As bases para o desenho do ato colecionador foram lançadas. Tendo como norte e sedimento a discussão epistemológica, passando pela argumentação das relações culturais em que os objetos estão inseridos e por fim buscando a concretude do documento para localizar a discussão da formação de coleções.
Importante ressaltar que a busca pela materialidade do documento não está dissociada do seu contexto cultural e de sua possível imaterialidade. Ou seja, os significados, interpretações e compreensões estão inseridos na discussão. A questão da materialidade do documento (objeto ou artefato) se faz presente para pontuar o lugar do ato colecionador na discussão empreendida neste trabalho que olha para os arquivos, bibliotecas e museus e, portanto, diz respeito a coleções que priorizam a descrição material de seus objetos. Neste sentido, o argumento do sujeito criador do conhecimento emerge como substancial para mapear a materialidade daquilo que foi construído, talhado pelo demiurgo, pelo homo faber. Dessa forma, cabe ressaltar que os documentos ainda que concretos do ponto de vista de sua materialidade cultural podem se apresentar também no formato virtual, pois a construção do conhecimento pelas mãos do demiurgo se dá através do objeto em si ou de suas representações.
Por fim, ficamos com a possibilidade de iniciar a coleta dos objetos, documentos ou artefatos que se apresentam na seara da cultura e possibilitam assim a instauração do ato colecionador ainda que impreciso, aproximado e sobretudo vigilante e crítico de suas limitações.
3 DO ARRANJO (OU MÉTODO COLECIONADO)
Neste capítulo serão abordados os conceitos e métodos que fundamentam a escolha dos manuais das áreas de Arquivologia, Biblioteconomia e Museologia como representativos das práticas colecionistas ao longo de três períodos históricos: renascimento, iluminismo e idade contemporânea. Os manuais foram escolhidos tendo como referência a sua representatividade para cada período acima descrito. A escolha é intencional e poderia ser conduzida de forma diferente, produzindo provavelmente outras reflexões e resultados. Contudo, a essência fundamental é a tentativa de capturar o fazer colecionador de cada uma das áreas em períodos distintos através da representação desses fazeres que por sua vez estão consolidados nos manuais.
Fazendo referência às bases lógicas de investigação desta tese o método empregado é o fenomenológico, pois,
Nas pesquisas realizadas sob o enfoque fenomenológico, o pesquisador preocupa-se em mostrar e esclarecer o que é dado. Não procura explicar mediante leis, nem deduzir com base em princípios, mas considera imediatamente o que está presente na consciência dos sujeitos. O que interessa ao pesquisador não é o mundo que existe, nem o conceito subjetivo, nem uma atividade do sujeito, mas sim o modo como o conhecimento do mundo se dá, tem lugar, se realiza para cada pessoa. Interessa aquilo que é sabido, posto em dúvida, amado, odiado etc.(Bochenski, 1962). O objeto de conhecimento para a Fenomenologia não é o sujeito nem o mundo, mas o mundo enquanto é vivido pelo sujeito. (GIL, 2008, p. 14).
Evidentemente, esta categorização é provisória e se estabelece apenas para fins de melhor compreensão deste trabalho, pois existem diversas abordagens do que seja conhecimento e portanto de métodos científicos, levando a uma multiplicidade de olhares e metodologias utilizadas por vezes, mesmo que aparentemente antagônicas, ao mesmo tempo. Contudo, optou-se pela definição de Gil (2008), uma vez que a abordagem de representação social baseada em Elias e repercutida por Chartier se encaixa melhor nessa definição, posto que, “para Elias o mundo é fenômeno (fenomenologia), não-essência, por isso vê o espaço e o tempo dessa
maneira, buscando por intermédio das descrições fenomenológicas um coerente e ordenado sistema de valores”. (PEREIRA, 2002, p.33).
Poderíamos levar a discussão para outras correntes de pensamento, como o materialismo dialético, por exemplo, mas a concepção epistemológica do trabalho se adequa melhor a uma visão fenomenológica uma vez que o “argumento do conhecimento do criador” tem melhor encaixe nesta perspectiva sobretudo no arranjo proposto com a ideia de representação social como veremos abaixo.
Por outro lado, é importante ressaltar a originalidade do trabalho de Elias que procurou superar dicotomias, sobretudo da relação indivíduo – sociedade:
A perspectiva de Elias é claramente de síntese e não de análise – não no sentido das grandes sínteses explicativas, mas seguindo um esforço para evitar a compartimentalização das pessoas ou das sociedades humanas pelas categorias já mencionadas. Sua síntese é buscada na observação e na experimentação, demonstrando, de um lado, sua preocupação em evitar a separação entre teoria e metodologia, o que o transforma em grande historiador; de outro, demonstra sua particular teoria sobre o ser humano, entendendo-o em sua dimensão biológica e cultural, interrelacionadas. (PEREIRA, 2002, p.26).
Enfim, a categorização da concepção de Elias como projeto sociológico como um todo é uma difícil tarefa. Para este trabalho interessa pontuar a abordagem de representação social como central para a justificativa da análise dos manuais das áreas como representativos de práticas colecionistas de determinada época. Cabe ainda elucidar a natureza qualitativa do trabalho que enseja uma perspectiva teórica de análise, buscando através do estudo do ato colecionador nas áreas de Arquivologia, Biblioteconomia e Museologia confrontar argumentos epistêmicos de constituição destas áreas que se consolidaram, sobretudo, a partir do pós-Segunda Guerra Mundial em meados de 1945.
Em relação aos procedimentos o trabalho será realizado da seguinte forma:
1. Identificação de três manuais de cada uma das áreas de Biblioteconomia, Arquivologia e Museologia tendo como parâmetro a temporalidade proposta por Blom (2003): Renascimento, Iluminismo e o Contemporâneo;
2. Análise dos manuais tendo como eixo os parâmetros encontrados na concepção teórica do ato colecionador e tendo como justificativa a sua representatividade social no contexto de cada uma das áreas;
3. Discussão teórica sobre as relações entre as áreas de Arquivologia, Biblioteconomia e Museologia tendo como mote os conceitos de Colecionismo (ato colecionador) apresentados no trabalho.
3.1 Evistemologia do conhecimento colecionado (criado) ou do argumento do