustrações que vigoravam até então. Lobato se preocupava também com os tipos de letra utilizados no interior das obras e, não raro, inseria ilustrações no interior das mesmas. As edições bem cuidadas da Lobato & Cia. fizeram escola no meio editorial brasileiro. Para completar a reviravolta no campo editorial empreendida pelo escritor taubateano, temos sua opção programática, deliberada de editar os “novos”, autores de talento e que se encontravam ainda inéditos ou quase inéditos, autores dispostos a romper com a tradição literária vigente, principalmente no que respeita à utilização de uma linguagem mais próxima possível do português falado no Brasil, próxima da oralidade, e cuja temática fosse francamente brasileira.

Meu empenho é só editar novos, mas novos de talento. Medalhão não me entra aqui. Que gosto soltar livros de múmias acadêmicas, gente rançosa? Quero tendrons, brotos (LOBATO, 1957a, v. 2, p. 239). 20

De maneira, a princípio, não planejada, Monteiro Lobato, em um curto período de tempo, “inundou” o país de livros, editando, inclusive, muitos dos grandes nomes que encabeçaram a Semana de 1922, apesar das rusgas, entre estes e Lobato, que se acumulariam a partir de 1917, por conta do episódio Malfatti e do subseqüente encrudecimento da disputa pela hegemonia no campo literário que se encontrava em processo de formação. Graças aos esforços empresariais de Lobato, a indústria editorial brasileira se expandiu excepcionalmente em um curto período de tempo, o que representou um extraordinário salto qualitativo e quantitativo para o setor. Quantos anos a indústria editorial brasileira teria levado para chegar ao estágio em que se encontrava em 1925, ano da falência da primeira editora de Lobato, caso Lobato não tivesse se interessado pela edição de livros?