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METODE OG SENTRALE BEGREPER

O facto de Belchior deixar o trabalho sobre D. Sebastião abandonado no quarto do seu tio José Bento revela vontade de perpetuar a figura mítica do Rei, mantendo-a na penumbra. Como se esse conhecimento fosse sagrado e na obscuridade perpetrado. É permitir que o Encoberto continue a viver na neblina do inconsciente com os seus

265 Cf. Josef Goldbrunner, Individuación: la psicología profunda de Carl Gustav Jung, Madrid, Ediciones Fax, 1962, p. 143.

atributos mágicos, no “vale profundo escondido no nevoeiro”266, submerso através dos séculos. Para Laura Bulger, o desejo de Belche de o texto ser “esquecido” reforça a ideia, já dita no romance, da “inutilidade de uma obra incomunicável, como se o drama do rei devesse permanecer no silêncio da História, tal como o seu, na história do romance, visto que Belche sai de cena deixando o leitor na dúvida quanto ao duplo propósito do seu esforço histórico.”267

Evidentemente, o texto não é uma biografia, mas sim uma tentativa elaborada de racionalizar o mito e de expurgá-lo do seu poder arquetípico. A obra escrita por Belchior toca as capas mitológicas e irracionais de um mito ainda vivo; o mistério é incomunicável. E, como já vimos, a tentativa de Belche fracassa porque pretende dessacralizar o que ainda é sacro. Pode desactivar-se com a racionalização a adoração religiosa? Pode, mas não a elimina. A atracção suscitada pelas imagens arquetípicas, por exemplo, as elaboradas pelas religiões, é poderosa e fascinante. Estas são elaborações seculares que protegem os indivíduos da experiência directa com o inconsciente. Só quando estas imagens ficam inactivas, quer dizer, quando perdem o sentido simbólico transcendente, é que a racionalização acaba por mostrar como estas eram elaborações humanas feitas “de madeira e pedra”. Mas, se ainda forem significativas, não se podem desactivar por um esforço da razão.268

Outro factor que poderia explicar o fraco resultado na intenção de “desactivar” o mito seria o de supor que o objecto é a fonte de onde emana a fascinação; isto é, analisar a personalidade do rei. Tentar encontrar no objeto a causa da elaboração mítica é uma consequência do pensamento racional, que pretende encontrar a causa de tudo na matéria. Mas este poder, na verdade, é produto da psique humana.

Por isso, o que deveria ser estudado não seria tanto o objeto como o sujeito que nele vê elementos sobrenaturais. Os mitos não nascem fora dos indivíduos, mas sim dentro deles. No caso que nos ocupa, a psique colectiva portuguesa seria a que simbolizaria em D. Sebastião, por exemplo, a própria dificuldade em ver a realidade como ela foi, a morte sem sentido de um rei, os seus dramáticos custos e a desolação posterior. Assim poderíamos pensar que o mito de D. Sebastião não surgiria tanto da personagem histórica, mas seria a representação colectiva de uma inclinação colectiva. A sua figura

266 Agustina Bessa Luís, O mosteiro… op. cit., p. 318. 267 Laura Fernanda Bulger, As máscaras… op. cit., p. 82. 268 Carl G. Jung, Arquetipos e inconsciente… op. cit., p. 19.

adquiriria importância mitológica desde que o acontecimento do seu desaparecimento tivesse uma interpretação de espera, de pausa, de possibilidade de reverter a desgraça; da negação da morte. Por isso é que Belche, na recriação imaginada da morte e do corpo sem vida do rei, parecia querer conjurar a incerteza do acontecimento real, na certeza e na aceitação do devir da história.269

Portanto, não é só a falta de dados objectivos sobre a morte de D. Sebastião o que faz perdurar o mito, e não são tanto os actos em si ou a personalidade de D. Sebastião, mas a interpretação que se dá a esta. Também a incrível falta de testemunhas que publicamente certificasse a sua morte motivou uma tendência colectiva para se fugir à angústia que advém de encarar a sua morte, a morte dos sonhos. A mesma angústia que Belche confronta como indivíduo e que tenta compreender no comportamento de D. Sebastião. Angústia vital que acarreta a tendência para se isolar do tempo, de modo a não experienciar o devir histórico e as consequências causais dos acontecimentos. Por isso era melhor imaginá-lo a morrer do que sabê-lo morto.270

Se considerarmos o significado simbólico da figura do rei, torna-se suspeita a anónima morte de D. Sebastião na batalha e a absoluta falta de testemunhas presenciais para atestarem o acontecimento. Como rei, D. Sebastião carrega em si as projecções inconscientes do seu povo, não pela personalidade, mas sim pelo papel arquetípico que representa. Na interpretação simbólica, o rei representa o consciente colectivo dominante. Os sonhos de grandeza e poder encarnados em D. Sebastião, por exemplo, corresponderiam à própria consciência colectiva.271 O rei, como tal, está investido de um poder imanente simbólico e a sua morte tem um extremo valor em função daquilo que simboliza. Para Marie-Louise von Franz, a interpretação da morte de um rei já não corresponde, portanto, à do ser humano, mas ao consciente de uma nação. Ela refere que nas sociedades primitivas, e de maneira suavizada ainda agora, a morte de um rei equivale à morte de Deus. Perante um acontecimento dessa natureza, “dá-se um completo obscurecimento cultural enquanto o rei está morto (...). Isso representa o lado ctónico, a sombra do Rei que impera durante o interregno.”272 Todos os medos e os interditos vêm à tona.

Diríamos que o lado mais obscuro do inconsciente tem permissão de manifestar-se diretamente no momento em que não somente o Rei está morto, como também, para a tribo

269 Cf. Agustina Bessa Luís, O mosteiro… op. cit., pp. 303-306. 270 Ibid., p. 298.

271 Agustina Bessa Luís refere que Camões n’Os Lusíadas compara o Rei com Alexandre, que, por isso, almejava conquistar reinos. Ibid., p. 292.

primitiva, até Deus esta morto. O Deus deles está morto, pois, o Rei é a encarnação do princípio espiritual.273

Daí que seja tão espantosa a falta total de testemunhas que constatem a morte de D. Sebastião. Sem testemunhas não há acontecimento. Na obra de Belche é-nos dito: “o mais natural é que não houvesse testemunhas do desaparecimento do rei.”274 Pensamos que, se tivesse sido natural, ninguém se teria espantado que assim tivesse acontecido, como se narra nas mesmas páginas. É extraordinário que se tenha perdido de vista o rei quando este simboliza a razão da batalha, a própria alma do exército, o que de mais sacrossanto há para resguardar. O soldado, por excelência, mesmo numa batalha perdida, dá a vida pelo rei, segue-o até a morte e até a loucura, como foi o caso.

Com o desaparecimento do rei instaura-se o tempo do Encoberto, em contraposição ao tempo cronológico. Então ainda vivo, porque ninguém o viu morrer, este transfere-se como uma sombra para o Portugal que não foi. O Encoberto como duplo de Portugal, o Portugal que nunca foi e permanece à espera de ser. E esse rasgar do tempo, fixado num terror de ser, é o duplo. O duplo é uma transcendência do ser ao qual não é permitido viver, fixado no tempo daquilo que não foi e que, obstinado, persiste, cravado no mundo fora do tempo. Nas origens da batalha de Alcácer Quibir, como se relata na obra sebástica de Belchior, já se vêem os sinais da tendência para fechar os olhos à evidência, na negação persistente da insensatez da gesta sebástica. Cada passo para a derrota e para a catástrofe foi advertido, mas esse reconhecimento transformou-se no sonho do que poderia ser se D. Sebastião vencesse; o sonho, portanto, não era só dele. “É preciso que a imaginação humana seja algo de impune e livre para que assim construa na areia a sua glória.”275 A partir da negação como reacção aos factos, ao consciencializar- se e viver o trauma pelo que foi e não pelo que podia ter sido, fica-se impune e livre para sonhar e estender ou desdobrar a vida de D. Sebastião no Encoberto, num duplo de si próprio, e fazer do fracasso glória.

273 Ibidem.

274 Agustina Bessa Luís, O mosteiro… op. cit., p. 308. 275 Ibid., p. 314.

Capítulo 3

Jornada de África