Dados os fundamentos da educação a distância, bem como feita a sua contextualização como uma política pública factível, resgata-se nessa seção a teoria da
industrialização de Otto Peters, cujos pressupostos favorecem uma melhor compreensão da
realidade dos fatos que envolvem o objeto desta investigação, especialmente no que se refere às suas inter-relações com o referencial aqui adotado sobre estrutura organizacional.
A referida teoria da industrialização, como o próprio nome sugere, tem sua concepção fundamentada na lógica de funcionamento do setor industrial, para o qual a educação a distância é um produto e se constitui na forma mais apropriada de estudo complementar. O pensamento de Peters decorre do contexto da década de 1970, quando os
princípios da administração científica e do fordismo estavam disseminados e eram sistematicamente empregados nos sistemas produtivos. Auge também do debate acadêmico sobre estrutura organizacional, uma das categorias de análise discutidas neste trabalho, cujos atributos influenciaram também fortemente os argumentos dessa teoria. Daí a transposição de conceitos originalmente pertencentes ao campo da sociologia industrial, da economia e da gestão (BELLONI, 2009).
Ao estabelecer a indústria como parâmetro para observação da educação a distância, Peters (1989) constatou em seus estudos empíricos as características típicas dos processos industriais, assimiladas também nos sistemas de ensino a distância, entre elas: o planejamento, a divisão do trabalho, a mecanização, a racionalização, a produção em massa, a formalização, a padronização, a predeterminação de resultados, o controle de custos e o controle da qualidade. O autor admite que a incorporação teórica e estrutural dos métodos racionalizados do trabalho industrial representa o evidente rompimento dos processos educacionais a distância com os métodos presenciais de ensino, o que reforça o ponto de vista de Alonso (2005) ao apontar que, quanto mais a educação a distância incorpora a lógica fordista de produção em larga escala, mais ela rompe com o modo artesanal próprio do ensino tradicional.
Na mesma direção, Peters (2004) observa que, ao longo dos séculos XIX e XX, a educação a distância foi sendo transformada à medida da utilização de máquinas para a reprodução de materiais didáticos em grande volume e do estabelecimento de mecanismos logísticos para transporte e escoamento da produção para estudantes distribuídos em diferentes localidades. A esse respeito, Aretio (1993) destaca a semelhança do planejamento e a formatação dos cursos com o processo fabril, a produção por especialistas de materiais didáticos em larga escala, a preocupação contínua com o controle e a avaliação para melhor uso das pessoas e do tempo, a falta de subjetivações próprias nas inter-relações e mediações humanas presenciais e, por fim, a centralização e monopolização da produção com vistas à racionalização de recursos.
Uma vez aceitos esses pressupostos, compreende-se a educação a distância como um método racional de compartilhamento de conhecimentos, tarefas e atitudes, no qual a divisão do trabalho obedece aos princípios organizacionais da sociedade industrial. Este trabalho não pretende colocar em julgamento a teoria de Peters (1994), muito menos debater suas facetas pedagógicas, mas apenas posicioná-la diante da pesquisa realizada junto às estruturas e sistemas de EAD do curso piloto da UAB. Apesar disso, admite-se que o enfoque estrutural dessa teoria, fruto do seu valor pelo planejamento e pela organização, tenha por
vantagem a democratização e dinamização do princípio da igualdade de acesso, mediante a ampliação do alcance simultâneo do número de estudantes em diferentes localidades geográficas, com o mesmo pretenso padrão qualitativo de oferta (PETERS, 2006).
Por outro lado, aceitam-se também críticas como as de Alonso (2005) e de Belloni (2009), que apontam a padronização dos cursos a distância como obstáculo para o surgimento de novas formas de aprendizagem. Alonso (2005) considera que a industrialização do ensino faz desaparecer sua face humanizadora e torna os professores meros executores de um planejamento imposto. Por sua vez, Belloni (2009) sentencia que o paradigma industrial para a educação a distância traz consigo uma pedagogia alicerçada numa concepção behaviorista de aprendizagem que leva à proletarização e desqualificação do professor e do aluno.
Diante de críticas como essas e das mudanças no segmento industrial decorrentes dos avanços tecnológicos, Peters (1989) acompanhando as novas tendências, amplia o escopo de sua teoria e passa a considerar aspectos antes deixados à margem, a exemplo da incorporação de tecnologias de informação e comunicação, dos processos decisórios menos centralizados e da noção do contexto social dos estudantes para definição da estrutura dos cursos de acordo com as suas necessidades, valores e perspectivas. Tais adaptações agregaram à teoria da industrialização novos valores relativos à qualidade de vida, autorrealização, autoexpressão e interdependência, abrindo espaço para uma maior autonomia e flexibilidade dos currículos, bem como passando a considerar a aprendizagem dos estudantes a partir dos seus próprios valores, perspectivas e experiências pessoais (BLUME, 2001).
Para Peters (1989), a educação a distância deve experimentar e adaptar-se às mudanças da sociedade industrial, evoluindo sempre de acordo com as tendências da chamada era pós-industrial. Captando esses ajustes, Moore e Kearsley (2007, p. 238) sintetizam a teoria de Peters, descrevendo-a pelos seguintes traços: “planejamento sistemático, especialização da equipe de trabalho, produção em massa de materiais, automação, padronização e controle de qualidade, bem como usar um conjunto completo de tecnologias de comunicação modernas”. Essas e outras características da teoria da industrialização descritas nessa seção servirão de base para as discussões, a posteriori, sobre a estrutura organizacional dos setores responsáveis pela EAD em cada universidade promotora do curso piloto da UAB.
Ressalta-se, no entanto, que além da teoria de Otto Peters são destacadas na literatura, outras três teorias para o campo da educação a distância, todas aceitas e experimentadas em diferentes contextos, sem que excluam uma a outra. São elas: a teoria
transacional de Moore, a teoria da conversação dirigida de Holmberg e a teoria da comunicação e controle de Randy Garrison, todas essas com menor importância para este
trabalho, razão pela qual, apenas suas ideias principais serão sintetizadas na sequência do texto.
A teoria da interação e comunicação de Michael Moore, também conhecida como teoria transacional está baseada nos diversos elos interativos a partir do aluno, seja com seus colegas, com o professor ou com o conteúdo. Nesse contexto, o desenho do curso dependerá sempre de como se estruturam essas relações em termos de organização para o ensino e nas formas de comunicação utilizadas. A principal proposição dessa teoria tem relação com a ênfase no diálogo para redução da distância entre professores e alunos. De acordo com esse pressuposto, entre o ensino e a aprendizagem existe uma distância transacional2 a ser superada mediante a capacidade dos alunos interagirem com os pontos de contato disponíveis no curso, e, também, de realizarem estudos autônomos e independentes (MOORE, 1986; MOORE; KEARSLEY, 2007).
Sobre a Teoria da conversação dirigida de Börje Holmberg, sua análise está centrada na (inter) personalização do processo de ensino a distância, ocasião em que há uma interação didática guiada e direta entre aluno-professor. Diante dessa concepção, considera-se que a aprendizagem se dará mais facilmente a partir do estabelecimento de uma relação pessoal do aluno com o professor, que além de orientá-lo para o desenvolvimento de ideias, também o corrigirá e o redirecionará, respeitando o seu ritmo de aprendizado em cada um dos meios de comunicação com o qual interage. Em suma, no contexto dessa teoria, não importam componentes como gestão, estrutura, didática, grupos ou qualquer outro. O foco está na aprendizagem motivada, especialmente, pela relação pessoal, natural e convencional entre instrutor e aprendiz (HOLMBERG, 1983).
Já a teoria da comunicação e controle de Randy Garrison considera que a superação da distância entre professor e aluno pode ocorrer por meio de recursos de comunicação bidirecionais, baseados em tecnologias de suporte educacionais. Para Garrison (2000), a tecnologia se torna imprescindível para assegurar a eficácia do controle necessário para influenciar e dirigir determinados acontecimentos dentro do ambiente educativo. O autor admite que o controle deve ser baseado nas inter-relações existentes entre a autoaprendizagem, a capacidade para enfrentá-la e os recursos disponíveis para orientar e facilitar o processo educativo. Assim, os fundamentos dessa teoria estão na interação (não
2
Para Peters (2006, p.63) a distância transacional ocorre “quando docentes e discentes não têm qualquer intercomunicação”.
contínua) entre aluno e professor, na comunicação bidirecional entre eles e na utilização de tecnologias para concretização dessa mediação (GARRISON, 2000).
As teorias aqui identificadas são as mais aceitas entre os teóricos educacionais e que muito influenciam as concepções e configurações de EAD hoje existentes no mundo. Com base nelas, a próxima seção apresentará um delineamento geral sobre os modelos clássicos e vigentes atualmente no contexto da educação a distância.